Arquivo mensal: Julho 2017

Solás – “The Words that Remain”

Sons

26 de Março 1999
WORLD


Palavras para quê?

Solas
The Words that Remain (9)
Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção


solas

As palavras que permanecem são como as árvores. Criam raízes na alma, florescem e frutificam. Da mesma forma, os Solas cresceram de tal forma desde o seu álbum de estreia, “Solas”, gravado em 1996, passando por “Sunny Spells and Scattered Showers”, do ano seguinte, que, também eles, dão a provar o sabor da eternidade. “The Words that Remain” é, seja qual for a perspectiva com que o encaremos, um clássico.
Em primeiro lugar, no que julgamos ser a característica mais importante da música de raiz céltica, é a maneira como nos faz mover por dentro, como nos transporta para territórios anímicos que só a melhor música tradicional da Irlanda é capaz de revelar. Há aqui um segredo, um sortilégio qualquer que os Solas descobriram. O mesmo segredo de que, no passado, apenas os The Bothy Band e os Planxty foram detentores. Karan Casey, a cantora do grupo, é absolutamente espantosa em todas as suas intervenções, a começar pelo tema de abertura, uma versão e interpretação vocal de antologia de um original de Woodie Guthrie, “Pastures of plenty”, pondo a vibrar a mais ínfima célula do corpo. O mesmo acontece em “The grey selchie”, “Song of choice” (em dueto com a cantora country Iris de Ment, duas vozes em estado de graça, numa comunhão perfeita de intenções e de timbres), “I am a maid that sleeps in love”, “A chomaraigh aoibhinn ó” (tem que se ouvir para se acreditar, a grande arte não se explica, vive-se) e “Sráid an chioig” (Enyas e Loreenas deste mundo aprendam como se toca no paraíso sem ser preciso ir ao supermercado…) constituem outros tantos momentos de excepção. Ainda da voz de Karan diga-se que possui a mesma dimensão épica – ao mesmo tempo parecendo pertencer a uma criança e carregada de experiência – de Dolores Keane (enquanto jovem e não maculada pelo álcool…), Triona Ní Dhomnaill e Cathy Jordan. Depois, em termos instrumentais, os Solas, liderados por esse prodigioso multinstrumentista que é Seamus Egan, positivamente explodem de talento, bom-gosto e técnica de execução. “The stride set” (reels, com a presença do banjo de Bela Fleck), com passagem pela Galiza, com seguimento para “The waking up set” (jigs), trazem-nos à memória algumas das páginas douradas do “Irish folk revival” dos anos 70. Também para inscrever nos compêndios fica a conversa a três entre a flauta de Seamus Egan, o violino de Horan e a concertina de Mick McAuley em “The vega set”. Num registo de doçura, o violino de Winifred Horan afaga e afasta os medos nocturnos, em “La bruxa”, enquanto a descontracção evidenciada em “Sproggies set” é de fazer morrer de inveja a concorrência. Ouçam, com máxima urgência, “The Words that Remain”. Mais palavras para quê?



Bagad Kemper – “Hep Diskrog”

Sons

25 de Junho 1999
WORLD


Os “ladrões” de Bagad

Bagad Kemper
Hep Diskrog (9)
Keltia, distri. Megamúsica


bk

É a primeira grande surpresa da folk europeia deste ano. Vinda de onde menos se esperaria: do universo, até agora perfeitamente delimitado, das bagads bretãs. Com o seu novo álbum, “Hep Diskrog”, a nossa bem conhecida Bagad Kemper (já tocou na segunda edição do Intercéltico) mandou às favas a tradição (das bagads, já se vê…), obrigando a repensar o papel deste tipo de formações no futuro da música da Bretanha. Concebidas para um tipo de música mais em força do que em jeito, equivalentes às “pipe bands” militares escocesas, as bagads são compostas por três secções instrumentais de gaitas-de-foles, bombardas e percussões. Concorrem entre si em inúmeros festivais organizados para o efeito, sendo o impacto sonoro que provocam absolutamente estarrecedor, sobretudo quando não uma mas várias bagads se juntam para tocar ao mesmo tempo. “Hep Diskrog” foge a estas regras, propondo uma abordagem de outro tipo. O título-tema, composto pelo director artístico da formação, Jean-Louis Hénaff, e apresentado no campeonato de bagads de Lorient de há dois anos, é uma “suite” de 19 minutos em que as gaitas, as bombardas e as percussões percorrem uma gama de registos que, sem perderem a energia e o poder dos uníssonos característicos de uma bagad, colocam o acento na composição e na demonstração de um fabuloso trabalho de arranjos, numa sequência de movimentos que atinge as raias do épico. Não há Irmandade das Estrelas, Riverdance ou Héritage des Celtes que resista a esta maré vibrante trazida pela Bagad Kemper, um colectivo em actividade desde 1949 e que, à beira do novo milénio, arvora a bandeira da revolução. Além de “Hep diskrog”, “Karreg an tan” e “C’hoarzadeg”, outros dois títulos extensos, ou “Ela ela”, com um toque oriental, permitem à Bagad Kemper competir, de igual para igual, com formações de estéticas mais evoluídas como os Skolvan, Strobinell, Storvan ou Skeduz. Gilles Le Bigot e Johnny Clegg (no último tema, “Emotional allegiance”, um choque para muitos, onde a Bagad Kemper franqueia sem vergonha as portas da pop de fusão – da Bretanha com África – num tema que faria miséria nos tops!…) são alguns dos convidados de um disco absolutamente surpreendente e, voltamos a frisar, revolucionário.



Norma Waterson – “The Very Thought of You” + Lal Waterson & Oliver Knight – “A Bed of Roses”

Sons

23 de Julho 1999
WORLD


Waterson & Waterson, o génio em família

Norma Waterson
The Very Thought of You (10)
Hannibal, distri. MVM
Lal Waterson & Oliver Knight
A Bed of Roses (8)
Topic, distri. Megamúsica


lal

“The Very Thought of You” apresenta uma das vozes com mais profundidade e carregada de emoção da música popular inglesa. E não dizemos folk, porque Norma Waterson é, hoje, a voz de muitas músicas. A veterana cantora dos Watersons, formação vocal pioneira do movimento de revivalismo folk que eclodiu em Inglaterra nos anos 60, faz-se acompanhar neste álbum – dedicado à sua irmã, Lal Waterson, recentemente falecida – por dois membros do clã Carthy, o marido, Martin, e a filha, Eliza, e por dois Thompson, Richard, o ex-Fairport Convention, e Danny, o ex-Pentangle. E é, precisamente, na composição assinada pela irmã, “Reply to Joe Haines” – resposta a uma carta, considerada “infame” pela cantora, publicada no “Daily Mirror” pelo dito Haines, a propósito da morte, de sida, de Freddie Mercury –, que “The Very Thought of You” atinge um grau de intensidade emotiva e uma beleza quase insustentáveis. Um tema para a eternidade.
Na canção anterior (Norma juntou-as aos pares sobre um mesmo tema), “Love of my life”, com a assinatura do próprio ex-cantor dos Queen, Norma faz coincidir o passado e o presente, o amor e a tragédia, num registo influenciado pelo pessimismo caro a Richard Thompson, que aqui contribui com dois temas da sua autoria: “Josef Locke”, outro dos momentos de maior intensidade interpretativa do disco, e “Al Bowlly’s in heaven”, ainda sobre a temática da morte, neste caso de Fred Astaire. Loudon Wainwright II, Nick Drake (“River man”, outro clássico, transformado num tema de folk de câmara pelo violino da filha, Eliza Carthy) e John Martyn (com “Solid air”, folk-jazz ao mais alto nível), dois nomes cujas obras têm em comum mais do que se possa imaginar, e Clive Gregson contribuem também com composições para “The Very Thought of You”. Um álbum que vai do clássico “Over the rainbow”, do filme “O Feiticeiro de Oz”, aos dias da rádio e ao jazz que se ouvia na rádio (o título-tema), das baladas mergulhadas num tempo já desaparecido à própria suspensão da temporalidade.
Em “The Very Thought of You” Norma Waterson pegou em canções com história e atirou-as para os braços da eternidade. Não há muitas cantoras, no mundo inteiro, que consigam aliar a tradição e a modernidade da maneira como ela o faz. Depois da estreia, com o álbum homónimo, de 1996, Norma Waterson assina em “The Very Thought of You” um dos melhores discos do ano.
Disco do ano foi, em 1997, para este suplemento, “Once in a Blue Moon”, de Lal Waterson e Oliver Knight. À semelhança do que acontece com Norma, que se socorreu dos serviços da filha Eliza, em “The Very Thought of You”, também Lal gravou “A Bed of Roses” com a ajuda do filho, Oliver Knight, o que já se verificara aliás, no disco anterior da dupla. Em “A Bed of Roses” há mais folk e menos fantasmas à solta do que em “Once in a Blue Moon”. E um pedaço de fado (!), pelo bandolim de Jody Stecher, em “Columbine”. Compreende-se, mais do que nunca, ao escutar temas como “Bath time” ou “Long vacation”, a influência que a cantora inglesa exerceu em Marianne Faithfull. E, no lugar onde ambas se encontram agora, decerto que Lal e Nico se terão encontrado para trocar segredos e maldições.
Em Lal Waterson, na sua voz impregnada de histórias, quase todas elas tristes, habitava o desamparo e a solidão dos exilados. Mesmo quando a intrusão de uma guitarra eléctrica “progressiva” se faz sentir, como acontece em “Train to bay”, é impossível escutar “A Bed to Roses” sem sentir uma gota fria de inquietação. E deslizar por um abismo de recordações saídas dos recantos mais escuros da memória, cercados por uma coroa de flores como as da capa, tão geladas quanto a voz e a música de Lal Waterson, uma cantora que ficará para a história como das mais enigmáticas da folk britânica. O tema, já sem a sua voz, é o espaço que fica depois da morte. Um espaço vazio.