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William Parker + Steve Lacy & Geri Allen + Lee Konitz & Joey Baron – “Conversa De Gigantes Do Jazz No CCB, William Parker Em Coimbra” (concertos / artigos de opinião / jazz)

(público >> cultura >> jazz >> concertos)
sábado, 18 Janeiro 2003


Conversa entre gigantes do jazz no CCB

WILLIAM PARKER EM COIMBRA

Duos no CCB. Jazz ao Centro em Coimbra. O jazz no centro das atenções. Steve Lacy, Geri Allen, Lee Konitz, Joey Baron tocam hoje em Lisboa. O quarteto de William Parker, em Coimbra




Steve Lacy, um dos saxofonistas mais inquietos do jazz contemporâneo

Jazz a dois é conversa. Amena, inflamada ou, se der para o torto, da treta. Jazz a duas vozes é o que esta noite se poderá escutar em concerto duplo no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a partir das 21h.
São quatro os conversadores, qualquer deles de monta, cada qual com muitas histórias para contar, para dizer ao outro e lhe pedir explicações, respostas ou um simples comentário. O outro fará o mesmo. A história do jazz está cheia destas conversas.
Steve Lacy, um dos saxofonistas mais prolixos e inquietos do jazz contemporâneo, terá como parceiro a pianista Geri Allen. Ele, homem de longas fidelidades (“são as relações a longo prazo que prezo mais”), com Kent Carter, Jean-Jacques Avenel, Oliver Johnson (recentemente falecido) ou a sua mulher Irène Aebi, mostra-se, no entanto, disponível para a descoberta de outras músicas que completem ou desafiem a sua. A de Geri Allen esteve sempre debaixo da sua mira. Cumprirá hoje esse desejo.
Lacy é o viajante por natureza que aprendeu com a tradição a fabricar o futuro. Duke Ellington, que continua a considerar “o músico nº1”, ensinou-o a gostar de jazz. Com Thelonious Monk, de quem é intérprete de excepção, manteve a ligação afectiva ao bebop. Mas, é claro, por ele passou grande parte da excitação que nos anos 60 ganhou o rótulo, a reputação e o grito de “free jazz”. Esteve ao lado de Cecil Taylor (foi quem lhe revelou Monk), Ornette Coleman, Don Cherry e Jimmy Giuffre. Era quando o seu saxofone – o difícil soprano, ao qual se dedicou em exclusivo, num caso ímpar de fidelidade a um instrumento a que a maior parte dos saxofonistas recorre em segunda escolha – soava mais agreste e libertário. A passagem dos anos arredondou-lhe o som, levando-o para junto do calor do alto.
Enrico Rava, Louis Moholo, Derek Bailey, Evan Parker, Steve Potts (Lacy foi dos poucos a reconhecer-lhe importância), John Stevens, Trevor Watts e Roswell Rudd, além da bizarra nave espacial chamada Musica Elettronica Viva, foram alguns dos músicos livres que consigo fizeram o jazz passar a fronteira do bop. Nos anos 80 encontrou no piano de Bobby Few um lugar de conforto.
Até hoje a sua atividade e os seus interesses estenderam-se à canção (de veia Brecht/Weilliana, na voz da sua mulher), ao teatro (trabalhou com Merce Cunningham), à poesia (gravou com Bryon Gysin, como Willam Burroughs, (poeta das máquinas de linguagem do mal) e ao cruzamento com outros universos musicais, da música do Oriente (um dos seus projectos próximos é compor sobre poemas zen e cânticos budistas) a peças impressionistas como as “Gnossiennes” de Erik Satie, que tranpôs para o sax soprano.
Geri Allen há-de levar em atenção as palavras de Lacy: “Quando toco com um estranho que nunca me ouviu antes ou só ouviu através de um disco, é possível que ele não me entenda e pense que estou perdido. Então é ele próprio que se perde e a coisa pode tornar-se uma grande confusão”.
Da sua extensa discografia, sugerimos (escolha necessariamente subjetiva e parcelar) os álbuns: “The Forest and the Zoo”, “Scretching the Surface” (triplo CD que reúne alguns dos trabalhos mais experimentalistas, como “Lapis” e “The Owl”, gravados nos anos 70 em Paris, onde viveu grande parte da sua vida), “Saxophone Special +”, “Weal & Woe”, “Trickles”, “The Way”, “Two, Five & Six/Blinks”, “We See”, “Vespers” e “5 x Monk 5 x Lacy” (sax soprano solo, Lacy e Monk em jogo de reflexos).

O universo dos outros

Geri estará decerto atenta. “Gosto de entrar no universo dos outros. É como ir para outro país e outra cultura – tem-se a sorte de se poder olhar para o nosso lado de dentro, mais de perto. E adquire-se uma maior clareza quando se volta ao nosso próprio universo”, diz. Discípula de Kenny Barron, Geri Allen possui uma musicalidade, um vigor e um swing inconfundíveis. Mergulhou fundo no movimento M-Base, tocando com Steve Coleman (“Motherland Pulse”, recenseado no Mil Folhas da semana passada). Andrew Cyrille, Julius Hemphill, Arthur Blythe, Dewey Redman, Lester Bowie, James Newton, Charlie Haden e Paul Motian puderam igualmente apreciar e aproveitar a poesia poderosa do seu piano. O seu novo disco tem por título “Twenty One”. Dúvida para hoje à noite: será que trará consigo o sintetizador?
Conversam a seguir Lee Konitz, saxofonista alto e soprano, e Joey Baron, baterista. De novo duas gerações frente a frente. Konitz é a voz dissidente do bebop que ousou contrariar o domínio de Charlie Parker e apontar novas direcções, até chegar ao “cool”, consciente de que o timbre e o fraseado do seu alto não são fáceis de assimilar.
Lennie Tristano, de quem foi fanático discípulo e acompanhante – e, por consequência, de Warne Marsh, outro saxofonista “desalinhado” – foi provavelmente o pianista que melhor o compreendeu, da mesma forma que ele foi dos poucos a compreender Tristano. Talvez por isso este saxofonista um pouco marginal que tanto se rodeia dos maiores solistas como de jovens aprendizes entusiastas, que participou nas sessões de “The Birth of the Cool” com Miles Davis e que acusou Anthony Braxton de ter insultado a música de Tristano, aprecie a companhia de bateristas “melódicos”. Como Joey Baron, em relação ao qual manifestou uma ânsia enorme de tocar.
Baron, o baterista do momento, é, como se costuma dizer, pau para toda a obra. Está no rock, no R&B, na “downtown”, na música improvisada como no mais redundante “mainstream”. A lista de participações é infindável: Dizzy Gillespie, Tony Bennett, Chet Baker, Laurie Anderson, Art Pepper, Stan Getz, David Bowie, Philip Glass, John Abercrombie, Al Jarreau, John Scofield, The Lounge Lizards, Tim Berne… Depois dos Naked City (com John Zorn, Fred Frith, Bill Frisell e Wayne Horvitz), integra atualmente os Masada, de John Zorn, Dave Douglas e Greg Cohen. É líder dos Barondown, em trio com Ellery Eskelin e Steve Swell. A sua mais recente gravação tem por título “Down Home”.
Hoje à noite se verá quem irá aprender com quem. Divertir com quem. Arriscar com quem.

Steve Lacy + Geri Allen;
Lee Konitz + Joey Baron

LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
Às 21h. Tel. 213612444.
Bilhetes entre 5 e 20 euros

Baixo grande em Coimbra

O jazz da frente continua a dar cartas em Coimbra, através dos seus concertos mensais, no âmbito de Coimbra 2003, Capital Nacional da Cultura. William Parker e o seu quarteto prosseguem esta noite o ciclo Jazz ao Centro — Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra.
Além de Parker, contrabaixista de reconhecidos méritos que sucede em linha direta a mestres como Jimmy Garrison, Paul Chambers e Charles Mingus, fazem parte do quarteto Rob Brown (saxofone alto), Lewis Barnes (trompete) e Hamid Drake (bateria).
Parker faz uma súmula bastante convincente e totalmente personalizada do “free jazz”, do “hard bop” e do novo jazz que dispensa catalogações. Já no final dos anos 80 participa numa série de gravações com o pianista Cecil Taylor (“Looking”, “Celebrated Blazons”, “Olu Iwa”, “Melancholy”…), associando-se posteriormente a improvisadores como Peter Brotzmann, Paul Rutherford, Derek Bailey e Peter Kowald, integrando as fileiras da editora FMP (“Free Music Productions”).
O vozeirão do seu contrabaixo, como em Mingus, reivindicativo da primeira pessoa em discurso direto, dá ainda explicações no Little Huey Creative Music Ensemble de Nova Iorque.
O seu álbum mais recente, “Raining on the Moon”, com o selo Thirsty Ear (editora que, segundo alguns, estará a desempenhar neste novo milénio o mesmo papel que a Blue Note nos anos áureos do jazz comprendido entre as décadas de 40 e 60) surge curiosamente inserido numa linha tradicionalista, ou neotradicionalista, onde se cruzam os fumos da “downtown”, a citação bop e o cabaré.
Coimbra será o segundo ponto de passagem do quinteto pela Europa.

William Parker Quartet
Coimbra Teatro Académico Gil Vicente
Às 21h30. Tel. 239855636. Bilhetes a 10 euros (estudantes: 8 euros)

Steve Coleman Group – “Motherland Pulse” + Herb Robertson Quintet – “X-Cerpts” + Herb Robertson Brass Ensemble – “Shade Of Bud Powell” + Hank Roberts – “Black Pastels” + Paul Motian – “Monk In Motian” + Greg Osby – “Mind Games” + Strata Institute – “Cipher Syntax”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 11 Janeiro 2003


Steve Coleman Group
Motherland Pulse
8|10

Herb Robertson Quintet
X-Cerpts
9|10

Herb Robertson Brass Ensemble
Shades of Bud Powell
8|10

Hank Roberts
Black Pastels
7|10

Paul Motian
Monk in Motian
8|10

Greg Osby
Mind Games
5|10

Strata Institute
Cipher Syntax
7|10

Todos Winter&Winter




Os anos 80, segundo a editora Jazz Music Today (JMP), em odisseia de reedições pela Winter & Winter.

Quando o jazz desceu de novo à rua

Coube à editora Winter &Winter a reedição do catálogo da Jazz Music Today (JMT), cujos 81 títulos, remasterizados em 24 bits e embalados em minimalistas mas pouco imaginativos “Smart-Pac” (lá dentro escondem-se as capas originais), estarão disponíveis na sua totalidade até ao final de 2005, à média de nove por semestre.
Na JMT, publicou-se algum do jazz importante dos anos 80, nomeadamente pelo coletivo M’Base (“Macro-Basic Array of Structured Extemporizations”), disposto a repor uma certa “verdade” do jazz como música popular, transcultural e aberta à miscigenação com outras linguagens musicais, sem todavia perder contacto com a cultura negra que lhe está na origem. Steve Coleman orientava a estética e ideologia deste movimento que procurava, de forma mais intuitiva do que sistemática, juntar espiritalidade, ideologia, cosmopolitismo, tradição e modernidade, estrutura e improvisação, no “melting pot” da grande “nação afro-americana”.
“Motherland Pulse”, primeiro manifesto do M’Base, publicado originalmente em 1985, apresenta o saxofonista alto em quarteto com Geri Allen (piano), Lonnie Plaxico (baixo) e Marvin “Smitty” Smith (bateria), com Cassandra Wilson (voz), Graham Haynes (trompete) e Mark Johnson (bateria) como convidados. O bop está presente na ligação do saxofonista ao piano de Allen, os “blues” servem de ponte e abrigo, o funk agita-se num “groove” que era imagem de marca. O registo vocal “frio” de Wilson perde na comparação com as duas melhores peças do disco, “The glide was in the ride”, fabuloso e sensual “drive”, pujante de swing, de Geri Allen, e o título-tema onde a África pulsa, mergulhada em percussões da terra, com Coleman ao mais alto nível, Allen a assinar novo “tour de force” e Plaxico a tirar o máximo partido do arco no telurismo do baixo. Fundamental.
Com o número 13 do catálogo, “X-Cerpts”, do quinteto do trompetista Herb Robertson, nome familiar da cena “downtown” de Nova Iorque, é outra das peças-chave deste lote parcial de reedições. Gravado ao vivo em Wilisau, Suíça, em 1987, é escalada e descoberta do “eu” interior. Dois temas, estruturados em forma de ascese, como o “Amor Supremo” de Coltrane ou as posteriores iluminações de Pharaoh Sanders: “Jiffy jester jig”, de 27m26, e “Karmic Ramifi cations”, de 31m28. Tim Berne, no sax alto e Joey Baron, na bateria, criam amplos espaços de manobra para a improvisação livre em que a trompete, a corneta e o fi liscórnio do líder, viajando por timbres pouco ortodoxos, se embrenham em universos paralelos de um estranho fascínio. A opacidade dos momentos mais obsessivos da música é quebrada pelo vibrafone de Gust William Tsilis, tocado pelas notas de Milt Jackson, embora o seu fraseado seja mais atmosférico e menos denso do que o do homem dos Modern Jazz Quartet. Quem aplaudiu “Witness”, de Dave Douglas, encontrará
aqui matéria igualmente rica de deslumbramento. Ou para se chamuscar num Tim Berne literalmente em combustão nos cinco movimentos das citadas “ramifi cações kármicas”.
No ano seguinte, o mesmo Robertson gravaria uma estranha homenagem à obra pianística de Bud Powell, em “Shades of Bud Powell”, álbum que, paradoxalmente, dispensa o piano — pura diversão em registo de “brass ensemble”, composta por duas trompetes, o trombone de Robin Eubanks, a trompa de Vincent Chancey e a tuba de Bob Stewart. O “bop” veste-se de carnaval “dixieland” em “Un poco loco”, Joey Baron tem na bateria a agilidade de um acrobata, agitando-se como um adolescente no cio ou murmurando nas vassouras uma oração triste como a de “I’ll keep loving you”. Álbum de múltiplos matizes, apresenta momentos admiráveis como o desfile de descobertas arrancadas às entranhas da música de Powell que é “Hallucinations” — termo que defi ne na perfeição a personalidade, não só musical, do mestre.
Ainda mais alucinado é “Black Pastels”, de Hank Roberts (1988), disco estranho que mistura o jazz rock, a “country” mutante, a clássica contemporãnea, cânticos rituais da selva amazónica e a… canção folk/pop. Roberts toca violoncelo, guitarra de 12 cordas e “jazz-a-phone violino”. E canta, algures entre a ingenuidade de Arto Lindsay e o cabaré de Joe Jackson (!). Três trombones: Ray Anderson, Eubanks e Dave Taylor. Joey Baron senta-se à bateria e o notável Mark Dresser discorre no baixo. Bill Frisell pulveriza o seu habitual timbre de alumínio e cetim, num solo abrasivo de rock que redime o título-tema das armadilhas da música de fusão. Esotérico (sempre que Roberts amplifica e liga os pedais de efeitos do seu violoncelo), “hippie” e folk (“Rain village” poderia pertencer à fornada psicadélica de 1967…), exótico à maneira de um Hermeto Pascoal (“Choqueno”), “Black Pastels” entra e sai do jazz com o maior dos desplantes. Entra mesmo pela porta maior no incrível arranjo de “Granpappy’s barn dance death dance (for Daddy Ben Benson)” no qual os três trombones triunfam segundo a ordem sagrada do contraponto.
“Monk in Motian” lê Monk à luz do trio. Ladeado por dois dos seus comparsas familiares, Joe Lovano, no sax tenor, e Frisell de volta aos seus lugares-comuns, Paul Motian estreava-se aqui na JMT com um passeio em redor da música do génio do bop. No “standard” “Straight no chaser”, Dewey Redman introduz uma nota extra de inquietação num álbum que a 15 anos de distância soa como um manifesto de devoção, inteligência e classicismo.
Greg Osby é um dos trunfos do saxofone atual, restam poucas dúvidas sobre isso. Mas no seu segundo álbum como líder, “Mindgames” (1988), mete o pé na argola. Onde “groove” é sinónimo de funk, mas tudo se perde num ritmo quadrado (Sam Samuels chega a ser confrangedor nos binários da idade da pedra) e na adulação de sintetizadores (um deles manuseado por Geri Allen…) enfeitados com texturas de “strings” (ugh!). Mais George Duke que Weather Report, a música de “Mind Games” nunca chega a descolar. Ou, como diz o teórico Jean Wagner, “é impossível ser rico melodicamente quando se é reprimido nas harmonias e no ritmo”. Osby teria de esperar…
Na JMT esperaria pouco tempo, apenas até encontrar Steve Coleman para com ele
reencontrar os bons caminhos do “groove”, em “Cipher Syntax”, carimbado pelo coletivo Strata Institute. O diálogo em exclusivo que ambos travam em “Micro-move” constitui um dos momentos de exceção de um álbum onde o jazzrock recupera a sua dignidade.

Nota: O álbum “Footsteps of our Fathers”, de Branford Marsalis, tem distribuição Dargil e não Trem Azul, como por lapso escrevemos na semana passada.



Spring Heel Jack + Gianluigi Trovesi + Dave Holland Big Band + Carlos Barretto Trio + Bernardo Sassetti + Wayne Shorter + Joe Giardulo, Joe McPhee, Mike Bisio, Tani Tabbal + Roscoe Mitchell & The Note + Branford Marsalis + Andrew Hill + Mark Dresser Trio + Billy Cobham + Mat Maneri + Charles Lloyd + Tom Harrel – Balanço Do Ano 2002 (artigo de opinião / críticas de discos / balanço do ano / 2002 / jazz / listas)

(público >> mil-folhas >> jazz >> artigos de opinião)
sábado, 4 Janeiro 2003

>> Balanço do ano 2002



2002 foi ano de grande jazz em português. A nova editora Clean Feed deu o mote, lançando para o caldeirão dois clássicos instantâneos, com as assinaturas de Carlos Barretto e Bernardo Sassetti. Lá fora, o “free”, o “pós-free” e o que virá a seguir rivalizaram com manifestos de afirmação por alguns dos clássicos eternos, num ano que foi também de boas reedições. À frente de todos pusemos o disco, dos Spring Heel Jack, que mais tem dividido as opiniões. Prova de que, afinal, o jazz conserva intacto o dom de provocar.

01 |
Spring Heel Jack
Amassed (Thirsty Ear, distri. Trem Azul)
Saído das mentes distorcidas, mas livres e visionárias, de dois homens que não faziam parte do jazz – John Coxon e Ashley Wales –, “Amassed”, depois do ensaio prévio que é “Masses”, revolucionou os parâmetros do jazz eletrónico, samplando o que, no passado, pertencera ao domínio do analógico nas visões orquestrais de George Russell ou nas pulsações barrocas do “Synthesizer Show” montado por Paul Bley e Annette Peacock, numa catedral de alucinações que serve de suporte à “free music” remodelada em espiral de loucura por alguns dos seus expoentes – Evan Parker, Han Bennink, Paul Rutherford, Matthew Shipp e Kenny Wheeler. Se até o “bebop”, por altura da sua génese, foi considerado o “fim do jazz”, e Coltrane vaiado como uma farsa, como não conceder igualmente aos SHJ essa suprema honra de provocar em doses iguais a paixão e a repulsa?

02 |
Gianluigi Trovesi
Dedalo (Enja, distri. Dargil)
Celebração orquestral com a WSR Big Band alemã, Markus Stockausen (trompete), Fulvio Maras (percussão) e Tom Rainey (bateria), “Dedalo” recupera o clássico “From G to G”, remontado-o num labirinto onde se cruzam os caminhos do “vaudeville”, Zappa, Ellington, Gil Evans, Don Ellis, jazz progressivo e jazzrock, moídos, destilados e incendiados por uma imaginação delirante. O homem é um feiticeiro.

03 |
Dave Holland Big Band
What Goes Around (ECM, distri. Dargil)
Alguma da música “antiga” deste notável contrabaixista é aqui tornada matéria de novos “standards” pessoais, em formato de “big band” a dar mais volume e cor ao habitual quarteto que tem acompanhado Holland nas suas últimas realizações para a ECM. Enriquecimento e desafio numa proposta de criação de um território instrumental onde leitura, arranjos e improvisação se confundem.

04 |
Carlos Barretto Trio
Radio Song (ed. e distri. CBTM)
Enquanto solista, voz dialogante ou peça de suporte, Barretto confirma a maturidade e a segurança dos seus recursos técnicos, num álbum de múltiplos matizes que conta com a mais-valia do músico francês Louis Sclavis.

05 |
Bernardo Sassetti
Nocturno (Clean Feed, distri. Trem Azul)
Gravado em ambiente de “verdadeira magia” na Quinta de Belgais, “Nocturno” é uma incursão impressionista nos meandros mais íntimos do piano. Como Bill Evans, Sassetti cria a partir da célula e a partir dela inventa a noite.

06 |
Wayne Shorter
Footprints Live! (Verve, distri. Universal)
Trata-se, por incrível que pareça, do primeiro álbum ao vivo deste notável executante dos saxofones tenor e soprano, antigo “sideman” de Miles e cabeça falante dos Weather Report. Impressiona a energia e o lirismo de uma música que alia a investida inquisitiva a uma delicadeza sem limites. Uma pegada impressa com a força de um “statement”.

07 |
Joe Giardulo, Joe McPhee, Mike Bisio, Tani Tabbal
Shadows and Light (Drimala, distri. Trem Azul)
Um lento avolumar de tensões e incandescências em que o jazz “apodrece”, para das suas cinzas se erguer a fénix renascida. O tenor de McPhee gasta-se, corrói, cria andaimes e poços. Giardulo é o nevrótico de serviço. “Shadows & Light” tenta apanhar o além, o dia seguinte ao da catástrofe. E consegue.

08 |
Roscoe Mitchell & The Note
Factory Song for My Sister (Pi, distri. Trem Azul)
Aos 62 anos o multinstrumentista prossegue os estudos fora da selva de mitos dos Art Ensemble of Chicago. Numa conjugação mais formalista do “free” (abrangendo mesmo uma faceta didáctica) com os rituais remanescentes dos AEC, a música ganha alento numa imensa viagem pelos limites do jazz.

09 |
Branford Marsalis
Footsteps for our Fathers (Marsalis Music, distri. Trem Azul)
Cruzamento, ou não, como alguém disse, entre “um ‘cartoon’ de Disney e um pregador evangélico”, o sopro de Marsalis aventura-se em refazer a totalidade de “The Freedom Suite”, de Sonny Rollins, e “A Love Supreme”, de Coltrane. Sobrevive incólume. Mais: acompanha o espírito daqueles dois génios.

10 |
Andrew Hill
A Beautiful Day (Palmetto, distri. Trem Azul)
Sessão ao vivo no Birdland na companhia de Marty Ehrlich e uma “big band”, “A Beautiful Day” é um dia perfeito na mais recente produção pianística de Hill, um dos eleitos que soube unir o bop à vanguarda.

11 |
Mark Dresser Trio
Aquifers (Cryptogramophone, distri. Sabotage)
“Aquifers” faz a transcrição musical dos fluxos de água subterrâneos que fertilizam o planeta. “Acumulação”, “trânsito” e “libertação” funcionam como metáforas telúricas da circulação de frequências, modulação de timbres e planificação de texturas assimétricas cuja energia parece provir, de facto, dessa matriz aquática que alimenta a Terra.

12 |
Billy Cobham
The Art of Three (In & Out, distri. Dargil)
Surpresa, ou talvez não, esta categórica afirmação da arte do trio piano-baixo-bateria pelo baterista jazzrock que, depois da aprendizagem com Miles, ajudou a criar o mito Mahavishnu Orchestra. Tem a seu lado comparsas de luxo: Ron Carter, no baixo, e Kenny Barron, no piano, este último um prodígio de subtileza e capacidade de voo.

13 |
Mat Maneri
Sustain (Thirsty Ear, distri. Trem Azul)
Mais ferrugem da boa. Outro prego cravado no crâneo do “mainstream”. Discípulo de Ornette e Stuff Smith, Maneri arranca com o seu violino a carapaça à música improvisada em aliança perigosa entre electrónica, jazz vertigem e uma permanente dialéctica entre o silêncio e o caos.

14 |
Charles Lloyd
Lift Every Voice (ECM, distri. Dargil)
Lloyd, o asceta encantado pelo budismo, deixa atrás de si um rasto de paradoxos. Desde sempre arreigado a uma visão mística da música, “Lift Every Voice” perdeu entretanto o grito libertário dos primórdios, para se concentrar em mantras e no Grande Espírito onde ardia John Coltrane.

15 |
Tom Harrel
Live at the Village Vanguard (Bluebird, distri. BMG)
Eleito em 2001 pela “Down Beat” “compositor do ano”, Harrell distribui vitalidade, clareza e extroversão. A sua trompete, iluminada pela tradição de Blue Mitchell e Clifford Brown, não ilude porém uma tristeza que em “Where the rain begins” lateja como uma ferida mal sarada.

Discos de 2001 ouvidos em 2002 merecedores de figurarem no top:

Dave Douglas Witness (RCA, distri. BMG)Dave Holland Not for Nothin’ (ECM, distri. Dargil)
James Emery, Joe Lovano, Judi Silvano, Drew Gress Fourth World (Between the Lines, distri. Ananana)
Louis Sclavis L’Affrontement des Prétendants (ECM, distri. Dargil)
Myra Melford & Marty Ehrlich Yet Can Spring (Arabesque, distri. trem Azul)
Steuart Liebig Pomegranate (Cryptogramophone, distri. Sabotage)

REEDIÇÕES:

Ella Fitzgerald Whisper Not (Verve, distri. Universal)
Gerry Mulligan Village Vanguard (Verve, distri. Universal)
John Coltrane Legacy (Impulse, distri. Universal)
Nina Simone Nina Simone and Piano! (RCA, distri. BMG)
Paul Bley, Jommy Giuffre, Steve Swallow The Life of a Trio – “Saturday” e “Sunday” (Owl, distri. Universal)
Sam Rivers Crystals (Impulse, distri. Universal)