Ficções – “Zambra”

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995
portugueses


Ficções
Zambra
POLYDOR, DISTRI. POLYGRAM



No terreno que escolheram para se movimentar, a música de fusão, os Ficções dão cartas aos melhores. O problema está em que se no estrangeiro, nomeadamente nos Estados Unidos, existe uma franja vasta de público consumidor deste tipo de sonoridade, em Portugal devem contar-se pelos dedos os seus apreciadores. É música agradável, superiormente tocada (condição indispensável no género), que se aproveita de diversas tipologias étnicas e as reveste da fluidez e da (muitas vezes aparente) capacidade de improvisação do jazz.
Na mistura própria dos Ficções cabem em geral todas as latinidades – do flamenco às aflorações marroquinas -, as meditações orientalizantes e os calores brasileiro e africano. O desenvolvimento de cada tema é quase sempre previsível e estilisticamente espartilhado, o que, curiosamente, acontece com frequência em grande parte da produção de um género que se pretende o mais democratizante possível. Há uma entrada e um final “exóticos”, onde se dá um cheirinho da fonte onde se foi beber e um interminável desenvolvimento intermediário onde cada intérprete mostra o que vale. Aqui a regra é o “jazz rock” convencional e a sequência virtuosa de “clichés”.
“Zambra”, é pena, não foge à regra. Será bom como manual técnico, mas como objecto criativo não difere de milhares de outros, sem chama nem uma vontade declarada de romper novos caminhos. Faz sentido perguntar o que distingue a verdadeira arte do funcionalismo, a coragem de arriscar da resignação de quem se refugia no conforto dos lugares-comuns. Mas isso é um mal da música portuguesa em geral e os Ficções lá saberão a que porto pretendem chegar. Com as ferramentas de que dispõem poderiam navegar para bem mais longe. Também é verdade que o mundo está cada vez mais pequeno e não falta quem se contente em mandar um postal ilustrado… (4)

Brigada Victor Jara – “Danças e Folias”

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995
portugueses


Abrigada Nos Clássicos

BRIGADA VICTOR JARA
Danças e Folias (9)
Ed. Farol



Não existe um som Brigada da mesma maneira que existe um som Vai de Roda, um som Romanças, um som Ronda ou um som Realejo. Significa que falta personalidade a uma das bandas, juntamente com os Almanaque e o G.A.C., mais antigas no circuito folk nacional? A questão deve ser respondida a outro nível. A banda de Manuel Rocha, Ricardo Dias e Aurélio Malva, para citar apenas três dos seus principais solistas, tem vivido, desde o ano da sua formação, em 1975, do colectivo. Ao invés da procura e apuramento de uma assinatura singular, a opção, bem mais difícil, foi e continua a ser a de desenvolver um trabalho em profundidade em torno das nossas raízes. Se em anos anteriores este trabalho derivou para experiências de fusão, sobretudo em “Contraluz2 e “Monte Formoso”, que resultaram ocasionalmente desequilibrados, em “Danças e Folias” assiste-se ao regresso a um certo classicismo, entendido – aliás como referiu Manuel Rocha na entrevista que concedeu a este suplemento na passada semana – como uma postura mais próxima do formato tradicional da canção, que não das danças propriamente ditas (jota, chula, llaço, fofa, mazurca, chote), neste caso exploradas pelo seu lado mais intrinsecamente “musical”. A diversidade impera, fazendo prova do vasto leque de possibilidades que a banda tem ao seu dispor, ao mesmo tempo que de uma sensibilidade não confinada a fórmulas específicas ou estereotipadas.
O lado mais céltico, transmontano (incluindo dois temas de Rio de Onor, derradeira fortaleza comunitária, fiel aos ritmos e ritos da eternidade, oculta da modernidade nas faldas das terras para lá dos montes…) que enceta o disco esbarra ao quinto tema na surpresa de um dramatismo exacerbado, na vocalização – muito perto do paroxismo – do convidado Zeca Medeiros, uma força da Natureza à solta da sua ilha natal. S. Miguel, Açores. Uma mazurca palaciana, ainda aberta às reminiscências célticas, é por seu lado perturbada por uma das grandes canções do álbum, “Moda da Zamburra”, canção de folia entoada no Entrudo, na Beira Baixa. “O mineiro”, melodia estremenha da região de Torres Vedras cruza-se com as síncopes e as modulações habituais na música da Bretanha, a bombarda substituída pela ponteira de Aurélio Malva e o sax soprano de outro convidado, Jorge Reis, a apontar para divertimentos bretões como os dos Gwendal ou Ti Jaz.
Muito a propósito, a Brigada volta a saltar para Trás-os-Montes, para o canto mirandês, o convénio das percussões a chamada de veludo (nada frequente no meio da rudeza rochosa destes lugares…) da gaita-de-foles, em “Fraile cornudo”. O violinista Manuel Rocha mostra ser o Dave Swarbrick português no “Chote” muito Fairportiano que se segue. 2Donde vas” fecha em beleza, com um romance uma vez mais recolhido nos silêncios escuros de Rio de Onor, iluminado pela voz de Margarida Miranda, aqui assombrada pela mesma interrogação que traz suspensa Né Ladeiras em “Traz os Montes”, e o longo solo de filiscórnio, imbuído de religiosidade e do espírito barroco, de Tomás Pimental. “Danças e Folias” aí está como exemplo para os aprendizes de feiticeiro que julgam poder fazer num dia o que demora uma vida a aprender.

António Menano – “Fados”

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995


Rouxinol De Coimbra

António Menano
Fados
ODEON / EMI-VC



Nunca o fado atraiu sobre si tantas atenções, em termos de projecção mediática e comercial, como no último par de anos. Ao aparecimento de jovens revelações junta-se a consolidação dos consagrados, num fenómeno de recrudescimento do interesse por este género musical que, em paralelo, tem sido acompanhado pela reedição no formato digital de registos da pré-história, de Amália ao fado de Coimbra, passando por antologias várias, arrancados ao baú do tempo e postos diante da opinião pública.
Desta feita a EMI – das editoras mais activas neste trabalho de sapa – foi buscar velhas gravações em 78 rotações de António Menano, um dos mitos do fado de Coimbra. Menano, nascido em 1895 em Fornos de Algodres, na serra da Estrela, era, segundo rezam as crónicas, além de boémio inveterado, senhor de uma voz de tenor que na “Coimbra dos doutores” dos anos 50 fez “calar os rouxinóis” e, em Lisboa, atraiu a “recintos de grande lotação, como o Coliseu e o Jardim Zoológico”, multidões ansiosas por o ouvir.
Considerado o sucessor do lendário Hylário (espécie de correspondente masculino da Severa lisboeta), presença emblemática nos saraus e no Orfeão Académico de Coimbra, António Menano é autor, em 1915, da edição musical “Os três mais Lindos Fados de Coimbra”, publicada pela Livraria Neves e reeditada quatro anos mais tarde, num período em que o Estado pedia aos estudantes para não cantarem o “venenoso cogumelo do fado, produto originário da viela urbana”.
Já nos anos 20 sai uma colecção de edições musicais do “Reportório do Orfeon da Universidade”, com cinco fados da sua autoria, dois dos quais incluídos na presente antologia, “Fado patriótico” e 2Fado do Choupal”. Em 1927 e 1928, doutorado, fez em Lisboa e em várias cidades da Europa uma série de registos conhecidos pelas cores das etiquetas: lilás, azul escuro, dourado e – mais raras – vermelho. Estas gravações foram mais tarde passadas pela primeira vez para disco no Brasil pela Transamerica Trading Company, já com o selo Odeon. Em 1933 António Menano abandona a sua carreira artística, partindo para Moçambique onde exerceu clínica durante 30 anos, quase até ao ano da sua morte, em 1969.
Para a história ficaram os seus fados com sabor a eternidade, os seus famosos “pianíssimos”, os silêncios e as memórias de uma Coimbra que teima em não se deixar morrer. E o “Fado Hilário”, que a sua voz imortalizou, no fecho destes “Fados” restaurados na medida do possível por processos digitais. Um – mais um – documento imprescindível. (8)