Arquivo mensal: Dezembro 2021

Verd E Blu – “Musicas A Dançar”

pop rock >> quarta-feira, 10.11.1993
WORLD


Verd E Blu
Musicas A Dançar
Monestrèrs Gascons, distri. Etnia



Quando se fala de música tradicional da Gasconha surge de imediato o nome dos Perlinpinpin Folc. Nada mais natural e nada mais injusto para os Verd e Blu, os seus rivais mais próximos. Quando chegaram na mesma altura a Portugal “Téarèze”, dos Perlinpinpin, e “Musica de Gasconha” dos Verd e Blu (que voltou a ser reposto em “stock”), atribuímos a ambos a pontuação máxima.
Trata-se de duas montanhas separadas com a mesma altitude, situadas na mesma cordilheira, erguidas uma em frente à outra em desafio.
“Musicas a Dançar”, curiosamente, afasta-se, ao nível dos arranjos, de “Musica de Gasconha”. Se o objectivo último continua a ser, para Jean Baudoin, Marie-Claudel Hourdebaigt e Joan-Francés Tisnér, “trazer uma nova estética” para a música tradicional da Gasconha, a forma escolhida para o fazer mudou. O som liquefez-se, perdeu rugosidades, espalhando-se pelos interstícios abertos no álbum anterior. As canções voam em levitação, numa ondulação encantatória a grande altitude. O que no primeiro álbum era metal transformou-se em madeira, o urro tornou-se sussurro, o bosque floresceu em jardim. As melodias são fluidos que fogem da razão a esconder-se na memória. A gaita-de-foles, a sanfona, os pífaros e tamborins de corda flutuam sobre a superfície de um sintetizador aquário, mudando de forma a cada instante como os vidros de um caleidoscópio.
Em “Congós lanusquets”, os Verd e Blu fazem a vénia aos Planxty. “Mariana” é a voz de Marie Claude filtrada na passagem pelo túnel dos mistérios da Disneylândia. “Quin te va l’aulhada” prova que a música antiga do futuro existe. Uma “Borregada” convida a perdermo-nos na dança. Em “Dimars”, o grupo veste a pele de uns Hedningarna mais ponderados, acertando o passo por uma espécie de “morris dancing” gascã. Mas o momento de maior assombro chega com “New/ scà”, no qual os Verd e Blu ultrapassam toda a concorrência e penetram em território virgem, em 3m50s de perder a respiração. Viagem alucinante que começa num cravo-computador à maneira de Morton Subotnick, segue com uma sanfona nos confins da galáxia e uma flauta em redor, a voz feminina a baralhar as onomatopeias de Meredith Monk para acabar numa sarabanda de cordas e em estranhos mas nunca despropositados efeitos de estúdio. Nunca se fez nada assim.
“Musica de Gasconha” era o corpo e sangue da Gasconha. “Musicas a Dançar” é, da mesma região, o sonho. (9)

Hamish Moore & Dick Lee – “Farewell to Decorum” + Obsession – “Et Pourtant Elle Torune”

pop rock >> quarta-feira, 10.11.1993
WORLD


PROPOSTAS INDECENTES

Hamish Moore & Dick Lee
Farewell to Decorum (7)
Greentrax, distri. VGM

Obsession
Et Pourtant Elle Torune (8)
Mustradem, distri. Etnia



Faz sentido a ligação entre o jazz e a música tradicional. Por dentro, pelo lado da improvisação, característica comum a estes dois tipos de música. Em França, sobretudo na Bretanha, é prática corrente. Dos diálogos improvisados entre a gaita-de-foles e a bombarda ou das disputas vocais de canto e resposta é fácil para os novos grupos bretões partirem para a estilização formal e para um discurso marcadamente jazzístico. Nas Ilhas Britânicas, e neste caso na Escócia, a contenção é maior, em parte devido ao facto, de certa forma paradoxal, de a própria estrutura intrínseca da música ser bastante mais fluida, o que permite um sem número de liberdades que dispensam as colagens. As experiências levadas a cabo, nos anos 70, por Ken Hyder e os Talisker, em “Dreaming of Glenisla”, sobre temas tradicionais, ou a aproximação ambiental empreendida por John Surman, em “Westering Home” não deixaram descendência. Com uma colaboração encetada em “The Bees Knees”, Hamish Moore, especialista das “highland” e “border pipes” escocesas, volta a encontrar-se com o saxofonista e clarinetista de jazz Dick Lee. Do reencontro ressaltam uma energia e alegria avassaladoras, impressionando sobretudo as colisões e conversas apaixonadas travadas entre as “pipes” e o clarinete-baixo, num “Third movement of a concerto for bagpipe and jazz orchestra”, em “Malts on the optics / Farewell to decorum” e numa sequência de jigas galegas gravadas ao vivo. A gaita-de-foles solta-se a solo em “Farewell to Nigg”, e Dick Lee, soberbo de força, mostra uma vez mais ser um músico pouco dado à introspecção. A faísca seria maior se neste adeus ao decoro (uma das dedicatórias do álbum vai mesmo para o “hooliganismo musical”…) não pusessem água na fervura o neo-classicismo despropositado de “Autumn Leaves”, a versão folk do som GRP de “Round dawn” e um “The Monster” criado por Lee que se arrasta pelos pântanos da falta de criatividade. Mas tudo acaba embeleza no manifesto guerreiro – urbano – tribal de “12.12.922 (a march for democracy” / “Freedom come all ye”, com a simulação do som de um didjeridu, uma “pipe band” e um naipe de metais empurrados para a revolução pela memória de Hamish Henderson.



“Farewell to Decorum” não é um disco para nos contar segredos, mas um grito que nos vem lembrar o quanto é verdadeira a máxima de Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres”. Eles fizeram-no. Mais e melhor, e com menos alarido, ainda no capítulo da fusão entre a folk e o jazz, fizeram os Obsession. De novo com o clarinete baixo na ribalta e dois acordeões no lugar da gaita-de-foles. A “Trad Mag.” Chamou a Stéphane Milleret e Norbert Pignol, os dois principais solistas do grupo, os Valentin Clastrier do acordeão diatónico. Não são bem, embora certos desenvolvimentos temáticos, como os de “Musique de sabloir”, recordem por certo pormenores da “Héresie”, daquele sanfonineiro recentemente chegado até nós pela Silex. Mas enquanto Clastrier revolucionou a interpretação na sanfona os dois acordeonistas dos Obsession preocupam-se menos comm a exploração das possibilidades técnicas do instrumento e mais com a criação de um estilo inovador que, pelas suas características, está mais próxima de Guy Kluceskek, Astor Piazzola, Pauline Oliveros e Dino Salluzi do que da folk convencional. Os Obsession partem de uma ideia, já de si pouco convencional, do “bal musette”, para deambularem pelo jazz de câmara, em constante visitação por áreas dificilmente identificáveis, ou pelo contrário, bem evidentes, como é o caso de “Mélodie volée au Café Pingouin”, referência explícita aos Penguin Café Orchestra. “Et Pourtant Elle” estende-se por “suites” instrumentais, por vezes bastante longas, que vão tão longe quanto os Balcãs “Manege a eau pour chamelle de bois”). Os dois acordeões repartem o tempo de antena com o violino, a flauta de bisel (não a ouvíamos tão bem tocada desde os tempos de Richard Harvey com os Gryphon), o clarinete e o clarinete baixo, com a cobertura conivente e percussiva de uma dabourka, congas e tom-tons.

Gavin Bryars – “Jesus’ Blood Never Failed Me Yet”

pop rock >> quarta-feira, 10.11.1993
NOVOS LANÇAMENTOS POP ROCK


Gavin Bryars
Jesus’ Blood Never Failed Me Yet
Point Music, distri. Polygram



Gavin Bryars gravou em 1975, num dos primeiros volumes da editora Obscure, de Brian Eno, as versões originais de “The sinking of Titanic” (faixa que deu nome ao álbum) e este “Jesus’ Blood never Failed Me yet”. Com o advento da era digital, o compositor recuperou cada um destes temas, lançando em primeiro lugar a versão alongada alusiva à catástrofe do Titanic, para agora fazer o mesmo com “Jesus’ Blood…”, que passou a estender-se por 74 minutos de duração. É o regresso do velho vagabundo que Bryars gravou numa rua de Londres, em 1971, a cantar pelo tempo fora, com voz tôpega e emocionada, a hipnótica oração. A novidade em relação à versão original, que se limitava a acrescentar progressivas camadas orquestrais à lenga-lenga do vagabundo, é a inclusão, nas duas últimas partes, da voz de Tom Waits, também ele de certa forma um vagabundo e admirador de longa data da obra de Bryars, primeiro numa espécie de canto-resposta e, nos últimos minutos, já sem o vagabundo por companhia. O resto são múltiplas variantes orquestrais de acompanhamento que servem para acentuar, sob diferentes prismas, o carácter de “human-ness” que Bryars encontrou nesta espécie de manta esfarrapada e que tem o condão de provocar no ouvinte um estado de relaxação. Ou de sono, nos casos de maior sensibilidade. O vagabundo já morreu entretanto. Paz à sua alma. (5)