Arquivo mensal: Abril 2016

Popol Vuh – “City Raga”

Pop Rock

29 de Março de 1995
álbuns poprock

Popol Vuh
City Raga

MILAN, DISTRI. BMG


pv

Os Popol Vuh pertencem à primeira vaga do chamado “rock alemão”. Florian Fricke, desde sempre o seu mentor, foi pioneiro na utilização do sintetizador Moog, nos álbuns do grupo “Affenstunde” e “In Den Gärten Pharaos” – instrumento que, a partir daí, trocou pelo piano, para se dedicar a uma música de inspiração religiosa. Documentos importantes desta mudança são os álbuns “Hosianna Mantra” e “Das Hohelied Salomos”. Depois, Fricke e os Vuh tornaram-se compositores oficiais das bandas sonoras dos filmes de Werner Herzog. Estavam neste sossego quando Fricke resolveu que era altura de dar um abanão. “City Raga” “inventa” o que Fricke define como “Mystic House” mas o resultado é incaracterístico. Os sintetizadores regressam em velocidade “trance”, pela mão do novo elemento Guido Hieronymus, mas a aliança dos ritmos electrónicos “tecno house” com a voz samplada de Maya Rose (uma “hippie” residente no México admiradora de longa data dos Popol Vuh que finalmente viu satisfeito o seu desejo de colaborar com o grupo) insere-se numa fórmula estafada que os Popol Vuh não souberam subverter nem personalizar. As vozes de um coro infantil de Katmandu, aprisionadas numa batida “tecno” em “Running deep”, ficam como derradeiros vestígios de algo que se perdeu. (3)



King Crimson – “Thrak”

Pop Rock

29 de Março de 1995
álbuns poprock

EIS O HOMEM ESQUIZÓIDE DO SÉCULO XXI

KING CRIMSON
Thrak (8)

Virgin, distri. EMI-VC


kc

Regresso em grande, este do “dinossauro” Robert Fripp, um dos grandes inovadores da guitarra eléctrica no rock, correspondente à quarta encarnação dos King Crimson. Expliquemos: os King Crimson tiveram uma primeira vida que durou desde a estreia de “In the Court of the Crimson King” (1969) até “Earthbound”, registo ao vivo de 1973. A segunda teve início ainda no mesmo ano, com “Lark’s Tongues in Aspic”, prosseguiu no ano seguinte com “Starless and Bible Black” e “Red”, terminando em 1975 com novo disco ao vivo, “U. S. A.”, gravado nos Estados Unidos, tal como “Earthbound”. Os King Crimson regressaram nos anos 80 com o tríptico “Discipline”, “Beat” e “Three of a Perfect Pair”. Depois de vários projectos a solo nos quais Fripp pôde explanar as suas teorias musicais e sociológicas, com graus variados de sucesso, este novo álbum da banda surge um pouco como uma surpresa, embora venha antecedido pelo mini-álbum “VROOOM”. Acompanham-no três elementos de formações anteriores, o guitarrista Adrian Belew, o baixista Tony levin, o baterista Bill Bruford, aos quais se juntaram Trey Gunn (no “Chapman stick” – algo como um computador de guitarra -, que esteve presente no último projecto de Fripp, um quinteto de cordas, com o álbum “The Bridge Between”) e o recém-chegado Pat Mastelotto, como segundo baterista. Os primeiros sons de “Thrak”, no tema de abertura, “VROOOM”, dão o tom geral, uma revitalização do passado, aqui num classicismo reminiscente de “Islands” e “Lark’s Tongues in Aspic”. Logo cortado pela entrada triunfal do velho “mellotron” e da guitarra, em altíssima forma, do mestre, ao nível dos grandes épicos da fase “Lark’s Tongues”, “Starless” e “Red”. Ou seja, os King Crimson retomaram a tradição e com ela fizeram um álbum com a solidez dos antigos, ao mesmo tempo que empreenderam a sua potencialização. “Dinosaur”, título irónico, insere-se na característica tradição crimoniana das baladas, por vezes duras, neste caso com uma vocalização de Adrian Belew a fazer lembrar de forma insólita John Lennon. “Walking on air”, outra balada, pelo contrário, é anos 70 sem tirar nem pôr, numa autocitação onde nem sequer faltam as “frippertronics” e o “mellotron” orquestral de álbuns como “In the Wake of Poseidon” e “Lizard”. “B’ boom”, tribal e corrosivo, com um solo das duas baterias pelo meio (há quanto não se ouviam discos com solos de bateria?!…), deita para o lixo coisas como os Transglobal Underground e deveria merecer uma olhadela de Bill Laswell. No título-tema, a guitarra explode toda a sua raiva, num registo bem próximo de “Red”. “Inner garden”, separada em duas versões, é mais uma balada, desta feita com guitarra acústica, nostálgica até às lágrimas; e “People”, com nova vocalização de Belew, está na linha das canções da década de 80 do grupo, aqui com uma marcação rítmica semelhante à dos Talking Heads. “Radio I” e “Radio II” são pequenos apontamentos electrónicos ao serviço das entidades luciferinas e possivelmente uma citação a um grande filme ignorado dos anos 80, “Radio on”, de Christopher Petit, para o qual Fripp compôs parte da banda sonora. Já agora, vale a pena ver o ouvir outro filme que conta com a participação, na banda sonora, do guitarrista, este emblemático do cinema “underground” nova-iorquino, “Subway Riders”, em português “Os Viajantes da Noite”, com a assinatura de Amos Poe. “One time” é das poucas canções inconsequentes de “Thrak”, na sua progressão inexorável mas um pouco a metro. Nova revisitação ao passado, em “Sex sleep eat drink dream”, guitarra desvairada sobreposta ao “mellotron” e vocalização rouca, que, quem se lembrar, associará de imediato a “Cat food”, um tema de “In the Wake of Poseidon”. “Thrak” fecha com mais duas versões do enigmático “VROOOM”. A segunda, uma coda, intitulada “VROOOM VROOOM”. Uma das imagens da capa mostra um automóvel, símbolo do homem esquizóide dos tempos modernos: velocidade e mecânica. Em ambas, Fripp volta a manipular na guitarra aquela dinâmica de tensões que faz dele um autêntico mestre do Tantrismo aplicado à arte musical. À beira dos anos 90, os King Crimson olham para trás. Como que a avisar-nos de que o “21st century schizoid man” aí está.



Orchestral Manoeuvres in the Dark – “The Best of OMD”

Pop Rock

22 de Março de 1995
álbuns poprock

Orchestral Manoeuvres in the Dark
The Best of OMD

VIRGIN, DISTRI. EMI – VC


omd

Quando os sintetizadores voltaram para a dianteira, ultrapassando as guitarras, eleitas pelo “punk”, duas facções de destacaram, os “industriais” para um lado, o “electropop”, para o outro. Os Orchestral Manoeuvres incluíram-se neste segundo grupo, ao lado dos Depeche Mode e Yazoo. Discípulos dos Kraftwerk (que, segundo se conta, consideraram os OMD os seus mais credíveis seguidores), o grupo destacou-se da elaboração de melodias facilmente trauteáveis, apoiadas no previsível arsenal electrónico, que se encontram espalhadas ao longo da sua já vasta discografia em álbum. A maior parte destas canções foi editada em paralelo em “single”, reunindo a presente colectânea a totalidade de temas lançados neste formato até 1985 pelos OMD, como “Electricity”, “Enola Gay”, “Souvenir”, “Joan of Arc”, “Telegraph” e “Locomotion”, entre outros. A par deste “Best of”, acabou também de ser reeditado “Architecture & Morality”, o álbum onde os OMD conseguiram ser algo mais que uma banda para consumo imediato, a par de “Organization”, um dos seus álbuns a merecerem algumas linhas na história breve da “cold wave”. (6)