Festa Do Avante A 4, 5 E 6 De Setembro
Chieftains Na Quinta Da Atalaia
A BANDA “folk” The Chieftains, uma das maiores bandas de sempre deste género musical, vai estar presente na XVI edição da Festa do Avante que se realiza na Quinta da Atalaia, na Amora, Seixal, a 4, 5 e 6 de Setembro.
Os Chieftains são os representantes por excelência da música tradicional irlandesa no mundo. Nascido no início dos anos 60, o grupo liderado por Paddy Moloney tem mantido ao longo dos anos uma formação mais ou menos estável na qual pontificam executantes notáveis como próprio Moloney, nas “uillean pipes” e “tin whistle”, Matt Molloy, na flauta, Derek Bell, na harpa, Seán Keane e Martin Fay, no violino e Kevin Conneff no “bodhran”.
Detentores de uma vasta discografia de onde se destacam os essenciais “The Chieftains 5”, “Boil the Breakfast Early”, “The Chieftains 10”, “Celebration” (com Van Morrison e os Milladoiro) e “Celtic Wedding” (fabulosa incursão na música da Bretanha), os Chieftains editaram recentemente “The Bells of Dublin” que conta com a presença de convidados como Marianne Faithfull, Rickie Lee Jones, Nancy Griffith, Jackson Browne e Elvis Costello, entre outros.
O álbum será editado em breve no nosso país pela BMG.
No campo do jazz está também assegurada a presença na Festa do Avante do núcleo de músicos ligados aos Jazz Messengers: o saxofonista Benny Golson, o trombonista Curtis Fuller, o trompetista Eddie Henderson e um baterista aina por definir, aos quais se juntarão, na primeira noite da festa, a orquestra de jazz do Hot Clube de Portugal, e músicos portugueses convidados, numa “jam session” prevista para a noite seguinte.
Decorridos 37 anos de carreira, os The Chieftains tornaram-se uma instituição da folk irlandesa em particular e da world music em geral. Estatuto invejável que nem a edição do anterior álbum do grupo, “Tears of Stone”, que rondava a mediocridade, conseguiu manchar. Com o novo “Water from the Well”, mais do que emendarem a mão os Chieftains vão mais longe (ou será melhor dizer mais perto?) voltando a mergulhar de corpo inteiro e em exclusivo na música tradicional do seu país. O que significa que desta vez não há estrelas rock nem música da China nem cowboiadas de qualquer espécie de ninguém. É “Irish traditional folk” como já não faziam há muito, com convidados, é certo, mas desta feita todos irlandeses, como a Belfast Harp Orchestra ou os Altan, que participam em “The Donegal set”. “Water from the Well” (“Água do Poço” é o típico trabalho de regresso às origens, quase um “arrependimento” dos anteriores “desvios”. Gravado no já habitual “Windmill studios”, em Dublin, mas também ao vivo em diversos condados da Irlanda (em Mayo, no célebre pub de Matt Molloy, em Westport, e em Donegal, Kerry, Clare…) “Water from the Well” é também uma homenagem e um roteiro de viagem a uma ilha onde a música se confunde com as paisagens e as pessoas. As belíssimas fotos e o mapa da Irlanda que acompanham esta edição são um convite para se ir a correr comprar um bilhete de avião. Mas perguntam vocês, cheios de impaciência: e a música? É notável? Única? Bom, lá única será, para quem não tiver ouvido os anteriores 352 álbuns dos Chieftains, nomeadamente toda a primeira fase da sua discografia. E notável tem sido (quase) sempre. Agora não se exijam surpresas nem grande excitação a “Water from the Well”, um álbum clássico, formal e instrumentalmente imaculado, sem concessões, em que o motivo de maior destaque será a definitiva emancipação de Kevin Conneff como cantor. O que é que se pode desejar mais dos Chieftains? Apenas que continuem. (RCA, distri. BMG, 8/10)
Entusiasmo e energia a rodos não faltam aos Gaelic Storm, jovem grupo constituído por um irlandês, dois ingleses e um americano que provavelmente se encontraram num “pub” com um “pint” na mão. “Herding Cats” é o álbum de estreia do grupo onde é visível esse espírito de jovialidade alcoólica, num folk rock sem grandes preciosismos nem pretensões cuja principal função é criar boa disposição e, com ajuda de um bom combustível líquido, fazer dançar. “After hours at McGann’s”, “Breakfast at lady A’s” (com um bom desempenho nas “uillean pipes” do convidado Eric Rigler) e “The devil went down to Doolin” (a mostrar que os Gaelic Storm têm em Samantha Hunt uma boa violinista) são os temas que permitem vaticinar um futuro promissor para o grupo. Aliás, já que se fala em combustíveis, os Gaelic Storm são a banda que aparece a tocar ao vivo na cena da festa no porão de “Titanic” o tema que fecha este álbum, “Titanic set”, outro dos bons momentos de “Herding Cats”. Curiosamente, o grupo mostra aqui maior agilidade no “jig” inicial do que no consequente “reel”, algo preso de movimentos. Esperemos que, ao contrário do que aconteceu com o navio, e apesar da trovoada, os Gaelic Storm não se afundem… (Omtown, distri. Distrimúsica, 6/10)
Sussan Deyhim é uma cantora natural de Teerão residente em Nova Iorque que já trabalhou, entre outros, com Jah Wobble, Peter Gabriel, Bill Laswell, Bobby McFerrin e Adrian Sherwood, embora o trabalho no qual a sua voz mais se notabilizou seja “Desert Equations: Azax Attra”, o lado do teclista Richard Horowitz, editado nos anos 80 para a editora Made to Measure. Não é fácil classificar o estilo vocal de Sussan Deyhim, um estilo onde as técnicas tradicionais e contemporâneas se cruzam de forma original. Pense-se em Meredith Monk perdida no meio do deserto. Ou em Meira Asher, convertida ao islamismo. Uma voz hipnótica onde a sensualidade e o mistério da música árabe se casam com uma estranha modernidade. “Madman of God” não soará estranho aos ouvidos que escutaram “Desert Equations”, com os mesmos processamentos electrónicos da voz a destacaram-se de entre a panóplia de instrumentos étnicos (Glen Velez é um dos percussionistas) num álbum que reúne melodias do reportório religioso da Pérsia, de poetas sufis dos séculos XI ao XIX, como Rûmi, Saadi e Djami. De todos eles, Sussan Deyhim destacou e transpôs para a sua voz a importância da “vibração” que une a poesia e a música no sentido da ascese espiritual. “Madman of God” é um álbum de “world music” no sentido mais lato do termo, tão “étnico” como as “Novas Polifonias Corsas” de Hector Zazou, por exemplo, ou seja, música de um mundo em que a natureza, os mitos e o diálogo com Deus se tornaram informação em circulação electrónica numa rede global. (Cramworld, distri. Megamúsica, 8/10)
O Oriente e o Ocidente voltam a cruzar-se em “Rain of Blessings: Vjara Chants”, segundo álbum resultante da colaboração do cantor e monge tibetano Lama Gyurme com o teclista francês Jean-Philippe Rykiel. Às entoações graves e aos mantras pronunciados como uma oração pelo religioso acrescenta o francês um ambientalismo electrónico que não está à altura da profundidade do canto. Ao contrário do que, numa colaboração semelhante, fez Steve Tibbetts com outro cantor tibetano, Choying Drolma, em “Chö”, Rykiel preocupou-se mais em abonecar e suavizar o sentido iniciático do seu parceiro budista do que propriamente em pontuar esse caminho para o sagrado com a simplicidade e a contenção exigidas. Vangelis e Kitaro não fariam melhor. Ou talvez fizessem se pensarmos no horripilante solo de guitarra eléctrica “mística” que corta “Offering chant” em pedaços de fruta cristalizada new age. Talvez seja assim porque já houve tempos em que Lama Gyurme costumava cantar em finais de “raves” para audiências extenuadas, desempenhando as funções de “chill out”. Deixou de o fazer entretanto porque, segundo parece, o “estado mental” dos ravers não era o mais adequado para apreender os seus propósitos de elevação espiritual… Não importa, leve-se esta “Chuva de Bênçãos” para a tenda que o efeito é o mesmo. (Real World, distri. EMI-VC, 5/10.)
THE CHIEFTAINS
Santiago (9)
BMG Classics, import. Disco 3
Nos últimos anos e nos últimos álbuns, os Chieftains transformaram-se em predadores. Se o repasto resultou em indigestão, no anterior “The Long Black Veil”, em “Santiago” a refeição tem o requinte cerimonial de uma festa de Babette. “Santiago” está para a música da Galiza como “Celtic Wedding” estava para a música da Bretanha. Um e outro são, como explica o, hoje, líder incontestado da banda, Paddy Moloney, a tentativa de captação de uma essência. Em termos práticos, “Santiago” resultou dos múltiplos espectáculos e digressões realizadas em conjunto com Carlos Nuñez (“por vezes, quase podia ser considerado o sétimo elemento dos Chieftains”) pelos mais diversos locais do globo. Nuñez funciona como um guia e um catalisador, sendo ele quem, actualmente, conduz os Chieftains à redescoberta de uma “juventude” que ameaçava definhar nos verdes “reels”, mil vezes revisitados, da Irlanda.
“Santiago” é pois uma peregrinação, não só a Compostela como ao mítico centro universal do mundo celta. Estão em voga projectos deste tipo. Basta recordar a ainda fresca “A Irmandade das Estrelas”, de Carlos Nuñez, precisamente sobre idêntica temática. Igualmente em voga está uma perspectivação da música tradicional segundo cânones que remontam à Idade Média, constituindo uma novidade o modo como os Chieftains vão ao encontro desta tendância, aqui maravilhosamente exemplificada na parte inicial de “Arku – dantza/Arin-arin” (na segunda, pode escutar-se a “trikitixa” de Kepa Junkera), “El besu” e, ainda com maior profundidade, em “Dum paterfamilias/Ad honorem”, do Códice Calixtino, gravado ao vivo no convento de San Paio de Antealtares, em Santiago de Compostela, com o coro Ultreia, três das cinco partes que compõem a “suite” “Pilgrimage to Santiago”. A quarta, “Não vás ao mar, Toino”, tem a de há muito aguardada participação de Júlio Pereira, no cavaquinho.
A partir daqui, o percurso alarga-se, saltando da Galiza para o México, em “Guadalupe”, com as participações de Linda Ronstadt e Los Lobos, e Cuba, em “Santiago de Cuba” e “Galleguita/Tutankhamoen”, ambos com a participação de Ry Cooder. A Galiza sacra e tradicional surge em todo o seu esplendor numa “Galician overture”, composição orquestral escrita por Paddy Moloney para a Xoven Oquestra de Galicia, que se estende através da Irlanda, Escócia e Bretanha. Mais do que uma homenagem, um cerimonial iniciático, dos mais sublimes alguma vez oficiados na catedral dos Chieftains.
Para os apreciadores da velocidade e de duelos, “Santiago” tem para oferecer o “combate” entre dois gigantes da gaita-de-foles, Paddy Moloney “contra” Carlos Nuñez, em “Dueling chanters”. O vencedor, cabe ao auditor decidir… “Minho waltz” é um tema de inspiração minhota da autoria de Matt Molloy, onde este deixa patente o seu virtuosismo e “Tears of stone” um momento de introspecção, no diálogo entre “tin whistle” de Carlos Nuñez e a harpa de Derek Bell.
O encontro da Irlanda com a Galiza fica selado a fogo no derradeiro “Dublin in Vigo”, uma sessão ora delirante, ora comovente (aquela comoção que só o álcool torna plausível…) em forma de “medley” galaico-irlandês, gravada ao vivo num “pub” de Dublin à cunha, após um concerto em Vigo, com a participação de toda a gente, incluindo cantores e bailarinos galegos. Como costuma acontecer nestas ocasiões, os nossos vizinhos tomaram, por assim dizer, conta da ocasião. Pura excitação. Música no seu estado mais puro.
E assim, em Compostela ou em casa, no templo ou no “pub”, os Chieftains conquistaram o sete-estrelo a Eternidade.