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Ricardo Rocha – “Combate Com A guitarra” (entrevista)

(público >> y >> portugueses >> entrevista)
06 Junho 2003

Junta-se ao grupo dos mestres da guitarra portuguesa. O disco aproxima-nos de algo que não se diz em palavras mas se sente como nostalgia do paraíso perdido.


combate com a guitarra



Com “Voluptuária”, Ricardo Rocha, 28 anos, expõe uma nova conceção musical para a guitarra portuguesa que vai do minimalismo à música de câmara, passando pelo ambientalismo e por uma perspetiva original sobre Carlos Paredes.
O neto de Fontes Rocha refuta o virtuosismo, impossível de obter num instrumento que considera “limitado”, mas a verdade é que este duplo álbum com que agora se estreia a solo, “Voluptuária”, materializa essa noção de “benfeitoria” que consiste em tornar o Belo amável. Ou, como se pode ler no texto que acompanha esta edição, “há diletantismo do benfeitor, com o objetivo de deleitar-se ou recrear-se, haja vista que o bem principal a que se junta uma benfeitoria a dispensa, pelo aspeto utilitário ou funcional, mas fica mais formoso ou recreador”.
Além de Carlos Paredes, “Voluptuária” inclui temas de Pedro Caldeira Cabral e composições próprias, fazendo sobressair uma originalidade que é, afinal, e segundo o seu autor, o que de verdadeiramente “genial” pode existir nesta luta mais do que contra com a guitarra portuguesa. Volúpia ou pesadelo?

Na capa do disco pode ler-se: “Voluptuária” “não se explica, não se descreve, não se define”. Mesmo assim, tente lá uma explicação…
A primeira parte do disco é menos acessível. O segundo disco, sem ser totalmente a solo, é mais leve e colorido. Ou menos escuro. Mais para o azul-escuro… As peças para cravo e violino têm a mesma tonalidade.
O seu nome já era conhecido a partir de participações em discos de Carlos do Carmo, Janita Salomé, Sérgio Godinho, Vitorino ou Mafalda Arnauth. Agora estreia-se a solo com um duplo. Que circunstâncias propiciaram que fosse assim?
Em parte foi pelo local de gravação, o Convento dos Capuchos, um sítio magnífico. Depois, não houve aquele compromisso burocrático com as editoras, contratos, essas coisas horríveis… E já tinha bastantes peças feitas. Ia para lá uma vez por semana, ao fim da tarde, e ficava até à meia-noite, duas da manhã… Ao fim de 20 dias o disco ficou pronto.
Quer explicar a razão de ser do título?
“Voluptuária” é o título de uma peça que faz uma aproximação, até obsessiva, entre a palavra e o conteúdo musical. Acho absurdo dar um título ao calha a uma música. Normalmente até demoro mais tempo a encontrar um título do que a compor a peça (risos). Ridículo mas verdadeiro (risos). Mas… no caso de “Voluptuária” tem a ver com “voluptuoso”, “lúbrico”, “prazer”, “deleite”, sem chegar à “luxúria” e ao “lascivo” (risos)…
No disco há uma “Rotina enfadonha” e um “Estaticismo”, por sinal os dois temas mais longos…
“Rotina enfadonha” é uma peça repetitiva, no sentido rítmico, quase hipnótico. Com um lado irónico. Esta rotina pode ser a do dia-a-dia de cada um, embora neste caso fale por mim. Mas é também essa rotina rítmica que, a dado momento, desaparece para dar lugar a outro ambiente, embora, no fim, regresse de novo… O “Estaticismo” é uma peça parada, direcionando-se de uma forma “extática”.
… Já para não falar de uma “Teoria falhada”…
Essa tem a ver com o facto de, quando a estava a fazer, me ter enganado do princípio ao fim. Nesta peça, não foi seguida a regra das 12 notas. Fiz 12 notas quando me apercebi de que a 12ª só aparecia já na série seguinte de notas. Das duas uma, ou fazia tudo do princípio, ou continuava. Ironicamente, apercebi-me de que era mais fácil construir segundo esta nova maneira. Não exigia tanto esforço mental, ou esforço auditivo. É difícil encontrar uma série de 12 notas em que todos os intervalos soem bem.
Faz também uma homenagem tripla ao compositor clássico Alexander Scriabin (1872-1915).
Porque o estilo dessas três peças está de acordo com o de uma determinada fase da música dele. É o meu compositor preferido.
O primeiro CD conclui-se com composições de Pedro Caldeira Cabral. De que forma abordou a música deste compositor?
São peças extraordinariamente bem construídas para a guitarra e todas elas possuem uma inspiração magnífica, ao nível melódico e harmónico.
Sente mais prazer em tocar a música de Caldeira Cabral ou a de Carlos Paredes?
São dois mundos distintos. Ao tocar Paredes, a sensação que se tem é a de uma grande fisicalidade.
É uma música indissociável do seu autor e de uma forma muito particular de a executar?
Mesmo quando outra pessoa toca Paredes, tem de o fazer de forma física. Agora, o tempo, as “nuances”, a dinâmica, é fundamental que seja alterada, sob pena de se cair no ridículo da imitação. É preciso banir a cópia da interpretação e entrar num processo, que não é fácil, de esquecer isso tudo e olhar para a peça como se fosse a primeira vez.
É difícil interiorizar a música de Paredes?
É difícil de interpretar. E o mais difícil é a pessoa abstrair-se da forma de ele tocar. Quando falava de uma forma física, queria dizer de forma enérgica. Sem energia, a música não soa a nada.
O lado trágico na música do Paredes: “apropriou-se” dele?
Sim. E do seu lado misterioso, sobretudo em “A noite”, curiosamente um tema que usa uma linguagem nada habitual nele. É uma peça escura.
Carlos Paredes está para a guitarra portuguesa como Amália para o fado? Uma referência que pode tornar-se “maldição”?
Pode ser perigoso… Mas não sinto isso. A música que faço na guitarra portuguesa não tem nada a ver com ele. Rapidamente percebi que seria inútil continuar um caminho que ele construiu, iniciado e acabado por ele. Ele fez questão de fazer tudo. É quase obrigatório tocar a música dele. Depois, das duas uma, ou se fica preso a ele ou direciona-se a guitarra para outro sítio. Na peça do álbum em que lhe presto homenagem, curiosamente, não estava nada à espera de conseguir compor no estilo do Paredes. Mas, coisa extraordinária, o estilo rítmico, as “nuances” e o carater melódico têm muito a ver com as formas que ele utilizava. Foi a única vez que fiz isso.
Qual o seu álbum preferido de Paredes?
“Movimento Perpétuo”.
Que relação a sua guitarra mantém com o fado?
Uma boa relação. Gosto imenso de tocar fados quando o grupo funciona perfeitamente, como na música de câmara. Mas é raríssimo conseguir estar ao lado de mais duas ou três pessoas que toquem bem ou, melhor ainda, que se entendam, se ouçam uns aos outros. A relação entre a guitarra portuguesa, a guitarra clássica e a guitarra baixo é a que mais se aproxima da minha visão tímbrica. É uma combinação extraordinária.
E com o jazz e a música improvisada?
Há anos entrei para o Hot Clube onde tive umas aulas de piano mas acabei por nunca tocar jazz. A guitarra portuguesa não se enquadra nessa área, nos “standards”. Toquei música improvisada mas nada desse género. Foi engraçado.
A guitarra portuguesa já atingiu os seus limites?
É um instrumento limitado. Não pode tocar um concerto com uma orquestra, por exemplo… Poder pode, o problema é que essa suposta peça teria de ser construída de forma idiomática, para guitarra. Não é como um violino ou um violoncelo que tocam quase tudo. A guitarra, não, é uma coisa limitada, menor, que traz problemas atrás de problemas.
Então que gozo tem em tocá-la?
Não existe gozo nenhum. O confronto e os obstáculos são uns atrás dos outros. Existe, sim, uma sonoridade característica e uma potência, uma projeção de volume que raros instrumentos de corda com trastes têm. Consegue passar por cima de um cravo, por exemplo.
Trata-se, então, de um mundo autónomo?
Um mundo à parte, sim… É limitado em relação a um violino ou a um piano, instrumentos melódicos com uma capacidade extraordinária para executar qualquer tipo de melodia virtuosística. Na guitarra… acabou! (risos). É um instrumento híbrido que acaba por não ser nem melódico nem harmónico. É a única definição real que se pode dar da guitarra portuguesa. Não é clara, nem assumida, nem transparente… A própria guitarra clássica é muito mais completa que a guitarra portuguesa.
Não será um caso de personalidade demasiado vincada?
Digamos que se afoga na sua personalidade (risos).
E, na sua “luta” contra esse “monstro”, já atingiu os limites?
Não me preocupo com isso. Em cada coisa que toco deparo-me sempre com dificuldades. O objetivo principal é ouvir aquilo que quero ouvir e construir as notas que quero construir. Mas por vezes deparo-me com problemas difíceis de ultrapassar. Tento ultrapassá-los, mas sem nunca perder a noção de que não o consigo fazer (risos). Os problemas surgem porque as coisas que quero ouvir, as notas e a sua sequência, são difíceis de executar na prática. Às vezes o que pretendo ouvir não se propicia. Tudo isto terá a ver com o facto de eu também tocar piano e o piano abrir um leque sonoro vastíssimo que depois não pode ser transposto para a guitarra. É uma tragédia! (risos).
Subentende-se que tocar guitarra portuguesa é uma luta sem quartel?
Uma luta permanente. Angustiante e frustrante. É um desafio mórbido. Chega-se ao fim de 50 ou 60 anos a tocar o instrumento e continua-se com os mesmos problemas. É uma aberração! (risos).
O que é então ser-se um virtuoso neste instrumento?
Não conheço ninguém virtuoso na guitarra portuguesa. Virtuosos são Liszt, Glen Gould, Keith Jarrett. Esse virtuosismo não existe na guitarra portuguesa. Porque não apareceu nenhuma pessoa que o demonstrasse e porque o próprio instrumento impossibilita-o. Não está preparado nem musical nem fisicamente para entrar nesse alto jogo.
Por vezes dá a ideia de que a guitarra portuguesa é como que um instrumento “mecânico”, como um realejo, em que determinadas sequências de notas parecem impor-se naturalmente…
Sim, há essa imposição, não dá hipóteses de escolha. Se não for assim, não pode ser de outra maneira.
Já se sujeitou, já está convencido, a guitarra venceu-o?
Teoricamente sei isso. Mas na prática não o faço. E como não faço isso, sujeito-me a esse confronto constante com o instrumento, com dissabores técnicos e problemas dramáticos. É um pesadelo!
Tem mestres da guitarra portuguesa?
Carlos Paredes, o meu avô [Fontes Rocha], José Nunes. Todos geniais.
Voltando à carga: o que é ser-se genial na guitarra portuguesa?
Essencialmente, ter uma abordagem e um estilo pessoais, que é das coisas mais difíceis de conseguir. Ter um som impossível de imitar.
Nunca pensou, como forma de ultrapassar esses problemas técnicos que aponta, em efetuar no estúdio gravações em multipistas?
Como transformar uma guitarra em várias? Não, nunca! Isso é uma coisa não muito honesta. Cheguei à conclusão de que o que interessa é poder executar, em qualquer circunstância, o resultado final. Apesar dos problemas serem quase intermináveis…



António Ferreira – “Música De Baixa Fidelidade”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
06 Junho 2003


ANTÓNIO FERREIRA
Música de Baixa Fidelidade
Plancton Music
8|10



“Música de Baixa Fidelidade” foi editado em 88, pela Ama Romanta, na mesma altura que “Plux Quba”, de Nuno Canavarro. Dois álbuns que criaram em Portugal as bases de uma eletrónica situada na confluência da pop com a música contemporânea dita erudita. “Música de Baixa Fidelidade”, então assinada pelo seu autor como TóZé Ferreira, assume o seu carácter programático, quer ao nível prático da realização sonora, quer ao nível de uma teorização que põe em confronto as noções de “hi-fi” e “lo-fi”, daí decorrendo a sensação de uma certa “frieza”. Se os exercícios de manipulação da voz, como “More adult music”, “This is music, as it was expected” e “O Verão nasceu da paixão de 1921” evocam operações paralelas de Paul de Marinis, Robert Ashley e Carl Stone, todo o tratamento de sinais sonoros evidenciam uma coerência que lhe garante estatuto de obra fundamental no universo da música portuguesa atrás definido. Conceitos matemáticos ou de interatividade entre diversos parâmetros musicais (escala, afinação, modo, ritmo) “adulterados” via programação ganham vida própria e uma limpidez sonora (acentuada pela remasterização) que parecem querer contradizer o título. É, além do mais, um prazer para o cérebro.

@C – “Hard Disk” + Pedro Tudela – “Là Où Je Dors” + Longina – “!Siam Acnun” + Vítor Joaquim – “La Strada is on Fire (and we are all Naked)”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
06 Junho 2003

@C
Hard Disk
8|10

PEDRO TUDELA
Là où je Dors
8|10

LONGINA
!Siam Acnun
7|10

VÍTOR JOAQUIM
La Strada is on Fire (and we are all Naked)
8|10

Todos ed. Crónica, distri. Matéria Prima


@c, pedro tudela, vítor joaquim e longina
crónicas da terra digital



“Crónica” é nome de série de uma nova editora nacional de eletrónica. Com informação áudio e vídeo e “links” diretos ao neurónio mais próximo. Primeira edição da coleção, “Hard Disk”, dos @c (Miguel Carvalhais, Pedro Almeida e Pedro Moreira) inclui seis disseminações sónicas e um vídeo da programadora gráfica e artista digital Lia. Refrações industriais, vozes enforcadas numa linha de montagem de clones psicóticos, ordenadores de batidas digital/tribais. Pan-Sonic, Cabaret Voltaire de “Mix-up” e “Voice of America” em versão rolo compressor são enxertados na memória. Forward. Valsas ao longe, frequências “limpas” e “sujas”, sinais de rádio, dissecação do interior de um “chip” com vida. “Hard Disk” é uma ampliação, um ato de voyeurismo que tira prazer do processamento digital. Os sons nascem do vazio e a ele regressam. Mas analise-se a radiografia sonora desta sequência de tempo e encontrar-se-á um universo em metamorfose evolutiva. Crónica número um da terra digital: aprovada sem reservas para usos indiscriminados.
Crónica número dois. Pedro Tudela sai do coletivo @C para apresentar “Là où je Dors”. Onde o coletivo opta por apenas numerar cada tema, Tudela intitula os seus com termos como “Forest”, “Carrousel” (alô cluster), “man that can not touch woman”, “Mermaids”, “Bed of Clouds” e “Delirium with dolls”. Sabe-se da importância da palavra poética enquanto fator de indução de imagens. Desta conjugação Tudela faz surgir drones das quais vão emergindo batidas de “ambient tecno”, cortadas por arranhões nos locais mais extravagantes da rede sónica, efeitos de “delay” e “phase”, sobreposições, ecos, súbitas eclosões de ruído seguidas de contrações e aspirações. “Là où je Dors” pode ser um complemento dos @C em que o composto sonoro abre mais uma janela, deixando antever uma fauna e uma flora não menos monstruosas onde cada aberração é capaz de espantar por uma conceção do Belo que se infiltra como uma doença. Aprovada para uso farmacológico ou para contemplação em estados de consciência alterados.
Crónica número três. “!Siam Acnun” (“Nunca Mais”, ao contrário) do galego Longina. Algumas fórmulas rítmicas semelhantes às dos @C, mas recuperando o “groove” com patas de inseto de Victor Nubla sob a designação Xjacks, o “swing” dinossáurico, terrivelmente aditivo, dos Esplendor Geometrico ou o minimalismo dos Rechenzentrum. Baixo de jazz moribundo, piano-anagramas, binários de tribos perdidas, cortam as batidas daquela que, das quatro, será a crónica mais perto de se poder dançar mas também a que mais se aproxima de alguns estereótipos do género. Aprovado para sessões de terapia de hipnose de regressão.
Crónica número quatro. “La Strada is on Fire (and we are all Naked)” de Vítor Joaquim. Com Martin Archer (saxofones processados), Rodrigo Amado (saxofones), Victor Coimbra (baixo) e Mariana F (voz). E pedaços de sons extraídos de emissões de TV, uma “velha estrela de rock” e “um discurso de Bill Clinton (depois de um bombardeamento com danos colaterais). Ainda a eletrónica como máquina de sonhos fabricados a partir de recortes da realidade mesmo que a “realidade” não seja mais do que a fenomenologia de um mundo “exterior” que nos é vedado. A estrada está a arder mas não nos damos conta. E Vítor Joaquim filma o vazio do pós-incêndio. Os saxofones conferem uma nota de psicadelismo-etno e “alien jazz” a uma música que ocasionalmente evoca os SPK na sua vertente mais ritual. Aprovado como banda-sonora de um “peep show” para o pós-Apocalipse.