Arquivo mensal: Dezembro 2021

Luís Represas – “Represas”

pop rock >> quarta-feira, 17.11.1993


Luís Represas
Represas
Edição EMI – VC



Que Luís Represas tem boa voz está fora de questão. O problema, agora que os Trovante se acabaram, é: que fazer com esta voz? Porque, por mais que Represas vá para Cuba e toque com músicos cubanos, como aconteceu nesta sua estreia discográfica a solo, o que ouvimos é sempre a voz dos Trovante e canções que poderiam pertencer aos Trovante. Represas não tem culpa. Tem a voz que tem e escolheu as canções que lhe assentam melhor. Mas, que diabo, o que poderia ser o início de uma nova aventura e o cortar de amarras definitivo com o passado fica-se por uma prestação morna e pela segurança de arranjos que não arriscam um centímetro. Está certo, Pablo Milanés canta num dos temas (“Feiticeira”) e, lá está, os escassos segundos em que tal acontece chegam para emprestar à canção uma aura de diferença e excitação. Mas o resto poderia ter sido tocado e gravado na Islândia ou na Cochichina que ninguém dava por isso. Nenhum tema se destaca dos outros o que significa que nenhum é melhor ou pior do que os outros. São na totalidade medianamente agradáveis, a produção e execução instrumentais são imaculados, Luís Represas, repete-se, canta bem com uma perna às costas. E fica-se à espera doq eu não vem. Mesmo assim, vamos lá destacar a força de “Olhos” e “Guaganco y fado”, único tema em que, na primeira parte, é visível a influência sul-americana, um “Fora de Tempo” sepulcral e “A vez mais próxima do fim” em que Luís Represas canta como Rui Veloso um tema que poderia ter sido escrito por Fausto. É caso para dizer que o excesso de represas refreou em demasia o caudal. (5)

Eugénia Melo E Castro – “Lisboa Dentro De Mim – O Sentimento De Um Ocidental”

pop rock >> quarta-feira, 17.11.1993


Eugénia Melo E Castro
Lisboa Dentro De Mim – O Sentimento De Um Ocidental
2xCD, BMG, distri. BMG



Continua a ser verdade que o verdadeiro artista é o artista que se esforça. Em “Lisboa dentro de Mim” o esforço é notório. O disco faz tudo para agradar e não deixa nada ao acaso. A capa é belíssima. Entre os autores dos textos, contam-se António Botto, Fernando Pessoa, Cesário Verde e Luís de Camões. A lista de músicos é de luxo: Wagner Tiso, piano, Yuri Daniel, baixo, Pedro Caldeira Cabral, guitarra portuguesa, Carlos Zíngaro, violino, Mário Laginha, piano, António Pinho Vargas, piano, e Márcio Montarroyos, trompete e “flügelhorn”, qualquer deles com notáveis desempenhos nos respectivos instrumentos. Depois há o “Fado Lisboa”, um excerto de “Lisboa antiga”, “Saudades, no Tejo”, suspira-se por D. Sebastião e até se explica, com profusão de detalhes, a origem etimológica da palavra “Lisboa”. Sem esquecer um segundo CD que tem por título um trocadilho giro – “O acidente de um sentimental” – com as canções, “Não sei dançar” e as muito “in”, “The laziest girl in town” e “Maldita cocaína”. Bravo! Ah, sim, as vocalizações estão a cargo de Eugénia Melo e Castro (Geninha). No Brasil, adoram-na. Passem-me o sal e a pimenta, por favor. (4)

Xenos – “Let The Swine Loose”

pop rock >> quarta-feira, 10.11.1993
WORLD


Xenos
Let The Swine Loose
Arc, import. Contraverso



Quem são, de onde vêm, para onde vão? Os Xenos (“estrangeiros”) são dois autralianos da Tasmânia, Anne Hildyard e Rob Bester, e um suíço, Christian Fotsch. Aqui com a colaboração adicional de dois macedónios e do percussionista David Hopkins, já nosso conhecido: vimo-lo em Portugal no último Intercéltico, integrado na formação des Barzaz. As composições de “Let the Swine Loose”, gravado ao vivo na Suiça (não se nota, não há ruídos alienígenas, os desempenhos instrumentais são imaculados), dividem-se por três grupos: temas para gaita-de-foles de vários tipos, entre as quais a “gaida” dos Balcãs e o “tulum” do Irâo, esta com duas ponteiras e sem qualquer bordão; um segundo grupo dedicado a estilo de danças modernas da Macedónia, em que a instrumentação eléctrica habitualmente utilizada foi substituída por um formato acústico de saxofone, clarinete, bouzouki, contrabaixo e darbouka; um terceiro, de música dos tocadores de “zurna” da Bulgária e Turquia. São ainda visitadas as músicas tradicionais da Grécia e do Irão.
A visão dos Xenos é a de estrangeiros numa terra estranha, fascinados pelo desconhecido. A música, embora oriunda de zonas com as quais estamos razoavelmente familiarizados, soa de forma bizarra. Reconhecem-se as bases, mas estranham-se os caminhos. Por entre as emanações do “ud”, do “cümbüs” (banjo turco), do “djembe” e outros artefactos sonoros criados para ajudar a fazer da música tradicional uma história interminável, sobressai a voz de Anne Hilyard, em “Lute lute / buka ere”, tão emocionante e emocionada como a de Márta Sebestyen. (7)