Já aqui escrevemos várias vezes sobre o grupo e sobre a sua influência crescente no panorama da música electrónica actual. O duo formado por Dieter Moebius e Hans-Joachim Roedelius antecipou em meia dúzia de anos a estética industrial, antes do seu encontro com Eno o levar para a área do ambientalismo romântico. “Zuckerzeit”, de 1974, é um álbum de transição entre a fase industrial dos dois primeiros trabalhos (dos quais o fantástico “Cluster II, de 1972, esteve igualmente disponível pela Symbiose, tendo entretanto esgotado) e os posteriores “Sowiesoso” e as duas colaborações com Eno, “Cluster & Eno” e “After the Heat”, todos com importação nacional.
Era o tempo de transformar a fábrica num parque de diversões e foi isso que os Cluster fizeram, montando pequenas peças movidas por motores a diferentes velocidades. Maquinismos de precisão pintados em cores de feira popular, cobertos de “confetti” e “chantilly”. Do metal nasciam flores e dos sintetizadores, que nos Harmonia (os Cluster com Michael Rother, dos Neu!) recuperaram a sua disciplina militar, brotavam ritmos de brinquedo. Um álbum fora de todos os géneros e uma prova de que a música electrónica alemã dos anos 70 não era apenas a grande divagação cósmica da escola planante. (8)
AREA
Arbeit Macht Frei (8)
Caution Radiation Area (9)
Crac! (8)
Maledetti (Mauditis) (7)
Cramps, distri. Megamúsica
Ao contrário do que aconteceu na Alemanha e em França, nos anos 70, onde a corrente progressiva proporcionou, na Alemanha, o aparecimento de correntes autónomas, como a escola planante, e, em França, o despontar de grupos como Magma, Clearlight, Etron Fou Leloublan ou Lard Free, possuidores de linguagens singulares, em Itália a situação tomou rumos diferentes. A vaga progressiva criou neste país dependências fortes em relação aos ingleses, acontecendo que a grande maioria dos grupos italianos desta década seguiu os modelos de quatro grupos principais, a saber, Vand Der Graaf Generator, Genesis, King Crimson e Emerson, Lake & Palmer. É contra esta situação que se insurgem as três principais excepções, Picchio dal Pozzo, Stormy Six (membros da cooperativa internacional Rock in Opposition) e Area. Características comuns a todos eles são o radicalismo formal e um discurso pró-anarquizante, sinal de afirmação e de independência estética e políticas relativas aos seus congéneres anglo-saxónicos. Os Area – que contabilizam, se a memória não nos trai, pelo menos três actuações no nosso país – distinguiram-se de imediato com o álbum de estreia, “Arbeit Macht Frei” (“O trabalho dá liberdade”, inscrição que se podia ler à entrada dos campos de concentração nazis), aquele que está mais próximo do rock, onde a voz operática de Demetrio Stratos (entretanto falecido) dissecava os mecanismos da sociedade ocidental contemporânea, no meio de uma selva de electrónica “free” criada por Patrizio Fariselli e a guitarra, aqui bastante frippiana, de Gianpaolo Tofani. O tema de abertura, “Luglio, Agosto, Settembre (nero)”, com a utilização de fitas de música árabe, antecipava em alguns anos a explosão da “world music”. O álbum seguinte, “Caution Radiation Area”, de 1974, empreende a fusão da electrónica com as vias de improvisação abertas pelo “free jazz”, assumindo-se por inteiro como um momento de experimentação e provocação, atitude que é lavada ao extremo no último tema, “Lobotomia”, sete minutos de broca de dentista aplicada ao cérebro, de audição quase insuportável. Em “Crac!”, de 1975, o trabalho do grupo mais divulgado e vendido entre nós, os Area aproxima-se de um “jazz-rock” mais convencional, aqui cortado por uma canção irresistível, “Gioia e rivoluzioni”, onde, pela ironia, fazem jus à sua designação de “International Popular group”. “Maledetti”, de 1976, exercício libertário e esotérico inspirado no poeta romântico “maldito” Charles Baudelaire, introduz a nota do terror e da manipulação mental e ideológica (impossível escutar sem um frémito de medo um tema como “Gerontocracia”). Manipulação que os próprios se encarregam de demonstrar e recontextualizar na sua “versão” de um excerto do terceiro concerto brandeburguês em sol em sol maior, de Bach, transformado num “Massacre di Brandeburgo”. O tema final, “Caos”, com a participação do sax soprano de Steve Lacy e as percussões de Paul Lytton, é significativo do horizonte último dos Area. O compacto inclui ainda excertos de uma entrevista com os elementos do grupo, após um concerto de 1976 em Milão, onde estes analisam as reacções de repugnância do público, com quem sempre procuraram a interactividade, mesmo se baseada no pânico. A partir deste disco e até ao final da carreira, os Area tornaram-se aos poucos numa banda de jazz-rock exemplarmente tocado mas já sem o odor acre do perigo.
JIM MORRISON
An American Prayer (6)
Elektra, distri. Warner Music
“An American Prayer” é um objecto difícil de definir e enquadrar na carreira deste grupo americano cuja morte prematura do seu líder levou a uma também prematura extinção. Já a circular no mercado há alguns anos, em vinilo – a primeira edição data de 1978 – mas também numa edição pirata em compacto, esta obra póstuma destina-se prioritariamente aos coleccionistas enquanto testemunho importante da vertente poética do autor de “The celebration of the Lizard”. A música, “pelos the Doors”, foi acrescentada posteriormente por Ray Manzarek, umas vezes de tal forma que dir-se-ia terem sido a música e as palavras gravadas na mesma ocasião, outras dando mostras de uma enorme falta de gosto, soando despropositada e desenquadrada da postura original do grupo. A presente edição inclui três novos temas em relação às anteriores, “Babylon fading”, “Bird of prey” e “The ghost song”. O primeiro é uma gravação ao vivo inédito em disco, aumentada com efeitos sonoros criados posteriormente em estúdio. Assim, os ruídos de uma sirene, chuva, assobio, trovoada, multidões numa tourada e num jogo de futebol, crianças num pátio de recreio e guerra reproduzem à letra as palavras do vocalista, numa brincadeira que tem tanto de curioso como de inconsequente. “Bird of prey” é uma vocalização de um minuto “a capella” onde a falta de voz consegue mesmo assim fazer passar a mensagem: “Flying high, flying high, am I going to die? Bird of prey, take me on your filght.” A fechar, “The Ghost song”, em nova versão (a primeira aparece logo de início), com um acompanhamento musical inédito de Ray Manzarek, Robbie Krieger e John Densmore, soa como uma canção característica do último álbum de originais do grupo, “L. A. Woman”, pelo menos até determinada altura, quando se transforma em “disco sound” à Bee Gees. Feitas as contas, três apontamentos que não enobrecem de modo algum nem a memória do cantor nem a do grupo. O resto é uma manta de retalhos que se percorre com as recordações a virem ao de cima e a darem vontade de, uma vez mais, ir ouvir os verdadeiros Doors nos quatro momentos mais altos da sua discografia: a estreia “The Doors”, o monumental “Strange Days”, “Waiting for the Sun” e o disco ao vivo “Absolutely Live”. Quantas vezes ainda ouviremos Jim Morrison gritar “Is everybody in? The ceremony is about to begin, Wake up!” Oficializada por fim a peça do “puzzle” que faltava, é de acreditar que desta vez vai ser mesmo “The end”.