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Roxy Music – “The Thrill of It All”

Pop Rock

29 de Novembro de 1995

PARA SEU PRAZER

ROXY MUSIC
The Thrill of It All (9)

4xCD Virgin/EG, distri. EMI-VC


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Ena, ena, que luxo! Quatro compactos, um livro com fotos inéditas realizadas para as diversas gravações do grupo, música que continua a ter hoje a mesma elegância provocatória que tinha há 23 anos. Para os que desde 1972, data de lançamento do álbum de estreia, “Roxy Music”, não deixaram de acompanhar a carreira do grupo de Bryan Ferry, “The Thrill of It All” é um doce. Gravações de qualidade superior às das versões originais, para além do interesse documental das imagens, justificam a aquisição desta encadernação que resume superiormente a obra de uma das bandas mais importantes que cruzaram a música popular nas décadas de 70 e 80.
Ordenado por ordem cronológica, “The Thrill of It All” recorda ao longo dos três primeiros compactos todos os álbuns de originais de estúdio: “Roxy Music”, “For Your Pleasure”, “Stranded”, “Country Life”, “Siren”, da fase inicial, “Manifesto”, “Flesh and Blood” e “Avalon”, correspondentes ao ressurgimento da banda nos anos 80. O último compacto divide-se entre uma selecção de lados A e B de “singles” e várias remisturas de temas dos álbuns. A fatia maior recai em “For Your Pleasure”, que apenas ficou com um tema de fora, o longo e sombrio “Grey lagoons”. Mas qualquer dos outros álbuns contribui com uma média de seis temas cada para a colectânea.
As notas que acompanham o alinhamento musical fornecem pormenores curiosos, por vezes aproveitando excertos das letras ou de críticas publicadas na altura. Sabiam, por exemplo, que “Re-make/Re-model”, se inspirou numa pintura do artista pop Derek Boshier, “Re-hink/Re-entry” ou que “Do the strand” alude a uma marca de cigarros dos anos 60, cujos anúncios ficaram famosos pelas suas recriações de “film noir”? Eu confesso que não!
Pessoalmente, prefiro os primeiros discos do grupo, em que a mistura de “glamour” e experimentalismo, devida em grande parte à presença de Brian Eno, ultrajou meio mundo habituado a viajar nas águas do progressivo. “Roxy Music”, “For Your Pleasure” e “Stranded” são obras-primas intemporais. Do Segundo destacaria “In every dream home a heartache”, história de amor perfeito com uma boneca insuflável, estendida até à vertigam na fabulosa versão de palco de “Viva!”. Do segundo, o monumental “Mother of pearl”. Qualquer delas faz parte do grupo das melhores canções pop de sempre.
Há quem prefira a elegância “americana” de “manifesto” e “Flesh and Blood” ou o veludo acetinado de “Avalon”, em que o experimentalismo e o lado mais exageradamente histriónico de Ferry desapareceram, para dar lugar ao registo de “crooner” sofisticado e eternamente apaixonado.
Seja qual for a preferência de cada um, “The Thrill of It All” contém matéria de sobra para satisfazer todos os gostos. É como estar presente em todos os momentos do longo “cocktail” em que Bryan “Casanova” Ferry se confundiu aos poucos com a sua imagem. As portas do cinema Roxy continuam abertas. Sinta de perto “the thrill of it all”. Para seu prazer.



Roxy Music – artigo de opinião / retrospectiva do grupo

Pop Rock

29 de Novembro de 1995

Retrospectiva dos Roxy Music
EM CADA SONHO UMA INQUIETAÇÃO


LONDON - JULY 05: Andy Mackay, Paul Thompson, Bryan Ferry, Brian Eno, Phil Manzanera, Rik Kenton, Roxy Music posed group shot at the Royal College Of Art in London on July 5 1972 (Photo by Brian Cooke/Redferns)

LONDON – JULY 05: Andy Mackay, Paul Thompson, Bryan Ferry, Brian Eno, Phil Manzanera, Rik Kenton, Roxy Music posed group shot at the Royal College Of Art in London on July 5 1972 (Photo by Brian Cooke/Redferns)


Odeon, Rialto, Plaza, Gaumont, Ritz… De entre os vários cinemas disponíveis, a escolha recaiu no Roxy. Roxy Music, mais do que uma banda, foi um conceito, único na história do rock. Desde o início, Bryan Ferry sabia o que queria. O rock como arte de conciliação de sons, imagens e estímulos antagónicos.

Nos Roxy Music, sobretudo na discografia compreendida entre 1972 e 1975, dos álbuns “Roxy Music”, “For Your Pleasure”, “Stranded”, “Country Life” e “Siren”, encontramos a projecção dos delírios artísticos e pessoais de um estudante de Arte a transbordar de ideias, Bryan Ferry. Os Roxy Music, mesmo admitindo a razão dos que não se esquecem de apontar a importância de decisiva de Brian Eno nos três primeiros discos, foram sempre propriedade e campo de sonhos pessoal e intransmissível de Ferry.
Tudo começu, ainda nos anos 60, no Newcastle Art Centre. Foi aí que o Ferry estudante, que já nessa época dava nas vistas pelo modo elegante e afectado como se vestia, travou conhecimento com duas figuras que ajudaram a criar a estética visual do futuro grupo: Richard Hamilton e Nick de Ville. O primeiro era um pintor pop que tentava anular a diferença entre a arte popular e a arte erudita, além de admirador ferrenho da mitologia da Hollywood dos anos 40. O segundo foi discípulo de Hamilton e aplicou os ensinamentos recebidos no “design” de todas as capas dos Roxy Music até “Siren”.
O seu estilo caracterizava-se pela exposição crua de mulheres, ora “glamourizadas” ao limite do “kitsch”, como a mulher-bombom de “Roxy music”, ora de uma beleza agressiva e quase masculina, como as duas amazonas de “Contry Life”, tapando/destapando as partes estratégicas das respectivas anatomias, passando pela sereia escandalizada de “Siren”, a mulher-elementar de “Stranded” e a mulher-predadora de “For Your Pleasure”.
Em 1968, Ferry trocou Newcastle por Londres. Foi já na capital inglesa que ensaiou os primeiros passos com o baixista Graham Simpson. Ferry tocava piano e órgão de pedais. O seguinte a entrar foi o guitarrista Roger Bunn, de imediato substituído por David O’List, ex-Nice, o grupo de “rock sinfónico” de Keith Emerson, anterior aos ELP. O trio gravou um par de sessões para John Peel. Andy MacKay chegou pouco tempo depois, introduzido no grupo por outro artista plástico, Tim Head.
MacKay nem sequer tocava saxofone. Na sua bagagem trazia uma formação clássica, um oboé e um sintetizador. Ferry aconselhou-o a ser mais “funky” e a ouvir King Curtis. Mas Andy trouxe ainda consigo um amigo, de ar efeminado e com um gravador constantemente às costas. O amigo, cuja missão, de início, era gravar as actuações do grupo, chamava-se Brian Eno. Do circuito dos clubes chegou Paul Thompson, baterista profissional. Entrou para os Roxy Music através de um anúncio num jornal. Nessa altura já os jornalistas andavam intrigados, como Richard Wiliams, do “Melody Maker”, que arriscou incluir os Roxy na secção “novos nomes que podem quebrar a barreira de som”.
Quando actuaram no 100 Club já se criara o ambiente, simultaneamente retro e futurista, que se tornaria imagem de marca da banda. Perante uma assistência predominantemente feminina enfiada em “hot pants” e roupas apertadas, Ferry experimentava as tácticas do fingimento e da sedução, obedecendo a uma necessidade de estimular não só pela música como visual e sexualmente os fãs. Antony Price teve um papel importante no desenho da indumentária, cheia de brilhos e reflexos, e dos penteados, cortados rente e esculpidos em brilhantina, dos cinco Roxy Music.
O choque maior, porém, foi causado pela música. “Roxy Music”, o disco de estreia, com data de 1972, incluía já o novo guitarrista Phil Manzanera, antigo companheiro de Robert Wyatt nos Quiet Sun. Inclassificável, o álbum misturava o rock ’n’ roll dos anos 50, a pop dos 60 e o Progressivo dos 70 com o minimalismo e a experimentação mais ousada. Em estúdio sucederam-se os malabarismos e os truques em nome da originalidade e da provocação. O tema de abertura, “Re-make/re-model” é todo um enunciado dos propósitos musicais dos Roxy Music, uma sucessão alucinante de estilos, quase numa montagem em “cut up” que termina com solos, não menos vertiginosos e concisos, de todos os músicos. O refrão era a entoação de uma matrícula de automóvel, a célebre “CPL 593 H”. Os ruídos iniciais, de uma festa, indiciavam já, por seu lado, o universo concentracionário onde Ferry se viria a enclausurar após o crepúsculo do primeiro período da banda, cujo ciclo encerraria em 1976, com o álbum ao vivo “Viva!”.
Na Island, etiqueta na qual “Roxy Music” acabou por ser editado, começaram por torcer o nariz à proposta, inovadora em demasia, dos Roxy Music. Algo espantoso, para quem acolhia nessa época nas suas fileiras a nata do Progressivo e um grupo como os King Crimson. Cite-se, a propósito deste grupo, que em 1970 Bryan Ferry esteve prestas a tornar-se no substituto de Greg lake como cantor da banda de Robert Fripp. Este afirma ter ainda em seu poder as fitas com as gravações dos ensaios. De referir também que outro dos candidatos ao lugar de voz principal dos Crimson foi Elton John…
Os King Crimson tiveram, aliás, uma proximidade estreita com os Roxy nos anos da gestação. O produtor de “Roxy Music” foi Peter Sinfield, letrista dos Crimson até ao álbum “Islands”. Há quem critique o seu trabalho, por não ter feito justiça à excitação e coesão instrumental que caracterizavam as prestações ao vivo do grupo de Ferry, Eno e Manzanera. O próprio Sinfield assume os seus erros, chegando mesmo a admitir que os Roxy Music não precisavam de um produtor mas apenas de um engenheiro que lhes garantisse um “som decente”.
O álbum seguinte, “For Your Pleasure”, é para muitos, Ferry incluído, o melhor de sempre da banda. Abandonado o lado “kitsch” e a tónica do excesso, a música abre as portas ao que o jornalista Tony Palmer, do “The Observer”, chamou então o “lado obscuro do rock ‘n’ roll”. Da cena nocturna nas traseiras da cidade retratada na capa – com a mulher e a pantera, ambas de negro, à espera da vítima – até à narrativa de uma relação amorosa com uma boneca insuflável, no crescendo semideclamatório de “In every dream home, a heartache”, “For Your Pleasure” puxa para o abismo e para as conotações eróticas obscuras. Arrepiante e, ao mesmo tempo, de um humor refinadíssimo é o clímax final do referido tema: “I blew up your body, but yu blew my mind!”, jogando com a ambiguidade dos verbos “soprar” e “explodir” (‘eu fiz explodir o teu corpo, mas tu insuflaste – ou fizeste explodir – o meu espírito’).
“Stranded” explora a vertente de “crooner” de Ferry, como na paródia ao festival da Eurovisão, “Song for Europe”, só que aqui ainda mantendo a distância e a pose irónica, ao contrário do que acontece a partir de “Manifesto” e dos seus álbuns a solo mais recentes, onde a imagem se confunde com a pessoa e Ferry passa a levar a sério uma personagem que no início não pretendia ser mais do que uma caricatura. “Country Life” anuncia já a decadência “chique”, num álbum de ressacas, entre a ilusão do “Champagne” e a excitação fugaz da cocaína, com Ferry a sofrer precocemente a angústia do envelhecimento e da andropausa, numa fuga para a frente, em direcção ao sexo sem futuro nem freio, dramaticamente exemplificada no tema “Casanova”. A idade de ouro culminaria com “Sirens”, um álbum desvalorizado por muitos, mas onde se encontra um dos melhores lotes de sempre de canções dos Roxy.
Depois, seria o ponto final e a ressurreição, em 1979, para a segunda vida, da maturidade e da elegância. Mas esses eram já outros Roxy Music e outro Ferry, tão atentos à evolução do mercado como à sua própria interior. “Manifesto”, “Flesh and Blood” e “Avalon” fizeram as delícias dos adolescentes e das rádios de todo o mundo, servindo de cobertura a reuniões de negócios, anúncios de televisão e repasto geral dos “tops”, com Ferry, cada vez mais gordo e ar de galã saloio, no papel de “gigolo” engatatão que a sabe toda. Mas tomara todas as bandas decair e morrer com a dignidade dos Roxy Music. “The party is over?” Nunca se sabe.



Roxy Music – Avalon (self conj.)

12.05.2000
Reedições
Um Outro Tempo, Um Outro Lugar
Roxy Music
Manifesto (7/10)
Flesh + Blood (7/10)

roxymusic_avalon

LINK

Avalon (6/10)
Bryan Ferry
These Foolish Things (8/10)
Another Time, Another Place (8/10)
Let’s Stick Togheter (7/10)
The Bride Stripped Bare (7/10)
Virgin, distri. EMI-VC
Os melómanos / consumidores mais compulsivos não têm mãos a medir, diante da oferta que se lhes depara, apresentando as gravações mais perfeitas ou as capas mais fiéis aos originais, dos discos reeditados dos seus ídolos. Arrumados os vinis na estante, chegou a vez de também os CD rapidamente ganharem poeira, em remasterizações que competem entre si no recorde de bits. Mas com os Roxy Music, à semelhança de outros casos, vale mesmo a pena possuir o “objecto perfeito”. Completa uma primeira fase de remasterizações dos primeiros cinco álbuns do grupo, compreendida entre “Roxy Music”, de 1972, e “Siren”, de 1975, seguiram-se os três álbuns respeitantes à última fase, “Manifesto”, de 1979, de “Flesh + Blood”, de 1980, e “Avalon”, de 1982. Pouco tempo depois chegavam aos escaparates nacionais as remasterizações, embaladas em capas melhoradas, dos cinco primeiros álbuns a solo de Bryan Ferry.
Dos três últimos Roxy Music, “Manifesto” é o trabalho que menos desmerece dos anteriores trabalhos de estúdio do grupo. O cabaré retrofuturista já fechara as portas e o glam fora definitivamente apagado dos rostos dos músicos, mas a festa não tinha ainda terminado. Continuava no casino e nos passos de uma dance music de manequins cortada ainda por alguma decadência, mas com os seus principais intervenientes, a começar por Ferry, a mostrarem-se incapazes de separar a pose da ironia. Dividido entre um “east side” e um “west side”, o som americano impunha-se através de uma soul elegante (Luther Vandross participa nos apoios vocais) que ofuscava a sofisticação e os maneirismos geniais dos cinco primeiros álbuns. “Angel eyes”, “Ain’t that so” e “Dance away” foram passados na rádio até à exaustão.
O álbum seguinte, “Flesh + Blood”, recupera as imagens das amazonas, mas perde na comparação com o seu antecessor. A energia está mais dispersa, a tensão de opostos que sempre servira de carburante para a criatividade do grupo dera lugar a uma máquina bem oleada. Mas, se “Same old scene” ou “My only love” são canções feitas para ficar no ouvido, é difícil resistir ao apelo nocturno de “In the midnight hour” e, sobretudo, à versão estratosférica de “Eight miles high”, dos Byrds.
Previsivelmente, o último capítulo da saga, “Avalon”, capitaliza em exclusivo no enfeite e no luxo dos arranjos e da produção. Álbum limpo, suave ao ouvido como cetim, o seu brilho é o de um pechisbeque bem confeccionado que procura arrancar em força com mais um “hit”, “more than this”, mas rapidamente se esgota em instrumentais de um hedonismo onde a pele dera lugar a uma película de plástico. Ah, é verdade, já circulam por aí as versões cartonadas destes três álbuns…
Bastante mais interessante acabou por ser o percurso a solo de Ferry, também neste caso, com os cinco primeiros álbuns a mostrarem-se os mais pujantes. “These foolish things”, de 1973, confirmava a faceta de “crooner” do cantor, ao mesmo tempo que o impunha como um “gourmet” apto a degustar tanto os “standards” de décadas mais recuadas (de forma infinitamente mais conseguida, diga-se de passagem, do que no recente “As time goes by”), como clássicos pop de Dylan ou dos Rolling Stones. A afectação e o exagero resultavam bem melhor do que a imagem cansada e “snob” que viria a seguir.
“Another Time, Another Place”, editado no ano seguinte, continua a mesma estratégia de versões nas quais se torna difícil distinguir a desmontagem sarcástica e a homenagem devota. Fosse como fosse, ganham colorido e um delicioso desequilíbrio canções como “Help me make it through the night” e a irresistivelmente apaixonada “Smoke gets in your eyes”, dignas de partilharem as imagens de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart.
Em “let’s Stick Togheter”, Bryan Ferry insistiu nas versões, mas desta feita de temas dos Roxy Music, como “Casanova”, “Sea Breezes”, “2HB”, “Chance Meeting” ou “Re-make / Re-model”, as quais, se não fazem esquecer o vigor e a faceta desestabilizadora veiculada pela banda, ganham porém no modo como o cantor extrai delas um licor amargo que, infelizmente, muito em breve iria perder todo o sabor.
Em 1977 o punk era rei e senhor e em “In Your Mind” Ferry não de furta a uma aproximação mais visceral ao rock. Foi o primeiro dos seus álbuns a ter honras de edição portuguesa. Em vez de um cenário de Hollywood e de idílios etílicos à beira de piscinas de champanhe, Ferry compunha agora as suas próprias canções, escudando-se por detrás de uns óculos escuros e transferindo as suas obsessões, em “All night operator”, para uma conversa telefónica – “All night operator, dial me a better line (…) Can’t you hear me talkin’ to you? Do telephones make you cry?” – com chamada a pagar no destino, por um eco de amargura.
Recebido na época como um álbum “surrealista”, “The Bride Stripped Bare” (o título é, aliás, o de uma pintura de Marcel Duchamp), de 1978, é um álbum atravessado por pulsões contraditórias (que era o que distinguia os Roxy Music da primeira fase de todos os outros grupos dos anos 70), onde o gospel, a soul, o sentimento de culpa, a passagem do tempo, a desilusão e – sempre – uma inultrapassável elegância correm por lamentos como “Take me to the river” ou pelo tradicional irlandês “Carrickfergus” antes de desaguarem – “so near, yet so far” -, uma vez mais, na solidão.