Arquivo de etiquetas: Pascal Comelade

Pascal Comelade – Swing Slang Song (self conj.)

15.09.2000
Pascal Comelade
Swing Slang Song (6/10)
September Song (8/10)

pascalcomelade_swing

LINK (Danses Et Chants De Syldavie – 1993)

Les Disques du Soleil et de l’Acier, distri. Megamúsica
Singles de 70 minutos, álbuns duplos de 10 minutos, nunca se sabe o que passa pela cabeça deste francês que não nasceu na França quando resolve editar discos. Acabaram de sair mais dois, deste maníaco dos instrumentos de brinquedo que gosta de fazer versões de canções recolhidas de todas as décadas para as despedaçar com o empenho de uma criança mimada. “Swing Slang Song” (oito canções, 16m27, o título tema é uma variante de uma canção dos Can, “Sing Swan Song”…) soa, porém, um bocado desconjuntado, de pouco servindo a consistência vocal de P. J. Harvey em “Love too soon” e as duas dedicatórias, a Ornette Coleman e a Kevin Ayers, num disco que não impressiona só por saber fazer beicinho. Do naipe de compositores de “September Song” (digipak, sete canções, 19m27) fazem parte Adriano Celentano (“24 mila baci”), Toto Cotugno (“L’Italiano”), Bob Dylan (“Knockin’ on heaven’s door”) e Robert Wyatt. Este último, além de cantar de forma superlativa e pungente no título-tema, assinado por Kurt Weill, viu ainda incluído um estranho instrumental da sua banda Matching Mole (“Signed curtain”, do álbum “Little Red Record”) aqui interpretado ao piano pelo “francês”. Comelade volta a fazer funcionar neste seu novo embrulho de nostalgia a sua táctica pessoal, através da qual consegue fazer-nos habitar os seus universos de pé-quebrado. Além dos habituais brinquedos, Comelade toca sintetizador Moog, o que não acontecia desde o magnífico “Détail Monochrome”, e uma “anti-techno orchestra”. Dylan devia ainda agradecer-lhe ter transformado uma canção sua em algo hilariante. Convidem o homem para “Os Reis da Música Nacional”!

Pascal Comelade – Live In Lisbon (conj.)

04.02.2000
Pascal Comelade
Live In Lisbon (8/10)
Pascal Comelade & Richard Pinhas
Oblique Sessions II (7/10)
Les Disques de L’Acier et du Crépuscule, distri. Megamúsica
Pascal De Lisboa Para O Pinhal

pcomelade_liveinlisbon

LINK
pwd: musicresponsibility

“Live in Lisbon” foi gravado ao vivo em… adivinharam! Em Lisboa! Mais precisamente a 25 de Junho do ano passado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, com a Bel Canto Orquestra. Há mais três temas gravados em Barcelona mas é como se não contassem. O álbum é muito nosso. Pascal mostrou estar em grande forma nessa ocasião, como atesta a qualidade deste álbum no qual a faceta “música para brinquedos” não asfixia um lado mais “adulto” (que não menos onírico) como acontece no já “standard” comeladiano, “L’Argot du brui”, um tango dengoso e surreal que é uma súmula do universo deste músico catalão. Igualmente familiares soam as inspiradas versões de “Sunny afternoon”, dos Kinks, “Smoke on the Water”, dos Deep Purple (patética, o que nele é um elogio), “All tomorrow’s parties”, dos Velvet Underground (bastante velvetiana, por sinal), “Honky tonk woman” dos Stones (em ritmo mariachi) e, a comprovar o ditado que diz que “em Roma sê romano”, uma rendição pianística de “Grândola Vila Morena”, de José Afonso. Uma noite de folia e nostalgia por um Comelade em estado de graça. Comelade tem sempre graça, aliás…
Ou quase sempre. Com Richard Pinhas, antigo guitarrista e manipulador de electrónica dos Heldon, o caso muda de figura. Num segundo volume de “sessões oblíquas” que torneiam a discrição Enoiana – aqui materializada numa versão andróide de “Here come the warm jets” – onde Comelade, além dos instrumentos de plástico, toca piano de cauda e órgão electrónico e Pinhas, guitarra eléctrica. Neste caso a música é tensa, acumulando ambientes minimais e opressivos, em diálogos, nem sempre ricos de significado, entre a intuição “naif” de Comelade e as “Pinhatronics” cerebrais do francês no que pode ser considerada uma conversa entre um gafanhoto e um elefante. Pinhas arde. Comelade por pouco não se quebra em pedaços, esmagado pelo ex-Heldon. Umas vezes soa como um ensaio dos Faust. Noutras a poesia desce aos solavancos, nas asas de um anjo de papel de seda e alumínio, como em “Krafft-ebbing et les coupleurs de nattes”. Dois loucos em acção.

Pascal Comelade – Zumzum-Ka

15.01.1999
Pascal Comelade
Zumzum-Ka (8)
G3G, Distri. Ananana


pc

LINK

“Zumzum” é a onomatopeia em catalão utilizada para descrever o ruído de um enxame de abelhas ou de uma multidão de gente. “Ka” é a letra “K”, a letra “caminhante”, a “lâmina que corta em todas as direcções”. “K” de Kafka, Kandinsky, Klee e Kantor. “Zumzum-Ka” é ainda “uma provocação à imaginação, mais do que um sentimento realista”. Nem outra seria de esperar de mais um álbum de Pascal Comelade, mestre do onirismo e da música de brinquedos. Encomendado pela Companhia de Dança Gelabert – Azzopardi, dirigida por Gesc Gelabert, “Zumzum-Ka” explora o lado mais trágico e evocativo do músico francês, em peças impressionistas em que estão uma vez mais presentes os sons infantis, lado a lado com o piano de cauda e sopros de salão, num baile hermético onde Satie dança o tango e ese arrastam espectros de mil e uma paixões fatais. O diabo sopra uma corneta, o casino fechou as portas, o mar povoa-se de visões de ópio e absinto, véus árabes, remendos minimalistas, valsas de pé-quebrado e rock sem roll preenchem o imaginário de “Zumzum-Ka”, um dos álbuns mais densamente povoados de fantasmas de toda a discografia de Comelade. O saxofone gutural de Jakob Draminsky traz ressonâncias de circo a uma das duas “peças curtas” do disco, enquanto os quase 14 minutos do título-tema – uma sinfonia de relógios e martelos de piano, tão asfixiante como uma emissão de ruído dos Faust – enveredam pela alameda do experimentalismo, como não acontecia já desde “Détail Monochrome”, um álbum nunca editado em compacto.