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Vários (Companhia Tango Session + Nestro Marconi + …) – “Tango Regressa À Capital, No Teatro Da Trindade, Ao Som Dos Mestres Gardel E Piazzolla – Arrebatamentos Sob Controlo”

cultura >> quarta-feira >> 21.02.1996


Tango Regressa À Capital, No Teatro Da Trindade, Ao Som Dos Mestres Gardel E Piazzolla
Arrebatamentos Sob Controlo


Tangos no Teatro da Trindade está a tornar-se tradição. Este ano, a sigla TTT (tangos, Trindade, tradição) volta ao ataque. Por assim dizer. Ao engate dos sentidos. Nos repelões da dança, nos bofes do “bandoneon”. Gardel, o sacerdote, encontra Piazzolla, o libertário. Três espectáculos de arreganho. O tango. Em segurança.



Está a tornar-se um hábito. Tango em Lisboa. Os que gostam rejubilam. Quem não sabe, não sabe o que perde. O melhor é mesmo ir ao Teatro da Trindade confirmar se os enlaces dos pares têm menos força ou não num salão sofisticado do que nos recantos secretos de uma viela de Buenos Aires.
Deve começar-se pelo princípio, que é como quem diz, por Gardel. Carlos Gardel, o mestre. “De Gardel a Gardel”, assim se chama a sessão aprazada para hoje e amanhã na anciã sala do Chiado, às 21h45, com a Companhia Tango Session. Sábado e domingo vão receber, à mesma hora, o homem que revolucionou o tango e o vestiu com o manto negro do anarquismo: Astor Piazzolla. Nestor Marconi e El Borde vão apresentar “As Quatro Estações” do autor de “Libertango”. A 2 de Março fecha o baile e arrumam-se os foles. Com “Tango, Tango”, ainda às 21h45, pela Companhia de Jorge Arduth.
Não vãos explicar o tango. Nem como se dança. Nem como se sofre. Pode brincar-se em casa aos tangos, com discos, sem perigos nem grandes arrebatamentos. E pode pegar-se de caras a fera, o tango, tango, cheio de ardis e perigosas seduções. Mas também de recompensas. Há quem diga que nos salões elegantes não é a mesma coisa que no seu “habitat” natural, a rua, o barracão, onde houver espaço e pretextos para a rixa das paixões. Como se orgulhava de ser em Buenos Aires, Argentina, ou Montevideu, Uruguai, berços do tango. Não pode ser, nem ninguém quer que seja, a mesma coisa. É o floreado em vez do esquiço riscado de faca na liga. A elegância dos passos coreografados no lugar da dança bruta dos sentimentos. Mas mesmo assim ficamos presos.
A Companhia Tango Session tem a liderá-la Osvaldo Requena, director, autor dos arranjos e pianista. O grupo surgiu em 1985, estreando-se no “Michelangelo”, famoso café-concerto de Buenos Aires. Depois disso partiram para o mundo. Alemanha, Finlândia, Malásia, Japão, China. O fogo a derreter os “icebergs”. Requeno é filho de Buenos Aires mas neto do flamenco. A avó era “bailaora” e o avô “cantaor”. Aqueceram-lhe o sangue.
Gravou mais de 300 álbuns, 19 com solistas. Trabalhou com Argentino Gálvan, Eduardo Rovira, Alberto Castilho, Alfredo Zitarroza, Virginia Luque, Nestor Fabián e Rubén Juarez.
Como pianista fez parte da orquestra de Waldo de los Rios, mas ninguém é perfeito. Actualmente dirige o espectáculo que veremos no Trindade, bem como o “Ensemble Feminino de Tango” e a Orquestra de Música Argentina “Juan de Dios Filiberto”. Com ele vêm um violinista e um tocador de bandoneon, dois cantores e dois pares de dançarinos, entre os quais Giselle Anne, a mais credenciada da companhia.

O Libertário E O Fantasista

“As Quatro Estações” de Piazzolla têm um formato mais sóbrio. Além da direcção e do bandoneon de Nestor Marconi, apenas um violinista e um contrabaixista. Mais o inevitável par dançante. Nestor Marconi escreveu uma suite para grande orquestra e bandoneon solista, intitulada “Encuentro”, estreada pela Orquestra Sinfónica de Gotemburgo e em 1985 e 1995 obteve o prémio de “melhor instrumentista de tango”. Não sei se repararam, mas actuou em “Sur”, filme de Fernando Solanas, já exibido entre nós, nas cenas onde se tocava bandoneon. Era ele. De Piazzolla, alguém de quem se diz que o que toca e compõe é grande música mas não é tango, já interpretou “Três tangos” e “Adios Nonino”.
A última parte do programa do Teatro da Trindade é mais tradicional. Formada em 1949, a Orquestra de Jorge Arduth vem do interior, sendo uma das mais antigas do país. Constituída, além, de Arduth, director e pianista, por sete elementos (dois bandoneon, dois violinos, um contrabaixo e três vozes) e dois pares de dançarinos, conserva o estilo dos anos 40, época de ouro do tango. Os mais novos aprendem a dançar ao seu compasso. Uma escola. De Jorge Arduth, 67 anos, natural de las junturas, Buenos Aires, diz-se que é o “fantasista do teclado” e da sua orquestra que tem o ritmo mais “brilhante”. Compôs tangos como “Mi negro lindo”, “Planetario” ou “Tus ojos tienen”. Fantasias a que a voragem dos anos empresta ainda mais cor.
O tango assentou praça em Lisboa. Não veremos os mestres em pessoa mas ouviremos pessoas que recuperaram para os dias de hoje o espírito e a lição dos mestres. Os saudosistas lembrarão Gardel, aquele que “cantava o tango como devia ser”, nas palavras de um dos seus discípulos, Daniel Bouchet. Os contestatários acolherão de braços abertos a visão iconoclasta de Piazzolla. Uns e outros sentirão o sangue a ferver nas veias.

Danças Ocultas – “Danças Ocultas Estreiam AS CONCERTINAS TAMBÉM CHORAM”

pop rock >> quarta-feira >> 21.02.1996
pop rock >> portugueses


Danças Ocultas Estreiam
AS CONCERTINAS TAMBÉM CHORAM


Um disco instrumental, ainda por cima só de concertinas, é uma operação arriscada, por mais calculado que seja o risco. Foi isso que fizeram os Danças Ocultas, um grupo de Águeda que, no seu álbum de estreia, decidiu elevar aquele instrumento de fole à categoria de música de câmara.



“danças Ocultas” rejuvenesce um instrumento considerado durante muito tempo parente pobre, remetido para a animação de romarias ou para o peditório do cego. Se Júlio Pereira tirou o cavaquinho e a braguesa do gueto, e Tentúgal e Fernando Meireles fizeram o mesmo com a sanfona, o quarteto de Águeda devolveu a concertina à sua condição de nobre que é capaz de chorar a melancolia de Satie. Artur Fernandes, mentor do projecto, num intervalo das filmagens do vídeo promocional, explicou ao PÚBLICO os segredos do instrumento.
PÚBLICO – Como decorreu a gravação?
ARTUR FERNANDES – No início trazíamos uma forma de execução, um tipo de reportório e uma determinada afinação das concertinas, a tradicional, com as palhetas mais vibrantes. A pedido do Tó Pinheiro da Silva [engenheiro de som e responsável pela sonoplastia], estudámos a possibilidade de ter o som mais afinado, com as palhetas mais próximas. Foi o que fizemos. Não podemos igualmente negar a influência, no modo de trabalhar, do produtor Gabriel Gomes, determinante na feitura dos arranjos. Nos três dias que antecederam a gravação, alterámos alguns aspectos dos temas.
P. – Gravaram ao vivo no estúdio?
R. – Como temos vindo a tocar sempre os quatro desde há seis anos, criou-se entre nós um balanço próprio. O Tó Pinheiro entendeu que isso devia ser aproveitado, essa envolvência, gravando não por pistas mas todos juntos. Claro que deu mais trabalho, sempre que alguém se enganava tínhamos de gravar outro “take”.
P. – A relação com a tecnologia deu-se sem atritos?
R. – Tenho essa relação, mas a outro nível. Estou neste momento a fazer estágio no curso superior de Composição, mantendo uma relação com a música electro-acústica, com sistemas digitais e analógicos. Este trabalho com as concertinas funciona, no entanto, a outro nível.
P. – O tema inicial, “Folia”, constitui uma experiência radical na utilização da concertina…
R. – No acordeão e na concertina existe um botão do ar que liberta o fole sem ser necessário tocar nos botões. No acordeão, este botão serve essencialmente para, no fima da música, fechar o fole. Na concertina ele tem outra função, que é, durante a música, compensar a necessidade de maior ou menor tempo a abrir e a fechar o fole. Havendo esta funcionalidade do movimento do fole, optámos por explorá-lo isoladamente, de maneira a produzir uma sensação de respiração humana.
P. – As pessoas costumam ver na concertina um instrumento folião, extrovertido, mas “Danças Ocultas” é um disco bastante melancólico, poderíamos mesmo dizer de música de câmara…
R. – Exacto. Comecei na música tradicional, a tocar concertina nos grupos folclóricos. Depois fui para o Conservatório e iniciei experiências com a concertina, precisamente na área da música erudita. Verifiquei que o instrumento afinal não era tão limitado assim. O que era necessário era explorar as suas potencialidades. Fui descobrindo então o tipo de trabalho que se faz na música de câmara, com distribuição das vozes pelos instrumentos, o tipo de envolvência, ou a necessidade de tocar com o máximo de conforto. Anatomicamente, há a necessidade de tocarmos sentados, para obtermos um máximo de rendimento em termos de expressão.
P. – O “No8c) turno das 7” traz-nos ecos de uma “gnossienne” de Erik Satie…
R. – Não posso negar. Sobretudo no acompanhamento harmónico e no tipo de ritmo. Mas há no disco todas as influências da música que ouço e estudo, Piazzola (em “Quartetra”), de quem sou grande fã, músicas tradicionais da Europa, menos Stravinsky, Messiaen e Webern, este último pelo culto da forma. Um pouco o que eu tento disciplinar neste projecto e que aprendi com a análise de Webern. Na “moda assim ao lado”, não poso negar a inspiração de um Riccardo Tesi ou de um Kepa Junkera. Mas o nosso som resulta pessoal, em parte devido à afinação diferente que procurámos. Em Portugal, a concertina tem um som estridente. Em Itália ou nos países celtas, trabalha-se um som que os afinadores chamam mais “ligado”. Nós ainda fomos a um extremo maior. Tentámos, nos vários arranjos, explorar a diferença de timbres, nas mãos esquerda e direita, além dos tais movimentos do fole.
P. – Já pensou na possibilidade de desenvolver o instrumento, liga-lo à electrónica, como faz, por exemplo, Valentin Clastrier com a sanfona?
R. – Para já não penso nisso, gosto imenso do som acústico. Sinto mais vibração no corpo assim do que com os sons electrónicos ou electrificados.
P. – Está consciente do risco que é editar em Portugal um disco instrumental, para mais centrado num único instrumento?
R. – O projecto, quando começou, partiu precisamente da tal influência da música de câmara. Sei que, por vezes, as pessoas precisam de seguir, ouvir uma letra, mas, talvez por estudar música, consigo dispensar a voz. Neste aspecto tenho como modelo o “Quinteto do novo Tango”, do Piazzola, onde os instrumentos têm como função imitar as vozes humanas. É um pouco pedagógico tentar ensinar as pessoas a ouvir música e a aperceber-se de que não interessa se uma música é comercial ou não.
P. – Para eventuais interessados, quanto custa uma concertina?
R. – Há concertinas a três e duas vozes. Quer dizer, cada botão dispara três ou quatro palhetas. Com três palhetas, o som é mais potente. A de três vozes é mais cara, custará agora à volta de 200 contos. As italianas, que são as melhores, custam ainda mais.
NOTA: Os Danças Ocultas apresentam o seu disco de estreia num espectáculo a realizar a 16 de Março, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Por agora, estão a gravar um vídeo de promoção com realização de Tó Forte, um jovem de 27 anos cujo currículo inclui já trabalhos com os Kussondulola, Diva, Sacred Sin, Sérgio Godinho, Mário Laginha e Janita Salomé, além da assinatura em programas para a televisão como o extinto Pop-Off ou, actualmente, o de moda, “86-80-86”.

Maddy Prior And The Carnival Band – “Hang Up Sorrow & Care”

pop rock >> quarta-feira >> 14.02.1996
world


Para Curar De Vez A Melancolia

MADDY PRIOR AND THE CARNIVAL BAND
Hang Up Sorrow & Care (10)
Park, distri. Megamúsica



é Carnaval. Tempo de folia. Dois dias de festa, vinho e serpentinas. A Carnival Band declara aberta a quadra, escancara o bar, lança as serpentinas e disponibiliza as máscaras – um carnaval tradicional, onde a sumptuosidade das vestes se alia ao mistério do jogo das aparências. Num tom bastante menos ortodoxo que o da religiosidade natalícia de “A Tapestry of Carols” ou “Carols & Capers”, o grupo “privativo” de Maddy Prior mascara, neste seu novo trabalho, a música do Renascimento com uma jovialidade e um artificionalismo, nunca contranatura, que aumentam ainda mais o fascínio de um imaginário onde o requinte do gesto se confundia com o teatro dos sentimentos. Como nos Incredible String Band (um tema como “The Jovial begger (yes spelt er)”, pisca o olho à antiga banda de Robin Williamson e Mike Heron, ou mais recentemente, nos Cock & Bull, esse imaginário é transvestido num hibrido “folk” que, se recupera algumas das sonoridades características da época (gaita de foles, guitarra barroca, “curtals”, bombarda) prefere destilar a sua essência lúdica a imitar-lhe, letra a letra, as formas. Em “Playford tunes”, a Renascença não renega o diálogo “in high spirits” da gaita de foles com uma guitarra eléctrica saturada do doce néctar das uvas. Nem o canto delicado de Maddy choca com a sonolência de um órgão Hammond num bar a horas mortas.
“Hang Up Sorrow & Care” – subintitulado “A Cure for all Melancholy”, baseado na história de “old Simon the king”, discípulo de Baco – segue então aquela filosofia etílica sem outra transcendência a não ser a da euforia, do cérebro e dos sentidos. Depois, a cantora dos Steeleye Span está a cantar melhor do que nunca. Ouçam-na, mas ouçam-na mesmo, na polifonia que mantém consigo mesma sobre o tal órgão Hammond em “The leathem bottel”, antes da entrada triunfal da fanfarra dos foles e das bombardas. E que tal espantarem-se com um tango do séc. XVII dançado na corte com Paolo Conte, em “Oh! That I had but a fine man”? Não nos era concedida jóia deste quilate desde a gravação de duas das mais brilhantes pérolas dos Steeleye Span, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues”, ou do ciclo a solo, sobre as estações, de Maddy Prior, “Year”.
“Now o now I needs must part”, com uma vocalização tão clara como uma manhã de Primavera, possui um ligeiro travo americano. Outra polifonia, neste caso mista, “A northern catch/Little barley come”, permite em definitivo situar “Hang up Sorrow & Care” na linha directa de descendência dos Steeleye Span dos anos 70. Mas num registo pessoalíssimo, onde a música da Renascença e a “folk” inglesa são irmãs e simultaneamente a graça mais antiga e moderna deste (outro) mundo. John Dowdand, Henry Purcell, o “Orpheus Caledonius”, a “Beggar’s Opera” de John Gay, o compêndio “The Dancing Master” (dá licença, senhor Ashley Hutchings?…) ou a lista de licores de “Wit and Mirth, na Antidote against Melancholy” são as raízes, o pretexto e a parra de um banquete bem regado na companhia dos deuses. O primeiro grande disco de 1996.