Arquivo mensal: Abril 2010

Os Poetas Apresentam “Entre Nós E As Palavras” – Entrevista –

14.11.1997
Os Poetas Apresentam “Entre Nós E As Palavras”
O Caminho Das Letras Que Cantam
Mário Cesariny, Luiza Neto Jorge, Herberto Helder, Al Berto e Franco Alexandre são os poetas da escrita presentes no álbum de estreia de Os Poetas, um grupo de músicos atentos ao som das palavras e ao sentido dos sons. “Entre Nós e as Palavras”, assim se chama o disco, é esse espaço de abertura e convergência.

Rodrigo Leão, Gabriel Gomes, Francisco Ribeiro e Margarida Araújo, os quatro instrumentistas de Os Poetas, falaram ao PÚBLICO da fase actual de um projecto que pretende alargar-se, num futuro próximo, à área do teatro e a outros poetas contemporâneos. Cesariny ou Herberto Helder poderão subir ao palco sempre que quiserem.
FM – Qual é a génese deste projecto?
Margarida Araújo – Surgiu de uma conversa entre o Rodrigo, o Gabriel e o Hermínio Monteiro, da Assírio & Alvim, quando este último falou da existência de gravações de poetas a recitarem os seus próprios poemas. Chegaram à conclusão que seria interessante juntar isso com música. No início deste ano entrámos em estúdio.
Rodrigo Leão – Começámos em Abril, praticamente do zero. Havia uma ou duas coisas que eu já tinha feito para um espectáculo para a associação Saldanha…
FM – A quem se deve a escolha dos poemas para o disco e para o espectáculo?
Rodrigo Leão – O Hermínio emprestou-nos as gravações e a partir delas seguiu-se um proceso de selecção muito espontÂneo. Não nos interessava inventar um tipo novo de música, mas trabalhar as reações mais imediatas à tonalidade dos diversos poemas.
Gabriel Gomes – Foi um acto de paixão. Quando começámos a ouvir os discos dos poetas, as palavras eram demasiado fortes. A partir daí tentámos encontrar uma cadência tanto para os poemas como para a forma como estes eram expressos pelos seus autores. Andámos à procura da coincidência entre a palavra e a música. Fomos experimentando. Umas vezes compúnhamos inspirados directamente na poesia, tocando sobre ela, noutras a música surgia depois do poema, noutras ainda compúnhamos o tema e íamos à procura do poema certo para ele.
FM – Em termos estritamente musicais, é difícil não recuarmos aos primeiros tempos dos Madredeus, até porque há três elementos que fizeram parte desse grupo…
Rodrigo Leão – É difícil comparar dois projectos tão diferentes, apesar de haver semelhamças, ao nível da sonoridade. Os Madredeus têm uma cantora, uma figura que canta a apoesia de outra maneira. No nosso projecto, são os próprios autores a ler os poemas.
FM – Se tivessem um cantor tudo funcionaria de maneira diferente?
Francisco Ribeiro – Quando há um cantor, toda a instrumentação tem de ser adaptada a ele. No nosso caso, embora tivéssemos o cuidado de procurar a tonalidade, as pausas, toda a maneira como o poeta diz, o processo de criação foi mais livre, sem uma melodia rígida em relação à qual nos tivéssemos de cingir. também aí divergimos dos Madredeus, na medida em que cada um de nós foi livre para criar a música.
FM – Como reagiram, em termos de apreciação e posterior composição, A`s duas formas diferentes de dizer o poema que utilizaram: uma, a gravação com o próprio autor a declamar e outra, com a declamação, em tempo real, feita pela actriz Margarida Marinho?
Francisco Ribeiro – A maneira como nos adaptámos à palavra difere de tal maneira, de poema para poema, e de pessoa para pessoa… Imagine-se, por exemplo, que temso a Margarida Marinho a declamar uma das poesias de uma forma mais lenta, aí temos que adaptar a música a essa cadência.
Gabriel Gomes – Digamos que essas duas situações, uma em “off”, outra em tempo real, são distintas. Se, por um lado, é óbvio que temos de nos adaptar, por outro, com a Margarida Marinho, o trabalho pode ser feito em simultâneo, adaptarmo-nos nós ou adaptar-se ela. Pessoalmente, achei supernovo estar a tocar em palco e, de repente, ser disparada uma voz que não está em palco. Com a Maragarida Marinho é diferente, é como se ela fosse uma cantora. Complementando com a palavra, que também é melódica. E há poemas em que a música é, à partida, como uma página em branco, que nos empurra para a improvisação, conforme as palavras vão sendo ditas.

Há Uma Palavra Certa
FM – Além da música e da poesia, há uma componente teatral nos vossos espectáculos, já para não falar no modo como o Francisco Ribeiro canta “quem Me Dera (Amanhã)2. Tencionam desenvolver mais esta faceta?
Rodrigo Leão – O disco cristaliza o momento, segundo o conceito dos poetas recitarem a sua poesia e nós musicarmos essa poesia em diversas situações. Nos espectáculos, temos vindo a desenvolver essa componente mais teatral.
Francisco Ribeiro – É mais uma “perfomance” que dá lugar à expressão corporal. a ideia é, de resto, essa, de juntar diversos campos artísticos.
rodrigo Leaõ – A personagem que o Francisco encarna no tema que canat não foi estudada, foi surgindo a pouco e pouco, mas agora realmente sentimos que ele encarna mesmo uma personagem. De resto, ele também já faz a declamação, ao vivo, do poema “há uma hora, há uma hora certa”, do Cesariny.
FM – Todos os elementos do grupo partilham a mesma forma de encarar os poemas que foram escolhidos “a priori”?
Gabriel Gomes – Quem assistir aos nossos ensaios perceberá como funcionamos. Cada um tem uma ideia, mas há como que uma sintonia, porque o outro já estava a pensar em algo semelhante. Não existe grande confrontação.
Rodrigo Leão – … Embora também haja momentos de desintonia perfeita!… Sobretudo nos últimos três meses de estúdio, houve muitas discussões, mas acabámos, de forma quase inconsciente, por achar as soluções certas e encontrar uma unidade estética.
Gabriel Gomes – Por exemplo, há um poema do Al Berto com música do Francisco. Não tínhamos música para ele, mas queríamos mesmo usar o poema, “XXX”. Porque é que não haveríamos de usar apenas o Al Berto e o violoncelo? experimentámos com uma música que já estava feita há muotos anos, e que inclusive já tinha sido tocada em espectáculos dos Madredeus. Foi aproveitada e funcionou na perfeição na relação entre o poeta solitário Al Berto e o violoncelo solitário do Francisco.
FM – Já puseram a hipótese de convidar algum dos poetas deste projecto para declamar ao vivo, co o grupo, em palco?
Gabriel Gomes – Há poucos dias tivemos a honra de fazer um “videoclip” com o mário Cesariny, que é uma coisa fantástica. Conheci pela primeira vez o senhor e fiquei bastanrte impressionado. Convidei-o para ir ao espectáculo [que teve lugar na Aula Magna, na passada terça-feira]. não vamos pedir, obviamente, que ele vá recitar… A não ser que ele queira mesmo… Já tem idade e posição suficiente para fazer o que lhe apetece. Se ele disser: “Quero ir recitar”, o palco é para ele e a música que improvisarmos há-de ser feita. e com o Herberto Helder também gostaríamos que acontecesse… Quanto ao Franco Alexandre, vai mesmo colaborara connosco proximamente.
FM – Também não se lembraram de experimentar com a chamada “poesia fonética”, de Mello e Castro, por exemplo?…
Rodrigo Leão – Podia ser giro, mas é preciso ver que não somos verdadeiros especialistas em poesia. Só este ano é que começámos a levar para a frente este projecto, e temos vindo a apaixonar-nos e a envolver-nos cada vez mais com apoesia. Até é possível que apareça um segundo disco, embora não tenhamos obrigatoriedade de carreira com este projecto.
Francisco Ribeiro – E há outra situação super-interessante que podemos explorar no futuro, que é ter poetas vivos, contemporâneos, connosco em estúdio, para uma criação em conjunto. Composição em tempo real entre a palavra e a música. Que é o que, de resto, se passa, por vezes, com a Margarida Marinho.
FM – Um grupo com um poeta no lugar do cantor?
Gabriel Gomes – Exacto. Aliás, a ideia inicial deste projecto incuía a participação do próprio Al Berto. Infelizmente ele faleceu e isso não aconteceu. Se calhar, ele até poderia compor poesia original para as nossas músicas, ou vice-versa… Mas esta ideia permanece de pé, com outros poetas que eventualmente escolhermos.
FM – “Desde os primórdios que a poesia nasceu para ser cantada ou recitada”, escreveu Hermínio Monteiro, a propósito do lançamento do disco. A afirmação é discutível…
Gabriel Gomes – Mas quando ele diz isso está a recuar à época dos gregos, a poemas como a “Elíada” ou a “Odisseia”, que eram poesia para ser cantada. E na Idade Média acontecia amesma coisa.
FM – Vocês são os trovadores desta geração?
Francisco Ribeiro – Um pouquinho… Não, estou a brincar.
Rodrigo Leão – Não, temos é a possibilidade de fazer a conjugação das artes. Ultimamente, cada uma tem caminhado sempre um pouco no seu campo. a nós interessa-nos juntá-las.
FM – O declamador tradicional tende a desaparecer? Villaret e Mário Viegas já cá não estão… Será que a poesia necessita, hoje, de ser dita em outros contextos?
Francisco Ribeiro – É um facto que a poesia tende a ficar cada vez mais guardada numa prateleira. Neste sentido, o projecto “Entre Nós e as Palavras” vem mostrar mais uma vez que a poesia existe e está viva.

Kate St. John Fala Do Seu Novo Álbum: “Já há música que chegue para os mais novos” – Entrevista –

31.10.1997
Kate St. John Fala Do Seu Novo Álbum
“Já há música que chegue para os mais novos”
Romântica e poética. Assim se poderá definir a personalidade e a música de Kate St. John, cujo último álbum, “Second Sight”, acaba de ser editado. Com as marcas da canção francesa e de assuntos difíceis de enfrentar, como a morte, e onde a poesia é encarada como forma de redenção.

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Rquisitada com assiduidade para participar em sessões de estúdio dos mais diversos artistas, Kate St. John recolhe-se nos seus discos a asolo numa música mais intimista, onde se descortinam fortes traços de romantismo e melancolia. A antiga cantora dos dream Academy prepara actualmente um álbum de homenagem a Nick Drake.
FM – “Second Sight” conta com a presença de Roger Eno, com quem já colaborara em “The Familiar”. Quando é que o conheceu?
Kate St. John – No início dos anos 90, através de um amigo comum, americano, da editora de discos. Eno andava à procura de uma cantora para “The Familiar”. Demo-nos bem e acabei por escrever as letras para o disco. Nunca tinha ouvido antes a música dele, depois percebi imediatamente que tínhamos muito em comum. Mas as melodias de “The Familiar” não eram bem canções, por isso a voz foi usada mais como instrumento. Não era a clássica sequência “verso-refrão-verso”, embora tivesse palavras.
FM – O que tem, exactamente, em comum com Roger Eno?
Kate St. John – Bem… Gostamos ambos de música bastante romântica, assim como nos interessa fazer arranjos dentro de um estilo neoclássico, em vez de uma música mais ruidosa. É como se seguíssemos os dois num ritmo sincronizado.
FM – O ambiente geral da música que ambos fazem pode definir-se como impressionista?
Kate St. John – Sim, sem dúvida. Ele prefere que a voz seja calma, de maneira a misturar-se com o resto da música. Não se trata de um cantor com uma banda por trás.
FM – Na vida real é assim tão calma e romântica como aparenta ser nos discos?
Kate St. John – não [risos]! Bem, na verdade sou uma pessoa calma, mas também tenho um lado mais gregário. Tenciono kostrar no próximo álbum outros aspectos da minha personalidade. Algumas pessoas acham que os temas de “Second Sight” já não são tão depriomentes e sombrios como costumavam ser. Penso que estou a mudar.
FM – “Second Sight” é uma viagem (“trip”) por várias paragens e ambientes do planeta…
Kate St. John – “Yeah”, meu [risos]!
FM – Não nos referimos a esse tipo de viagens…
Kate St. John – Ah, bom, não tenho nada a ver com drogas. Mas, sim, o álbum é como uma viagem, uma viagem imaginária.
FM – O que não a impediu de trabalhar com Julian Cope, a maior “acid head” dos dias de hoje…
Kate St. John – É verdade, mas isso já aconteceu há muito tempo. Nãos ei se temos algo em comum, somos amigos e ele pareceu gostar daquilo que fiz no álbum del. Ah, sim, gostamos os dois de música dos anos 60!
FM – Trabalhou em “Second Sight” com uma série de artistas estrangeiros – franceses e russos…
Kate St. John – Sim, tenho a tendência para me relacionar melhor com pessoas que vivem for a de Inglaterra. Regra geral, no resto da Europa existe uma mentalidade mais aberta. Em relação aos músicos russos que participam no álbum, os Aquarium, de Boris Grebinshikov, já tinha produzido dois álbuns deles. Foram eles que fizeram questão de entrar no meu disco. A voz de Boris é simplesmente fantástica. Gravámos uma faixa em Londres, durante uma tarde. A França surge devido ao facto de o meu co-produtor ser francês e de eu gostar bastante de trabalhar com músicos de estúdio franceses.
FM – Quando canta, em francês, “J’attendrais”, é difícil não pensar em Edith Piaf. Até que ponto foi influenciada pela chamada “chanson française”?
Kate St. John – Acha? Sim, de facto adoro todos esses velhos cantores franceses, não só Edith Piaf, mas também Juliette Gréo ou Lucienne Boyer; é um dos meus estilos de música favorito. Teria gostado imenso de fazer um álbum inteiro só de canções francesas, mas tive que me conter e gravar apenas essa, um “standard” que toda a gente em França conhece.
FM – Joseph Racaille, também francês, é outra presença importante no disco. ele veio dos ZNR, ao lado de Hector Zazou e…
Kate St. John – Ah, conhece a sua música? Ele tem um álbum novo, fantástico, na WEA, onde eu também participo, a tocar saxofone e a cantar. Infelizmente, para já, só está disponível em França.
FM – Outro nome que nos vem à mente é o de Virginia Astley. Voltou a tocar com ela depois do projecto Ravishing Beauties?
Kate St. John – Depois disso só fiz com ela um par de temas para o seu novo álbum, que apenas foi editado no Japão. Não a convidei para participar neste meu novo álbum, porque o tinha feito no anterior e porque gosto de mudar.
FM – Já trabalhou com uma quantidade enorme de pessoas, de Julian Cope, como já se falou, aos Blur, Everything But The Girl, Kirsty McColl ou Van Morrison… Sente-se à vontade a tocar com tanta gente diferente?
Kate St. John – Na maior parte das vezes, trata-se unicamente de sessões de estúdio. Entro lá numa tarde, toco uma ou duas canções e já está, adeusinho, acabou! É a minha profissão. Andei anos a estudar e a praticar saxofone e agora as pessoas pedem-me para tocar com elas.
FM – Não é um instrumento que seja muito vulgar ver tocado por mulheres, pois não? Já agora, tem alguma ligação com o jazz?
Kate St. John – Não, na verdade não é!… Mas gosto e tenho o hábito de ouvir jazz. Tento mesmo aprender a tocar jazz. Penso, aliás, que o meu próximo álbum será mais “jazzy”, com mais ritmo.
FM – Sabemos que está actualmente envolvida num projecto de produção de um álbum de homenagem a Nick Drake. Pode adiantar-nos alguma coisa sobre ele?
Kate St. John – É uma co-produção com Joe Boyd, que foi quem descobriu e produziu os álbuns originais de Nick Drake. Há alguns anos atrás começou a gravar algumas versões de temas de Nick Drake, na américa, mas depois parou e o projecto ficou na gaveta. Até que, recentemente, resolveu recomeçar e pediu-me para ser eu a co-produtora. Nesta altura estamos a contactar diversos artistas, para aprticiparem no disco, como Kate Bush, Brian Kennedy ou Paul Buchanan, dos Blue Nile e, talvez, Paul Weller, não sabemos ainda. Contamos que o álbum saia por altura do Ano Novo.
FM – Numa altura em que muitas intérpretes femininas se voltam para o hi-hop e para a música de dança, você permanece fiel a uma linha musical bastante recatada. Gosta assim tanto de se manter afastada do resto do mundo?
Kate St. John – Faço discos apenas para meu próprio prazer. É por isso que stou numa pequena editora independente que pode não vender muitos discos, mas me deixa fazer aquilo que eu quero. Não estou interessada em fazer algo que me desagrade do ponto de vista musical. No meu caso, a vida de músico é dura – pouco dinheiro e muito trabalho. Se não tivesse uma recompensa, uma satisfação estritamente musical, não faria qualquer sentido continuar. Já não tenho 20 anos, mas 40, e gosto de fazer música para pessoas mais velhas. Porque é que não se há-de fazer música para toda a gente, em vez de só para os jovens? Já há música que chegue para os mais novos. Então e os outros, não têm direito a outra música? Então e eu, não tenho esse direito [risos]?
FM – O que procura fazer chegar às pessoas, o que gostaria que elas sentissem ao ouvir a sua música?
Kate St. John – Alguns dos temas das minhas canções são bastante tristes, como a morte de pessoas, assuntos difíceis de encarar, mas com os quais toda a gente tem de viver. Escrever sobre esses temas, de uma forma poética, ajuda-me a lidar com eles. Trata-se, no fundo, de poder encará-la sob uma perspectiva menos terrífica. Vi há alguns dias escrito num jornal que a poesia pode ajudar a recuperar os doentes de cancro. Em vez de se sentirem aterrorizados, a pensar em suicídio, na doença do seu corpo, que vão morrer, concentram-se na beleza. Mesmo que seja na forma da tragédia.

Fennesz – Endless Summer

07.12.2001
Fennesz
Endless Summer
Mego, distri. Matéria Prima
7/10

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Originalmente título de uma colectânea de 1974 dos Beach Boys, compilada por Mike Love, “Endless Summer” culmina uma operação de reconversão genética da música pop e o fim do idealismo. O surf nas ondas do sonho da geração de 60 morreu na praia e o naufrágio do sonho americano é aproveitado pelo austríaco Christain Fennesz como matéria de oscilação para outro tipo de ondas. Se David Thomas e os Pere Ubu ainda conservam, na mesma devoção à banda de Brian Wilson, os traços de um romantismo dilacerado, o antigo elemento da Orchester 33 1/3 – que num EP de 1998 já pulverizara outra canção dos rapazes da praia, “Don’t Talk (put your head on my shoulder)”, do álbum “Pet Sounds” – liquefaz aquele imaginário num oceano de clicks & cuts, aqui bem mais chegado às margens tranquilas do chill-out. Um chill-out com rugas, bem entendido, a deformar o smile da geração “rave”. Enquanto o anterior álbum, “+47º 56’ 37” – 16º 52’ 08””, impressiona pelo abstraccionismo e poder de análise, “Endless Summer” confirma o talento de Fennesz como bricoleur, capaz de arrancar insuspeitas melodias ao ruído e de cortar em pedaços e estética monumental que ele próprio ajudou