Arquivo mensal: Setembro 2009

Beatles: O dia B

12.01.2001
O dia B

beatles_garagetapes

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Quem são os Beatles? A questão tem intrigado geração após geração de ouvintes ávidos de conhecimento sobre uma das bandas mais enigmáticas do rock. No Domingo o canal VH1 desvendará alguns dos segredos num “Beatles Day”.

Sobre os Beatles existe hoje apenas uma certeza: eram quatro, cabeludos, nenhum tocava “sitar” a não ser George Harrison e todos os outros grupos, durante e depois, olhavam para eles com inveja.
Estranhamente, os Beatles voltam a estar na ordem do dia. 2000 foi o ano dos Beatles como já haviam sido anos dos Beatles todos os da década 60. Já sem falar da criação do site oficial ou da publicação, também oficial, da biografia do grupo. Já sem falar, sequer, do facto da colectânea “1”, com singles que atingiram o top 1 em Inglaterra e nos EUA, bater recordes de vendas e do álbum de 1966, “revolver”, ser considerado pelo canal VH1 o melhor álbum de música popular de sempre.
Importante é o facto de existir uma quantidade de crianças que gosta de ouvir os Beatles e conhece já algumas das letras e melodias de cor, de filhos e filhas de muita gente que pede aos pais para comprar os discos e sabe distinguir os elementos da banda, catalogando-os como “o dos óculos”, “o vaidoso”, “o simpático” e”o dos cabelos mais compridos”.
Que diabo, não seria mais natural e de acordo com uma atitude pós-moderna, eu as crianças do século XXI ouvissem antes um qualquer DJShit ou se deliciassem com as experiências panculturais do mais recente colectivo de fusão de World Music? Mas não, as crianças descobriram os Beatles e, pior do que isso, gostam de ouvir a sua música.
Mas não são só as crianças. Também os adultos correm a comprar “1”, mesmo aqueles que já têm em casa a discografia completa do grupo, em vinilo, cassete, CD, mini-disc, DVD e CD-ROM. Isto, quer queiramos quer não, intriga.
É verdade que é sempre possível tecer uma teoria com bastante sentido: em tempo de tecno, house, internet, “Big Brother” e “Roda dos Milhões”, num universo cada vez mais virtual, os Beatles representariam o regresso à pureza original da canção e a valorização do génio e da criatividade humanos sobre a exactidão clínica das máquinas.
Em todo o caso, falou-se com pessoas, só para confirmar, para deste modo poder respirar-se de alívio. Pergunta: “Comprou a colectânea ‘1’ dos Beatles?”. Resposta invariável de 9 em cada 10 inquiridos: “Sim, comprei!”. Pergunta: “Mas já conhecia ou tinha em casa os álbuns do grupo?”. Resposta: “Sim, tinha-os todos!”. Pergunta: “Então por que razão comprou a colectânea ‘1’? Decerto terá sido pelo desejo de um regresso à pureza original da canção e a valorização do génio e da criatividade humanos sobre a exactidão clínica das máquinas?”. Resposta: “Hã? Não! Foi porque ocupa pouco espaço e é mais fácil de tocar no leitor de CD do carro!”

Hits e mais hits.
“The Beatles Day”, com passagem, domingo, ao longo de todo o dia, está dividido nos seguintes módulos: “The Beatles: Top 10” (14h, 18h e 21h), uma escolha das 10 melhores canções de sempre dos “fabulous four” (também conhecidos como The Beatles); “Ten of the Best: Paul McCartney” (15h e 20h), outro top 10, desta feita compilado por Paul McCartney, também conhecido como “o vaidoso”. Destaque, no meio da simpatia, para a presentação do espectáculo “Paul McCartney, Live at the Cavern” que teve lugar o ano passado, um regresso à mítica sala de Liverpool que viu os Beatles crescer para o estrelato.
Entre um pacote de “hits” e outro pacote de “hits”, espaço, às 16h, para recordar um episódio especial do programa de televisão dos anos 60, “Ed Sullivan’s Rock ‘n’ Roll Classics”, no qual canções da dupla Lennon / McCartney são interpretadas por Petula Clark, Smokey Robinson, Billy J. Kramer e… os próprios Beatles.
“Premiere: Greatest Hits – The Beatles” (16h30 e 1h30), trata-se, como diriam os Monty Python, de “something completly different”: a apresentação de “hits” dos Beatles como “Help”, “Get Back”, “Penny Lane” e “Hello goodbye”, sem comentários, sem depoimentos, sem nada, só Beatles.
“Premiere: Behind the Music – John Lennon” (22h e 00h) conta a história do Beatle assassinado, vulgo “o dos óculos”, com entrevistas a Yoko Ono (também conhecida como “a bruxa”), os filhos Sean e Julian, o amigo e inimigo de sempre, Paul “macca” McCartney, e Rongo Starr, “o simpático”.
Em “Storytellers: Ringo Starr” (23h), “o simpático” fala de si, de como toda a gente achava que ele era mau baterista mas tinha imenso jeito para contar anedotas. Não se sabe bem porquê, mas George Harrison, “o dos cabelos mais compridos”, não teve direito a bloco. Deve ter sido por ter gravado à revelia dos Beatles um dos maiores sucessos de 1970, “My Sweet Lord”.

Matmos – The West (conj.)

12.01.2009
Excêntricos De Luxos
Matmos
The West
8/10

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Blectum From Blechdon
The Messy Jesse Fiesta
8/10

Electric Birds
Electtric Birds
7/10
Todos Deluxe, distri. Symbiose

A distribuição em Portugal da editor Americana Deluxe traz para já consigo três objectos fascinantes, à margem dos parâmetros mais em voga na música electrónica.
“The West”, terceiro álbum dos Matmos (Drew Daniel e M. C. Schmidt), foi considerado um dos melhores discos de 1999 para a revista The Wire. Colaboradores remisturadores de Aerial M, Cul de Sac, Pluramon, Kid606, The For Carnation, tortoise, Labradford, Ground Zero e Björk, os Matmos fazem em “The West” uma música difícil de catalogar na qual se redimensiona o imaginário do western, através de processos que, numa primeira leitura, requisitam todo o formulário identificável do pós-rock para, de forma subliminar, lhe introduzirem o factor electrónico. É usada instrumentação acústica (violino, violoncelo, guitarras) para criar atmosferas de “saloon” que, por força da repetição e de subtis sequenciações computorizadas, se transmutam em “trompe l’Oeil” sonoros e emissões de rádio galáctica. A uma distância apesar de tudo considerável das cavalgadas épicas dos Godspeed You Black Emperor! Os Matmos estarão porventura mais próximos dos Gastr Del Sol, enquanto inovadores de uma linguagem, o pós-rock, a necessitar urgentemente de novas reformulações. Para que consta, o próximo trabalho da banda terá como base as sonoridades de tecnologia médica.
Ainda mais estranhos são os Blectum from Blechdom que, em termos gráficos, remetem para os “cartoons” dos Residents ou Renaldo and the Loaf. A escuta mostra a actividade de cabeças com febre tocadas pelo génio. Grooves cortados à lâmina pelos Severed Heads, samples de conversas em contramão, breakbeats no “sítio errado”, loops em inversão de marcha, humor a la Mr. Bungle, caixas de música com monstros dentro, esgares Aphex Twin e toda a espécie de delírios colados num puzzle sem manual de soluções, arrastam o ouvinte para uma terra de ninguém, fazendo desde já de “The Messy Jesse Fiesta” a primeira grande surpresa de 2001.
No álbum de estreia dos Electric Birds (Mike Martinez, patrão da Deluxe), com co-produção dos Matmos, apesar da estranheza que parece caracterizar todos os lançamentos da editora, descortinam-se com alguma nitidez as vigas que constroem o edifício: Steve Reich, ambientes de digitalindustrial, saturação de software, em “Acoustic Orange” um andamento hipnótico falsamente acústico evocativo dos primeiros Biosphere e, já no final, uma verdadeira canção com patente 4AD, seguida de uma imagem impressa no mesmo formato dos Labradford que, se amenizam o som, contrariam em absoluto a orientação estética do resto do álbum.
Os amantes do bizarro têm nestes três discos com que se entreter para os próximos meses.

Frank Zappa – 200 Motels (conj.)

14.11.1997
Reedições
O Céu Pintado De Estrelas
Talvez porque o Natal está à porta, o mercado português está a ser inundado por uma quantidade de colectâneas e redições das chamadas “estrelas”. É uma boa oportunidade para decorar a estante com caixas de êxitos que, na maior parte dos casos, já toda a gente conhece.

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Do monte de colectâneas e reedições que chegam ao mercado nesta altura, a caixa mais importante é, sem dúvida, a dupla correspondente à reedição de “200 Motels”, de Frank Zappa, obra de fôlego composta pelo génio entre 1967 e 1971 para a banda-sonora do mesmo nome. O álbum faz parte de uma nova série de “OST” (“Original Soundtrack”, “soundtrack”, em português, “som de traque”), da Rykodisc, cujo primeiro pacote inclui ainda as bandas-sonoras de “Carrie”, “Chitty, Chitty, Bang, Bang”, “It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World” e “Octopussy” (da série James Bond), todas em “Deluxe Edition”, com apresentações impecáveis e uma reprodução dos “posters” de lançamento originais. Inexplicavelmente, estou a usar uma quantidade absurda de termos estrangeiros. Mas voltemos a Zappa. “200 Motels” não é o melhor álbum, longe disso, do homem dos bigodes. Mistura, em doses desiquilibradas, mas sem dúvida capazes de impressionar o desprevenido consumidor de pop no ingénuo ano da graça de 1971, sequências clássicas pela Royal Philharmonic Orchestra, apontamentos humorísticos e “rock ‘n’ roll (“roca e rola”, chega de estrangeirsmos) na veia (na veia?) dos Mothers of Invention (“Matas da Invenção”), como “Magic Fingers”, em duas versões. A reedição inclui ainda quatro “spots” (“potes”) publicitários originais feitos para a rádio e um livrete cheio de informação e fotos da fita. Sendo uma boa amostra da faceta mais erudita de Frank Vincent Zappa, “200 Motels”, não obstante, não se livra de cair ocasionalmente no aborrecimento, o que, sendo o seu autor quem era, não deixa de ser surpreendente. 200 motéis é muito motel. (Rykodisc, distri. MVM, 6)

Outro músico importante que já não petence ao mundo dos viivos é John Lennon, cuja memória volta a ressuscitar através de “Lennon Legend”, subintitulado “The Very Best of John Lennon”. É uma colectânea sem surpresas, que parte da apresentação de alguns dos temas mais famosos do ex-Beatle, como “Imagine”, “Mother”, “Jealous Guy”, sem esquecer a faceta mais politizada dos Plastic Ono Band, de “Instant Karma2 e “Power to the People”, o Lennon “rocker” de “Cold Turkey” e “Whatever gets you thru’ the night”, e o baladeiro romântico, de “Woman”, e esquerdista, de “Working Class hero2, passando pelo “reggae” de “Borrowed time”. O álbum termina, adequadamente, numa nota natalícia, com os manifestos pacifistas “Happy Xmas (war is over)” de “Give peace a chance”. Lennon ficou para a História como o Beatle rebelde, em oposição à imagem de esteta que ficou colada a Paul McCartney. Chamem-me nomes, mas a realidade é que o primeiro nunca chegou aos calcanhares do segundo, em matéria de composição de boas, clássicas canções. Mas é claro que Lennon sempre representou com outra convicção os valores politicamente correctos da sua geração, mesmo que os seus melhores momentos como compositor revelassem, afinal, um incorrigível romântico, capaz de escrever coisas tão belas e tão simples como “Love”, uma das grandes canções desta “Lenda”, que conservou até hoje toda a sua frescura. Só por isso devemos dar algum desconto a Yoko Ono. (Parlophone, distri. EMI-VC, 7).

Avancemos para gente para quem a rebeldia é conceito totalmente desconhecido. Mike Oldfield, menino-prodígio dos anos 70 que encheu os bolsos ao patrão da Virgin à custa do megasucesso “Tubular Bells”, transformou-se nos últimos anos num dos gurus da “new age”, ultrapassada a fase criativa que caracteriza os primeiros álbuns, “Tubular Bells”, “Hergest Ridge”, “Ommadawn”, “Incantations” e “Five Miles Out”, regressando ainda no mais tardio “Amarok”, antes de se eclipsar nas traseiras da vulgaridade. Foi então que o multiinstrumentista se lembrou da fábula da galinha dos ovos de ouro, partindo para um “Tubular Bells 2” de má memória que, mesmo assim, lhe terá feito reembolsar mais alguns milhões. A má notícia é que, a julgar pelo último tema desta colectânea, há já um “Tubular Bells 3” no prelo. Mas “XXV – The Essential Mike Oldfield” (XXV porque o velho Mike já leva XXV anos de carreira…) dirige-se, em primeiro lugar, aos saudosistas, reunindo excertos das longas composições que ocupavam invariavelmente lados inteiros dos discos em vinilo, pertencentes aos quatro primeiros álbuns, atrás mencionados, seguidos de uma canção gira de “Crises”, “Moonlight Shadow”, vocalizada por Maggie Reilly, e do “single” “Portsmouth”. Depois vem o pior, dois temas de “Tubular Bells 2” juntos com nacos de “Songs of Distant Earth” de “Voyager”, típicos da fase “tecno prog” do músico. Informa-se ainda V. Excªs que Mike Oldfield era o extraordinário guitarrista que acompanhava Kevin Ayers, no não menos extraordinário grupo The Whole World. Mudam-se os tempos… (Warner Bros., distri. Warner Music, 5).

Podia perfeitamente ter pertencido ao grupo de cantoras que, ao longo dos anos, foram dando voz feminina à música de Mike Oldfield, como Maggie Reilly e Sally Oldfield. Só não aconteceu porque não calhou. Para Enya, o destino foi outro. Depois de abandonar os Clannad em 1982, para onde entrara já na fase descendente do grupo, Enya criou o seu estilo pessoal, tirando partido de uma voz incomparavelmente doce e de um tipo de produção dirigido ao mercado “new age” de influência “celta” (a “celtic ambient”, como já lhe chamam na “Folk Roots”…), o que lhe valeu a conquista do prémio de “melhor álbum” nesta categoria, em 1995, com “The Memory of Trees”, e de um “Grammy”, quatro anos antes, com “Sheperd Moons”. “Paint the Sky with Stars: The Best of Enya” passa em revista alguns dos melhores momentos da cantora, incluindo, a abrir, o altamente trauteável “Orinoco Flow” e “The Celts”, título-tema do álbum que melhor soube recriar as envolvências celtas que sempre a inspiraram. Os indefectíveis têma ainda ao seu dispor um par de inéditos, “Only if…” e “Paint the sky with stars”, um belo título, ao nível do cuidado extremo posto na embalagem, jogando nas cores e nas texturas de uma proposta musical e de um rosto que, goste-se ou não, possuem um incomparável poder de sedução. (Warner Bros. distri. Warner Music, 6)

Mais uma senhora, a terminar. Esta mais recente e cultivadora de outro tipo de imagem. Falamos de Sheryl Crow, que em “Special Edition” (o álbum editado recentemente, “Sheryl Crow”, acrescentado de um segundo CD com actuações ao vivo) confirma estar alguns furos acima da chusma de candidatas a estrelas que todos os dias vão aparecendo com o fito de tentar chegar aos “tops”. Feita a aposta numa produção seca e numa criteriosa selecção de canções, tudo se conjuga para fazer brilhar ao máximo a voz de Sheryl, que aqui se revela capaz, tanto de recriar o neo-country, em “Redemption Day”, como de fazer a evocação de John Lennon, em “Ordinary Morning”, ou de se afirmar como veículo de uma “rocker” de cabelos ao vento. Para os registos, fica uma canção absolutamente a guardar no cofre das excepções, a belíssima e interiorizada “The Book”, virando as mesmas folhas de Suzanne Vega, e a ideia de que um corte no alinhamento poderia valorizar ainda mais um álbum onde o sentido comercial não dispensa um elevado nível de exigência. (A&M, dustri. Polygram, 6).