Arquivo mensal: Abril 2010

Anamar: Entrevista – O Despertar Da Alquimista

26.09.1997
O Despertar Da Alquimista
Anamar, mais que uma cantora, é uma viajante da alma. As imagens do seu filme interior mudaram nos últimos dez anos. Aprendeu a serenidade e a luz que se esconde nos gestos e nas palavras. “M”, o seu novo álbum, é pura vibração. “M” de “mais”, “M” de “morte”, “M” de “mudança”, “M” de “mundo”, “M” de “mar”.

A linguagem é a da alquimia. Casamento de elementos, dissociação e harmonização interior são termos empregues por Anamar para falar de “M”, o seu novo disco, gravado numa igreja. Um banho de luz.

FM – “M” é um título estranho, não acha? “M”, “Matou”, de Fritz Lang. “M”, o grupo que fez o tema chamado “Pop Music”…
Anamar – Não queríamos limitar o que se pudesse percepcionar do disco com uma palavra. A ideia de ter só uma letra é de as pessoas associarem o que quiserem a essa letra. Deixar uma porta aberta.
FM – Depois há uma canção chamada “NSN”…
Anamar – Aí é por causa do “N”, que se diz com os lábios fechados, mas é audível cá fora. Uma relação exterior que nos interessa. Além disso, são as iniciais de “Nossa Senhora da Neves”, a quem foi erigida uma capela do séc. XII onde foi gravado o CD, no alto da Serra de Montejunto.
FM – Estás sempre a falar em “nós”… Nós quem?
Anamar – Este trabalho não foi feito por mim exclusivamente, mas por um núcleo criativo de quatro pessoas: eu, o André Louro de Almeida, ao nível musical e do conceito de arranjos, e o Tiago Torres da Silva e a Ana Calhau, também criadoreas do conceito de origem.
FM – Que conceito?
Anamar – Cantar a luz através do fado, sendo que, de uma maneira muito comum, o fado está associado a outro tipo de emoções: ciúme, posse, vingança, escuridão, saudade, desilusão, revolta… Mas esse conceito não me entusiasmou especialmente, não estava muito virada para pegar no código do fado, já muito usado e trabalhado anteriormente. Não é fado que costumo ouvir em casa, mas coisas com outra espacialidade, indicadoras de outros estados de espírito – Dead Can Dance, Rachmaninov, Brian Eno, David Sylvian… No entanto, o pacote de letras que o Tiago me apresentou era extraordinário.
FM – Falou em espacialidade. E religiosidade?
Anamar – Absolutamente. É uma característica, para mim, básica. No entanto, não é assim tão óbvio que a arte entre em linha de conta com ela.
FM – Essa religiosidade não está a transformar-se, nos dias que correm, um mero amontoado de ícones e imagens, esvaziadas do seu verdadeiro significado?
Anamar – Todo o fenómeno de profetas com pés de barro, ou aproveitamentos comercialóides do fenómeno “new age”, mais as seitas, tudo isso e a “astrologite”. Se religião significar religar, e é daí que vem a palavra, aí sim, sou uma pessoa profundamente religiosa. Religar à vida, sendo que esta, em si, é a transcendência.
FM – É engraçado estar a falar sobre estas questões. As pessoas estavam habituadas a ter de si outra imagem…
Anamar – Eu sei. Deixei de cantar e de aparecer há muitos anos, nove anos. É curioso verificar como uma imagem pode ficar cristalizada no tempo. Há dez anos, vestia de preto, pintava os lábios de vermelho e usava os cabelos muito compridos. Uma imagem que ficou ligada a uma noção de estilo e à sedução, ao risco e à ousadia. Hoje, nem a minha cara é igual. Nem o meu ser interior.
FM – O que aprendeu nestes últimos des anos?
Anamar – Fui crescendo. A opção, neste período de tempo, de não cantar e de não manter uma actividade pública deriva da minha necessidade de ouvir primeiro o que estava cá dentro e ver se tinha alguma coisa para dizer. Uma das coisas que aprendi nestes dez anos foi o valor do silêncio. O valor do quietar. Do respirar, do fruir de tudo o que a vida tem para nos dar, em vez de querermos que as coisas correspondam aos nossos desejos.
FM – Essa filosofia de vida, transferiu-a para a feitura do seu disco?
Anamar – este disco não é fruto de um trabalho pessoal meu, mas de um trabalho de equipa. O que pediu uma abertura e uma aprendizagem do que é “criar com” outras pessoas, algo que eu não conhecia assim tão bem. Nos outros discos trabalhei com muita gente, mas o conceito e o ponto de partida eram definidos por mim. Neste caso, não, fui obrigada a uma disciplina.
FM – Quer dizer que o seu ego se suavizou?
Anamar – Tendo um ego, como toda a gente, há partes desconhecidas de mim própria em relação às quais faço questão de estar especialmente atenta, de maneira a estar em sintonia com elas. Quanto mais fundo se vai dentro de nós, menos se faz questão de ter ou não ego, de ser isto ou aquilo.
FM – Como é que se processaram as gravações?
Anamar – O disco foi gravado quase como um disco ao vivo, em tempo real, o que quer dizer que houve muitas repetições, que aproveitei para fazer apuramentos, ao nível de questões técnicas. Foi exigida uma concentração muito grande, havendo necessidade de se estar tranquilo para que as coisas fluíssem. Ao todo foram três semanas ao longo das quais gravámos 21 canções e… uma brincadeira.
FM – Que brincadeira?
Anamar – Numa ocasião o Joaquin d’Azurém estava a tocar guitarra portuguesa num teste de som e eu comecei a cantar por cima. Ou a leitura de um texto sobre uma banda-sonora composta pelo André Louro de Almeida.
FM – Falou, há pouco, do fado, que também corre o risco de se desvirtuar. De que forma é que sente este tipo de música?
Anamar – O fado é um código e uma porta de acesso directo à alma, como os “blues” ou o “gospel”. Do ponto de vista cultural, cristalizou no tempo. Lembro-me de quando era miúda e cantar “A canção do mar”, da Amália, ser um escândalo. Mas a própria Amália gostou muito do tema.
FM – A maneira de se exprimir sugere elegância, mesmo quando se trata de espiritualidade…
Anamar – Entendo que uma das qualidades da espiritualidade é precisamente a elegência. Não há espírito sem beleza. Há uma tentativa da minha parte de tratar a vida com elegância. Não há harmonia sem ela, todos os pontos de vista radicais ou separatistas, que só tendem para um lado da realidade, não me satisfazem. A vida não é separada, tal como a visão das coisas não deverá ser separada. A elegância é uma característica da verdadeira complementaridade de elementos.
FM – Quais são os seus elementos?
Anamar – Água e fogo. Embora talvez o mais importante seja o éter, o quinto elemento… A água identifica-se com os sentimentos e as emoções, com o fundo da alma e o poder de aplicar o coração na vida. O fogo equivale a uma verticalidade, a um amor pela verdade, a uma expansão, a uma inspiração, à criatividade em si, aquilo que faz com que um átomo e outro se juntem dando origem a uma coisa. Por isso tento articular a expressão, própria do fogo, com a interiorização, própria da água. Um casamento que é um dos trabalhos aos quais me tenho dedicado. É como uma cafeteira com água a ferver. É bom que a água fervente esteja em total correspondência com a intensidade da chama. Se ferve demais, apaga a chama. Se a chama estiver demasiado alta, evapora a água.
FM – Está a falar como uma alquimista…
Anamar – A alquimia é um código de profundidade… mas na verdade é a própria simplicidade da vida. A harmonia é a forma mais simples, mas também a que requer mais trabalho.
FM – Assusta-a o envelhecimento, a decadência da beleza física?
Anamar – Assusta-me o envelhecimento, por estagnação. O envelhecimento interior. Assusta-me a morte interior, não em mim, e digo não em mim, porque não há receio que em mim, por dentro, morra aquilo que me anima, senão não estava viva. Sou a típica sobrevivente. Acredito que existe uma relação entre o envelhecimento da matéria e a sabedoria interior. Através do tempo, o homem tem acesso a ser, cada vez mais, ele próprio, a ser sábio. O envelhecimento físico acaba por ser o preço a pagar pela experiÊncia vivida. Mas também acredito que o corpo físico é condicionado pela energia interior, nomeadamente a psíquica. Daí não saber se as pessoas forem cada vez mais psiquicamente saudáveis se não serão também cada vez mais fisicamente vitais.
Já agora, também me assusta a paranóia de que todoa a gente queira ser como a Claudia Schiffer até aos 80 anso!… É a prioridade dada à plástica, ditada pela moda, uma ditadura de formatação de mentalidades, responsável pela morte interior de muitas pessoas.
FM – Vivemos uma época de morte e de apodrecimento. O Apocalipse?
Anamar – Talvez uma época de altos preços a pagar por tantas cristalizações. Há uma coisa que me faz muita impressão. Habitualmente, a informação que chega às pessoas é sempre sobreo lado negro dos sinais, nos telejornais e nos jornais. Parece qu ehá uma publicação num país, não sei bem qual, que se dedica só a divulgar aquilo que de bom acontece no mundo e que tem tido um público tremendo. Estamos numa fase crítica e, por isso, privilegiada. Considerando que o preço é alto, porque a tal formatação da cabeça e do “modus vivendi” das pessoas chegou a um limite de dissenção com o seu próprio interior, por outro lado existe a oportunidade de ver de caras, a um nível extremo, o que não dá, o que não funciona, que não traz felicidade. Nesse sentido, quanto mais claro se vê o inimigo, mais fácil é o entendimento do que poderá ser mais criativo.
FM – Quem ou o que é o inimigo?
Anamar – O medo.
FM – Como é que se pode vencê-lo?
Através da emergência da tomada de consciência de quem se é e do que se está a fazer. É a única saída. O homem meteu-se numa camisa de forças e, de alguma maneira, está a ser encostada à parede na pressão máxima. Ou descobre como é que sai lá de dentro ou então morre. Acabou o problema, estoira tudo. Acredito, ou melhor, sei internamente que o futuro das coisas é sempre e tendencialmente luz.

Anne Clark: Entrevista – Poesia Electrónica Na Aldeia Global

26.09.1997
Poesia Electrónica Na Aldeia Global

No novo álbum, “Word Processing”, Anne Clark entregou os seus textos nas mãos de gente como Global Youth, Sleepers Revenge ou Juno Reactor. Uma série de remisturas tecno que oblitera o lado poético desta autora que se apresentará, amanhã, ao vivo, na Aula Magna, com um espectáculo acústico.

LINK (Parte 1)
LINK (Parte 2)

“A anarquia criativa” é o método de composição seguido por Anne Clark, com o qual tem procurado estruturar um novo papel para a linguagem poética. Entre o niilismo punk, o romantismo acústico e o processamento electrónico.
FM – Nos anos 80 esteve ligada ao projecto Psychic TV, cujos métodos de trabalho passavam por processos de manipulação através do som e da palavra. Já fez alguma coisa semelhante?
AC – Hoje em dia o meu trabalho tem mais a ver com um combate contra a manipulação das imagens do que com a linguagem propriamente dita, que está a sofrer. Afastei-me do tipo de trabalho efectuado pelos Psychic TV ou, antes, pelos Throbbing Gristle. De uma forma ou de outra toda a gente usa a linguagem como uma forma de manipulação. Comunicação é manipulação. Tanto pode ser negativa como positiva.
FM – “Word Processing” assenta numa base lectrónica tecno. Não acha que, a este nível, se pode falar ainda de manipulação através do som?
AC – Há um lado ritual, quando milhares de pessoas se juntam a dançar ao som de música tecno. É um regresso ao tribalismo, algo necessário, agora que deixou de existir segurança e se estão a perder os valores religiosos. Não penso que seja negativo o facto de uma quantidade de pessoas ficarem ligadas pela música.
FM – Qual é o lado positivo?
AC – As pessoas sentirem que fazem parte de uma tribo, sentirem-se confortáveis. Há como que uma libertação e uma partilha. Acontece o mesmo com um livro, a pintura, o cinema ou a televisão. As pessoas lêem um livro para saberem se há mais alguém a pensar como elas.
FM – Concorda com a utilização de drogas como o “ecstasy” para reforçar esse estado de espírito?
AC – Não, nem dessa nem de outra droga qualquer. Já há tantas maneiras para sair da realidade que não são necessários os químicos. Mas as pessoas que sentem essa necessidade não devem ser proibidas de o fazer.
FM – O que pensa da utilização de textos subliminares?
AC – Interessei-me bastante por técnicas desse tipo, no passado, mas acabei por achá-las lamentáveis. Eram algo de ameaçador.
FM – No fundo da caixa do seu novo CD está impresso um texto com informação técnica detalhada relativa à gravação, um jargão saturado que acaba por esconde rmais do que revelar…
AC – Todo este projecto tem a ver com levar o meu material até aos seus limites, através da tecnologia. Precisamente o “word processing” do título. Não coloquei quaisquer reservas ou limitações aos diversos autores das remisturas, tiveram inteira liberdade para fazer o que quisessem. Nalguns casos processaram as minhas palavras de maneiras bastantes estranhas… Gosto bastante das faixas remisturadas pelos Mouse On Mars, e de “Nida”, pelos Saafi Bros.
FM – “A linguagem é um vírus” como escreveu uma vez “William Burroughs?
AC – “Do espaço exterior”, não é? Parece que os incas também vieram de lá… um vírus? Não creio. A linguagem, no seu todo, enquanto fonte imediata de imagens, está a desaparecer.
FM – Com a substituição da linguagem por outras formas de comunicação electrónica, como a realidade virtual, os poetas correm o risco de ficar sem emprego?
AC – Penso que sim [risos]. A informação está a tornar-se cada dia que passa mais sensacionalista, mais tablóide. Tudo se reduz ao superficial, deixou de haver profundidade. Há milhões de revistas e jornais a falarem de todas as coisas, enquanto os livros a sério são cada vez menos.
FM – No romance de George Orwell “1984”, o governo apagava sucessivamente as palavras, como forma de aumento de poder e de controlo. Sem palavras não há pensamento.
AC – Penso que a situação actual tem mais a ver com as formas de poder de Aldous Huxley do “Admirável Mundo Novo”, do que com George Orwell. Em Orwell é o controlo através do medo. No “Admirável Mundo Novo” é o controlo através do prazer e do consumo. A única forma de resitência a isto é tentar modificar o estilo de vida, não comprar um carro novo todos os anos ou trocar de mulher de três em três meses…
FM – Acredita na existÊncia da alma humana?
AC – Acredito na energia humana. Quanto à alma, gostaria realmente que ela existisse.
FM – Costuma referir-se a um “anarquia criativa” que determina os seus métodos de trabalho.
AC – O que tento fazer é atravessar o mundo e procurar compreendê-lo, as coisas que fazemos uns aos outros. As pessoas vêm ter comigo para me mostrar novos sons e novos textos.
FM – Procura fazer passar nos seus textos alguma forma de mensagem explícita, como fazia na altura em que fazia parte da cena punk dos anos 70?
AC – Limito-me a mostrar, enquanto indivíduo, as minhas reflexões sobre o mundo que me rodeia. Na altura do punk aconteceram uma quantidade de coisas malucas ao mesmo tempo; as pessoas juntavam-se para tocar sem nunca terem pegado num instrumento antes. Eu gostava de poesia e de música. Por que não reunir as duas?
FM – As palavras tanto podem ferir como curar. Qual o efeito das suas?
AC – Como toda a gente, provoco as duas coisas. Espero que os meus textos ajudem a curar, mas sei que já feri as pessoas – faz parte da natureza humana.
FM – O que pensa de uma cantora como Diamanda Galas? É alguém que pode deixar marcas profundas…
AC – Adoro-a. Gostaria de um dia trabalhar com ela. Lembro-me de assistir a um concerto dela, há alguns anos, em Londres, e de ver pessoas a sentirem um sofrimento físico. É uma “performer” que desafia realmente a audiência e que se pode tornar assustadora.
FM – Vai fazer algum tipo de “perfomance” no concerto de Lisboa?
AC – Vou trazer uma banda de seis pessoas e um dançarino. Música gerada exclusivamente por meios electrónicos corre o risco de se tornar muito aborrecida de se ver, com uma quantidade de máquinas e apenas uma pessoa.
FM – A seguir a este disco já está a preparar outro, sobre a poesia de Rilke.
AC – Gosto de experimentar diferentes estilos e ambientes. Como ser humano que sou, posso acordar numa manhã com um determinado estado de espírito e mudar ao longo do dia para outro. É um “work in progress” constante. Num dia posso estar voltada para a música electrónica e no seguinte preferir uma linguagem acústica, mais intimista.

Rui Miguel Abreu apresenta primeiro volume de “easy listening” nacional Um Luxo Estereofónico

20.06.1997
Rui Miguel Abreu apresenta
primeiro volume de “easy listening” nacional
Um Luxo Estereofónico
“Portugal de Luxe” é um objecto tão “kitsch” quanto sedutor. Uma dama loura e carnuda apresenta em pose erótica, no meio de plumas e holofotes, este primeiro volume de “um ‘cocktail’ estereofónico” para apreciadores de fibra e nostálgicos da naftalina.

É a estreia do “easy listening”, do bom e verdadeiro, em Portugal. A iniciativa deve-se a Rui Miguel Abreu, responsável por esta compilação que a Norte Sul acaba de lançar no mercado. “Portugal de Luxe” inclui clássicos como “Óculos de Sol”, “Missing You”, “Lisboa à Noite” e “Oh!”. Melodias com que os nosso pais se deleitavam e hoje acenam com um estranho encanto aos ouvidos sobrecarregados de informação do auditor dos tempos modernos.
Rui Miguel Abreu tem 28 anos de idade. Ainda não era nascido quando pairavam no éter as notas exóticas e tropicais do Thilo’s Combo. Descobriu esta música, motivado pela leitura da enciclopédia “Incredible Strange Music”, onde “se falava de nomes esquisitíssimos como a Yma Sumac ou o Esquivel”. Na Feira da Ladra começou a comprar alguns discos” que se encaixavam no ‘easy listening’. Há cerca de dois anos começou a reparar que este seu interesse “tinha um eco lá fora”, quando surgiram no mercado nacional as edições “Sound Gallery” ou “Sound Spectrum” que, “de alguma maneira, pegavam no ‘easy listening’”.
A partir daí foi só “somar dosi e dois”. Rui Miguel Abreu trabalha presentemente numa editora, a Norte Sul, subsidiária da casa Valentim de Carvalho, que tem uma longa história atrás de si. Mostrou o projecto Às chefias e pediu para investigar os arquivos. Deram-lhe carta branca. “Mergulhei à procura de coisas”, diz. Depois, partiu para as audições na companhia de Fernando Cortez, um técnico histórico da Valentim, já com 50 anos de casa. “ia-lhe perguntando, ele lembrava-se de algumas coisas, mais tarde, a partir de conversas com muitas pessoas, fui chegando a alguns nomes. A partir daqui forma meses e meses, com o Pedro Tenreiro, outro AR [artistas & reportório] da Norte Sul, a ouvir as fitas originais e a seleccioná-las.”
Na altura em que se procuram novos nomes para a música portuguesa, tarefa na qual a própria editora Norte Sul está empenhada, que sentido faz desenterrar do baú das memórias nomes como os de Thilo’s Combo (de Thilo Krassmann), o Conjunto Académico João Paulo, Mafalda Sofia ou Natércia Barreto (dos “Óculos se sol”…)? para Rui Miguel Abreu, parece não haver dúvidas de que as pessoas, conforme a geração a que pertencem, se voltaram a interessar, ou começam a interessar-se, por este género de música. O compilador de “portugal de Luxe” tem uma explicação para o fenómeno. “A essência da pop é reembalar e tornar a dar.” Mas encontra factores mais concretos. “por exemplo, no cinema, há uma série de recuperações dos heróis dos anos 60, do 007 à Missão Impossível, passando agora pelo Santo, séries que marcaram muito as pessoas das décadas de 60 e 70. passa-se o mesmo na moda, onde os estilistas voltaram a pegar nas marcas dessa altura e a inseri-las na roupa.”
Em relação à música, Rui Miguel Abreu vai ainda mais longe. “Acredito que parte do ‘trip-hop’ ajudou a voltar a meter estes sons na ordem do dia. porque começaram a ser sampladas sobretudo as bandas sonoras dessa época. Não é à toa que o projecto que lidera a Mo’Wax se chama Unkle, acho que tem a ver com a série de televisão The Man From Unkle. Como não é À toa que os Portishead samplaram o Lallo Schiffrin, conseguindo o que muitos anos de culto não foram capazes de fazer. Assim como não é por acaso que bandas como os Massive Attack foram, sub-repticiamente, metendo este tipod e som na ordem do dia. Tudo isto criou uma predisposição para se voltar a ouvir este tipo de música. É um efeito muito semelhante ao que aconteceu com a banda sonora de ‘Pulp Fiction’, ao incluir aquele tema do Dick Dale, de repente começaram a sair uma série d ecompilações de ‘surf music’ dos anos 60.” Em suma, para Rui Miguel Abreu, “quando há um ‘clic’ qualquer que chama a atenção da spessoas para uma determinada coisa, geralmente gera-se uma onda e curiosidade, que é um argumento muito forte de vendas”.
A questão que se põe, a partir do momento em qu eeste volume de “portugal de Luxe” se encontra disponível nas lojas (o segundo já está igualmente pronto a ser lançado), é saber quem vai ouvir esta música de que o tempo voltou a abrir mão.Os mais velhos, que ainda se lembram? Os mais novos, que acham piada? Uma elite bem informada adepta das delícias do “kitsch”? Para Rui Miguel Abreu, há “duas formas diferentes de a ouvir”. “Eu e o Pedro Tenreiro, quando partimos para a investigação do catálogo, tínhamos em mente uma compilação que, para o nosso meio, funcionasse como funcionou lá fora o ‘Sound Gallery’, o ‘Sound Spectrum’ ou o ‘Inflight Entertainment’, ou seja, uma compilação dirigida a pessoas que têm algumas referências neste tipo de som, nomeadamente através do ‘trip-hop’. Isto porque nós não ouvimos esta música em primeira mão, na rádio. Quando éramos crianças, já se ouvia outro tipo de coisas, eu cresci com o ‘boom’ do rock português, não foi com isto. Só que, quando mostrámos a compilação aos nossos patrões, eles começaram a perceber que esta música iria dizer alguma coisa também à geração que a consumiu em primeira mão.”
É que, de facto, para além de umcerto diletantismo que leva ao consumo, “a posteriori”, do “easy listening” original, há esses tais mais velhos, que não se esqueceram. “Tenho informações”, adianta Rui Miguel Abreu, “de que, nas lojas da Valentim, não há dia que o ‘Óculos de Sol’ toque numa loja e que eles não vendam três ou quatro CD. Se estiverem lá pessoas de uma determinada idade, vão logo a correr ao balcão perguntar onde é que isto está.””Portugal de Luxe” é, então, seja qual for a perspectiva em que se ouça, um luxo.