Arquivo mensal: Outubro 2020

Brian Eno – “Nerve Net”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 16.09.1992


PROVA DE VELOCIDADE
BRIAN ENO
Nerve Net
LP / CD, Opal, distri. Warner Music



De Eno espera-se sempre, a cada novo disco, escultura-vídeo, instalação, documentário, discurso ou espirro, uma enunciação (musical ou conceptual, nos últimos tempos mais conceptual) do que o futuro tem para nos oferecer, em termos de arte, sociedade, ideologia ou simples “merchandising”. Como o futuro, entretanto, toma sempre novas inflexões, ele adapta-se. Da música ambiental, sob várias designações e variantes, da qual parecia não conseguir libertar-se, julgou agora oportuno libertar-se e dar o salto para outra espécie de modernismo (ou pós-modernismo, desiganação que lhe cai melhor, já que Eno é sempre pioneiro de qualquer coisa, encerrando sempre um ciclo e dando início a outro), bem mais violento e variado que as anteriores incursões nas esferas da beatitude. Diga-se desde já que Eno, à semelhança de alguns políticos, nunca ou raramente erra. Possui essa capacidade inata de “saber ver”, só possível através da distanciação. E, mais uma vez, Brian Eno “viu”. Desta feita, e ao contrário da fase ambiental, o resultado dessa visão não é tanto uma síntese, mas uma mistura. A aldeia global a que se refere por escrito e a que procura dar conetúdo musical em “Nerve Net”, não é, nem pretende ser, algo de novo, no sentido a que Bachelard designava por “corte epistemológico”, mas um aglomerado provisório de sons, estilos, ideias e modas girando em turbilhão acelerado, o mesmo que cada vez mais vai esvaziando o mundo de sentido. Por uma vez, Brian Eno sentiu, ou talvez seja mais correcto dizer que percebeu, a noção e os efeitos da velocidade. Mas não se deve acreditar muito nele quando afirma que deseja “habitar” este novo mundo psicótico ou que tenciona promover o disco “agressivamente”. É difícil imaginar Eno no centro da confusão. Vêmo-lo no alto do seu terraço, situado no cume de um arranha-céus em Nova Iorque, com a câmara de vídeo apontada para o céu. “Nerve Net” só é possível, ainda e sempre, graças à observação distanciada. A psicose rítmica, característica dos temas mais violentos de “Before and after Science”, de “Remain in Light” ou de “My Life in the Bush of Ghosts”, resulta da análise cuidada do ar dos tempos. Não por acaso, Eno entregou a Robert Fripp, também ele um músico “cerebral”, a tarefa de dissertar, com a sua guitarra liberta do espartilho das “frippertronics”, sobre o caos, recordando tratar-se do mesmo guitarrista que há mais de 20 anos gravou e tocou, com os King Crimson, “21st century schizoid man”. Na obra de Brian Eno tudo é estudado e “Nerve Net” soa a uma laboriosa experiência laboratorial. Não lhe falta nenhum ingrediente (o músico pode ficar descansado) e a mistura final é digna dos grandes manipuladores de bata branca. De Eno não se espere nunca o sentimento, mesmo que ele procure provar o contrário. “Nerve Net” é um edifício (ou a “rede de força”, o sistema nervoso a que o título alude) que se organiza como por magia, aglutinando de forma errática os fragmentos de infinito, mas que entra em derrocada logo que desaparece o cimento, a ordenação subjectiva do receptor. Uma espécie de anti-Cristo formal e circunstancial erguido com a argamassa do medo, das imagens e da pluralidade que o inconsciente colectivo encerras e permite dar sentido. Pelo sim, pelo não, Eno promete já nova dose de imponderabilidade, com o próximo disco, “The Shutov Assembly”. Passado que foi o tempo de entretenimento dedicado, ainda e sempre, a estudar o mundo sob uma nova perspectiva. Ou a provar a sua resistência e maleabilidade às directivas do cérebro. Uma prova de velocidade. (8)

Tom Jobim – “Tom Jobim Nos Jerónimos – Silêncio Lento Dos Trovadores” (concerto)

Cultura >> Domingo, 13.09.1992


Tom Jobim Nos Jerónimos
Silêncio Lento Dos Trovadores


Tom Jobim foi, nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos, sexta-feira à noite, mestre de cerimónias de um Brasil diferente. Trouxe consigo a família, a bossa-nova, a nostalgia de canções que fazem parte da História. E uma ironia fina que causou arrepios.



Claustros apinhados de gente desejosa de ouvir e sentir a presença carismática do mito António Carlos Jobim, Tom Jobim, como é mais conhecido. Trovador do Brasil triste, das praias de Ipanema ao entardecer, de areia fina e gente que o pretende ser. Tão fina como a ironia do cantor.
Apresentado pela popular actriz brasileira, Christiane Torloni, sob uma luz vermelha quer transfigurava a fisionomia habitual dos claustros do Mosteiro, Tom Jobim deixou claro porque é considerado um dos maiores vultos de sempre da música popular brasileira. Veio acompanhado da sua Banda Nova, cinco instrumentistas mais outras tantas meninas a cantar. Em palco, três Jobins e dois Caymmi, cada um apresentado pelo compositor com um coment´rio jocoso ou poético: ele próprio Tom Jobim, a mulher, Ana Jobim (“esposa não é parente”) e o filho, Paulo Jobim, na guitarra (“tem sangue português misturado com o de um macaco das florestas da Amazónia…”), e dois Caymmi, “a água da fonte”.
A música foi como um feitiço, uma longa trova de amor que ardeu em fogo lento. As cinco vozes femininas juntaram-se ao piano do mestre e elevaram-se, aéreas, a cantar o Brasil da bossa-nova, essa mistura de samba, jazz, tristeza e um sol que não chega a queimar nunca. Tom Jobim não é um grande cantor – deixou que fossem as vozes femininas a encher o espaço -, mas possui um talento imenso que deixou marcas em toda a música brasileira e não só (recorde-se por exemplo, na Europa, herdeiros como os Hatfield and the North e, de forma indirecta, toda a escola de Canterbury, Everything But The Girl, Weekend ou Isabel Antenna).
Na música de António Carlos Jobim, na música que fez descer as estrelas até ao jardim dos claustros em noite de Belém, o amor serve de porta e praia a todas as imagens onde desagua um rio sem margens, o Rio, cidade oculta que não passa pela televisão.

Um Sonho

Cena de carnaval. “Slow Motion”. A imagem revela pormenores. O homem que toca pandeiro, perdido, olha para o lado. Sem ver. A mulher, na fileira das sambistas, solta uma lágrima em que ninguém repara. As serpentes não chegam a desenrolar-se. Os pés demoram a chegar ao chão. Cena de praia: O sol, parado, reflecte-se nos vidros dos apartamentos luxuosos do Leblond, em frente. A garota de Ipanema para de sorrir e sente uma nostalgia onde não vê motivo nem sentido.
O tempo volta ao normal, à cor do carnaval. Lá vão os arlequins e colombinas a acenar, na correnteza. Regresso aos Jerónimos. Tom Jobim sorri com os olhos. Do sonho, nosso e brasileiro. Fala pausadamente, solta pequenas frases que dizem mais do que dizem. Sobre ecologia e o “mundo paradisíaco” em que vivemos, sobre essa “língua maravilhosa que é o português” e o sangue luso presente em tudo o que é Brasil. Lugares-comuns ditos de uma maneira que provoca, sem querer, um arrepio muito ligeiro.

Sozinho

Não para de fluir a bossa-nova na cascata de meios-tons e melodias soltas pelo piano e pela flauta de Danilo Caymmi. As meninas atraem o olhar com a sua inocência estudada. O violoncelo de Marcio Mallard introduz a nota de angústica. A certa altura, elas abandonam o palco. Depois os músicos. Tom Jobim fica só: “Com a idade, primeiro vão-se as moças, depois os rapazes, até que a gente fica sozinho”. O fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho. “Luísa” abre um coração em chaga e pela primeira vez o cantor grita, “pobre amador apaixonado”, “aprendiz do amor”. “Desafinado”, “Samba de uma nota só”, “Águas de Março”, canções conhecidas de cor são murmuradas com devoção pela assistência. Jobim, senhor de uma ironia evanescente, canta um tema em inglês, encomendado pela ECO 92 (“essa língua tão latina… é tudo igual: flor é ‘flower’, hora é ‘hour’, informação é ‘information’”). Talvez dê para salvar um pouquinho, talvez sobrem algumas árvores”…
António Carlos Jobim sai do palco como entrou, em silêncio, o “silêncio lento dos trovadores” senhor de uma calma profunda de quem conhece o mundo e as pessoas. O público pede mais e ele anui. Despede-se finalmente com “Chega de saudade”. Um bom título para encerrar um concerto perfeito.
Perfeita não esteve a organização, a Propalco. 1500 escudos custavam os bilhetes para a geral, situada nos claustros superiores, a fazerem de balcão. 1500 escudos que, para quem não teve a sorte de se colocar na fila da frente, deram direito a ver cabeças. À saída não foram poucos o s que se queixavam de não ter conseguido ver nada. Em baixo, entre os canteiros de flores, acomodavam-se os ilustres. Assim de memória contámos, para além do Ppresidente da República e esposa, por ordem alfabética: Raul Solnado, o par Paulo de Carvalho-Helena Isabel, Carlos do Carmo, José Nuno Martins, Proença de Carvalho, Alçada Baptista, Maluda e, principalmente, Roberto Leal, muito notado no seu fato azul turquesa claro, da cor do mar. Todos igualmente satisfeitos numa noite para recordar. Olha que coisa mais linda.

La Ciapa Rusa – “La Ciapa Rusa No Porto – A Culpa É Dos Gatos” (concerto)

Cultura >> Sexta-Feira, 11.09.1992


La Ciapa Rusa No Porto
A Culpa É Dos Gatos


ALGO NÃO tem funcionado nos Circuitos das Tradições Musicais Europeias, realizadas na cidade do Porto. Na quarta-feira actuaram nesta cidade, no Teatro Rivoli, os italianos La Ciapa Rusa, um dos melhores e mais prestigiados agrupamentos de música tradicional da Europa. Cerca das 22h, meia hora depois do previsto, o teatro apresentava um aspecto desolador, em termos de público. O mesmo já acontecera anteriormente com os Ad Vielle Que Pourra, num concerto integrado nos Encontros Musicais da Tradição Europeia.
Sabe-se que a Etnia, organização responsável por ambas as iniciativas, estabeleceu um protocolo com a Câmara Municipal do Porto, em que esta se comprometeu a assegurar a promoção dos concertos. Promoção foi coisa que não existiu, nos dois casos citados. Cartazes, mandados imprimir às centenas, nem vê-los. Alguns, os únicos, colados à entrada do Teatro, lá estavam, à atenção de quem já se encontrava no teatro para comprar o seu bilhete, informado pelos jornais.
Apresentando-se no Porto com uma formação bastante diferente da de então, com os novos membros Devis Longo, Bruno Ratteri e Patrick Novara, os La Ciapa Rusa mantiveram a orientação estética característica dos seus trabalhos discográficos, incluindo a do novo álbum “Retanavota”, de recolha e tratamento de temas tradicionais do Noroeste de Itália.
No centro das operações, Maurizio Martinotti e a sua sanfona, secundado pelo sempre discreto Beppe Greppi, no acordeão. Na linha da frente revelou-se um dos novos músicos da “Ciapa”, Patrick Novara, brilhante e imaginativo no pífaro, clarinete, gaita-de-foles, flautas e bombarda da Renascença. Devis Longo arrancou dos teclados batidas tradicionais, para de seguida sugerir acordes de harpa ou a respiração antiga de um “regal” (órgão de foles) medieval. Bruno Ratteri mostrou a riqueza imensa da escola violinística da região do Piemonte. Harmonias vocais intricadas rivalizaram com sequências de “monferrinas”, a dança tradicional do Piemonte, e em particular de Monferrate, célebre pela qualidade do seu vinho tinto. “Bourrées”, “branles”, “sestrinas”, marchas carnavalescas e matrimoniais, baladas nostálgicas e instrumentais delirantes entusiasmaram uma plateia diminuta (“poucos mas bons”, notou Maurizio Martinotti) que no final obrigou os Ciapa Rusa a regressarem para um “encore” e mais um instrumental extrovertido retirado de um dos primeiso discos.
Donatta Pinti, a vocalista de voz quase sobrenatural presente na anterior apresentação dos La Ciapa Rusa em Portugal, afinal não abandonou a banda. Apenas deixou de a acompanhar nas digressões. É que Donatta, explicou Maurizio Martinotti, faz questão de jamais se separar dos seus seis gatos, o que torna bastante problemáticas as deslocações. E não poderia trazê-los consigo, os felinos? “Não” – suspirou o sanfonineiro, após o concerto, copo de cerveja na mão e solhar sonhador -, “a melhor solução seria exterminá-los”…