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José Medeiros – “José Medeiros Compõe E Filma Sobre Lenda Dos Açores – FEITIÇO NAS ONDAS HERTZIANAS”

pop rock >> quarta-feira >> 31.01.1996


José Medeiros Compõe E Filma Sobre Lenda Dos Açores
FEITIÇO NAS ONDAS HERTZIANAS


Em “O Feiticeiro do Vento”, produção televisiva da RTP – Açores, José Medeiros acumula as funções de realizador, actor, compositor da banda sonora e cantor. O filme passou timidamente no continente, por alturas do Ano Novo.



É uma obra a descobrir, a mais recente visão de José Medeiros (“Zeca” para os amigos) sobre os Açores. “O Feiticeiro do Vento”, baseado numa lenda da ilha do Corvo, conta a história de uma mulher, Ariel, que por ser diferente “é marginalizada pela população da ilha”, sendo no fim vingada pelo filho. Ali, após “uma vida de errância” entre piratas.
“O Feiticeiro do Vento”, o álbum, saiu na altura em que o trabalho de televisão foi apresentado nos Açores, em Agosto do ano passado. “Como forma de comemorar os 20 anos da RTP-Açores”, explica o mago das barbas, a quem muitos terão prestado atenção através da interpretação avassaladora que empresta a “A fofa”, tradicional açoriano incluído no mais recente álbum da Brigada Victor Jara, “Danças e Folias”.
A música surgiu antes das imagens e foi gravada num “pequeno estúdio improvisado”, no dizer do compositor, numa alusão ao facto de não existirem locais de gravação profissionais no arquipélago.
José Medeiros tem-se mantido fiel ao registo de discrição. A música, por melhor que seja, e tem-no sido, não se arrisca a fugir às malhas da banda sonora. “Nos últimos tempos, de facto, tem sido assim, se bem que eu, há bastantes anos, tenha feito algumas experiências, não muito bem sucedidas, perfeitamente independentes do trabalho de imagem.”
No percurso musical de José Medeiros encontra-se o grupo de música de raiz tradicional Rosa dos Ventos, extinto sem glória nem proveito. Mais presente na memória do público estará a a participação, ao vivo e no disco, em “Danças e Folias”, da Brigada Victor Jara, com a qual José Medeiros mantém de há muito “uma relação de amizade”, consequência das visitas frequentes deste grupo de Coimbra aos Açores. Manuel Rocha, violinista da Brigada é, de resto, o convidado de honra de “O Feiticeiro do Vento”.
Neste disco, José Medeiros assina uma interpretação vocal avassaladora de “A fofa”, onde o telurismo se confunde com a teatralização e o “exagero” emocional da voz avança até ao risco que separa a embriaguez interior do paroxismo. “O meu olhar pelos Açores passa muito por esse lado mais telúrico, o que também pode ser uma maneira de fugir a uma certa rotina urbana que aqui em Ponta Delgada também existe.”
A verdade é que as raízes de José Medeiros não são tão lineares como à primeira vista podem parecer. Os seus primeiros passos são inseparáveis de outra espécie de coreografias que não as da alma. “Estive ligado ao teatro amador, do liceu. Desde muito cedo aconteceu uma relação entre a música e a uma certa teatralidade. Uma coisa que pode remeter até para a minha família, de músicos e actores amadores.” E frisa: “Não há uma fronteira muito nítida entre a imagem ou a teatralidade e a música, embora, no caso de “A fofa” não se possa falar em encenação, mas numa opção espontânea, quase inconsciente, de dar alguma teatralidade dos cantadores populares aqui dos Açores.”
“O Feiticeiro do Vento”, com as suas ambiências oníricas marcadas fortemente pela presença dos elementos, poderá ainda, caso chegue mais perto da cidade onde se jogam os gostos e determinam os consumos, ser uma chamada de atenção para os sons tradicionais das ilhas do Espírito Santo. José Medeiros reconhece o estado actual de “travessia no deserto”, ao mesmo tempo que recorda a vida curta de agrupamentos açorianos como Rimanço, fundado por Carlos Guerreiro, actualmente nos Gaiteiros de Lisboa, ou Gente da Ilha.
Hoje, encontram-se em actividade os Bela Aurora, com um trabalho “supervisionado por José Mário Branco no tempo da UPAV” e o Cantinho da Terceira. Pouco para romper a tal distância que isola e uma solidão que mata. “Isto continua muito longe”, reconhece José Medeiros: “Estes grupos acabam por morrer um pouco por não haver estruturas de apoio. Em termos de edição discográfica é mais difícil. “A mensagem chega devagar. Através das ondas hertzianas. Ou de um feiticeiro que vem no vento.