04.07.1997
Vários
Portugal de Luxe (7)
Norte Sul, distri. Lojas Valentim de Carvalho
Não faz muito sentido bater no ceguinho. Além de ser cruel, revela falta de sentido de humor. “Portugal de Luxe” foi feito para se ouvir com a distanciação do esteta e uma veneração idêntica ao do cinéfilo que se delicia a ver “O Ataque dos Tomatos Assassinos”. É um “close up” sobre uma época de inocência. Uma inocência imposta por um regime político, onde se percebem os sinais do isolamento e o encanto de um desamparo. Voltar a ouvir, ou ouvir pela primeira vez, esse hino às coisas pueris que é “Óculos de sol”, espécie de tradição lusitana da ambiguidade emocional da bossa-nova, ou as orquestrações de música de levador do Thilo’s Combo, tem o efeito de uma operação de despoluição, tanto quanto o de um jogo em que a inteligência se deixa masoquisticamente apanhar.
“Portugal de Luxe”, é claro, pode servir de motivo de chacota, mas isso seria o mesmo que gargalhar com os primeiros filmes a preto e branco ou afirmar que as calças em boca de sino são ridículas. Se repararmos bem, a sociedade actual é ridícula em quase todos os seus aspectos. Num mundo de aparências, onde os absurdos e o culto das formas se sucedem, não deixa de ser sintomático que a ausência total de disfarces possa chocar. O cérebro cai nesta armadilhas. Como quando fica preso num daqueles desenhos onde se podem ver, alternadamente, duas formas distintas. Trata-se de saber gozar com essa perturbante indefinição.
Dunkelziffer
In The Night (7)
Dunkelziffer III (7)
FUNF UND VIERZIG, DISTRI. MEGAMÚSICA
La Düsseldorf
La Düsseldorf (8)
GERMANOFON, IMPORT. CARBONO
Yatha Sidhra
A Meditation Mass (7)
TEMPEL, IMPORT. PLANETA ROCK
…
“Kluster und Eruption”, gravado 25 anos antes, em 1971, é uma obra rodeada de alguma controvérsia. Embora na ficha técnica conste o nome de Kluster, é opinião corrente que o disco (com a indicação de ter sido gravado ao vivo) é na realidade o resultado da manipulação, por Conrad Schnitzler, de fitas do grupo gravadas previamente. Seja como for, não se está longe da sonoridade dos dois primeiros trabalhos dos Kluster, atrás citados. São 56 minutos (separados em dois temas sem título) de ruído, ou melhor, de “elektroakustische Musik”, que se acompanham como a um corpo sinistrado. Ruído sim, mas do bom e genuinamente revolucionário.
Os Dunkelziffer existiram nos anos 80, podendo ser considerados “clones” dos Can, o que se compreende, atendendo a que da sua formação fazem parte o vocalista japonês Damo Suzuki, que integrou os Can, nos álbuns “Soundtracks”, “Tago Mago”, “Ege Bamyasi” e “Future Days”, e elementos dos Phantom Band, banda do baterista dos Can, Jaki Liebezeit. Nos Dunkelziffer é tudo mais leve e menos profundo do que nos Can. a batida é semelhante mas nota-se uma tendência para o “jazz rock”, relacionada com a preponderância no som do grupo do saxofonista Wolfgang Schubert. Damo Suzuki também se mostra bastante mais comedido, enquadrando a sua voz num formato de canção, o que raramente fazia nos Can. É a diferença entre a improvisação orgância e mágica dos originais e a composição planeada dos Dunkelziffer.
“In The Night” é mais calmo, com incursões no reggae e na música árabe (“Orientsal Cafe”) e um tema inicial longo, “Retrospection”, na linha da música produzida pela banda de Irin Schmidt e Bruno Spoerri, os Toy Planet. “Dunkelziffer III”, editado a seguir (terceiro de uma discografia total de cinco álbuns), tem maior consitência e é ainda mais parecido com os Can. O ritmo adensa-se, Suzuki arrisca chegar ao registo gutural que usava nos Can, os teclados e o saxofone dispensam a facilidade e a beleza, por vezes fútil, do álbum anterior. Um bom sucedâneo dos resi de Colónia.
Os La Düsseldorf, trio liderado pelo dissidente dos Neu!, Klaus Dinger, conseguiram criar, com o seu álbum homónimo de estreia, um clássico do “krautrock”. Protótipo do rock minimal, influenciou irectamente o punk rock e, duas décadas mais tarde, o pós-rock. A electrónica rodava numa pista de corridas, as guitarras e a bateria metronómica funcionavam com a precisão de um motor. A música dos La Düsseldorf fez divergir a mecânica futurista dos Kraftwerk para o terreno duro de uma cidade, Düsseldorf, hipnotizada pela sua própria paranóia.
O oposto aplica-se aos Yatha Sidhra, com “A Meditation Mass”, de 1973, filho único de um projecto idealizado pelo multinstrumentista Rolf Fichter (“Moog”, flauta indiana, vibrafone, piano eléctrico, guitarra eléctrica, voz) com o seu irmão Klaus (bateria e percussão), cuja música é típica da vertente mais cósmica do “krautrock”. Considerado por alguns uma das obras-primas da “kosmische musik”, entre os quais os autores da enciclopédia “A Crack In The Cosmic Eye”, “A Meditation Mass” é uma suite dividida em quatro movimentos que cativa enquanto o grupo se mantém fiel à electrónica planante, de pendor místico, à la Popol Vuh, mas se torna penosamente embaraçosa quando Rof Fichter decide que também sabe tocar jazz e solar no vibrafone e no piano eléctrico.
De rsto, os jovens “krautrockers” era, regra geral, executantes com óbvias limitações (e, amiúde, inaptos para dominar o mais simples 4/4, fruto da tal falta de convívio com as raízes negras do rock’n’roll), embora óptimos conceptualistas e manipuladores de som, quando se tratava de disparar automatismos (Kraftwerk, Tangerine Dream pós “Phaedra”, Cluster, …).
Exemplos não faltam, inclusive em obras e autores considerados marcantes. Veja-se os casos dos Tangerine Dream e do Edgar Froese guitarrista, antes de optarem pela electrónica total, do Klaus Schulze baterista, dos Mythos, dos próprios Faust… Há excepções, claro: Manuel Göttsching (apesar do ácido…), Michael Rother, Achim Reichel, Ax Genrich (o Hendrix alemão), Michael Karoli, Jaki Liebzeit, Jürgen Dollase, Uli Trepte, Mani Neumeier…
Apesar desta lacuna, “A Meditation Mass” conserva uma aura indefinível e uma originalidade que a faz atravessar relativamente incólume a passagem do tempo. Ao Planeta Rock, especializado na área do progressivo, chegaram também – em quantidfade reduzida – “Malesch” e “2nd”, dos Agitation Free, “Traum”, dos Hölderlin, “Broselmaschine”, dos Broselmaschine, “Saat”, dos Emtidi, “UFO” e “Hinten”, dos Guru Guru, “Trauma”, dos Gomorrha, “Motherfucker gmbh”, dos Xhol, “Schwingungen” e “Le Berceau de Cristal”, dos Ash Ra Tempel, “Irrlicht”, “Cyborg” e “Picture Music”, de Klaus Schulze, e toda a discografia – historicamente importante mas musicalmente irrelevante – dos Amon Düül (com pouco ou nada a ver, em termos musicais, com os Amon Düül II…). Enquanto isto, a Torpedo prepara-se para receber Whithuser & Westrupp, Harmonia e Liliental. A MVM, a Música Alternativa e a Megastore da Valentim de Carvalho começam a disseminar os discos e a mensagem do pós-rock, dignos continuadores do experimentalismo e da atitude do “krautrock”. A propósito: se gostam dos Neu! e acham, como nós, que “Surrender To The Night”, dos Trans AM, é uma das obras-chave do movimento, comecem, desde já, a procurar o “álbum branco” dos Fridge. E a procissão ainda vai no adro…
É aprimeira reedição da estreia, em álbum, dos Van Der Graaf Generator. Para os admiradores desta banda que marcou decisivamente a música dos anos 70, é um acontecimento. Tal só foi possível porque Peter Hammill conseguiu adquirir os seus direitos, editando o disco na sua editora própria, a Fie. Como o próprio Hammill explica no longo e interessantíssimo texto que acompanha o disco (onde, entre outras curiosidades e revelações inéditas, se fica a saber que sem o empurrão do músico de “jazz” Graham Bond, e da sua “magick”, os Van Der Graaf nunca teriam existido…), “The Aerosol Grey Machine”, gravado originalmente em 1968 e editado no ano seguinte pela Philips, apresenta já todas as características, musicais e poéticas, que viriam a desenvolver-se nos álbuns seguintes. Referimo-nos Às obras-primas “The Least We Can Do Is Wave To Each Other”, “H to He, Who Am the Only One” e “pawn Hearts”, este último, para muitos, um dos melhores – senão o melhor – álbuns de música “popular” de todos os tempos. Uma música que explodiria e se propagaria pelo cosmos interior de Hammill, através de uma arte poética das mais originais da Inglaterra dos tempos actuais, aqui ainda em gestação, mas apresentando já aquela mistura de onirismo cósmico e introspectivo niilista características do autor. Em termos musicais, é evidente que não se pode comparar estas canções, em que a simplicidade de processos predomina, com a incrível complexidade que estava para vir. Mas a diferença e a originalidade, essas confluiam já neste primeiro ensaio dos VDGG, em temas como “Aquarian”, “Orthenthian” e “Necromancer”, a anunciar uma das aventuras mais estranhas e marginais do rock contemporâneo.