Arquivo mensal: Março 2016

Zao – “Osiris” + “Kawana”

Pop Rock

1 de Novembro de 1995
Álbuns pop rock – Reedições

Zao
Osiris (7)
Kawana (8)

MUSEA, DISTRI. PLANETA ROCK


zao

Os Zao formam o colectivo mais consistente saído do domínio do polvo Christian Vander, profeta dos Magma. Antigos companheiros de Vander, o pianista François “faton” Cahen e o saxofonista Yochko Seffer formaram desde sempre a sua espinha dorsal, aqui na companhia de outros dois nomes importantes da música alternativa francesa, o baterista Jean-My Truong e o baixista Joel Dugrenot. “Osiris”, de 1974, sucede à estreia “Z=7L”, em que os Zao não se tinham conseguido ainda libertar do amplexo asfixiante da garra dos Magma. É uma obra de transição entre a estética “zeuhl” (aplicável a todos os grupos com ligações a Kobaïa, planeta imaginário nascido das congeminações loucas de Christian Vander) e o posterior jazzrock vulcânico equidistante da visão convulsiva dos Magma (sobretudo de “Údu Wúdú”) e das geometrias jazzrock dos Soft Machine, da fase compreendida entre os álbuns “4th” e “Seven”. “Kawana”, de 1976, apresenta uma personalidade mais vincada, feita do equilíbrio entre a pulsão telúrica do baixo de Gérad Prévost e o lirismo do novo recruta, o violinista Didier Lockwood, outro ex-Magma exausto que não suportou a desmesura do mestre. Yochko Seffer, por seu lado, tornava progressivamente mais complexo o discurso do seu sax soprano, tendência que exploraria em pormenor no seu próprio projecto denominado Neffesh Music, ainda uma derivação orgânica da mundivisão “zeuhl”, registada num álbum como “Ghilgoul”. O êxito de vendas alcançado pela reedição de toda a discografia dos anos 70 dos Zao (devido em grande parte ao trabalho de pós-produção e promoção de Richard Pinhas, velho activista dos Heldon) levou a que o grupo se voltasse a reunir para gravar, o ano passado, um álbum novo (e bastante convencional, diga-se de passagem), com o título “Akhetanon”, entretanto já editado pela Musea. A juntar a estes encontra-se ainda disponível “Shekina”, cuja novidade reside numa interessante experiência com um quarteto de cordas.



Moving Gelatine Plates – “Moving Gelatine Plates” + “The World Of Genius Hans”

Pop Rock

1 de Novembro de 1995
Álbuns pop rock – Reedições

Hans bezerro “versus” Henry vaca

MOVING GELATINE PLATES
Moving Gelatine Plates (8)
The World of Genius Hans (9)

Musea, distri. Planeta Rock


mgp

Faça-se continência a dois discos históricos aos quais a história não soube fazer justiça. Atribui-se aos Henry Cow a responsabilidade e a glória de terem feito a transposição do “progressivo” para os anos 80 e introduzido no rock a atitude e a estética, simultaneamente literária e anarquizante, de uma música cujos alicerces apresentavam a mesma solidez do jazz e da música erudita, personificada por nomes como os Faust, Frank Zappa ou Art Ensemble of Chicago. A curiosidade está em que os Henry Cow lançaram o seu primeiro manifesto em 1973, enquanto os Moving Gelatine Plates se estreiam com o seu álbum homónimo em 1970, sendo que tudo o que foi dito sobre a banda de Fred Frith e Chris Cutler já antes se aplicava a este grupo francês.
Inclassificável, o som dos Moving Gelatine Plates – designação retirada de um romance de Steinbeck – passado um quarto de século sobre a data de edição do primeiro álbum, mantém intactas a sua frescura e originalidade. Os MGP não seguiam qualquer escola. Tinham ideias próprias, na maior parte das vezes delirantes, e a capacidade de as ordenar musicalmente de forma superlativa. O conceito de “improvisação” estruturada fazia parte da sua filosofia, nas alterações rítmicas e de compasso constantes, nas melodias ao mesmo tempo “free” mas de grande rigor e destituídas de hermetismo, no humor dadaísta e na convicção de que a criatividade passa pela reavaliação constante de cada nota, de cada intuição harmónica, de cada desenvolvimento melódico. O disco consequente leva estes pressupostos às suas últimas consequências. Construído sobre uma lógica de fragmentação e sequenciação de 450 (!) módulos musicais deferentes, “The World Of genius Hans”, gravado em 1971, põe em evidência o conceito e que “o génio reside na loucura e na criatividade, sendo parcialmente estimulado pela neurose”. O bezerro da capa não nos diz outra coisa. Obra de uma modernidade assombrosa, antecipa em vários anos o movimento “Rock in oposition” – lançado pelos Henry Cow, os suecos Sammla Mammas Manna, os franceses Etron Fou Leloublan e os italianos Stormy Six -, que se viria a revelar decisivo na criação e desenvolvimento de uma nova música europeia, cujas ramificações de tornaram até hoje incontáveis, “The World of Genius Hans” bem merece ser arrancada ao esquecimento. O compacto inclui cinco temas extraídos de um terceiro álbum, “Moving”, de 1980, ainda por reeditar.



Embryo – “Embryo’s Rache” + “Africa”

Pop Rock

21 de Junho de 1995
álbuns poprock
reedições

As aventuras de um embrião em África

EMBRYO
Embryo’s Rache (7)
Materiali Sonori, import. Áudeo
Africa (8)

Materiali Sonori, import. Megamúsica


embryo

É verdade: estes Embryo foram a primeira banda estrangeira, neste caso alemã, a actuar no nosso país, num memorável e desatinado concerto “à borla” realizado no então Cinema Alvalade. “Embryo’s Rache”, de 1971, surgiu no mercado português mais ou menos por essa altura, ainda antes da vaga planante que haveria de chegar por vias das editoras Brain, Ohr e Cosmic Music. Os Embryo andavam longe do céu, mais preocupados com questões sociais e políticas, que abordavam de forma “kitsch” através de um rock jazz anarquizante – leia-se desbunda encharcada em charros -, receptivo a influências exteriores, nomeadamente a música do Norte de África. Temas semi-improvisados, resquícios do psicadelismo e boas prestações do principal solista, Edgar Hoffman, no saxofone soprano e violino, apoiado na batida potente de Christian Burchard, situavam nessa época os Embryo algures entre os Can e os Soft Machine, faltando-lhes todavia a disciplina que caracterizava estes dois grupos. Ainda hoje dá especial prazer escutar o sax filtrado e o solo “sugarcaniano” de Hoffman, respectivamente em “Revenge” e “Change”, ou o longo e reintitulado “Spagna si, Franco finished” (na versão vinílica era “Franco no”…), uma sequência imprevisível de “mellotron” progressivo, sax, flauta e percussões, à boa maneira anarca. O compacto inclui dois temas extras, bastante vulgares, (mal) gravados ao vivo 20 anos depois. Para ignorar.
“Africa”, de 1985, apresenta uma fase totalmente diferente do grupo, de cuja formação original restavam apenas Hoffman e Burchard. Gravado na Nigéria com inúmeros convidados africanos, é um álbum com uma direcção musical bem vincada, em que, como não podia deixar de ser, predominam os ritmos e motivos melódicos africanos, tocados em instrumentos nativos, com a marcação cerrada de Burchard, na bateria ou na marimba. Edgar Hoffman tem terreno livre para explicitar a sua sonoridade “sui generis” no sax soprano. Nada de “world music”, no sentido vulgarizado do termo, antes um exercício sofisticado sobre as raízes africanas, como base de um trabalho cujos apêndices tocam por vezes nos Weather Report ou em obras como “Zero Set”, de Dieter Moebius, Conny Plank e Mani Neumeier, com o cantor sudanês Deuka, ou “Noir et Blanc”, de Hector Zazou e Boni Bikaye, só que sem computadores.