Arquivo de etiquetas: Camel

Vários (Genesis, Yes, Gentle Giant, Camel, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer, Pink Floyd, …) – “Música Dos Anos 70 Regressa Em Força – Progressivos Activos”

cultura >> terça-feira, 19.12.1995


Música Dos Anos 70 Regressa Em Força
Progressivos Activos


Com o advento do novo psicadelismo assiste-se me paralelo ao ressurgimento da música progressiva. Um pouco por todo o lado proliferam os chamados grupos, “neo prog.”, cuja música, em geral, copia os modelos de consagrados como os Genesis, Yes, Gentle Giant, Camel, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer ou Pink Floyd. Também os “dinossauros” saem das tocas e voltam a respirar.
As “ressurreições” mais recentes, acompanhadas pelo regresso às lides discográficas, pertencem aos alemães Amon Düül II, com “Nada Moonshine” e Caravan, uma das lendas de Canterbury, com “The Battle of Hastings”. Velhos “folkies” como os Amazing Blondel, com “The Amazing Blondel and a few Faces”, JSD Band, com “For the Record” e Dulcimer, com “Rob’s Garden”, voltam igualmente à actividade.
No capítulo das reedições, a “novidade” está na revalorização dos grupos mais obscuros ou de segunda linha do Progressivo (o Eldorado dos colecionadores de vinilo) do início dos anos 70, repescados de editoras míticas como a Vertigo, Harvest, Neon, Dawn, Deram e, alguns anos mais tarde, a Virgin, pela Repertoire alemã ou pela Si-Wan coreana.Disponíveis no nosso país, embora em quantidades por enquanto reduzidas, estão relíquias, algumas delas deliciosas e musicalmente bastante recomendáveis, como “Full Circle”, dos Forest, “Na Asylum for the Musically Insane”, dos Tea & Symphony, “Three Parts to my Soul”, dos Dr. Z, “Swaddling Songs” dos Mellow Candle, “Space Shanty”, dos Khan, “Gravy Train”, dos Gravy Train, “Lady Lake”, dos Gnidrolog, “Mecator. Projected”, dos East of Eden e “It’ll all Work out in Boomland”, dos T.2.
Outro grupo que sobreviveu ao golpe de ruído com que os “punks” pretenderam pôr fim a tudo o que ultrapassasse os dois acordes, os Third Ear Band, têm três álbuns editados pela Megamúsica, “Magic Music” e Brain Waves”, ambos recentes, e o primeiro, “Alchemy”, de 1969. Da Fábrica de Sons saíram dois trabalhos a solo do ex-saxofonista dos Gong, Didier Malherbe, “Zeff” e “Fluvius”.
Importante é a reedição da discografia dos Gryphon, originalmente no selo Transatlantic, “Gryphon”, “Midnight Mushrumps”, “Red Queen to Gryphon Tree” e “Raindance”, agora disponíveis em edição inglesa, na Loja da Música, e japonesa, na Planeta Rock, faltando apenas “Treason”, original da Harvest. Do lado das multinacionais, a Sony acaba de lançar “Supper’s Ready”, uma antologia de bandas de “covers” de canções dos Genesis anteriores ao abandono de Peter Gabriel, onde, no meio das vulgaridades, sobressaem os nomes de Richard Sinclair (Caravan, Camel, Hatfield and the North…) e Annie Haslam, vocalista dos Renaissance.
Enquanto isso, Rick Wakeman, numa entrevista de seis páginas concedida á revista inglesa “Record Collector”, no seu número de Dezembro, anuncia que tem pronta a segunda parte de “Jourbey to the Center of the Earth” e que voltará a integrar a formação dos Yes, dos quais sairá em breve um novo álbum. É como se os últimos 20 anos nunca tivessem existido.

Camel – “Camel” (self conj.)

12.07.2002

Camel – O Ganso É Uma Miragem

Camel
Camel
7/10

Mirage
8/10

Music Inspired by “The Snow Goose”
7/10

Moonmadness
6/10

Deram, distri. Universal

LINK

Descontando a teimosia que leva os Camel a continuarem a lançar álbuns no mercado com regularidade, é preciso recuar até aos anos 70 para se encontrar a fatia de importância que o grupo, de facto, merece, agora comprovável mediante novas versões, remasterizadas e prodigamente fornecidas de temas extra, dos quatro primeiros álbuns.
Conotados algures entre o rock progressivo mais clássico e a escola de Canterbury, os Camel conquistaram fama e proveito (inclusive em Portugal) já na segunda metade da década, exactamente quando o Progressivo começava a dar sinais de agonia, através, sobretudo, de “The Snow Goose” e do seu sucessor “Moonmadness”.
E se estes dois últimos combinam a plenitude instrumental (para alguns, sinónimo já de decadência…) com a construção de canções apoiadas em motivos melódicos tão atraentes quanto lineares (“Rhayader”, de “The Snow Goose”, chegou mesmo a ser um “must” do Prog trauteável), já os dois primeiros discos podem facilmente ser matriculados na pop, mais “incompleta” mas mais swingante e jazzy, da academia de Canterbury.
Em “Camel”, de 1973, encontramos as mesmas vocalizações suaves e o mesmo tipo de ornamentações e fraseado solístico dos teclados (tocados por Peter Bardens, falecido em Janeiro) que os Caravan desenvolveram em paralelo no seu período clássico, a par de arranjos, como em “Separation”, fortemente marcados pela guitarra de Andrew Latimer, que indicavam já o som típico que se instalaria a partir de “The Snow Goose”.
Mas “Camel” era apenas o preâmbulo daquele que será o melhor álbum do Grupo: “Mirage”, de 1974. O som ganha músculo e convicção. Os solos de teclados de Bardens e da guitarra de Latimer decorrem em simultâneo, cruzando-se numa rede intricada cuja complexidade não ficava atrás das óperas surreais dos Genesis ou das fanfarras medievais dos Gryphon. Ogres e princesas desviados de “The Lord of the Rings”, acessos de jazz de cana-de-açucar, sintetizadores da corte do rei Artur, formam um guache de sonhos, deliciosos para alguns, mas porventura detestáveis para os ouvidos insensíveis ao espírito, à loucura e à pureza do rock progressivo. Para estes, uma pequena dose dos 12 minutos de “Lady Fantasy” (a presente edição foi “sádica” ao ponto de incluir duas versões, igualmente longas, do tema…) – mini suite da qual saiu tudo o que em “The Snow Goose” seria polido e arrumado num quadro para pendurar na parede – será mais do que suficiente para suscitar a aversão.
Concluída a fase dos ensaios, os Camel conquistariam a fama à custa do golpe de asa de um ganso. Com “The Snow Goose”, álbum conceptual (brrrrrr, esse horror inominável que consistia em desenvolver uma ideia para além dos 3 minutos permitidos por lei…) inspirado na novela infantil de Paul Gallico, que catapultou os Camel para a 1ª divisão do Progressivo, leia-se “dos dinossauros” (Jethro Tull, Genesis, Yes, Emerson, Lake & Palmer), na boca dos detractores. Álbum “pretensioso” (leia-se: que teve o desplante de tentar elevar a pop a um patamar mais nobre), sofrerá provavelmente do mesmo mal que “Dark Side of the Moon”, dos Pink Floyd (curioso verificar como “Rhayader goes to town” é, na essência, um tema floydiano), ou seja, uma música unidireccional, cuja complexidade é mais aparente do que real, incapaz de suportar audições sucessivas sem provocar uma sensação de “déjà vu”. Pecado maior do Progressivo: quando a riqueza harmónica cede ao despotismo da melodia, por mais agradável que esta possa soar. Um clássico menor, mesmo assim, embora só aconselhável com receita médica.
“Moonmadness” é a insistência numa fórmula que se revelara de sucesso, espécie de sequela de “The Snow Goose”, da mesma forma que “Hergest Ridge” é uma extensão de “Tubular Bells”. As melodias incisivas, como “Another Night”, continuam presentes mas desprende-se uma ressonância lunar que sacode o enjoo e emergiria em glória no álbum que os Camel gravariam em 1996, “Rain Dances”, com Richard Caravan, príncipe de Canterbury, e o convidado Brian Eno – mistério até hoje insondável para os adversários do Progressivo.