Arquivo mensal: Dezembro 2016

Amon Düül II – “Yeti”

Pop Rock

26 Fevereiro 1997
reedições

Amon Düül II
Yeti
MANTRA, DISTRI. MEGAMÚSICA


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“Kraut rock”. O termo incha à medida que vai servindo de alimento a um número cada vez maior de bandas genericamente encaixotadas no pós-rock. Nos anos áureos do “kraut rock”, entre 1970 e 1974, os Amon Düül II estiveram sempre um bocado à margem das principais correntes surgidas durante este período na Alemanha, faltando-lhes em disciplina e orientação programática o que lhes sobrava em liberdade e alienação.
“Yeti”, editado originalmente em 1970, em álbum duplo, sucede às desbundas ácidas de “Phallus Dei”, organizando as típicas “space jams” herdadas das bandas californianas (Grateful Dead, Jefferson Airplane) em moldes mais elaborados e inconfundivelmente europeus. Utilizando um esquema que se repetiria no álbum seguinte, o também duplo “Tanz der Lemminge” (mais divulgado na edição inglesa, “Dance of the Lemmings”), “Yeti” divide-se numa parte “escrita”, preenchida por temas de uma solenidade cinematográfica, e outra onde predominam as longas improvisações, oscilando entre o brilhantismo e a total incongruência, conforme batia o LSD. Álbum de transição, marcado pela distorção e violência das guitarras e por efeitos de electrónica ainda relativamente discretos, contém já os genes de onde nasceriam as duas obras-primas do grupo, o já citado “Tanz der Lemminge” e “Wolf City”, ambos referências absolutas do rock alemão. (8)



Dashiell Hedayat – “Obsolete”

Pop Rock

19 Fevereiro 1997
reedições

Dashiell Hedayat
Obsolete
MANTRA, DISTRI. MEGAMÚSICA


dh

Não é um disco obsoleto, mas um disco místico. Quando saiu, em 1971, na Shandar, com importação nacional, foi sofregamente adquirido pelos que, nessa época, andavam apanhados pelos Gong. Porque “Obsolete” é, de certa forma, um disco dos Gong. Daevid Allen, Didier Malherbe, Pip Pylem, Gilli Smyth e Christian Tritsh são os músicos participantes. Ou seja, a mesma formação de “Camembert Electrique”, que antecede a fabulosa trilogia “Radio Gnome Invisible”. Mas quem era, afinal, Dashiell Hedayat? Um poeta das relações dos seus homólogos da “beat generation” norte-americana, Ginsberg e Kerouac. E de William Burroughs, que aparece a meter a sua colherada vocal em “Obsolete”. Antes, Hedayat integra os Melmoth, com quem gravou “La Devanture des Ivresses”, cuja música pode ser apreciada num tema da colectânea “In the Land of Mantra” (ver POPROCK de 15 de Janeiro).
“Obsolete” é, como se depreende, um trabalho de desvairados. Preenchem-no dois temas longos. O primeiro, “Eh, mushroom, will you mush my room?” (o título é, por si só, um delírio), dividido em três partes, é uma “trip” psicadélica à maneira dos Gong, com declamações repetitivas de Hedayat, Gilli Smyth a espalhar gritos e gargalhadas com reverberação no infinito, guitarras ensopadas em ácido, o sax demencial de Malherbe e baladas de balouço na tradição dos Faust. O final tem Hedayat a ladrar e um epílogo imoral enunciado por William Burroughs.
“Cielo drive/17”, o outro tema, é uma viagem mais violenta pelo lado surreal do universo do ácido e dos bules voadores. Baixo obsessivo, rajadas cósmicas de sintetizador, uma voz de criança soprada da via-láctea e guitarras “from outer space” fazem de “Cielo drive/17” um clássico do “space rock”, entre “You shouldn’t do that” dos Hwkwind (de “In Search of Space”), “Continental Circus”, dos Gong, e as desbundas alucinadas do segundo lado do álbum de estreia dos Faust. Para ouvir com o volume no máximo.
Uma peça-chave da galáxia de “Canterbury”, com localização no seu quadrante mais longínquo. “Welcome to the planet!…”. Absolutamente obsoleto e indispensável. (9)



Pop Rock

5 Fevereiro 1997
reedições

The Who
The Who by Numbers (6)
Who are You (5)
POLYDOR, DISTRI. POLYGRAM


who

who_are_you_album_cover

A questão que Pete Townshend colocava em 1975, com “The Who by Numbers”, para os The Who, consumado o êxito e a qualidade dos projectos anteriores, “Who’s Next” e “Quadrophenia”, dizia respeito à própria sobrevivência artística do grupo que, à época, começou a ser hostilizado pela imprensa. Para o guitarrista, chegado aos 30 anos de idade (“espero morrer antes de ficar velho”, foi a declaração proferida por si nessa altura, acabando por ser o baterista Keith Moon a levá-la à prática), era a confrontação com o estatuto de “star” e a verificação de se andar a imitar a si próprio, nos “clichés” dos espectáculos ao vivo. “Slip kid”, o tema de abertura, coloca desde logo o problema da liberdade, pessoal e artística, desde sempre duas obsessões do músico. A resposta foi dada através de um trabalho de depuração do “rock’n’roll”, das guitarras, desenvencilhadas da anterior carga de formalismo, e da voz, tornada imagem de marca do grupo, de Roger Daltrey.
Três anos depois, em “Who are You”, o derradeiro álbum com a presença de Keith Moon, que viria a falecer vítima de todos os excessos, os sintetizadores reapareceram, após o pioneirismo minimalista, num contexto Rock, de “Who’s Next”, para pintar velhas inquietações, agora revertidas, de novo, para preocupações religiosas, mas já libertas da alçada do guru Baba Yaga. O “punk” eclodira entretanto, havendo uma contradição entre o facto de os The Who serem pais espirituais do movimento e ao mesmo tempo, neste álbum, renegarem os seus princípios estéticos (?) e o seu niilismo. “Who are you” está, de facto, mais próximo, por vezes, da pop electrónica, da pompa sinfónica FM e do “disco” que da rebeldia “punk”. “Who are you”? A pergunta fazia todo o sentido, nessa constante procura de Pete Townshend, de uma relação mística entre o grupo e o seu público. Mas a época era de raiva e os The Who não resistiriam, vindo a ser esmagados pelo mito que eles próprios haviam criado. Estes dois álbuns ajudam a perceber porquê. Agora remisturados, remasterizados, reembalados e aumentados com temas extra.