Arquivo mensal: Setembro 2020

Ocean Colour Scene – “Ocean Colour Scene”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 22.07.1992


OCEAN COLOUR SCENE
Ocean Colour Scene
LP / CD Fontana, distri. Polygram



Feita a contabilidade, “Ocean Colour Scene” é o álbum número 8.452.891 da série “banda de guitarras”, na subcategoria “psicadélicas”. Os Ocean Colour Scene não são piores que a concorrência e, em certos aspectos, são até melhores. Obviamente, o principal ponto de referência está centralizado nos anos 60, na vertente pop psicadélica, na recorrência de melodias aciduladas, na distorção das guitarras, nos textos que quase sempre são folhetos turísticos de viagens alucinogénias, neste caso mais simuladas que reais, mas de qualquer forma sempre coloridas. A referência mítica, como não podia deixar de ser, aponta inequivocamente para os Pink Floyd de Syd Barrett, cujo espectro assoma em mais do que uma canção dos Ocean Colour Scene. Mas a banda é convincente no modo como recria e se diverte com os próprios fantasmas e o álbum consistente ao ponto de proporcionar uma incursão imaginativa no passado. (6)

Idéfix – “Ao Vivo No Hot Clube De Portugal”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 22.07.1992


IDÉFIX
Ao Vivo No Hot Clube De Portugal
CD Miso Records



No caso dos Idéfix, a gravação ao vivo não terá sido a melhor solução. A banda liderada por Sérgio Pelágio, praticante de uma música fluida e subtil, encontraria decerto um terreno mais propício ao seu discurso no recolhimento e sofisticação do estúdio. Mesmo assim, não se pode falar de uma falsa partida. Num agrupamento onde prima a coesão entre todos os membros, destaca-se Paulo Curado, um saxofonista que soube compreender o sentido da modernidade, em temas como “Mechanics” e “Núcleos” ou nos blues traficados de “Jhumra blues”. Bruno Pedroso brilha nas percussões, em “Bumerangue”, num imaginativo suporte para o diálogo guitarra-baixo, mantido entre Sérgio Pelágio e Yuri Daniel. Alexandre Manaia é o criador de paisagens misteriosas no sintetizador. Pena que a voz de Bárbara Lagido destoe um pouco do resto do colectivo. O tom declamatório e empertigado de “Olhos” e estalactites” soa deslocado e à beira do ridículo dentro do contexto instrumental do tema. Uma estreia interessante. (7)

David Cunningham – “Water”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 22.07.1992


DAVID CUNNINGHAM
Water
CD Made To Measure, distri. Contraverso



O principal problema com que a Made to Measure (MTM) se confronta actualmente é a imagem que, ao longo dos anos, criou de si própria. Se a etiqueta de “músicas de circunstância” é suficientemente vasta para incluir uma variedade de estilos e abordagens musicais que garantam a diversidade, verifica-se por vezes na MTM, sobretudo em algumas das suas produções recentes, a tendência para uma certa lassidão, traduzida em bandas sonoras anódinas, que pouco mais são que uma forma sofisticada de “muzak”. “Water”, colecção de instrumentais do ex-mentor dos Flying Lizards, inclui-se nesta categoria de paisagens ambientais que não apontam para lado nenhum, repetindo até ao infinito as lições há muito enunciadas por Brian Eno. Um piano flutua no vazio. Sombras, ritmos hesitantes, esboços de melodias, um tom geral de aguarela semelhante ao dos discos gravados nesta mesma editora por Peter Principle. Há a curiosidade de Robert Fripp tocar num dos temas, se bem que não se note muito na audição. “Laissez faire, laissez passer” parece ser o lema. Não por acaso, as notas da capa, explicam tudo muito explicadinho, com as habituais teorias sobre “continuidade e espaço acústico”, aconselhando finalmente o ouvinte a um “acto de imaginação”, de modo a ter a oportunidade de “explorar um método de audição que não é baseado na natureza usual da forma clássica iu da arte musical europeia”. Quer dizer: o que o músico não faz tem de fazer o ouvinte. Não deixa de ser agradável, sobretudo para quem tem imaginação. (7)