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Pascal Comelade – “Cent Regards”

Pop Rock

8 MAIO 1991

PASCAL COMELADE
Cent Regards

LP, G3G, import. Ananana

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O homem tem uma fixação por instrumentos de brinquedo. Mania original que deu excelentes frutos em obras como “Détail Monochrome” e “Bel Canto” (editado em Portugal). Pascal Comelade chegou agora ao ponto de pôr uma banda de dez músicos (a “Toy Limited Orchestra”) a tocar pianos, cornetas e xilofones de brincar. Valsas diagonais, tangos minimais, boleros astrais, rock’n’roll de peluche venenoso, nocturnos de Chopin, o café Mozart, o “Moulin Rouge”, “Egyptian Reggae”, “Proud Mary” dos Creedence Clearwater Revival, desfilam, sob a forma de miniaturas mecânicas, num universo irreal de soldadinhos de chumbo, casas de bonecas e sonhos de encantar. Como se a música não existisse fora do quarto dos brinquedos, cristalizada numa dimensão atemporal e onírica em que a realidade se confunde com a ilusão e tudo se anima ao sopro musical. Louco entre os loucos, Pascal Comelade agradece, no fim, a Robert Wyatt, Don van Vliet (um tal Captain Beefheart) e ao “Béu-Béu”. De que é que estávamos a falar? ****



Pascal Comelade, Pierre Bastien, Jac Berrocal, Jaki Liebzeit – Obliques Sessions

07.11.1997
Pascal Comelade, Pierre Bastien, Jac Berrocal, Jaki Liebzeit
Obliques Sessions (6)
Les Disques du Soleil et de L’Acier, import. Ananana

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Brinquedos e mais brinquedos. A princípio pareceu original, mesmo encantador. Depois, pouco a pouco, o universo falsamente infantil de Pascal Comelade foi perdendo a magia e os brinquedos as peças. Era preciso mudar. Comelade chamou o seu discípulo Pierre Bastien, também ele inventor de um dispositivo musical artesanal, o “meccanium”, Jac Berrocal, homem conhecido das músicas mais “free” que se fazem em França, e Jaki Liebzeit, antigo baterista dos Can. Para potenciar ainda mais o efeito de mudança foi utilizada a mesma mesa de misturas das “Estratégias Oblíquas”, inventada e usada pela primeira vez por Brian Eno e pelo pintor Peter Schmidt no álbum “Taking Tiger Mountain (By Strategy)”. Desgraça! Nada mudou. Em vez de largarem os brinquedos, o quea conteceu foi Berrocal e Bastien ficarem, também eles, fascinados pelos pianos, guitarra e flautas de plástico, cabendo a Jaki Liebzeit pôr ordem no caos com as suas percussões metronómicas. Temos então mais uma sessão de valsas, tangos e pequena “varieté” de corda, afixados com títulos evocativos como “Jours tranquiles a Rodez”, “Morceau en forme de pinces” ou “Souviens-toi de ces douces soirées”, tão do agrado de Comelade, ao lado de uma versão cambaleante de “Prime of life”, de Neil Young, e outra, desengonçada, de “Shikaku maru ten”, dos Can. Os dois únicos temas vocalizados, por Jac Berrocal, fazem a vénia a Eno e a Robert Wyatt (por via de Ivor Cutler, em “Rock Bottom”). Ao menos podia mudar para brinquedos a pilhas.

Top 10 de álbuns de “covers”

26.01.2001
Top 10 de álbuns de “covers”
“It´s Like These” insere-se na tradição de álbuns de “covers”. Aqui ficam alguns dos mais representativos.

jlponty_kingkong

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Jean-Luc Ponty
King Kong, blue Note, 1970
“Virtuose” do violino electrificado, ginasta do jazz de fusão, herdeiro de Grappelli, Ponty deu novo rosto instrumental ao papa dos Mothers of Invention, reinventando o humor de “Idiot Bastard son” e “Twenty small guitars”, ou alinhando em cumplicidade com o mestre, em “Music for Electric Violin na low budget orchestra”.

David Bowie
Pinups, EMI 1973
O camaleão ainda arranjou tempo para vestir a pela dos seus heróis, travestindo “See Emily Play”, de Syd Barrett, “I Can’t Explain”, de Townshend ou “Where have all the good times gone”, de Ray Davies.

The Residents
George and James, Ralph 1984
Os amantes da soul, se pudessem, davam-lhes um tiro. Os da música clássica, enforcavam-nos. Os “criminosos” são os Residents, e o crime foi o massacre de James Brown e Gershwin, no primeiro volume de uma série dedicada a compositores americanos deste século.

Marianne Faithful
Strange Weather, Island 1987
Resultou do encontro mágico entre a produção de Hal Wilner e uma voz do fundo da noite. Tom Waits e Bob Dylan sangrados. E os extremos de uma ressurreição sempre incompleta, entre a ferida de “As Tears Go By” e o despojamento sem esperança de “Boulevard of broken dreams”.

Steve Beresford
L’ExtraordinaireJardindeCharlesTrenet, Nato 1988
Do jazzman e lunático Steve Beresford tudo se espera. Mas foi na editora-anedota Chabada que o inglês soltou o humor nonsense e o amor pelas variedades, em particular a “chanson française”, num disco sorridente que levou ao colo as canções de Trenet.

Pascal Comelade
El Primitivismo, les Disques du Soleil e de l’Acier, 1988
Tudo em que toca fica em cacos. E é ao juntar os pedaços com a cola da memória que a música se transforma num brinquedo. Aqui remonta alguns dos seus preferidos: Stones, Wyatt, Nino Rota e Chuck Berry.

Mary Coughlan
Uncertain Pleasures, Eastwest 1990
Uma das mais sensuais vozes da actualidade, a irlandesa Mary Coughlan desfiou álbuns de “covers”, qual deles o mais brilhante. “Uncertain Pleasures” distingue-se pela arrebatadora versão de “Heartbreak hotel”, de Presley, subindo ao cume em “The little death”, dos Boomtown Rats, feito standard de jazz.

Mathilde Santing
Carried Away 1991
Todd Rundgren, Roddy Frame e os Doors contam-se entre os autores de “Carried Away”, veículo para a voz desta holandesa cultivar a arte da elegância. Com a meticulosidade da coleccionadora e o apuro da designer.

Urban Turban
Urban Turban, Resource 1994
Para os suecos Urban Turban, dar lustro a uma canção é esfregá-la com o desregramento. Sarcasmo, rock & roll e sanfonas, numa variante das barbaridades folk dos compatriotas Hedningarna. “Voodoo Chile”, de Hendrix, e “Let’s work together”, dos Canned Heat, caíram que nem ginjas nas mãos dos iconoclastas.

Joni Mitchell
Both Sides Now, Reprise 2000
Uma das damas da pop deste século, na sua primeira incursão no universo das “covers”. Canções sobre o amor, numa paleta interpretativa que vai do recolhimento à orquestração majestosa das emoções. “Standards” na sua acepção mais nobre, de modelos a seguir.