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Vários (Pedro Abrunhosa, As Camponesas de Castro Verde, Os Vindimadores – Vidigueira, Cubenses Amigos do Cante – Cuba, etc. – “‘CANTE’ DE NATAL SEDUZ ABRUNHOSA”

pop rock >> quarta-feira >> 10.01.1996


“CANTE” DE NATAL SEDUZ ABRUNHOSA



O primeiro disco do ano é português, vem do Alentejo e tem já um ilustre admirador, Pedro Abrunhosa. Chama-se “Cantes de Natal e de Ano Novo”, com “modas” alusivas às quadras festivas que nos trazem o “cante” dos grupos corais Os Vindimadores, da Vidigueira, Cubenses Amigos do Cante e Os Ceifeiros, de Cuba, As Camponesas de Castro Verde e Alma Alentejana, de Peroguarda. A edição celebra um ano de publicação da revista “Imenso Sul”.
Ao todo, 60 minutos de “modas” alentejanas, incluindo três versões do “Cante ao Menino” e duas de “Quem são os três cavalheiros”, na maioria inéditas no formato compacto e algumas delas recolhidas por Michel Giacometti. Gravado na Igreja do Museu Distrital de Beja, o disco constitui ainda uma homenagem ao trabalho desenvolvido, ao longo dos últimos anos, pelo jornalista Rafael Correia, com o seu programa Um Lugar ao Sul, na Antena Um. Os apoios vêm da Região de Turismo Planície Dourada, Delegação Regional do Alentejo do Ministério da Cultura e das câmaras municipais de Castro Verde, Cuba, Ferreira do Alentejo e Vidigueira. O compacto não terá distribuição comercial, sendo oferecido gratuitamente a todos os actuais e futuros assinantes da revista “Imenso Sul”. Quem estiver mesmo interessado na sua aquisição, pode escrever para o apartado 400 – 7800, Beja e enviar 4000 escudos, correspondentes à assinatura de quatro números.
Para Maria das Dores Correia, da administração da “Imenso Sul”, o objectivo da presente edição prende-se, em primeiro lugar, com a divulgação das diferentes especificidades do canto polifónico do Alentejo, num esforço para eliminar o preconceito de que “todo o cante é igual”. “Cada grupo e cada terra tem uma genuinidade própria, embora correspondendo sempre a um todo que é a cultura alentejana.” Obedecendo a critérios de escolha “algo aleatórios” – “o reportório de cante é uma coisa tão vasta que não caberia nem em 10 CD…” – “Cantes de Natal e de Ano Novo” não pretende, por isso, ser “nem um trabalho exaustivo nem uma recolha pretensiosa”, mas tão-só, “uma chamada de atenção”.
Não se deverá, portanto, estranhar a ausência dos Ganhões de Castro Verde, primeiro colectivo de “cante” a gravar um compacto. É que se privilegiam as tais “especificidades” e uma “abrangência em termos geográficos”, explica Maria das Dores Correia. De resto, foram os próprios Ganhões que, voluntariamente, decidiram dar lugar a outros grupos, menos conhecidos, embora tenham participado na recolha.
O mais curioso é que a tal “chamada de atenção” atingiu em cheio Pedro Abrunhosa, sim, esse mesmo, o das “Viagens” e dos óculos escuros. O “guru” da “dance music”, na altura de passagem por Beja, foi convidado a assistir às gravações, tendo ficado literalmente siderado com o que ouviu. Tanto que, numa entrevista dada a uma rádio local, declarou publicamente que o “cante” estará com certeza presente, como fonte de inspiração, no seu próximo disco. O corolário desta confluência astral é que os fãs de Abrunhosa, como bons seguidores do seu líder, desataram numa correria à procura destes “Cantes de Natal e de Ano Novo”, o que faz adivinhar o aparecimento de um disco de culto bastante “sui generis”.
Nos horizontes da revista “Imenso Sul” está a continuação deste projecto, para a próxima, subindo um pouco mais, até ao Alto Alentejo, estando já em mira o Grupo de Torre de Coelheiros.

Júlio Pereira e Kepa Junkera – “A QUATRO MÃOS E UMA VOZ”

pop rock >> quarta-feira >> 10.01.1996


A QUATRO MÃOS E UMA VOZ



“Lau Eskutara” (”A quatro mãos”, em basco) é o título da colaboração discográfica entre Júlio Pereira e o acordeonista basco Kepa Junkera. Editado em Espanha no selo Elkar, o álbum tem já assegurada distribuição nacional pela Sony Music.
Na base deste encontro entre os dois “virtuoses” está um convite do mestre da “trikitixa” (como chamam no País Basco ao acordeão diatónico) ao mago português do bandolim, cavaquinho e outras cordas. “O Kepa viu alguns concertos meus em Espanha e telefonou a convidar-me. Da primeira vez, eu não estava muito para aí virado. Hoje em dia estou virado para um outro tipo de música que não propriamente uma música que tenha referências muito concretas a uma música popular de um sítio específico”, explica Júlio Pereira. “Mas o Kepa, de facto, insistiu muito. Houve uma vez que foi ainda mais insistente. Foi ter comigo a Madrid, quando eu estava a dirigir o disco da Uxia [“Estou Vivindo no Ceu”]. Foi tão teimoso que cedi. A partir daí encontrámo-nos uma única vez, uma tarde, aqui em Lisboa, e depois reunimo-nos, estivemos 12 dias fechados num estúdio em San Sebastian.”
Na ficha técnica pode ler-se Júlio Pereira mais Kepa Junkera. O músico português responsabilizou-se pela concepção geral do som e pelos arranjos, além de contribuir com dois temas seus e de tocar bandolim – como principal interlocutor do acordeão -, braguesa, guitarras, “bouzouki”, cavaquinho e outros instrumentos de corda. “Saudade”, um tema de Cabo Verde, conta com a participação vocal de Minela.
Encerrado, em termos de trabalho, o episódio basco, Júlio Pereira encontra-se presentemente a produzir e a fazer a direcção musical do álbum de estreia de João Afonso, ainda sem título nem editora. O primeiro a sair do novo estúdio do autor de “Acústico”. “Um disco que me está a dar um prazer infinito”, afirma Júlio Pereira, para quem este projecto, já em fase final de produção, significará, sem querer adiantar mais pormenores, “uma pedrada no charco”.

Maria João Pires, Cesária Évora – “Maria João Pires E Cesária Évora Nos Grammies – Chopin E Cabo Verde Vão A Concurso”

cultura >> sábado >> 06.01.1996


Maria João Pires E Cesária Évora Nos Grammies
Chopin E Cabo Verde Vão A Concurso

Dois músicos de expressão lusófona são candidatos ao prémio Grammy para os melhores de 1995: Maria João Pires e Cesária Évora. A pianista portuguesa concorre na categoria de “solista instrumental com orquestra” e a cantora cabo-verdiana na de “world music”. O nome dos vencedores só será conhecido a 28 de Fevereiro.

Chopin, um piano, uma orquestra e o talento sem fronteiras de Maria João Pires chegaram ao galarim da indústria discográfica. O “Concerto para Piano e Orquestra, Nº 2 em Fá Menor, Opus 21#, de Chopin, levou a pianista portuguesa à lista de nomeações do prémio Grammy, atribuído todos os anos pela indústria discográfica norte-americana.
Cesária Évora, a cantora de mornas que Paris deslocou de Cabo-Verde para as bocas do mundo, concorre por seu lado na categoria de “world music”, com o seu álbum homónimo, ao lado dos Deep Forest, Baaba Maal, Ravi Shankar e os Splendid Master Gnawa Musicians of Morocco.
O resto é um pouco paisagem e bagatelas de milhões de discos vendidos. Estrangeirada. Uns e umas de visual mais ou menos apurado mas sempre com os olhos apontados aos Tops e À MTV, a qual, como toda a gente viciada nesta estação televisiva de 24 horas de música “non-stop” sabe, é o barómetro que decide quem é quem no sobe e desce do sucesso.
Mariah Carey, a menina de olhos doces e silhueta suculenta, a mais querida do pequeno ecrã, vai à luta com a maior fatia de argumentos, sem contar com os atrás mencionados. “Melhor disco do ano” e “melhor dueto pop”, ao lado dos Boyz II Men, ambos com “One sweet day”, “melhor álbum do ano” e “melhor álbum pop”, com “Daydream”, “melhor interpretação feminina pop”, com “Fantasy”, e “melhor interpretação feminina de rhythm & blues”, com “Always bem y baby”. Mariah, como se percebe – as nomeações não enganam – é mesmo a melhor. Mas há outra garota, Alanis Morrissette, a morder-lhe as canelas, com o mesmo número de nomeações, seis. Concorre a “melhor álbum do ano” e “melhor álbum rock”, com “Jagged Little Pill” e “melhor canção rock”, todas com “You oughta know”. Tanto o álbum de Mariah como o de Alanis estão disponíveis no mercado português.
Com cinco nomeações seguem-se Joan Osborne e Babyface. Michael Jackson (como Cavaco ou Sampaio, alguém com um passado negro – é uma piada! É uma piada!), Shania Twain e TLC têm quatro.
A responsabilidade das nomeações pertence aos sete mil membros da Academia de Artes e Ciências Discográficas, embora, em caso de protesto, não se especifique a qual deles deverá ser endereçado o requerimento.
Entre as 88 categorias do prémio “Grammy” figuram “álbum de gospel bluegrass, gospel country ou gospel do Sul”, “álbum de polka”, “álbum cómico” e “notas nos álbuns”. Na categoria Nº 82 “solista instrumental com orquestra”, Maria João Pires vai tecer armas com Itzahk Perlman, Catherine Cantin, Evgeny Kissin e Maxim Vengerov.
Os prémios serão atribuídos a 28 de Fevereiro, em Los Angeles, na Califórnia. Até lá ficamos todos a roer as unhas.