Arquivo mensal: Março 2020

Vários – “Começa Hoje A Semana De Cultura Irlandesa – O Paraíso Celta Revela-se Em Lisboa” (concertos / festivais / céltica)

Secção Cultura Segunda-Feira, 02.12.1991
Começa Hoje A Semana De Cultura Irlandesa
O Paraíso Celta Revela-se Em Lisboa

Entre hoje e 7 de Dezembro realiza-se em Lisboa uma “Semana de Cultura Irlandesa”, organizada pelo Instituto de Cultura Inglesa e a Faculdade de Letras de Lisboa. A iniciativa visa “a articulação entre a cultura irlandesa e a portuguesa” e promete animação. Ou o acesso a Tir Nan Aog, o paraíso celta.



A semana irlandesa inclui, entre outras actividades, um concerto de música tradicional de raiz celta, na Aula Magna, com os irlandeses Comhaltas Ceoltóiri Éireann e os portugueses Jig, outro de música de câmara, conferências, debates, exposições, teatro, sessões de vídeo, cinema e até um jantar típico irlandês. E a presença do poeta e romancista John Montague que, logo a seguir à abertura oficial, lerá poemas da sua autoria. No Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras, às 18h30.
“Fools of Fortune”, o novo filme de Pat O’ Connor, será apresentado em ante-estreia absoluta, na Cinemateca, dia 2 às 21h30. Ainda no capítulo do cinema, e no mesmo local, serão exibidos no dia 3, “Gente de Dublin”, de John Huston, às 18h30, e “My Left Foot” (“O Meu Pé Esquerdo”), de Jim Sheridan, às 21h30. E no dia seguinte os clássicos de John Ford, “The Quiet Man” (“O Homem Tranquilo”), 18h30, e “The Informer” (“O Denunciante”), 21h30, que decerto vão atrair à Cinemateca os apreciadores de bom cinema.
O teatro também estará presente. No Teatro da Comuna, dia 7, às 16h00. Com “The Dracula Meditations”, uma “série de reflexões sobre o mito de Drácula que agora é vítima da violência de uma sociedade recalcada” numa peça que “explora um submundo erótico e estético ameaçado pelo ‘status quo’ puritano e agressivo”, adaptada do original de Bram Stoker, escrita, dirigida e interpretada por Paul O’ Hanrahn e pelos Balloonatics, companhia de teatro independente sediada em Dublin. Todos os dias, das 10 às 18h00, estará patente na Sala das Exposições uma retrospectiva do “Teatro português sobre textos de irlandeses”.
Prevista está também a realização de debates: O “Teatro Irlandês em Portugal” (dia 3), “A Irlanda no cinema” (dia 4), “Música popular irlandesa” (dia 5). Todos às 14h, na Sala das Exposições. Com a presença de convidados ligados aos diversos temas abordados. O dia 6 está reservado para uma conferência sobre a cultura e literatura irlandesas.
Canções irlandesas e ciganas, e obras de Hoffmeister e Mozart, interpretadas por Stephanie Duarte, viola de arco, e William Raposo, violino (Duarte & Raposo Co.?) farão as delícias dos apreciadores de música de câmara. Dia 5, às 19h30.

A Voz E O Estômago

“And last, but not least”, a música tradicional da Irlanda, das jigas e dos “reels”, dos violinos, “tin whistles” e “uillean pipes”. Pelos Jig (muita atenção à voz de Isabel Leal), do Porto, que foram revelação no Festival Inter-céltico de Abril deste ano, e os Comhaltas Ceoltóiri Éireann (com boa vontade até se pronuncia), associação fundada em 1951 com o objectivo de “preservar e divulgar a música, a dança e a língua irlandesas e, de uma maneira geral, promover a identidade cultural das comunidades irlandesas espalhadas pelo mundo”. Da actual formação dos Comhaltas, etc, fazem parte Jim Egan (concertina, flauta e “tin whistle”), Noel Carberry (“uillean pipes”, “tin whistle”, bodhran, ossos e dança), Karena Dowling (violino, flauta, “tin whistle” e bodhran), Paula Dowling (flauta e “tin whistle”) e Doreen Norris (dança).
Depois de sonhar com os mitos e lendas da velha Irlanda, resta a consolação do estômago. Possível dia 7, às 19h30, no Bar Novo da Faculdade, com as iguarias típicas da ilha.
Os bilhetes, a preços mais do que acessíveis, encontram-se à venda na livraria da Faculdade de Letras (música), Teatro da Comuna (teatro) e Cinemateca (cinema). A inscrição, por 5 mil escudos, na livraria, garante o acesso a todas as iniciativas desta semana de cultura da Irlanda. Terra mágica onde os homens se habituaram a convivar com os deuses.

Maria João – “Maria João Apresenta ‘Convidadas’ Em Lisboa – A Música Suspensa Do Corpo”

Secção Cultura Segunda-Feira, 02.12.1991


Maria João Apresenta “Convidadas” Em Lisboa
A Música Suspensa Do Corpo


A cantora Maria João actua hoje à noite no Teatro S. Luiz em Lisboa. Com a presença de “convidadas” ligadas a outras áreas musicais: Lena D’ Água, Teresa Salgueiro (Madredeus), Anabela Duarte (ex-Mler Ife Dada) e Xana (Rádio Macau). Adivinham-se surpresas. Maria João prefere guardar segredo.



Em princípio, tudo pode acontecer. Acompanhada pelos habituais Mário Laginha, piano, Carlos Bica, contrabaixo, José Peixoto, guitarra e José Salgueiro, bateria, Maria João, uma vez mais, preferiu o prazer inesperado, o confronto com a novidade – “a ideia é justamente pegar em pessoas que não fazem o mesmo que eu, construir qualquer coisa com elas e ver a que é que isso soa. Isto é que é divertido e estimulante”. “Uma ideia deliciosa” – nas suas próprias palavras.
Quem quiser pormenores, o melhor que tem a fazer é deslocar-se logo às 22h00, ao Teatro S. Luiz, e ouvir para crer. Que vai acontecer qualquer coisa diferente, é garantido, mas o quê? “Isso é surpresa” – a cantora fecha-se em copas e apenas adianta que “como de costume, vai haver lugar para a improvisação”. Trata-se, para Maria João, de uma necessidade vital de movimento, de constante mudança: “Seria extremamente aborrecido se fosse uma coisa fixa. Gosto muito de mudar as coisas. Até ao último minuto.”
A solo, sabe-se que cantará temas do seu mais recente álbum, “Sol”, gravado na Alemanha com o selo Enja e os mesmos músicos do espectáculo de hoje à noite. Além de “outras pequenas coisas que não estão lá, e as convidadas, claro”. Claro. Logo à noite se verá qual o segredo que permite juntar, no mesmo palco, a pureza ascética de Teresa Salgueiro, o jovial cançonetismo de Lena d’ Água, a excentricidade de Anabela Duarte e a energia rock de Xana, com o discurso libertário de Maria João

Entrega Total

A ideia de recrutar outras cantoras, aquelas de que “mais gosta”, surgiu a partir de um projecto que desde há algum tempo vem mantendo no estrangeiro, um trio vocal feminino do qual fazem parte ela e duas americanas, a experimentalista Laura Newton e a cantora de ópera, residente da Filarmónica de Berlim, Catherine Geyer. Refira-se a propósito que Maria João ainda tem tempo para se integrar num quarteto “com um programa especial”, ao lado de Mário Laginha, a já citada Lauren Newton e o guitarrista alemão Thomas Hortsmann. Já para não falar das aventuras em duo com a pianista japonesa Aki Takase, das quais resultaram o magnífico “Looking for Love”, e em trio, com Takase e o contrabaixista dinamarquês Niels-Hanning Orsted Pedersen, no álbum “Alice”.
Seja qual for o contexto, o que mais impressiona nesta cantora que, de uma maneira quase sôfrega, não para de evoluir, é a paixão com que se entrega de corpo inteiro à música, numa relação que tem muito de sexual. Tinham razão John Coltrane e John McLaughlin quando defendiam que fazer música é deixar-se possuir e tocar por ela e que ao intérprete se exija que seja o seu instrumento afinado. Afinação que exige uma total transparência e a máxima tensão / atenção. Fazer música é saber ouvir a voz que vem de dentro, o movimento cósmico que em cada indivíduo se manifesta e traduz numa forma particular. No caso de Maria João essa capacidade passa pela dimensão física, pela sensualidade dos gestos, pelo desnudar interior. Seria isto o jazz se “isto” não fosse mais qualquer coisa.

Jazz Ou Algo Mais?

Eis-nos chegados ao pomo da discórdia, para os que estão do lado de fora. Maria João é uma cantora de jazz ou não é uma cantora de jazz? Ela não se importa nada com isso, desde que as pessoas a ouçam e gostem do que ouvem. O termo “jazz”, há quem o jure a pés juntos, é uma derivação fonética do verbo francês “jaser” – “tagarelar, conversar animadamente e um pouco à toa sobre diversos assuntos”, segundo a “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (ilustrada com cerca de 15 mil gravuras), que era a que estava mais à mão.
À primeira vista poderá parecer ao auditor médio português, habituado a ouvir Phul Collins e Madonna, que Maria João canta “à toa”, isto é, “como uma maluca” a vociferar “coisas sem sentido”, frequentemente “sem letra”, em suma, “esquisitas”. Mesmo quando essas “coisas” são um tema de música tradicional portuguesa ou um “standard” de Billie Holiday. É neste sentido que Maria João pode ser comparada, na atitude e na maneira como vive e dramatiza a vibração musical, a Bobby McFerrin. Em ambos existe o amor pela liberdade e uma fé. Ou a consciência, no caso feminino quase táctil, de um acto mágico que só o verdadeiro músico vive e compreende, no qual a ordem dos sons, a Harmonia como que se organiza por si própria, cabendo ao Intérprete, com “I” grande, centrar-se, coincidir, dizer e dizer-se, dançar e dançar-se, e às vezes consumir-se, nesse fogo que dizemos vir de “cima”, ou de “dentro”, quando queremos significar a transcendência.
Diz-se por outro lado, muito por força do hábito, que o jazz é “música de negros”. A “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (ilustrada com cerca de 15 mil gravuras) faz mesmo questão de acentuar a “natural disposição dos negros para a arte musical”. É verdade. Em Maria João corre, do lado materno, sangue africano. É o pólo energético complementar: a natural apetência pelo ritmo, a assunção das forças da terra que sobem dos pés até ao cérebro e os põem a dançar. É ainda a sensualidade e, se levada ao extremo, a dor, alegria insana dessa entrega. E no limite do humano, a loucura.
Talvez por isso Maria João (como Meredith Monk ou Shelley Hirsch) saiba a exigência do método (o “haikido” – não, não é porrada – que praticou, ajuda muito), da justa medida, a necessidade de equidistância entre o oceano e o raio. Decerto que sabe.

Romanças – “Grupo Romanças Lança Segundo Álbum – Trovas Do ‘Monte Da Lua’”

Secção Cultura Domingo, 01.12.1991


Grupo Romanças Lança Segundo Álbum
Trovas Do ‘Monte Da Lua’


“Monte da Lua”, segundo disco dos Romanças, confirma os seus autores como um nome a ter em conta no panorama da música popular portuguesa de raiz tradicional. O disco, dedicado à serra de Sintra, à sua mística e ao seu património, canta amores e perdições. É o regresso dos trovadores.




Sintra é o centro. Terra sagrada. Para os Romanças, fonte de inspiração, e para alguns dos seus membros, local de habitação. A serra ensina-lhes a serenidade e uma respiração particular. Uma forma diferente de olhar as coisas e de as cantar. O ar e as alturas da serra vibram em cada espira de “Monte da Lua”, que era como os árabes chamavam à montanha mágica.
“Sintra já influenciou pessoas como Byron e outros poetas e trovadores. Nós não fugimos à regra. Este novo álbum é dedicado a Sintra. Queremos ajudar a preservar o património cultural da vila” – diz Fernando Pereira, vocalista e guitarrista dos Romanças, para quem Sintra é “uma terra de trovadores”.
Amor a uma terra e à sua cultura que parece não comovar o poder local – “é o tal ditado: santos da casa não fazem milagres. Já oferecemos ao presidente da Câmara e ao vereador da Cultura o nosso disco, mas o facto é que organizaram recentemente o Festival da Juventude e esqueceram-se de nós…”. Estranha indiferença para com um grupo que ainda há pouco tempo andou em digressão pela Irlanda, participou no Festival de Winnipeg, nos Estados Unidos e sobre quem sairá um artigo alongado num dos próximos números da revista “Folk Roots”.
“Monte da Lua” é um disco onde as baladas e os romances selecionados do cancioneiro alternam com cadências mais dançáveis, marcadas pelo baixo de Pedro Batalha e a bateria de João Luís Lobo, “músicos de inspiração rock”. Fernando Molina, acompanhante habitual de Fausto, acrescenta-lhes a percussão tradicional. Os Romanças não receiam as novas tecnologias nem o perigo da descaracterização: “O sintetizador pode muito bem substituir uma gaita-de-foles”. Não pretendemos reproduzir os temas tradicionais como eram tocados há 50 ou 60 anos atrás. Queremos transformar a música, conservando a melodia. Uma outra maneira de cantar as coisas”.
Alguns dos temas de “Monte da Lua” são pequenas maravilhas: “Trigueirinha” e “D. Varão”, por exemplo, estão muito perto da eternidade: romances com sabor a muito, muito antigo. Como as rochas, o musgo e as nascentes da serra. As águas do rio partem sempre. O leito permanece. “A função dos Romanças é divulgar histórias que estavam perdidas, ou que só existiam nos livros ou nas pausas musicais. Quem conhecia o ‘Romance do Gerinaldo’, o ‘Cego Andante’ [incluídos no primeiro álbum], ou o ‘Homem Rico’? São histórias que estão na memória das pessoas e se arriscavam a desaparecer.”
Nos tradicionais “Homem Rico”, “Veneno de Moriana”, as “Saias de S. João”, ou em “Trigueirinha”, é sensível o apelo da matriz celta: “Admiramos muito a música de grupos como os Chieftains ou os Milladoiro. “Trigueirinha” foi composta [por Pedro d’ Orey e João Ramos] num quarto de hotel na Galiza e é notória a influência celta.” Destaque para João Ramos, no violino (excelente, nas “Janeiradas”), ou no “tin whistle” (“Trigueirinha”, e no instrumental “Monte da Lua”).
Em “Veneno de Moriana” somos sobressaltados pelo vento dourado acre das gaitas-de-foles, tocadas em uníssono por João Ramos e pelo gaiteiro convidado Rui Vaz; atraídos para as profundidades do fado, em “D. Varão”. As cordas da braguesa, do cavaquinho e do bandolim exultam nos dedos de José Barros, nos temas mais extrovertidos, “Xula”, “Salsaparrilha”, “As Janeiradas”.
“Monte da Lua” coloca as Romanças, ao lado dos Vai de Roda, Ronda dos Quatro Caminhos e Brigada Victor Jara, nas veredas que conduzem ao futuro a Tradição.