Arquivo mensal: Agosto 2017

Fridge – “Eph” + Labradford – “E Luxo So”

Sons

22 de Outubro 1999
POP ROCK


Atom Darth Vader

Fridge
Eph (9)
Go Beat, import. Lojas Valentim de Carvalho
Labradford
E Luxo So (8)
Blast First, import. Lojas Valentim de Carvalho


fridge

lab

Com “Ceefax” e “Semaphore” os Fridge já tinham lançado o aviso de que são uma banda para seguir de perto, capaz dos mais altos voos. E se qualquer destes álbuns dava já indicações de estarmos perante um grupo que não se contenta em seguir os mandamentos do pós-rock, com as obrigatórias vénias ao krautrock ou ao Progressivo, o novo “Eph” explode como uma estrela em direcção a um sinfonismo electrónico tingido pelo jazz e por uma pop instrumental estratosférica. Sim, pop, leram bem, mas uma pop com a forma de vapores, perfumes e cintilações desconhecidos na Terra. “Ark” abre o disco com pulverizações de uma beleza asfixiante, aumentando progressivamente de densidade e deixando entrar elementos residuais, segundo o método Biota/Mnemonists, até ao sufoco final. “Meum” é ambiental, minimal, cristal, claustro, zen, new age para curar robôs neuróticos. O ritmo fragmenta-se e surgem vozes interceptadas do éter, em “Transience”, antes de uma lenta ascensão conduzir a lugares que seria melhor evitar. O psicadelismo entrou no pós-rock com este tema monumental. Em “Of” o espectro de um avião Concord revela uma paisagem bucólica/minimalista habitada pelos Biosphere. Refracções, feedback e delay obscurecem “Tuum” que, em “Sad ischl” deriva para uma incursão de saxofones jazzy à la Tuxedomoon (de “Desire”) sobre harpejos de sintetizador analógico e uma melodia celebratória do crepúsculo da Europa que traz ecos de “Desperate Straights”, da conjunção Henry Cow Slapp Happy. “Yttrium” consegue aquilo que os Stereolab andam há anos a tentar: a “easy listening” do futuro. O longo tema derradeiro, “Aphelion”, começa por instalar-se nos territórios do free rock abertos pelos Isotope 217º e Supersilent, uma música visceral com raízes na estética de jazz tribal cultivada pelo selo ESP nos anos 60, para finalmente entrar, e nunca mais sair, num mantra psicadélico de violinos que levantam o pano do teatro de música eterna de LaMonte Young. O que os Tortoise deixaram por fazer em “TNT” lograram os Fridge concluir de forma admirável com “Eph”, o pai do pós-rock sinfónico, o guerreiro-vilão, como Darth Vander, capaz de manejar o lado negro da força. A capa, curiosamente, lembra “Atom Heart Mother”, dos Pink Floyd, sem a vaca.
O novo dos Labradford dá sono. Mas calma, não se vão já embora! Acontece que “E Luxo So” é o álbum mais terapêutico que ouvi nos últimos tempos. O sono chega como uma bênção para nos mergulhar num estado de semi-realidade onde os sons são como nuvens que se formam e desfazem adquirindo as formas que a imaginação lhes quiser dar. Mais ainda do que no anterior “Mi Media Naranja” os Labradford deixam falar o silêncio através de guitarras reverberantes, pianos e cordas hipnóticos e electrónica soporífera. No tema nº 3 (sem título, como todos os outros), a música sugere uma junção de Roger Eno com “Alan’s psychedelic breakfast” um tema dos Pink Floyd, de novo do álbum “Atom Heart Mother, enquanto o nº 6 poderia ser uma vinheta de “Another Green World” de Brian Eno. Mas quando julgamos poder descansar neste estado de contemplação algo avisa de que uma realidade diferente pode estar escondida por detrás: zumbidos, frequências quase inaudíveis atravessam periodicamente “E Luxo So” como sinais provenientes de outra dimensão. Percebemos então que o que os Labradford fazem é empurrar-nos suavemente para o outro lado do espelho.



William Orbit – “Pieces in a Modern Style”

Sons

29 de Outubro 1999
POP ROCK


William Orbit
Pieces in a Modern Style (5)
Ed. e distri. Warner Music


wo

A ideia é tudo menos original: transpor para teclados electrónicos partituras de peças de compositores eruditos. E se Walter Carlos, mais tarde Wendy Carlos, foi o primeiro a adaptar a música barroca ao seu sintetizador Moog, na série “Switched on…”, como em “Switched on Bach”, coube ao japonês Isao Tomita criar obras, algumas delas brilhantes, com base em transposições, quase nota a nota, para uma panóplia de sintetizadores, de Tchaikowsky, Stravinsky, Mussorgsky, Holst ou Debussy, entre as quais “The Planets”, “Kosmos” e sobretudo “Firebird”, uma fabulosa arquitectura erguida sobre a suite do mesmo nome composta por Stravinsky. William Orbit repete o processo, com a diferença de que em vez dos velhos Moogs, A.R.P.s e EMS usou tecnologia digital para elaborar uma série de exercícios entre o chill-out e a new age de peças de Samuel Barber, John Cage, Erik Satie, Pietro Mascagni, Maurice Ravel, Beethoven, Handel e Górecki. Em termos formais a utilização dos timbres electrónicos raramente ultrapassa o convencional, nalguns casos o sinfonismo “made in studio” aproxima a música dos tais trabalhos, gravados nos anos 70 e 80, por Tomita, enquanto noutros a música se limita a ser muzak para bibliotecas e academias de arte, algures entre a “Discreet Music” de Brian Eno e as longas litanias de silêncio de David Sylvian. Nada de novo sobre a Terra, ou melhor, na órbita da Terra, ainda que o seu autor declare ter procedido de acordo com o “estilo moderno”. Na verdade, “Pieces in a Modern Style” é um álbum tão agradável quanto reaccionário.



Arto Lindsay – “Prize”

5 de Novembro 1999
DISCOS – POP ROCK


Prémio de consolação

Arto Lindsay
Prize (6)
Rykodisc, distri. MVM


al

Dá ideia de Arto Lindsay ser, digamos, um TS compulsivo. Já no ano passado, durante a conferência de imprensa de apresentação do festival Mergulho no Futuro, o antigo músico dos Lounge Lizards enviava todas as temáticas abordadas para o ficheiro “sexo”. Agora, no seu quarto álbum inspirado na música brasileira, ilustrou o livrete com uma panóplia de figuras que tanto sugerem próteses ortopédicas como artigos de “sex shop”, esculturas de cristal ou objectos dada. Será, talvez, por “Prize” ter sido composto no Brasil durante o Carnaval…
Cansado dos excessos cometidos na juventude, quando militava nas fileiras da “no wave”, mais tarde do jazz downtown e do swing “sujo” dos Lounge Lizards, Arto iniciou com “O Corpo Sutil” uma série de trabalhos em que procurou definir os contornos de uma nova música resultante da fusão da sensualidade, por vezes onanista, da bossa nova com o experimentalismo sonoro e a incorporação das novas correntes de dança como o hip hop ou o drum ‘n’ bass, a par do exotismo conferido por vocalizações em português.
Composto na Baía durante o período de Carnaval e gravado em Nova Iorque com a participação de alguns dos seus habituais convidados (Vinicius Cantuária, Melvin Gibbs, Peter Scherer, Brian Eno…) e, desta feita, também com o violinista Eyvind Kang e o “rapper” Beans (dos Anti-Pop Consortium), “Prize” corresponde ao desejo de Arto de fazer um álbum mais duro que os anteriores “O Corpo Sutil”, “Mundo Civilizado” e “Noon Chill”.
Com efeito, se temas como”Prefeelings” (insuflados com as vozes do “homem do elevador”, de Heiner Goebbels, um álbum que, cada vez mais, parece “indescartável” de Arto Lindsay…) e “Unsure” (drum ‘n’ bass escorreito) correspondem de facto a esse endurecimento de som, a maioria, porém, desenvolve, sem lhes acrescentar algo de verdadeiramente novo, as premissas anunciadas antes, com a habitual tónica na bossa nova e, neste caso, atendendo à especificidade do local e das condições em que foi composto, também no samba.
Arto tornou-se, sem dúvida, um símbolo de uma certa modernidade – num registo semelhante ao de Ryuichi Sakamoto – que privilegia o estilo e cultiva a distância e a ironia, mas não consegue evitar a sensação de uma superficialidade que, aliás, é cultivada. “Prize” seduz numa primeira audição, mas nem a complexidade instrumental nem o rigor de produção conseguem disfarçar a evidente falta de ideias quando Arto se propõe ilustrar em português as suas concepções pessoais sobre a bossa nova. Aspecto em que fica a milhas de distância de qualquer dos trabalhos editados, quase em paralelo com os seus, por Vinicius Cantuária.
Formalmente interessante, pejado de artimanhas e “puzzles” electrónicos, “Prize”, fazendo embora jus ao Carnaval que tenta evocar, acaba, no entanto, por se iluminar naquele que é, de longe, o tema de maior fulgor do disco: “O nome dela”, pronunciado com o mesmo balanço nordestino e a simplicidade do melhor David Byrne.