Arquivo mensal: Dezembro 2016

The Mystic Astrological Crystal Band – “Flowers Never Cry”

Pop Rock

26 Fevereiro 1997
reedições

The Mystic Astrological Crystal Band
Flowers never Cry
DEMON, DISTRI. MEGAMÚSICA


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The Mystic Astrological… Devem estar a gozar. Não, irmãos, a coisa é séria. “Flowers never Cry” é um exemplar, até agora desconhecido, da grande saga de loucura que atravessou o ano mágico de 1967, que agora chega para nos torrar o juízo.
Os Mystic Astrological são o produto lancinante emanado da mente de um tal Steve Hoffman e “Flowers never Cry” uma enxurrada de LSD que levou, na época, algumas outras mentes, não menos perturbadas, a verem neste quinteto norte-americano um possível competidor dos Beatles. De facto, são dois discos num, gravados no mesmo ano de graça de 1967, e as primeiras reacções que provocam são a incredulidade e o riso. Não pode ser. Começa com assobios e prossegue numa pop de brinquedo pela psicadelia mais iluminada desde que Syd Barrett abriu com os Pink Floyd “the gates of dawn”. É do estilo do ácido transformar em assuntos de vida ou de morte as coisas mais triviais. “Barnyard philosophy”, “Geometry alley”, “Le vent”, “Sunbeams and rainbows”, “I think I’ll just lie here and die”, “Ah ah ah ah”, “Krystalyze”. Humor, vozes mediúnicas, “sitars”, marimbas, guitarras de Natal, “Vietnam karate”, declamações, filosofia barata, penteados à Mike Flowers, os anos 60 à deriva numa felicidade sem leme. Beatles, Pink Floyd, San Francisco, Monkees, Tyrannosaurus Rex, Beach Boys, ficção científica, Greenwich village, tudo misturado num chapéu de feiticeiro donde brotam melodias de uma beleza descaradamente “kitsch”. Meus irmãos, em 1967, a “trip” não começava por “E” nem dava para curtir nas discotecas. Eram dois dias de viagem pelo outro mundo sem garantia de regresso. Steve Hoffman era a imitação de um génio ou são ainda os efeitos da ressaca? (8)



René Lussier – “Fin du Travail (Version 1)”

Pop Rock

26 Fevereiro 1997
reedições

René Lussier
Fin du Travail (Version 1)
AMBIANCES MAGNÉTIQUES, DISTRI. AUDEO


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René Lussier é um guitarrista canadiano da estirpe de Fred Frith que alia uma descomunal mestria técnica a um não menos descomunal sentido de humor. Fez parte dos Conventum e ajudou a criar o país musical da Recommended, hoje tornado um nicho com uma filosofia e estética próprias, imediatamente reconhecíveis no panorama da música contemporânea. “Fin du Travail (Version 1)”, reúne composições gravadas entre 1979 e 1982 para encomendas e espectáculos vários, de parceria com o saxofonista Jean Derome.
Surrealista (ou dada?), desestruturalista, anarquista e iconoclasta, René Lussier glosa a pop, o jazz, a música de variedades, o teatro musical e a improvisação com o descaramento de quem, em simultâneo, as domina e as observa, armado de ironia, à distância. “Fin du Travail” passeia-se com um desprendimento apaixonado pelos próprios domínios do paradoxo, pendurando luzes coloridas e “slogans” anacrónicos nas ruínas de Lego amontoadas pelos Henry Cow. Ao contrário do que diz o título, um trabalho interminável. (9)



Cassiber – “Beauty and the Beast”

Pop Rock

26 Fevereiro 1997
reedições

Cassiber
Beauty and the Beast
RECOMMENDED, DISTRI. ANANANA


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É a primeira reedição em compacto do original de 1984, à qual foi acrescentado “Time running out”, anteriormente apenas disponível em “single” com edição limitada. Hermético, como todos os discos deste quarteto formado por Christopher Anders, Chris Cutler, Heiner Goebbels e Alfred Harth, “Beauty and the Beast” consegue ser, apesar de tudo, mais imediatamente apreensível do que os posteriores e radicais “Perfect Worlds” e “A Face we all Know”. Totalmente improvisada ao vivo no estúdio e dispensando ensaios prévios, as 14 “canções” de “Beauty and the Beast” jamais se deixam desagregar nas libertinagens proporcionadas pelo livre exercício de estilo, antes condensam toda a estética Recommended num híbrido de “jazz” de câmara, intervencionista nos mesmos moldes esotéricos dos Art Bears, que apelam e recorrem a estruturas profundamente enraizadas no inconsciente.
Chris Cutler, anarquista, ideólogo da Recommended e ex-percussionista dos Henry Cow, deixa, nos únicos três temas vocalizados/gritados por Anders, “Six rays”, “Vengeance is dancing” e “Under new management”, o selo do seu modo de encarar a revolução, em textos que, parecendo apenas tocar em meia dúzia de iniciados, agem a níveis mais profundos do que se optassem pelo simples panfletarismo. “Vingança é dançar num redemoinho de verde, um ‘flirt’ com o assassínio; a justiça é o seu tambor”, de “Vengeance is dancing”, cuja estrutura foi posteriormente desenvolvida em “Perfect worlds”, são palavras que poderão soar elípticas ao auditor ocasional mas é neste discurso sem concessões dos Cassiber que estão contidos os germes de terrorismo estético mais violentos dirigidos contra a sociedade ocidental capitalista. Como em “Eine minute”, um autêntico libelo de morte, na literalidade dos disparos de uma arma de fogo (seria interessante recuar até à obra anterior da dupla alemã Goebbels/Harth, para encontrar uma postura formal com o mesmo carácter formal de subversão), alternando com a discursividade “free” do saxofone. O tema final é paradigmático: uma versão enraivecida de “At last I am free”, dos Chic, em contraponto ao registo de desolação que Robert Wyatt empregara em “Nothing Can Stop us”. (9)