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The Residents – “Gingerbread Man”

Pop Rock

7 de Dezembro de 1994
ÁLBUNS POPROCK

The Residents
Gingerbread Man

Euro Ralph, import. Simbiosis


residents

Globos oculares de fraque observam uma miúda incauta e inocente. A miúda tem nas mãos o, adivinha-se, temível homem de bolo de gengibre. A luz é vermelha. Eis-nos de novo instalados universo de pesadelos tecnopsicadélicos dos Residents, a banda mais insólita de sempre da música popular. Nos últimos anos e nos últimos discos, os Residents criaram um estilo definido, uma espécie de classicismo electrónico construído sobre melopeias fonéticas (Imagem de marca do grupo) e melódicas, e ritmos sintéticos quase sempre primários onde são os timbres e as subtis alterações de tempo a estabelecerem a diferença e o ambiente característico.
“Gingerbread Man” segue um modelo idêntico ao anterior “Freak Show”, em canções que exploram uma galeria de personagens exóticas, para não dizer monstruosas, em suspensão numa “bad trip” provocada por ácido de má qualidade. Cada tema inicia-se com um motivo melódico que se repete ao longo de todo o disco, com arranjos diferentes, para em seguida o comboio-fantasma mostrar as taras de aberrações, como o azeiteiro moribundo, o transexual confuso, o artista de sucesso, o asceta, o velho soldado, o músico envelhecido ou o talhante. Dir-se-ia que todos eles eram saídos de um filme de terror de Tobe Hooper, derivando musicalmente para regiões que apenas têm paralelo na própria obras dos Residents.
Música doentia, de uma beleza que envenena a alma e polui os sentidos, “Gingerbread Man” mostra igualmente o lado oculto de uma América em estado de paranóia e, em chicotadas de um humor mais que negro, as regras viciadas de uma sociedade em decomposição. Na contracapa, num texto ambíguo, como tudo da lavra dos Residents, é a memória da música rock que é ligada em inversão de marcha e as estratégias da indústria discográfica que são expostas e desmontadas pelo absurdo. “Sweets for my sweet, sugar for my honey” – e é todo um mundo que desaba. (7)



The Residents – “Our Finest Flowers”

Pop Rock

27 JANEIRO 1993
ÁLBUNS POP/ROCK

AS FLORES DO VÓMITO

THE RESIDENTS
Our Finest Flowers

CD Euro Ralph, distri. Contraverso


res

“20 anos de regurgitação dolorosa” – deste modo, os próprios definem duas décadas de carreira dedicadas a desocultar a caveira que sustenta o rosto maquilhado da pop. É o que os Residents têm feito desde sempre, com resultados por vezes brilhantes, como em “The Third Reich’n’Roll”, onde apresentam versões satânicas de canções dos Beatles e “hits” dos anos 60. Essa táctica de suturação aplicaram-na sobretudo aos mitos – os Beatles, claro (recorde-se ainda o álbum estreia, “Meet the Residents”, todo um manifesto de intenções cuja capa e título decalcaram de “Meet the Beatles”) –, mas também Elvis Presley, que os Residents crucificaram em “The King and Eye”.
O termo “regurgitação” aplica-se de forma directa a esta celebração dos 20 anos de anonimato e quase sempre boa música da banda mais estranha do planeta. “Our Finest Flowers” parte literalmente do vómito. Parece que alguém, no estúdio, terá vomitado sobre textos e títulos de canções. Os Residents repararam que o vomitado, ao apagar certas letras, revelou novos e estimulantes significados – a técnica do “cut up” levada às últimas consequências. Depois, é o próprio passado da banda que volta à boca, já fermentado, para ser de novo mastigado e digerido. “Perfect goat” (tema que alude directamente ao episódio do vómito) inclui mesmo fragmentos repescados de “Not Available”, um dos grandes álbuns da primeira fase, sem dúvida aquele que leva mais longe um registo de tragédia.
São novas canções (que os Residents não se cansam de definir como “pop”, com algo de “familiar” e “agradável”…) que recuperam a tal aura trágica do álbum citado, filtrada e desenvolvida através da electrónica e dos computadores, de acordo com uma estética que o grupo aperfeiçoou sobretudo a partir da célebre e incompleta trilogia das toupeiras (“Mark of the Mole” + “The Tunes of Two Cities” + ?).
O seguidor de longa data dos Residents encontrará nestas flores o odor acre do veneno, as eternas melopeias, entre o pueril e o macabro, o mesmo massacre das vozes e o humor inquietante, embalados em orquestrações de pesadelo – tudo destilando mal-estar e pestilência.
Os Residents comparam-se a si próprios, na longevidade e em importância, aos Grateful Dead e aos Rolling Stones. “Our Finest Flowers” pode ser o “Their Satanical Majesties Request” dos anos 90. Uma ameaça velada. O lado escuro de um novo psicadelismo. A noite da pop. (7)

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The Residents – Icky Flix

28.09.2001
The Residents
Icky Flix
Euro Ralph, distri. Ananana
8/10

LINK (Disc 1)
LINK (Disc 2)

Demente, belo e hollywoodesco, na sua dimensão de fábula da aliança entre o anjo e a Besta, “Icky Flix”, o mais recente trabalho dos “Fabulous eyeballs” (em CD e na versão integral, de três horas, em DVD) recupera o tom épico de “Not Available”. Um excerto de “The Third Reich ‘n’ Roll”, “Songs for swinging larvae” (adoptada pelos Renaldo and the Loaf) e a “suite” audiovisual “Vileness Fats”, genialmente transformada numa descida aos infernos filmada por um Spielberg zombie, a par dos mais recentes “Bad day on the midway” e “Gingerbread man”, ganham nova acutilância enquanto peças de um vasto jogo cujo alcance está ainda por decifrar. “Just for you (disfigured night, part 7)” segue pela estrada dos tijolos amarelos até ao palácio de um bruxo bem mais terrível que o feiticeiro de Oz. Assombradas pelas vozes de crianças perdidas, solto na vertigem de um carrocel montado pelo diabo, as canções de “Icky Flix”, trazem de novo o perigo para o coração da música pop. Esse mesmo coração que os Residents andam há anos a mastigar.