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The Chieftains – “The Long Black Veil”

Pop Rock

25 de Janeiro de 1995
álbuns world

CALDO ENTORNADO

THE CHIEFTAINS
The Long Black Veil (6)

RCA, distri. BMG


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Está entornado, o caldo! Os Chieftains, a banda das bandas irlandesas de música tradicional, deu o primeiro passo em falso numa carreira que recentemente celebrou o seu trigésimo aniversário. Transformados em estrelas internacionais, facto a que não será alheio a sua passagem para uma multinacional, a banda do “virtuose” das “uillean pipes”, Paddy Moloney, notabilizou-se nos últimos tempos por trazer para os seus discos nomes famosos da cena pop anglo-americana. Até agora isso não impediu que a música continuasse a ter o toque e a magia especiais dos Chieftains. Era um processo controlado, no qual os convidados contribuíam com perspectivas diferentes, o que tinha inclusive a virtude de evitar que a rotina se instalasse no seio do grupo. Em “The Long Black Veil” manifestam-se porém os efeitos perversos dessa atitude, de tal forma se incorreu no excesso de enfiar “estrelas”, cada vez de nomes mais sonantes, numa música que pela primeira vez parece sofrer de obesidade e alguma ostentação. Para além de Van Morrison, aqui num monótono tema da sua autoria “Have I told you lately that I love you?”, convidado habitual dos Chieftains num passado recente, não é particularmente excitante ouvir Sting cantar “Mo ghile mear” (“Our hero”), Mick Jagger esforçar-se por dar credibilidade ao título-tema, Mark Knopfler aligeirar “The lily of the west”, ou Sinead O’ Connor a dar tudo por tudo para se parecer com uma “folk singer”, mas sem chegar aos calcanhares das grandes cantoras irlandesas tradicionais, em “The foggy dew” e “He moved through the fair” (a propósito, “The Long Black Veil” é uma espécie de “bê-á-bá” da música tradicional, com a inclusão de vários dos seus temas mais estafados). Divertida é o menos que se poderá dizer da interpretação do canastrão “crooner” Tom Jones, em “Tennesse waltz/Tennesse mazurka”, dedicada a Frank Zappa e gravada na casa do mesmo. Ry Cooder, por seu lado, acrescenta uma dose de espacialidade e faz seus “Coast of Malabar” e “Dunmore lassies”. Marianne Faithfull cumpre, com a sua voz sofredora de sempre, em “Love is teasin’”. Verdadeiramente caricata e, a nosso ver, inútil é a desbunda final dos Chieftains com os Rolling Stones (!), no tradicional “Rocky road to Dublin”, por muito que Paddy Moloney diga que foi “the most enjoyable” momento da gravação. Uma confusão onde tocam todos ao mesmo tempo, de certeza muito divertidos, e é possível ouvir, entre o chinfrim, a guitarra de Keith Richards a lançar no caos um punhado de notas de “Satisfaction”. Mas pronto, é a glória. Nos currículos de ambos já poderá constar que a maior banda folk do planeta tocou com a maior banda rock do planeta e vice-versa…
No meio do verniz dos convidados, faz pena ver escrita em letras menores o nome dos verdadeiros artífices de “Long Black Veil”, afinal aqueles que contribuem para que o projecto não vá ao fundo: o gaiteiro galego Carlos Nuñez, os acordeonistas Mairtin O’ Connor e James Keane, o guitarrista Arty McGlynn e o coro dos Anúna. São eles as verdadeiras estrelas e os pilares de “The Long Black Veil”, um disco onde os anfitriões quase têm de pedir licença para se fazerem ouvir. Esqueça-se a barafunda e procure-se conforto na vocalização, de longe a melhor do disco, do “humilde” vocalista da banda, Kevin Conneff, em “Changing your demeanour”. E agora quem é que os Chieftains poderão convidar para a próxima? Talvez o Papa?



The Chieftains – Concertos em Lisboa e no Porto, Novembro de 1994

Pop Rock

2 de Novembro de 1994

“TUDO É MARAVILHOSO”


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Voltará decerto a ser um acontecimento. Aliás, um concerto dos Chieftains é sempre um acontecimento. Para a lendária banda orientada por Paddy Moloney, um dos reis das “ullean pipes” da actualidade, será a terceira visita ao nosso país. Depois da semidesilusão que constituiu a sua apresentação na edição de 1992 da Festa do “Avante!” e um ano volvido sobre o concerto inesquecível que rubricaram no penúltimo Festival Intercéltico do Porto, um dos melhores de sempre por um grupo de folk em Portugal. Se para o público do Norte será a oportunidade para de novo rever a excelência, não só musical mas de verdadeiros “entertainers”, dos embaixadores da música tradicional do mundo. Para os lisboetas será a possibilidade de finalmente poderem pôr as contas em dia e também eles poderem dizer que assistiram a um concerto de uma lenda.
O “MC-Mundo da Canção”, que este ano comemora um quarto de século, é responsável pelo concerto no Porto, cuja realização está integrada nestas comemorações. Na capital essa tarefa estará a cargo da Afrika.
O que se pode dizer ainda dos Chieftains que não tenha sido já dito? Pouco, nem isso é o mais importante. Para Bob Claypool, crítico de música do Houston Post, é simples: “Se existe no mundo uma música mais bela que a dos Chieftains”, diz, “então eu nunca a ouvi”. Uma coisa é certa: Paddy Moloney, Derek Bell (o harpista com aspecto de professor liceal que no Porto mostrou ser um autêntico sátiro…), Matt Molloy (simplesmente o melhor flautista vivo da Irlanda), Sean Keane (no violino em aceleração), Martin Fay (no violino guardião da tradição) e Kevin Conneff (malabarista do “bodhran” e cantor de notáveis recursos) formam uma equipa praticamente imbatível. Como garantia adicional, pelo menos em relação à data no Norte, é o facto de os Chieftains terem ficado impressionados com a cidade e as gentes do Porto. Até porque nisto de concertos folk sabe-se a importância que tem, para que os músicos atinjam o melhor de si próprios, a existência de um bom ambiente.
Se no Porto, dados os antecedentes, a enchente será um dado praticamente certo, em relação a Lisboa as características “frias” da sala aconselham a mobilização geral não só do público apreciador deste tipo de música como da boa música em geral, uma vez que a dos Chieftains não se esgota nos parâmetros da “irish folk”. Que o digam os chineses (que ouviram “The Chieftains in China), os galegos (“Celebration”), os bretões (“Celtic Wedding”), os fãs da “country” americana (“Another Country”), os devotos das grandes orquestrações (“Irish Horse”) ou astros da pop como Jackson Browne, Marianne Faithfull, Roger Daltrey, Elvis Costello e Rickie Lee Jones, entre outros (“The Bells of Dublin” e “An Irish Evening”) ou Júlio Pereira, que recentemente gravou com os Chieftains o tradicional português “Não vás ao mar, Toino”, a incluir no próximo álbum da banda.
Se a boa música é com eles e está à partida garantida, já a festa depende em grande parte de nós. Para que faço pleno sentido a frase de Paddy Moloney, sobre o que sentem os Chieftains, ao fim de 30 anos de entrega a uma paixão: “Ta gach rud to hiontach”, “tudo é maravilhoso”.

CHIEFTAINS
4 de Novembro, Coliseu do Porto
5 de Novembro, Pavilhão Carlos Lopes, Lisboa



Milladoiro – “O Berro Seco” + “Galicia De Maeloc”; + The Chieftains – “Celebration”

Pop Rock

13 NOVEMBRO 1991
REEDIÇÕES

MILLADOIRO
O Berro Seco (10)
Galicia de Maeloc (10)

CD, Dial, import. Mundo da Canção

berroseco

galiciamaeloc

THE CHIEFTAINS
Celebration
(10)
CD, RCA, distri. BMG

chieftainsCel

Galiza e Irlanda, fontes inesgotáveis de tradição e de músicas que sobem pelo tempo. Os Milladoiro (termo que designa pequenos amontoados de pedras dispostos ao longo dos caminhos, em dia de romaria, a dar sorte aos caminhantes), núcleo de executantes oriundos da região de Pontevedra e de áreas tão diferentes como a música medieval, o jazz ou as músicas de fusão, dedicam-se ao estudo e à interpretação do folclore galego, “fundindo ritmos e dinâmicas instrumentais e vocais, num processo nunca terminado pois a tradição continua viva e em evolução”. “Foliadas” e “muiñeiras” alternam com danças e canções da Irlanda e da Escócia, centrando a unidade galega na unidade maior do mundo celta.
“O Berro Seco” (gritado em uníssono pelos homens da aldeia, por ordem de Saturnino Cuiñas, lenda viva da Galiza, à saída da missa na capela de San Ciz, paróquia de Cesullas) e “Galicia de Maeloc” ) no séc. V, os celtas bretões arribaram à Galiza, trazendo consigo os seus mitos e costumes, sob o comandado do bispo Maeloc) mostram os Milladoiro na sua melhor forma, correspondente à primeira fase, ancorados às ressonâncias mágicas das gaitas e das sanfonas e a uma sonoridade “medieval” que, anos mais tarde, viria a perder muita da sua força na estilização e nas orquestrações sofisticadas de “Castellum Honesti”.
Dos Chieftains – embaixadores reconhecidos da música tradicional irlandesa –, basta referir que nunca gravaram maus discos (com excepção, talvez, das músicas compostas para documentários televisivos…). “Celebration” constitui, ao lado dos volumes 5, 7 e 10 da série “The Chieftains” e da inspirada homenagem à música bretã, “Celtic Wedding”, um dos melhores trabalhos de sempre da banda mítica formada por Paddy Moloney (gaita-de-foles), Derek Bell (harpa), Seán Keane (violino), o eterno vagabundo Matt Molloy (flauta, que tocou com os Bothy Band, Planxty e De Dannan…) e os mais recentes Martin Fay (violino) e Kevin Conneff (percussão).
“Celebration”, como o nome indica, é uma festa de jigas e “airs”, a que não falta sequer uma “drinking song” e a presença de ilustres convidados: Nancy Griffith – que, em “The Wexford Carol”, troca a country “yankee” pela pureza de um hino de Natal –, Van Morrison (o irlandês de alma negra) e a sua banda, à desgarrada com os Chieftains em “Boffyflow and Spike” e os Milladoiro, precisamente, na celebração final dos 1000 anos da cidade de Dublin – “Millenium celtic suite”, composta por Paddy Moloney, na qual colaboram ainda músicos da Bretanha e tocadores de gaitas-de-foles escocesa e da Northumbria. Só temos que erguer o copo e brindar.

celebration

milladoiros – torrent