Arquivo mensal: Abril 2010

Tom Waits – Used Songs, 1973-1980

07.12.2001
Tom Waits
Used Songs, 1973-1980
Elektra/Rhino, distri. Warner Music
7/10

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O vagabundo de negro está de volta. Não com uma nova colecção de mutações arrancadas ao fundo de um copo de Nova Iorque, mas através de uma recapitulação da fase inicial da sua carreira, correspondente Às gravações para o selo Island, dos álbuns “Changing Time”, “The Heart of Saturday Night”, “Nightawks at the Diner”, “Small Change”, “Foreign Affairs”, “Blue Valentine” e “Heartattack and Vine”. Eram os anos da boémia, das noites passadas em claro, dos amores vadios e das monumentais bebedeiras que chegaram a entornar o piano, no inesquecível “The piano has been drinking (not me)” (de “Small Change”), infelizmente deixado de fora na presente colectânea. Os apreciadores do Waits “vaudeville” não têm, porém, razão de queixa, já que o cabaré, as baladas jazzy trôpegas e as orquestrações de sentimentos oscilantes entre a decrepitude e a eternidade, regressaram com o bónus das remasterizações, conferindo uma nitidez ofuscante a canções que antes se abrigavam nos recantos mais sombrios da alma do músico. É verdade que toda a carreira posterior de Waits se elevou a patamares bem mais elevados (e arriscados), mas também por isso vale a pena recordar os primeiros passos vacilantes e a ingenuidade perdida de um dos grandes criadores pop deste século.

Paulo Bragança, no CCB: “Quando vejo o abismo sou o primeiro a saltar” – Entrevista –

24.10.1997
Paulo Bragança, no CCB
“Quando vejo o abismo sou o primeiro a saltar”
O rosto lívido. Um espectro. A capa de Coimbra, levantada sobre o pescoço, sugere o vampiro, o sugador de sangue. O ambiente é gótico, arrepiante. O novo fado de Paulo Bragança, que amanhã se apresentará no Grande Auditório do CCB, atrai pelo lado obscuro. O “Fado falado”, de Villaret, fala agora do problema da heroína. No final, o fadista sai de si mesmo, numa busca ávida de luz.

FM – Como vai ser a estrutura do espectáculo?
Paulo Bragança – É quase uma peça de teatro. Há um personagem que está em conflito consigo próprio e que vai, à medida de cada tema, pensando se fica nas raízes do fado ou se as subverte. O começo vai ser com fado puro, embora com algumas dissidências em termos verbais e musicais. Depois surgem momentos de conflito. No “Fado do Herói” já há, quase, um aviso à nação. A seguir é o “Adeus”. “Adeus pátria linda, adeus querido lar, adeus Tejo amado até eu voltar…”, aí o personagem já está numa galera, seguindo-se um processo interior, com nova quebra e dois temas intimistas, “Pecado I” e “Pecado II”, até se chegar a uma transnacionalidade, uma “transfusogressão” (fui eu que inventei a palavra), onde surgem temas que não são portugueses nem sequer são cantados em língua portuguesa. Dois temas na língua “roman”, dos romenos, uma língua cigana. É a procura do singular no universal, sem perder as raízes. Até se chegar ao último tema que se chama “Névoa”, onde se diz que “há sempre entre mim e o mundo uma névoa que às vezes me ataca e me faz refém de uma solidão tão fria que não me dá trégua, guardador de um cofre onde não há vintém”. As palavras são do Carlos Maria Trindade com música minha. É já um novo ser, que não opina, não julga, é só um “voyeur” que observa tudo de cima. O corpo não existe, só existe um ser pensante. Quas euma diáspora kafkiana.
FM – Falou há pouco de uma “viagem” à Roménia. É impossível não pensar na célebre personagem do Conde Drácula que assombra a sua apresentação…
Paulo Bragança – Na origem, não foi propositado. Essa ligação fez-se recentemente. É a ligação ao sangue. Depois, a música cigana é tão fado como o nosso Fado. Desde miúdo, quando era “teenager”, que comecei a estudar romeno sozinho, de modo a conhecer melhor alguns dos poetas deles. Mas não é o terror que me assusta, vejo o terror apenas como um aspecto fantástico, como a ficção científica.
FM – O seu espectáculo centra-se no lado mais sombrio do fado…
Paulo Bragança – Se reparar, a capa de Coimbra tem a ver com isso. Por acaso a capa que uso agora é mais vampiresca… Uma capa, quando existe, é para guardar qualquer coisa escondida, é um mistério. O estudante de Coimbra também transporta em si algum desse vampirismo. Ou devia…
FM – Que tipo de envolvimento com o público procura criar?
Paulo Bragança – De um modo geral as pessoas ficam desconcertadas. Pela positiva. Não se sentem assustadas mas, talvez, intimidadas. Embora houvesse quem sentisse realmente medo e se agarrasse à cadeira… Porque o medo também suscita fascínio.
FM – Eo Paulo Bragança, não se auto-sugestiona com a personagem que criou?
Paulo Bragança – Quando vejo o abismo sou o primeiro a saltar. Não tenho medo. Mas tenho respeito pelo medo.
FM – Prseumo que, cada vez mais, a sua relação com os puristas do fado é conflituosa?
Paulo Bragança – Eles, à minha frente, nunca me negam. Dão uma no cravo e outra na ferradura. Eu até percebo a posição deles. Mas isto não é nada contra eles, mas sim contra a estagnação do fado. Enquanto que eles, por vezes, me atingem directamente, eu não os procuro atingir a eles. O que procuro atingir é a consciência colectiva nacional.
FM – Que tipo de som se poderá escutar amanhã no CCB?
Paulo Bragança – Um som estranho. Com um compromisso entre a ciência e um lado acústico. Guitarras portuguesas lada a lado com “samplers” e tecnologia MIDI.
FM – De que modo é explorada a tal teatralidade que há pouco referiu?
Paulo Bragança – Por exemplo, abro com o “Fado Falado”, onde reverti o texto, pegando nele como símbolo do teatro e transformando-o num monólogo, com uma nova interpretação sonora e textual, bastante dissidente. Por isso lhe chamei “Fado Falado Mudado”. Aproveito para falar do problema da heroína. É um texto bastante duro, em que chamo as cosias pelos nomes, numa história que de facto se passou na Meia-Laranja. Em termos formais, ouvi uitas vezes o original do Villaret. A minha versão é codificada ao milímetro, sílaba por sílaba, metricamente igual.
FM – Qual é a sua atitude perante o problema da toxicodependência?
Paulo Bragança – Não estou a julgar ninguém mas a constatar uma realidade. Algo de grave que se está a passar no país. Ninguém diz que o rei vai nu. Não hánenhuma família portuguesa, hoje em dia, que não tenha essa mácula, seja por um filho ou por um primo. E também verifico que a polícia só apanha cocaína e haxixe. Heroína nunca se apanha. Chega-se a uma ladeia, como eu já cheguei – e isto é o que me dizem porque eu não preciso nada dessas merdas – a uma ladeia de Trás-Os -Montes, seja onde fôr, no local mais recôndito, queres um charro, não há. Ou se houver, custa dez contos a grama. Cocaína pode custar 25 contos uma grama. E a heroína custa mil escudos e há a toda a hora. 24 horas por dia, nas barbas da polícia, em todo o lado. O Casal Ventoso é uma imagem pálida do que se está a passar no resto do país. E o mais grave é que a heroína é gerida por questões de Estado, por alguém… Por isso é que eu canto uma parte que diz “mãos de sangue na seringa que rasgada a veia pinga, mãos de Estado maquilhado, mãos de serra e queima a terra, mãos bem vendidas, muito finas, mãos vendadas a arrecadar, não há paixão, crime ou morte onde há um filão a correr forte”… É uma situação que me incomoda. Repito: é preciso dizer que o rei vai nu.
FM – Uma forma velada de manter os jovens sob controle?
Paulo Bragança – É uma forma de adormecer as pessoas. E não sõa só os mais novos. As velhas, neste país, andam todas drunfadas, porque o que se vende mais no país são drunfes e é o que tem desconto da Assistência Social. Não há uma velhinha que não tenha um drunfe em cas, um Xanax, um Valium, um ansiolítico qualquer. Depois, os putos têm heroína. Putos de 16 anos, que eu conhecço, que picam, nem sequer fumam, picam! Interessa a alguém, de facto, que o povo ande acalmado. Dêem heroína ao pessoal, para se tornarem nuns energúmenos que não chateiam!…

Carlos e Vasco Martins lançam “Outras Índias” – Entrevista –

10.10.1997
Carlos e Vasco Martins lançam “Outras Índias”
“Um tipo a bater numas cordas, a fazer um som e a cantar”
Carlos e Vasco Martins partilham uma filosofia comum, com raízes no zen. Recusam as etiquetas. Cabo Verde é o mundo. E o jazz um ponto – ou uma ponte – de partida para o caminho do Oriente que ambos perseguem. Em “Outras Índias”, tudo se prende a algo ancestral: “Um tipo a bater numas cordas, a fazer um som e a cantar.”

Em “Outras Índias” Carlos Martins e Vasco Martins fizeram, com sucesso, a fusão das raízes musicais de Cabo Verde com um discurso contemplativo que não hesitou em voltar as costas ao jazz. Para Carlos Martins, é a concretização do seu ideal de uma lusofonia verdadeiramente universal. Para Vasco Martins, uma abertura no seu refúgio “new age” com sede no Atlântico. Uma descoberta a dois.

FM – Quando é que se encontraram e como surgiu a ideia de fazer este disco?
Carlos Martins – Conhecemo-nos há uns anos através de um amigo comum, o João Freire, uma pessoa que sempre se interessou por Cabo Verde. Numa ocasião em que ele e o Vasco estiveram em Portugal, andaram à minha procura, só que o encontro não se proporcionou. Nessa altura eu tocava com a Constança Capdeville e com a Olga Pratts, que também me disse que o Vasco era de Cabo Verde e compunha. Fiquei com curiosidade em saber quem era, ainda por cima alguém com o mesmo apelido do que eu… Até que nos encontrámos finalmente em Roterdão, numa conferência sobre a diáspora cabo-verdiana. Eu ia falar sobre o que os emigrantes podem fazer fora do seu país, em termos culturais. O Vasco ia falar da música de Cabo Verde. Desse primeiro encontro resultou numa ida a Amsterdão, durante um dia inteiro. Esse dia inteiro fez este disco. Desde a visita oa museu Van Gogh até às conversas que tivemos. Chegámos ao hotel e tocámos um bocado. Vimos que as coisas funcionavam.
Vasco Martins – Eu tinha levado apenas uma guitarra para fazer uma demosntração da música de Cabo Verde.
FM – Já conheci a trilogia atlântica, “Southbound Music”, do Vasco Martins?
Carlos Martins – Já tinha ouvido algumas coisas e não era o tipo de música que eu queria fazer.
FM – E o Vasco, já tinha ouvido antes a música do Carlos?
Vasco Martins – Era um desconhecido, só sabia que era um músico de jazz com talento.
FM – Como é que os universos de ambos se ligaram? Esse passeio de que falaram deve ter sido bonito, mas depois como é que a coisa funcionou no estúdio?
Carlos Martins – A vantagem é que tudo foi articulado em Cabo Verde. Estive lá cinco dias antes de vir para cá. esses cinco dias é que fizeram com que o som se consolidasse. O que se passa é que há uma alma dentro de cada um de nós que junta, que roça numa extremidade do mesmo universo. Um universo de gostos comuns, apetências comuns e sonoridades comuns. Depois sobressaiu ainda uma certa visão zen da música, uma certa orientalidade.
FM – Os discos do Vasco não chegam ao Continente…
Vasco Martins – Gravo pela Celluloid francesa, mas os discos são mal distribuídos em Portugal. saem em Espanha, nos Estados Unidos, na Alemanha. Continuo a fazer música electrónica, mas também sinfónica e outras coisas.
FM – A música da sua trilogia é bastante universalista. De que forma trabalhou nela a influência da música de Cabo Verde?
Vasco Martins – Há duas formas de ver a questão. Uma é a intuição do ambiente onde o artista vive. A outra é o aproveitamento das raízes, das tradições. Eu utilizo ambas. Na música da trilogia, está presente a temática de Cabo Verde, mas não a utilizo de uma maneira objectiva, dou pinceladas, sou mais um impressionista.
FM – “Outras Índias” é um disco de uma grande serenidade, bastante diferente do seu discurso mais jazzístico…
Carlos Martins – Uma das coisas que mais gostei de discutir a propósito deste disco é o facto de existir uma poesia do mundo, ligada a uma certa dramaticidade da vida, que é algo constante em mim.
escrevo desde miúdo. Quando andava na quarta classe, a minha alcy«unha era o “Camões”, porque escrevia versos. E continuo a escrever, só que agora mais música do que texto. Mas há a presença constante da poesia. Logo, não sou um único Carlos Martins, nem quero sê-lo. Não tenho a mínima culpa de que as pessoas precisem mais de um único Carlos Martins, para se equilibrarem na sua crítica.
FM – O Vasco Martins funcionou como um catalisador dessa sua visão poética?
Carlos Martins – Este disco só foi possível de fazer entre mim e o Vasco. Por isso é que arranjámos um nome, “Outras Índias”, que quer dizer exactamente “outras coisas”, não digo quais, nem interessa explicar.
FM – A filosofia inerente a este disco não anda longe da partilhada por Rão Kyao, ou anda?
Carlos Martins – A orientalidade não é um factor que me inspire musicalmente, linearmente, do tipo “eu penso oriental, a música é oriental”. A orientalidade está em mim como sensibilidade. O que se passa aqui é que ando á procura de outro caminho, do Caminho do Oriente. À procura do fado, da morna e do choro lento. Mas sem tudo o queo que o Vasco tem de Cabo Verde eu não tocaria desta maneira. É uma relação interactiva.
FM – Este projecto enquadra-se na estética “new age”?
Vasco Martins – A “new age” é muito contestada na Europa porque é tida como um apêndice de filosofias orientalistas americanas. Hoje em dia, a “new age” já não é isso. Há bons músicos de “new age” a fazerem bons trabalhos, algun deles músicos de jazz.
FM – Precisamente, há, sobretudo da parte dos puristas, quem não veja com bons olhos essa “fuga” de muitos músicos de jazz para essa outra área musical…
Carlos Martins – Não sou preto, não sou americano, não vivo em Nova Iorque, não tenho que representar coisa nenhuma do jazz, tenho é que adaptar à minha música e à minha tradição tudo aquilo que aprendi do jazz, que é uma das linguagens mais belas deste século e que se tornou universal pela capacidade de improvisar e sair do seu próprio mundo e de elaborar mundos novos a uma velocidade vertiginosa. Para mim este disco é um descanso. É uma atitude assumida. Há quanto tempo é que existem uma guitarra e uma voz a cantar? É ancestral. Antes da “new age”, antes do jazz, existiu sempre um tipo a bater numas cordas, a fazer um som e a cantar. É isso que se passa neste disco, estou-me perfeitamente nas tintas para o resto. Isto para mim representa um tipo a cantar sobre as harmonias de umas cordas. É antigo, é o que eu sinto e é o que praticava quando era miúdo, com uma flautazinha no jardim.