Descoberta por Steve Albini, que é também o produtor do álbum, “The Blackened Air” confirma a chegada de Nina Nastasia ao grupo das “singersongwriters” discípulas de Leonhard Cohen e, por interposta pessoa, de Suzanne Vega. Pelo lado da originalidade não há muito para descobrir nesta natural de Chelsea que já havia gravado antes um primeiro disco, intitulado “Dogs”. A voz e as entoações não conseguem desfazer a imagem de excessiva vizinhança com as na nova-iorquina. Passando por cima de letras que traçam o habitual álbum de retratos autobiográficos da “artista sofredora que palmilha as ruas existenciais da América em busca do amor mas só encontra miséria, injustiça e desilusão”, é no tom melancolicamente folk e “cheap classical” dos arranjos de cordas que “The Blackened Air” consegue arejar a excessiva colagem, não só a Vega (“All for you” é quase uma cópia escandalosa…) como a Aimee Mann (idem, em relação a “So little”…). A jovem Nastasia não conseguiu, por enquanto, “matar” as mestres.
“Encontros”, alguns arriscados, é a palavra chave que usa para caracterizar o seu novo álbum, aMonte. José Afonso, Sérgio Godinho e Pessoa são alguns dos interlocutores.
Amélia Muge fala com entusiasmo de tudo o que sente, pensa, faz e a preocupa. Se pudesse, diz, “explicava tudo”. Artista multifacetada, autora de marcos discográficos da música popular portuguesa como “Múgica”, “todos os Dias” e “Taco-a-Taco”, fez desta vez também os desenhos que preenchem a capa do novo CD, “aMonte”, bem como a realização do vídeo tirado da faixa “Sonos do ser”, sobre poema de Fernando Pessoa.
Num espectáculo realizado há poucas semanas no Auditório Fernando Lopes Graça, em Almada, utilizou projecções sobre balões, obtendo, com o recurso a uma técnica simples, efeitos visuais que considera “espectaculares”.
“A multiplicidade de usos é o lado mais interessante dos multimédia. A possibilidade de uma visão de conjunto , sem perder a visão individual de cada elemento. Um bocado como as sociedades humanas…”. “aMonte”, diz, é um “disco de encontros”. E “um mapa de percursos que proporciona esses encontros, com pessoas e com ideias. De mestiçagens culturais e duplas leituras”.
“aMonte” não segue um conceito, é um olhar como o da mosca. Multifacetado. Descobridor de dimensões insuspeitas do som e da palavra. Intuições ligam-se a maquinismos mágicos, o Inconsciente torna-se poema, a palavra cantada dança numa girândola de tons que reproduzem as imagens do céu e do mar.
“O primeiro disco, dediquei-o às leis da atracção universal. É um bocado isso. Estes desenhos (NR: da capa), estas matérias, são todos feitos por mim, mas depois acabo por ser interrogada por eles. Os animais, os pássaros, que pertencem ao mundo do céu, mas também as sereias, ou melhor, os sereios… dão uma outra profundidade ao que é a voz, como algo que voa, que se esconde, que não se desvenda facilmente. São, no fundo, uma metáfora duma ideia de voz”.
Quem anda a monte. Quem amonte – Amante, anda? “E, se se tirar o ‘n’ dica ‘amo-te’2. É assim o jogo, a entrega e a demanda de quem não se confina ao instante da moda ou às tendências em voga. “Tem duas interpretações: a de andar a descobrir caminhos e a de alguém que anda acossado, porque transgrediu em alguma coisa. As vozes que persigo são vozes que transgridem, as modas, os lugares-comuns, os papas das modernidades. Cada vez mais me apetece andar em perseguição destas vozes misteriosas, da música, do teatro, da literatura. Às vezes, quanto mais a gente as lê e julga percebê-las, é quando não percebeu nada…”.
Não, ninguém pensa terem sido essas as razões que levaram a que “aMonte” não tivesse edição por nenhuma multinacional, sempre dispostas a apostar no risco e na ousadia. Amélia defende que “cada vez mais, a única maneira de lutar contra a massificação excessiva é a produção independente”. Trata-se, então, de uma edição de autor, isto é, de um objecto feito com amor, do todo ao pormenor. Da apresentação gráfica à construção minuciosa de cada uma das 18 canções, “aMonte” leva o rótulo – mais uma pintura – a dizer: “Amélia Muge”.
A Garra Do Macaco
De canções (ainda) de sabor tradicional, como os dois momentos de “aMonte” ou o repique de sinos da aldeia que introduz “Nª Sra. Da Azenha”, à recriação mnemónica de “A Garra do macaco”, construída a partir de um poema de Laurie Anderson, “Monkey’s Paw” (do álbum “Strange Angels”, traduzido para português por João Lisboa, passando pelo mimetismo das batidas tecno em “A Irmandade dos Sonhos” (onde também espreita a autora de “Strange Angels”) e pela declamação de um poema de José Eduardo Agualusa em glosa irónica a Jorge Luís Borges, “aMonte” estende-se por uma intemporalidade que recusa catalogações redutoras.
“Não interessa o ‘antigo’ ou o ‘moderno’, nem a tecnologia. Tem a ver com uma outra coisa que sinto naturalmente em mim, a consciência de um certo Universal que está para lá do próprio ser humano e acaba por nos unir às matérias de base do Universo e às maneiras como nós as sentimos”. Ou, como diz a letra de “A Garra do Macaco”, “A Natureza tem regras e se a enganamos, cuidado vem logo aí a a garra do macaco”.
Laurie Anderson, como Fátima Miranda, que Amélia também cita no rol das suas admirações, “na forma de ligar as palavras à música, ao som”, é um exemplo de liberdade que cultiva e persegue na sua obra. “Fui directamente ao texto, sem ouvir a música. O importante era descobrir a maneira de fazer a ligação com ela e à forma como ela liga a música ao inglês. Achei que era possível fazer o mesmo com o português. O clima era o ideal para trazer para este mundo esta especificidade dos encontros que têm a ver com a tradução. ‘A garra do macaco’ fala ainda dos perigos e dos avisos de alguns encontros…”.
Já “A Irmandade dos sonhos” é “toda uma grande piada”. A todas “as outras questões que têm a ver com as audiências, com o gosto do que é ou não popular, da massificação”.
Mas estará Amélia Muge absolutamente imune à tentação de fazer um disco de música de dança, à semelhança do que em breve acontecerá com os Madredeus? “Por acaso ainda não o fiz, mas houve um trabalho de remistura muito bem feito com um tema meu, pelos Underground Sound-System of Lisbon… Mas uma das coisas que não aprecio na ‘dance music’ é logo a imposição de uma marca rítmica empobrecedora. Agora, mais depressa farei, como tenciono, um projecto ligado à dança, mas à dança mesmo, como discurso, para perceber como é que há margens, fronteiras entre a dança, a música e a palavra. A palavra-dança”.
“aMonte” é, precisamente isso: palavras que dançam.
Descontando a teimosia que leva os Camel a continuarem a lançar álbuns no mercado com regularidade, é preciso recuar até aos anos 70 para se encontrar a fatia de importância que o grupo, de facto, merece, agora comprovável mediante novas versões, remasterizadas e prodigamente fornecidas de temas extra, dos quatro primeiros álbuns.
Conotados algures entre o rock progressivo mais clássico e a escola de Canterbury, os Camel conquistaram fama e proveito (inclusive em Portugal) já na segunda metade da década, exactamente quando o Progressivo começava a dar sinais de agonia, através, sobretudo, de “The Snow Goose” e do seu sucessor “Moonmadness”.
E se estes dois últimos combinam a plenitude instrumental (para alguns, sinónimo já de decadência…) com a construção de canções apoiadas em motivos melódicos tão atraentes quanto lineares (“Rhayader”, de “The Snow Goose”, chegou mesmo a ser um “must” do Prog trauteável), já os dois primeiros discos podem facilmente ser matriculados na pop, mais “incompleta” mas mais swingante e jazzy, da academia de Canterbury.
Em “Camel”, de 1973, encontramos as mesmas vocalizações suaves e o mesmo tipo de ornamentações e fraseado solístico dos teclados (tocados por Peter Bardens, falecido em Janeiro) que os Caravan desenvolveram em paralelo no seu período clássico, a par de arranjos, como em “Separation”, fortemente marcados pela guitarra de Andrew Latimer, que indicavam já o som típico que se instalaria a partir de “The Snow Goose”.
Mas “Camel” era apenas o preâmbulo daquele que será o melhor álbum do Grupo: “Mirage”, de 1974. O som ganha músculo e convicção. Os solos de teclados de Bardens e da guitarra de Latimer decorrem em simultâneo, cruzando-se numa rede intricada cuja complexidade não ficava atrás das óperas surreais dos Genesis ou das fanfarras medievais dos Gryphon. Ogres e princesas desviados de “The Lord of the Rings”, acessos de jazz de cana-de-açucar, sintetizadores da corte do rei Artur, formam um guache de sonhos, deliciosos para alguns, mas porventura detestáveis para os ouvidos insensíveis ao espírito, à loucura e à pureza do rock progressivo. Para estes, uma pequena dose dos 12 minutos de “Lady Fantasy” (a presente edição foi “sádica” ao ponto de incluir duas versões, igualmente longas, do tema…) – mini suite da qual saiu tudo o que em “The Snow Goose” seria polido e arrumado num quadro para pendurar na parede – será mais do que suficiente para suscitar a aversão.
Concluída a fase dos ensaios, os Camel conquistariam a fama à custa do golpe de asa de um ganso. Com “The Snow Goose”, álbum conceptual (brrrrrr, esse horror inominável que consistia em desenvolver uma ideia para além dos 3 minutos permitidos por lei…) inspirado na novela infantil de Paul Gallico, que catapultou os Camel para a 1ª divisão do Progressivo, leia-se “dos dinossauros” (Jethro Tull, Genesis, Yes, Emerson, Lake & Palmer), na boca dos detractores. Álbum “pretensioso” (leia-se: que teve o desplante de tentar elevar a pop a um patamar mais nobre), sofrerá provavelmente do mesmo mal que “Dark Side of the Moon”, dos Pink Floyd (curioso verificar como “Rhayader goes to town” é, na essência, um tema floydiano), ou seja, uma música unidireccional, cuja complexidade é mais aparente do que real, incapaz de suportar audições sucessivas sem provocar uma sensação de “déjà vu”. Pecado maior do Progressivo: quando a riqueza harmónica cede ao despotismo da melodia, por mais agradável que esta possa soar. Um clássico menor, mesmo assim, embora só aconselhável com receita médica.
“Moonmadness” é a insistência numa fórmula que se revelara de sucesso, espécie de sequela de “The Snow Goose”, da mesma forma que “Hergest Ridge” é uma extensão de “Tubular Bells”. As melodias incisivas, como “Another Night”, continuam presentes mas desprende-se uma ressonância lunar que sacode o enjoo e emergiria em glória no álbum que os Camel gravariam em 1996, “Rain Dances”, com Richard Caravan, príncipe de Canterbury, e o convidado Brian Eno – mistério até hoje insondável para os adversários do Progressivo.