O título é o de uma canção de 1982 dos Stranglers, tidas como uma das bandas mais machistas do planeta. É uma das canções-chave do novo álbum de Tori Amos, reflexão sobre “como os homens dizem as coisas e a forma como as mulheres o entendem”. Doze versões de “canções que ferem e canções que curam”, escritas por homens, sobre mulheres, que Tori Amos reinterpreta na perspectiva de outras tantas personagens retratadas na capa. O que poderia passar por uma concessão a uma tendência em voga é um exercício de introspecção sobre a visão masculina que Tori Amos reformula ao nível da recontextualização dos poemas e da arquitectura formal, originais de Neil Young, Eminem, Depeche Mode, Slayer, Lou Reed, Lennon/McCartney, Bob Geldof e Joe Jackson. Litania do feminino reflectida num espelho difícil de encarar à luz das convenções.
Prosseguindo o louvável trabalho de desenterrar do baú dos anos 40 e 50 as mais incríveis excentricidades musicais, a Basta apresenta-nos agora “Zounds! What Sounds!” de Dean Elliot, a comprovar que Raymond Scott não era o único maluco Americano a envenenar os anos do swing e das big bands. A particularidade da música de Elliot está na combinação de efeitos “concretos”, habilmente montados e sincronizados em estúdio, com o desempenho “normal” da sua “big, big band”. Serrotes, chuva, trovões, talos de aipo (“os mais estaladiços”!…), relógios, pinos de bowling e a estrela da companhia, uma betoneira último modelo, assumem-se como parte activa da composição, estruturados como elementos rítmicos ou simplesmente ornamentais. O próprio Elliot explica como procedeu numa deliciosa entrevista que o livrete reproduz na íntegra. Delicioso este “easy listening” swingante que soa a um improvável casamento de Benny Goodman com os Negativland.
“E agora, o quê?”, pergunta Peter Hammill. Chegado aos 53 anos, o músico, poeta e antigo vocalista dos Van Der Graaf Generator, interroga-se, como não podia deixar de ser, sobre o tempo e as marcas da sua passagem. “What, Now?” provoca no admirador incondicional da obra deste trovador dos tempos modernos, impressões contraditórias. Em termos exclusivamente poéticos, o álbum pauta-se por um retorno aos grandes temas cósmicos e filosóficos – a solidão do indivíduo, a descoberta de um sentido para a vida ou a submissão religiosa, que caracterizavam obras máximas como “The Silent Corner and the Empty Stage”, “In Camera” e a trilogia a preto e branco, “The Future Now”, “PH7” e “A Black Box”. Neste particular, “What, Now?” contém temas merecedores de reflexão, por sinal os mais longos, nos quais Hammill se questiona sobre os limites da individualidade, da santidade e da paranóia, como “Here comes the talkies2, “Lunatic in Knots” e “Edge of the Road”. As palavras, saídas da experiência ou arrancadas ao inconsciente colectivo, que Hammill rompeu a golpes de uma introspecção violenta, são arrebatadoras na exposição, por vezes trágica, do homem apresentado na sua dimensão de divindade aprisonada. Pelo tempo, pela carne, pelo pensamento, pelos outros, por si próprio. “So many angels/ However man can there by, ghosts and djinns/Dancing on the head of a pin?/How many questions are left unresolved?/Exactly where do I begin/Now that the walls are closing in?/Who’s the lunatic/And who’s the sensible soul deep within the skin/Hanging on and listening in…?”, pergunta, em “Lunatic in Knots”, trazendo à lembrança a grande dilaceração entre o ego, os anjos e os demónios (os “djinns” bíblico…) da obra-prima dos Van Der Graaf, “Pawn Hearts”.
Mas há o reverso da medalha num álbum marcado pelas guitarras e pela electrónica épicas aos quais não terá correspondido, desta feita, uma produção à altura. Falta espaço e tridimensionalidade a este conjunto de canções marcadas por uma profunda tristeza. O tempo, sempre o tempo, não perdoa, e faz sentir os seus efeitos na voz. A “What, Now?” falta o “punch”, a força e a revolta de antanho que tornavam cada intervenção vocal de Peter Hammill num tornado ou numa prece tocada pelo fogo sagrado. O que parece indicar que esta tensão poética que em “Waht, Now?” subitamente se reacende, já não conseguirá traduzir-se numa catarse como a de “In Camera”, mas poderá continuar a desenvolver-se em terreno de excepção na veia mais intimista de “Fireships” ou dos recentes “This” e “None of the Above”. “The boy’s alive, the boy is in the man”, canta o poeta-músico em “Wendy & the lost boy”. Pressente-se o drama. O Peter Hammill de “What, Now?” não perdeu a pureza do Peter Hammill de “Fool’s Mate” (1971), mas o corpo enfraqueceu (as imagens da capa parecem contradizê-lo, numa série de fotos do músico em movimento, entre a prostração e a tentativa de voo). Porém, Hammill já venceu a morte e essa é a maior das suas vitórias, no decurso de uma longa ascese, sem precedentes na música deste século.
“What, Now?” dá ainda a conhecer o Hammill profeta, em “The American Girl”: “The American girl stubbed her toe on the old world/And the old world’s unforgiving rigidity/Well, times got hard/And talk came cheap/She found that finally/Something wasn´t right across the sea…/Now she´s stateless in all but her memory”. E agora, o quê?