O melhor da “Canterbury Scene” passa pelos Matching Mole, fundados por Robert Wyatt após a sua saída dos Soft Machine, com antigos elementos dos Quiet Sun, Caravan e Delivery. Em “Matching Mole”, de 1972 (também reeditado), a pop pueril de “O Caroline” ilude com a sua simplicidade um álbum que explora alguns dos caminhos abertos por “Moon in June”, faixa vocal-ícone de “Third”, obra máxima dos Soft Machine. Jazz, surrealismo infantil, filigranas de free rock, loops psicadélicos e scat enramelado, num clássico canterburyano, irmão de “In the Land of Grey and Pink” dos Caravan. “Little Red Record” (1973), manifesto dada-maoísta, extrema as posições, partindo da canção pop para chegar à sátira religiosa (“Godsong”) e política (“Starting in the middle of the day you can drink your politics away”), num envolvimento sem retorno no mesmo tipo de complexidade, fértil e arrojada, dos Egg. Um dos discos-chave dos anos 70.
“Emperor Tomato Ketchup”, o anterior álbum dos Stereolab, recriava de forma sistemática alguns dos tiques do krautrock, sacados principalmente dos Neu!, Kraftwerk e Can, em contraste com as vocalizações “rive gauche” da vocalista Laetitia Sadier e uma veia easy listening que o grupo nunca disfarçou. O passo dado neste novo “Dotsandloops” deixa de lado as referências au kraut, pondo em seu lugar uma bandeja – sem dúvida arranjada com bom gosto, mas evidenciando uma manifesta falta de criatividade – cheia de doces. Por outro lado, o grupo revela aqui a sua faceta de camaleão, pintando a manta ora com uma muito leve camada de trip-hop ou drum’n’bass, ora envernizando as canções com sedosas pinceladas de cordas e metais, ou suspensões e vibrafone, à maneira dos High Llamas e Combustible Edison. Tudo isto seria conveniente e uma mostra comprovativa da atenção dada pelos Stereolab à crista da onda, não fora o facto de que, abstraindo-nos das ornamentações, o esqueleto das canções parecer quase decalcado do álbum anterior. Se “Emperor Tomato Ketchup” era um álbum duro e minimalista, marcando com força as ideias e afirmando orgulhosamente um conceito sonoro central, “Dotsandloops” liquefaz-se num outro tipo de sons e repetições que roçam o puro maneirismo, por um lado, e alguns dos lugares-comuns do pós-rock (as gravações tiveram lugar em Chicago e Düsseldorf…) e do easy listening por outro. Os quase 18 minutos de “Refractions in the plastic pulse” não chegam como desafio.
Ambos naturais de Colónia, um dos núcleos criativos da música alemã, do krautrock dos anos 70 até Às actuais correntes electrónicas, Burnt (ou Bernd…) Friedmann e Jaki Liebezeit, baterista dos Can, actuam juntos na Bienal da Maia, concretizando uma ligação que faz toda a lógica, para além da origem geográfica comum.
Na música de Friedmann, também ele inicialmente um baterista que transitou para a programação por uma questão de “maior facilidade”, a componente rítmica assume importância primordial (regra que um álbum como “Leisure Zones”, de 1996, totalmente ambiental e “grooveless” desmente…), não sendo de espantar a presente conjunção com um dos bateristas que mais longe levou a concepção tribal do ritmo, Jaki Liebezeit, força motriz dos Can, um dos grupos do krautrock original pelo qual Friedmann nunca escondeu a sua admiração.
Desta colaboração entre a electrónica e o batuque será de esperar qualquer coisa como a actualização do transe dos Can em moldes programáticos. Se pensarmos que nos autores de “Monster Movie”, “Tago Mago”, “Ege Bamyasi” e “Future Days” o aleatório jogava a favor das longas improvisações – em bruto ou trabalhadas à posteriori em estúdio -, mais sentido faz esta aproximação entre os dois alemães, sabendo-se, além do mais, da predilecção que Friedmann nutre pelo acaso, enquanto factor activo na criação.
À componente artesanal e electroétnica “avant la lettre” dos Can junta-se o gosto de Friedmann em desfazer a distinção entre “acústico” e “electrónico”, gesto permitido pelo sampler. Eis o lado mais orgânico e visceral de duas músicas separadas originariamente pelo tempo que, por fim, se reúnem na unidade de um idêntico conceito.
A par da actual colaboração com o baterista dos Can, com a qual faz uma reavaliação do lado mais telúrico e “irracional” da sua música, Friedmann mantém estreitas relações com a electrónica, desdobrando-se por projectos como Nonplace Urban Field (nos álbuns “Nuf Said” e “Raum fur Motizen”, entre outros), Some More Crime (“Code Opera”), Drome (“Dromed”, “The Final Colonization of the Unconscious””) e Flanger, esta última ao lado de Uwe Schmidt (Atom Heart), cujo último trabalho, “Templates”, foi unanimemente aclamado pela crítica.
Para Bern Friedmann a estética minimalista cultivada nos Flanger “não é muito diferente daquilo que o baterista faz”, nem a samplagem “é uma imitação, mas uma simulação que em última instância anula as diferenças que podem subsistir entre natural e artificial”, como disse em entrevista ao Público.
A diferença que separa um baterista como Jaki Lebezeit de um programador “naturalista” como Friedmann esbate-se, assim, numa música global que deriva de uma concepção do ritmo enquanto corpo das emoções e dos instintos. Como era a dos Can. Como é, também, a de Bernd Friedmann.
Friedmann lança uma imagem: “Quando vou passear para uma floresta não o faço porque o sol está a brilhar, mas porque quero desfrutar do sol e das suas sombras. As sombras vão mudando constantemente e a luz vai sendo reflectida por entre as árvores e é isso que me atrai”.
Enamorado pelos contos dos irmãos Grimm – “tenebrosos e aterrorizantes, que incutem uma falsa culpa às crianças” -, editou entretanto o seu próprio manual romântico de rituais secretos e jogos amorosos com as sombras, a que deu o nome de “Plays Love Songs”, um olhar apontado às “relações pessoais” e aos “comportamentos sexuais” padronizados segundo aquilo a que chama “red light issues”. Sexo e pornografia, romance e isolamento. Sinais contraditórios que trata com crueza e uma boa dose de ironia.
Sobre Jaki Liebezeit, 53 anos, a história do rock já se pronunciou. Sem a sua batida, simultaneamente tribal e metronómica, a música dos Can (e da sua banda, os Phantom Band) ter-se-ia diluído no caos. Ele foi um dos bateristas que deu rosto humano à “motorika”, ritmo militarista, repetitivo e monocórdico que caracterizou bandas do krautrock como os Neu!, La Düsseldorf e Harmonia. Com Jaki Liebezeit o instinto encontrou a segurança numa fórmula matemática.
Na primeira parte do concerto da Maia, actuam os Pluramon, de Markus Schmickler, que na 5ª feira tocará a solo no bar Aniki-Bobó, no Porto, estando o fecho da noite entregue ao djing de George Odjik, da editora a-musik. Na linha mais vanguardista e electrónica do pós-rock alemão, os Pluramon editaram em 1998 o álbum “Render Bandits”, objecto de revisitação, no ano passado, em “Bit Sand Riders”, com remisturas de Mogwai, Hecker, Atom Heart, High Llamas, Lee Ranaldo, Matmos, SND, FX Randomiz e Merzbow.
Bernd Friedmann e Jaki Liebezeit
Maia | Zona Industrial, sector x, na antiga fábrica Fimai.
Às 22h. Bilhetes a 1000$00