Ann Heymann – “Queen Of Harps”

pop rock >> quarta-feira >> 27.12.1995


Ann Heymann
Queen Of Harps
TEMPLE, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO



Após várias colaborações com outras harpistas, Alison Kinnaird, Ann arrisca por fim mostrar-se a sós, com a sua harpa gaélica de cordas metálicas – a “clarsach”. A produção enfatiza os acordes e as reverberações amplas, tanto nos temas de “little music”, os “reels” e “jigs” tradicionais, como na “great music” dos séculos XVII e XVIII, tocada nas cortes irlandesa e escocesa para príncipes e auditores eruditos, conhecedores das técnicas ancestrais e das origens bárdicas do instrumento. “Queen of Harps” provoca uma impressão de profundidade, porque é nas profundezas que vai buscar os ensinamentos e o alento, algo que apenas conseguimos encontrar nos velhos harpistas, bretões (esqueçam Stivell), ou irlandeses, como Derek Bell, e nunca em apenas bons tecnicistas, como William Jackson, experimentalistas, como Savourna Stevenson, “hippies” reciclados, como Robin Williamson, ou galegos eternamente constipados, como Emilio Cao. Ann Heymann devolve-nos a harpa enquanto varinha de condão. (8)

Vários (filhos de músicos portugueses) – “Voar No Natal” (entrevista | reportagem)

pop rock >> quarta-feira >> 20.12.1995


VOAR NO NATAL



Os discos. As estrelas. Os grandes êxitos e os grandes “flops”. As “bocas”. A dança do mercado. O universo da música portuguesa e os seus principais protagonistas, os músicos. Sempre na boca do mundo e nas páginas do Pop Rock. Este Natal, porém, quisemos ser diferentes. Aproximámos um pouco mais a objectiva. Pedimos licença aos pais, assim como que um empurrão delicado – saiam lá da frente -, e demos a palavra aos filhos. Eles não se fizeram rogados. A Inês, o Pedro, o Vasco, o Benjamim, o Vicente e a Joana, de idades compreendidas entre os sete e os 13 anos, filhos de pais famosos, falaram da música que gostam e da que não gostam. Da música dos pais e dos pais dos outros. Das prendas “impossíveis” que gostariam de receber neste Natal. Todos detestam a música “pimba” e juram a pés juntos que nunca dançaram “O bicho”.



A Inês gostaria de poder voar. O Vasco acompanha as digressões do pai e adora “as miúdas”. O Vicente já vai no terceiro ano de Piano e declara-se “viciado” nos jogos de computador. O Benjamim quer é dar uns chutos na bola e, quando calha, umas pancadas na bateria que o pai tem tem lá em casa. Às vezes implica na escola com a Joana, por causa do pai. Se pudesse ser, gostaria de estar sempre a viajar e, já agora, que o Sporting fosse campeão. O Pedro delicia-se a ouvir o pai tocar piano com o Pedro Burmester, mas quando for crescido quer ser biólogo. A propósito de pais, querem mesmo saber os seus nomes? Então, a Inês e o Pedro são filhos do Mário Laginha. O Vasco é filho de Kalu, baterista dos Xutos & Pontapés. O Vicente é filho do Jorge Palma. O Benjamim é filho de Carlos Guerreiro dos Gaiteiros de Lisboa. A Joana é filha de Rui Veloso.
Quem sai aos seus não degenera? Filho de peixe sabe nadar? De pequenino é que se torce o pepino? Bah! Eles é que sabem as linhas com que se cosem.

“Divirto-me, Passeio Sozinho, Vejo As Míudas!”



O Vicente tem 12 anos e frequenta o 7º ano. Anda no 3º ano docurso de Piano do conservatório. Gostava de ser músico, como o pai, Jorge Palma. Dos discos do pai, cuja música acha “óptima”, prefere o álbum “Só”, em particular a canção “Estrela do mar”. Costuma sintonizar a Rádio Cidade para ouvir os Queen e Bom Jovi. Música clássica? Faz uma careta. “Não costumo ouvir.” Dos portugueses conhece “imensa coisa” mas não gosta da maior parte, porque “são só aqueles parvalhões tipo Marco Paulo”. Já os Ena Pá 2000 merecem-lhe outro tipo de comentário: “São directos”, com “músicas agitadas”, como “aquela da Marilu” (risos). “Está bem feita.” (N.R.: Neste ponto, outro dos convidados, o Vasco, mostra conhecer a letra de cor e entoa alguns versos da canção, os quais, por não se adequarem à linha editorial desde sempre seguida por este jornal, nos dispensamos de publicar.) Neste Natal, a prenda sonhada é uma Sega Saturn, uma consola de jogos, “a melhor do mundo”. “Há colegas meus que dizem que sou um viciado em jogos de computador e eu respondo-lhes que é verdade.”



O Vasco, 10 nos, 5º ano, além dos Ena Pá 2000, também aprecia os Despe e Siga e os Xutos & Pontapés, grupo do qual o seu pai, Kalu, é o baterista. Dos estrangeiros prefere os Metallica. Coisas violentas, como as que o pai “costuma ouvir”. Encolhe os ombros. “Que remédio.” “Eu gosto, mas há umas mais pesadas de que já não gosto tanto.” Desforra-se a escutar uma canção lenta da recente colectânea “Espanta-Espíritos”, “Rocha negra”. Ou os Madredeus. Dos Xutos, conhece quase todas as canções “de cor”. Acompanha o pai nas digressões sempre que pode. “Divirto-me, passeio sozinho, vejo as miúdas.” As miúdas são mais velhas, mas “sempre se aproveita alguma coisa” (risos). A namorada da escola não se chateia. Por enquanto. Nos ensaios, já segue as pisadas do pai. Quando pode, dá uns toques na bateria. Músicas que ele próprio inventa. Quanto à prenda de Natal, não faz a coisa por menos: “Ter um harém de raparigas!” Mais a sério, já tem um presente garantido: “Na minha escola vai haver um estágio de uma semana, vamos dormir lá e divertir-nos. O Oceano e o João Vieira Pinto vão treinar-nos.” Um jogo “FIFA 96” para a Megadrive também não caía mal no sapatinho.



O Pedro, 9 anos, 5º ano, é claro que também gosta da música do pai, o pianista Mário Laginha. “Costumo ouvir um disco que diz’Mário Laginha e Pedro Burmester’.2 Embora se sinta atraído pelo piano, tenciona ser biólogo. “Gosto de animais.” Não tem nenhum em casa, porque a mãe não quer que “andem a sujar a casa toda”. Gosta dos discos de jazz que o pai ouve em casa, mas, se lhe derem a escolher, prefere Sting. Concorda com o Vicente e franze o sobrolho quando ouve falar de Marco Paulo. “É um piroso” [alguém canta em ar de troça “eu tenho dois amores”]. E “O bicho”? “Uuhhh”, vaia colectiva, “é um nojo”, “os pais é que gostam e depois ensinam os filhos a fazer aquilo.” Iran Costa não é definitivamente um dos heróis desta garotada. Como o Vasco, ficaria feliz em receber no sapatinho uma Sega Saturn acompanhada do jogo “Virtual Fighter” – “Já vem com a Sega”, informa, entendido, o Vasco. Ou “carros telecomandados”. Já teve um, mas como estava estragado, usou o motor “para fazer um barco a motor”.



A Inês, sete anos, 2º ano, é irmã do Pedro e a mais nova do grupo. À semelhança dos seus companheiros, gosta de música. “Às vezes ouço o Sting e a Onda Choc.” Acha a música do pai um bocadinho esquisita. Já se sentou ao piano e gostou. “Temos dois pianos lá em casa, um do meu pai e outro meu e do meu irmão.” Sabe tocar nas teclas “A Suzana vai à quinta” e outra da qual não me recorda o nome mas consegue entoar as notas. “É a minha mãe, que já foi professora de piano, que me ensina. “Costuma ver os desenhos animados da televisão. “Um dia o meu pai chegou de uma viagem e deu-me um saco com montes de filmes do Pateta, da Minnie, do Mickey.” Já viu o “Pocahontas”, para si, “melhor que ‘O Rei Leão’”. Se fosse possível, neste Natal, gostava de voar. “Quando os meus pais fossem de carro à casa do irmão, eu chegava lá muito mais depressa.”



“Não gosto de música tradicional portuguesa.” A afirmação, lapidar, pertence ao Benjamim, 11 anos, 6º ano, filho de Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa. “Não gosto de ranchos folclóricos!” Mas então e o grupo do pai? “Ah, isso já gosto! Os outros juntam muita coisa.” A sanfona? “O ravanastrão! Já lhe peguei, aquilo é difícl de tocar.” Em matéria de gostos musicais, Benjamim não é excepção e cita os nomes dos Xutos, GNR e Rui Veloso, embora tenha outra paixão: “Gosto de jogar À bola.” Joga futebol na escola. É benfiquista. O Benfica anda um bocado por baixo. “É a crise!”. [“O benfica vai à falência!”, comenta ao lado a Joana, sportinguista ferrenha}. Vai ao estádio da Luz, não com o pai, que “não liga a essas coisas”, mas “com um senhor do café”. Neste Natal, gostava de “receber uma bateria”. Ou então um “salão de jogos”.



Joana, 13 anos, 8º ano, é a mais velha. Admira a música do pai, Rui Veloso, e gosta do seu último álbum, “Lado Lunar”. “Desse e do ‘Mingos e os Samurais’. Os Xutos e os Despe e Siga voltam a ser nomeados, desta vez ao lado da Ala dos Namorados. “Os Ena Pá 2000 é que não!” o contrário da filha, o pai aprecia o grupo liderado por Manuel João. “Tem os discos todos em casa!” Na escola, por vezes surgem problemas. “É uma seca! Estão sempre a chatear, ainda por cima no outro dia o meu pai foi cantar o hino [a anteceder o recente Portugal – Irlanda em futebol] e toda a gente gozou comigo.” Mas não se chateia muito. “Estou-me nas tintas.” O facto de ser filha de um artista famoso também tem as suas vantagens. “Até acho que é melhor, tenho possibilidade de conhecer pessoas que não conheceria se o meu pai não fosse quem é.” Quando as aulas o permitem, acompanha o pai nas suas deslocações. Sabe sempre distinguir quando ele toca bem ou quando toca mal. “Digo-lhe isso, mas ele não se chateia, até gosta, tem vezes em que me dá razão, outras não.” Acha que “a música portuguesa é maltratada em Portugal. Nas rádios que passam música portuguesa é só música pimba”. Antena 3, Rádio Comercial FM e RFM são as suas estações preferidas. A prenda ideal para este Natal era “viajar muito”. Ou então que “o Sporting fosse campeão”.

Realejo – “Realejo Lançam “Sanfonia” – SANFONA CONCERTANTE”

pop rock >> quarta-feira >> 20.12.1995


Realejo Lançam “Sanfonia”
SANFONA CONCERTANTE


“sanfonia” é o título do primeiro álbum, há muito aguardado, dos Realejo, um lançamento recente da editora Movieplay. Fernando Meireles, mentor do grupo, falou ao PÚBLICO do seu amor de sempre, a sanfona, e da maneira como a arrancou ao desprezo e abandono a que foi votada pela História.



embora tarde, “Sanfonia” chegou a tempo de entrar directamente para a lista dos “melhores do ano” do Poprock. É o vértice que faltava ao triângulo formado pelos Gaiteiros de Lisboa e pela Brigada Victor Jara. Polígono que, muito em breve, terá aumentado o seu número de lados, com os próximos a serem traçados pelos Vai de Roda, O Ó Que Som Tem, Cramol e Amélia Muge. Por enquanto não mencionaremos sequer o projecto de um disco a solo de Isabel Silvestre, com produção de João Gil, da Ala dos Namorados. É segredo. Para já é tempo de rodar a manivela da sanfona e dar a palavra ao seu executante e construtor Fernando Meireles.
PÚBLICO – “Sanfonia” começa e termina na sanfona. É um manifesto em sua defesa?
FERNANDO MEIRELES – O projecto começou a partir do momento em que construí a minha primeira sanfona. Era preciso tocá-la e dá-la a conhecer. Foi igualmente determinante a leitura da obra sobre instrumentos populares portugueses, do doutor Ernesto Veiga de Oliveira, nomeadamente o capítulo da sanfona.
P. – Não é um disco de grandes ousadias formais…
R. – A tarefa era, à partida, dignificar não só a sanfona como os instrumentos tradicionais portugueses, os quais, de um modo geral, eram mal feitos. Para mim, enquanto músico, isso sempre me desgostou. Foi por isso que comecei a fazer instrumentos. Uma das minhas preocupações é que a sonoridade do Realejo seja característica dos instrumentos e que esses sejam bons.
P. – Porquê a opção por um disco totalmente instrumental?
R. – … E totalmente acústico. As vozes não foram postas de lado “a priori”, o que aconteceu foi que nunca encontrámos no nosso caminho alguém com boa voz, ao nível de qualidade e de “feeling”. Para o nosso tipo de música, o que é preciso é ter onda. Algo difícil de encontrar, ainda para mais aqui em Coimbra, um meio pequenino…
P. – É também um dos poucos discos, na área em que se insere, onde o virtuosismo, ao nível da execução, é um facto, e não existe o receio de o mostrar…
R. – Exacto. Os instrumentos devem tocar por si. Devem ser bons, soar bem, e depois serem bem tocados. Conhecemos um pouco o que se passa no panorama musical português, onde muitas vezes as pessoas usam os sintetizadores para “fazer cama” e depois metem umas vozinhas por cima, não sei quê, e aquilo até sai bonitinho. Não nos sentimos minimamente atraídos por esse tipo de coisas. Gosto dos instrumentos portugueses e sempre achei que eles deviam ter uma certa dignidade que tinham vindo a perder sistematicamente, sobretudo a seguir a 1975, durante o “boom” da música de raiz tradicional portuguesa, quando se começaram a fazer instrumentos a dar com um pau e de qualquer maneira…
P. – Apesar disso, “Sanfonia” soa bastante “europeu”, não acha?
R. – Sim, tem uma sonoridade um bocado além fronteiras, o que resulta em grande parte da responsabilidade musical assumida pelo Amadeu Magalhães, autor dos arranjos. É um som universal, sem limites e sem estar amarrado a qualquer tipo de padrão. Para já, a Etnia mostrou-se interessada em comercializar o disco fora de Portugal.
P. – Nota-se no alinhamento uma divisão marcada entre os temas de sanfona e gaita-de-foles, com maior complexidade e muito música de câmara, e uma sequência, pelo meio, de outros mais populares, como o “Bacalhau”. São os dois lados de uma mesma moeda ou cedências ao mercado?
R. – Foi intencional. Como o Realejo é um grupo que toca música portuguesa, não quisemos de form alguma pôr de parte instrumentos como o cavaquinho, o bandolim ou a concertina, que t~em a mesma dignidade quando são bem tocados. De qualquer modo, o disco foi muito bem selecionado em termos de faixas, fomos para o estúdio com música para fazer dois discos.
P. – Não receia, por exemplo, que a rádio pegue apenas nesse lado, não dando uma imagem correcta da estética global do grupo?
R. – Repare-se, ainda a propósito dos cavaquinhos, que não é muito comum haver um grupo de cavaquinhos a tocar, como n´so tocámos, segundo uma escola que nasceu com o Júlio Pereira, a técnica de “rasgado”. De qualquer modo, penso que os temas mais fortes do disco são aqueles onde a sanfona e a gaita-de-foles se destacam mais.
P. – Nunca pensou em electrificar a sanfona, fazer com ela outro tipo de experiências?
R. – A ideia agrada-me e já fiz, inclusive, algumas experiências. De qualquer modo, aquilo que se passa, em termos de lectrificar a sanfona ou os outros instrumentos, é que os espectáculos do Realejo são na sua maior parte acústicos. Essas experiências de electrificação não têm resultado, até agora, muito bem, embora no disco haja uma faixa que aponta um bocado nesse sentido, a cantiga de Santa Maria, com um movimento meio arrockalhado. Pode ser um ponto de partida…
P. – Mas por enquanto o Realejo continua a ser um grupo de e para interiores, no duplo sentido da palavra?
R. – Sim, até um bocado pela nossa experiência em palco. Os nossos conceros são acústicos, o que cria uma intimidade e uma certa aproximação com o público. Se o Realejo começar a saltar desses palcos pequenos para outros maiores, teremos que pensar de outra forma.