Arquivo mensal: Fevereiro 2010

Time Control – Time Control

04.12.1998
Time Control
Time Control (7)
Sub Rosa, distri. Ananana

Depois dos americanos, dos ingleses, dos alemães e dos franceses, chegou a vez dos japoneses ficarem fascinados pelas infinitas possibilidades de reciclagem permitidas pelo “pós rock”, etiqueta, de resto, em vias de extinção. Remontando a uma tradição que só remotamente se pode localizar na fase inicial dos Yellow Magic Orchestra, longe, muito longe, das subtilezas progressivas de uns After Dinner, Wha Ha Ha ou Ain Soph, os Time Control ficam-se pela mastigação do poder das sequenciações electrónicas, abandonando outras veleidades melódicas. Esforçando-se ao máximo para soarem como um grupo de “krautrock”, o grupo japonês abraçou deste movimento sobretudo o conceito de repetição e do sintetizador usado como martelo-pilão. Percebe-se que beberam a poção dos anos 70 por via indirecta, através da tecno e outras formas de música de dança, que estratificam em fórmulas rítmicas cuja rigidez contraria o lado libertário que caracteriza mesmo os grupos mais disciplinados da escola de Düsseldorf, como os Neu! e La Düusseldorf. A meio caminho entre os D.A.F., os Die Krupps e o jungle, nem sequer faltam neste “flashback” os cogumelos alucinogénicos que faziam as delícias dos Can, sugerindo conotações psicadélicas que o quarteto japonês pulveriza com a delicadeza de uma mílicia de choque ocupada em controlar o tempo a golpes de ecstasy. Implacável, pouco original mas incontestavelmente sedutor.

Roger Eno – The Flatlands

04.12.1998
Roger Eno
The Flatlands (7)
All Saints, distri. MVM

LINK (“Fragile Music”)

Pequena música de câmara. Peças interligadas em momentos de nostalgia emocional que pretendem juntar a inspiração do instante com a eternidade dos sentimentos. Admirador de Satie, cada vez mais mergulhado numa visão líquida da música, Roger Eno enaltece com intensidade os ambientes de tristeza abstracta que caracterizavam os autor das “Gimnopédias”, acrescentando-lhes uma nota de humanidade e os horizontes de uma paisagem mais humanizada. Se o álbum de estreia de Roger Eno, intitulado “Voices”, situava o piano no centro nevrálgico de um universo declarada e descaradamente satieano, toda a sua obra posterior se dirigiu no sentido de um classicismo que contraria o modo de aproximação ao silêncio do seu irmão mais velho, Brian Eno. “The Flatlands” flutua na música clássica à qual “foram extraídos os momentos mais velozes, deixando-se apenas aqueles instrumentos adoráveis de clama que as correntes da moda foram fazendo desaparecer”. Composto ao longo de um período de 18 meses, “The Flatlands” serve de modelo de um classicismo “light” que aflora a elegância minimalista de Daniel Schell ao mesmo tempo que recorda os tempos criativos de Michael Nyman e Wim Mertens, aproximando-se ainda, nos quadros mais carregados, como o do tema inicial, “Somewhere above”, da tragédia subaquática de Gavin Bryars, anotada em “The Sinking of Titanic”. Piano, uma secção de cordas, um oboé ou um vibrafone escondidos entre os arbustos de um jardim meticulosamente trabalhado, estabelecem atmosferas e melodias que afundam o coração em cuidados e alimentam as mais frágeis fantasias do espírito, como se cada nota, cada silêncio e cada cortesia desta música tecida no crepúsculo outro objectivo não tivessem senão fazer-nos deslizar no sonho.

Peter Hammill – This

04.12.1998
Peter Hammill
This (9)
Fie! Distri. Megamúsica

LINK

Volvidos 30 anos sobre o início de carreira, consumida a loucura cósmico-existencialista dos Van Der Graaf Generator, Hammill prossegue a sua viagem pelos confins da loucura e do amor. “This”, gravado com a companhia habitual dos saxofones alucinados de David Jackson, o violino e viola-de-arco de Stuart Gordon e a bateria de Manny Elias, é uma explosão de energia e de mensagens cruzadas que brotam em discurso directo de uma alma atormentada. Depois de uma fase de alguma estaganação, Hammill parece ter encetado, a partir de “X my-heart” e “Everyone You Hold”, o caminho que o levará, por fim, a descobrir os segredos que se ocultam por detrás do horizonte. Recuperam-se e reordenam-se em “This” antigas e novas angústias, antigos e novos sons, numa eterna mutação de descoberta interior. Dos Van Der Graaf, escutam-se as convulsões, em “Frozen in place”, positivamente enlouquecido pelo sax de Jackman; A electrónica ordenada segundo os esquemas da esquizofrenia urbana, de “The Future Now” e “PH7”, assomam em “Stupid”. E há, ainda e sempre, a poesia imensa de um piano enegrecido pela noite a embalar o pesadelo, como se este fosse uma criança, em “Since the kids”. Mais o mergulho nas tapeçarias étnicas de “Nightman”, o choro de cordas de “Fallen (City of Night)” e o poder multifónico e multivocal de “Always is next”, tatuado a fogo e adrenalina. Encerrando-se a cerimónia com os 14 minutos de “The light continent”, reverso lunar, iluminado pela visão e pela profecia, através das profundezas da esperança e da dor, escuridão absoluta e do dilúvio sulfúrico que caracterizam uma das sequências poético/instrumentais mais aterradoras de toda a música popular, “Magog (In Bromine Chambers)”, da obra-prima “In Camera”.