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Maria João Pires, Cesária Évora – “Maria João Pires E Cesária Évora Nos Grammies – Chopin E Cabo Verde Vão A Concurso”

cultura >> sábado >> 06.01.1996


Maria João Pires E Cesária Évora Nos Grammies
Chopin E Cabo Verde Vão A Concurso

Dois músicos de expressão lusófona são candidatos ao prémio Grammy para os melhores de 1995: Maria João Pires e Cesária Évora. A pianista portuguesa concorre na categoria de “solista instrumental com orquestra” e a cantora cabo-verdiana na de “world music”. O nome dos vencedores só será conhecido a 28 de Fevereiro.

Chopin, um piano, uma orquestra e o talento sem fronteiras de Maria João Pires chegaram ao galarim da indústria discográfica. O “Concerto para Piano e Orquestra, Nº 2 em Fá Menor, Opus 21#, de Chopin, levou a pianista portuguesa à lista de nomeações do prémio Grammy, atribuído todos os anos pela indústria discográfica norte-americana.
Cesária Évora, a cantora de mornas que Paris deslocou de Cabo-Verde para as bocas do mundo, concorre por seu lado na categoria de “world music”, com o seu álbum homónimo, ao lado dos Deep Forest, Baaba Maal, Ravi Shankar e os Splendid Master Gnawa Musicians of Morocco.
O resto é um pouco paisagem e bagatelas de milhões de discos vendidos. Estrangeirada. Uns e umas de visual mais ou menos apurado mas sempre com os olhos apontados aos Tops e À MTV, a qual, como toda a gente viciada nesta estação televisiva de 24 horas de música “non-stop” sabe, é o barómetro que decide quem é quem no sobe e desce do sucesso.
Mariah Carey, a menina de olhos doces e silhueta suculenta, a mais querida do pequeno ecrã, vai à luta com a maior fatia de argumentos, sem contar com os atrás mencionados. “Melhor disco do ano” e “melhor dueto pop”, ao lado dos Boyz II Men, ambos com “One sweet day”, “melhor álbum do ano” e “melhor álbum pop”, com “Daydream”, “melhor interpretação feminina pop”, com “Fantasy”, e “melhor interpretação feminina de rhythm & blues”, com “Always bem y baby”. Mariah, como se percebe – as nomeações não enganam – é mesmo a melhor. Mas há outra garota, Alanis Morrissette, a morder-lhe as canelas, com o mesmo número de nomeações, seis. Concorre a “melhor álbum do ano” e “melhor álbum rock”, com “Jagged Little Pill” e “melhor canção rock”, todas com “You oughta know”. Tanto o álbum de Mariah como o de Alanis estão disponíveis no mercado português.
Com cinco nomeações seguem-se Joan Osborne e Babyface. Michael Jackson (como Cavaco ou Sampaio, alguém com um passado negro – é uma piada! É uma piada!), Shania Twain e TLC têm quatro.
A responsabilidade das nomeações pertence aos sete mil membros da Academia de Artes e Ciências Discográficas, embora, em caso de protesto, não se especifique a qual deles deverá ser endereçado o requerimento.
Entre as 88 categorias do prémio “Grammy” figuram “álbum de gospel bluegrass, gospel country ou gospel do Sul”, “álbum de polka”, “álbum cómico” e “notas nos álbuns”. Na categoria Nº 82 “solista instrumental com orquestra”, Maria João Pires vai tecer armas com Itzahk Perlman, Catherine Cantin, Evgeny Kissin e Maxim Vengerov.
Os prémios serão atribuídos a 28 de Fevereiro, em Los Angeles, na Califórnia. Até lá ficamos todos a roer as unhas.

Cesária Évora – “A História De Uma Descoberta”

televisão e rádio >> terça-feira, 05.10.2019
DESTAQUE


A História De Uma Descoberta

CHAMAM a Cesária Évora “rainha da morna”, essa cadência dolente que jorra das ilhas de Cabo Verde como um choro que vem da terra – da alma da terra. Morna é fado atlântico, misto de tragédia e resignação, temperado com o sal do mar. Saudade tropical. Cesária Évora é “Miss Perfumado” e “Crioula sofredora”, senhora do Mindelo que durante meio século deixou perdr o olhar no “Mar Azul”. Como quem esperava que alguém a fosse buscar.
Foram os franceses, há coisa de dois anos. Descobriram-lhe a voz e a fundura do canto. Mas também o corpo pesado e o “alcoolismo imponente” que, juntamente com a voz grave forjada no fogo do grogue velho, fascinaram “nos amis” ao ponto de incluírem Cesária Évora na “aristocracia mundial de cantoras de bar”. O “cliché” mostra a imagem sedutora de uma Bessie Smith africana, copo de “whisky” na mão, cigarro ao canto da boca a queimar-lhe cada canção. Fizeram dela uma estrela – a Cesária que não gosta de dar entrevistas e canta “onde calha”, como ela própria diz. Calhou no Theatre de la Ville e no Olympia de Paris.
O filão da “world music” ajudou a transformá-la num fenómeno. De vendas, bem entendido: 17 mil cópias vendidas de “Mar Azul”, mais 50 mil, até agora, de “Miss Perfumado”, eleito “álbum do ano no domínio da ‘world music’” pelo jornal “Libération”.
Por cá nunca ligámos muito. Cabo Verde, como a Guiné, como Angola, ou como Moçamb, nunca nos disse nada que quiséssemos ouvir. Encerrada a mina, voltámos as costas. Fomos portugueses como nos habituámos a ser. Deixem-nos mas é cá no nosso cantinho. Mas alto aí. Se os franceses gostaram e os jornais escreveram, é porque ela (ela quem?) deve ser boa. E, no fim de contas, até um pouco portuguesa. Um pouco nossa.
E assim, como num conto de fadas, chegada aos 51 anos de idade, abrimos-lhe as portas como quem recebe uma irmã. E deixámos entrar a galope, nas vagas, as mornas de B. Leza, o pai de todas as mornas, que Cesária traz na voz e no coração. Passámos a ter o nome “Cise”, como a cantora é conhecida entre os amigos, na ponta da língua. Obviamente aplaudimos. Por acaso foi no Teatro de São Luiz, em Lisboa, no mês de Maio, mês dos mil odores da Primavera, que os portugueses descobriram “Miss Perfumado”. É mentira, Chico, que haja “tanto mar a nos separar”.
Cesária Évora
SIC, às 22h30

Cesária Évora – “A História De Uma Descoberta” (televisão | concerto | documentário)

televisão e rádio >> terça-feira, 05.10.2019


DESTAQUE
A História De Uma Descoberta


CHAMAM a Cesária Évora “rainha da morna”, essa cadência dolente que jorra das ilhas de Cabo Verde como um choro que vem da terra – da alma da terra. Morna é fado atlântico, misto de tragédia e resignação, temperado com o sal do mar. Saudade tropical. Cesária Évora é “Miss Perfumado” e “Crioula sofredora”, senhora do Mindelo que durante meio século deixou perder o olhar no “Mar Azul”. Como quem esperava que alguém a fosse buscar.
Foram os franceses, há coisa de dois anos. Descobriram-lhe a voz e a fundura do canto. Mas também o corpo pesado e o “alcoolismo imponente” que, juntamente com a voz grave forjada no fogo do grogue velho, fascinaram “nos mais” ao ponto de incluírem Cesária Évora na “aristocracia mundial de cantoras de bar”. O “cliché” mostra a imagem sedutora de uma Bessie Smith africana, copo de “whisky” na mão, cigarro ao canto da boca a queimar-lhe cada canção. Fizeram dela uma estrela – a Cesária que não gosta de dar entrevistas e canta “onde calha”, como ela própria diz. Calhou no Theatre de la Ville e no Olympia de Paris.
O filão da “world music” ajudou a transformá-la num fenómeno. De vendas, bem entendido: 17 mil cópias vendidas de “Mar Azul”, mais 50 mil, até agora, de “Miss Perfumado”, eleito “álbum do ano no domínio da ‘world music’” pelo jornal “Libération”.
Por cá nunca ligámos muito. Cabo Verde, como a Guiné, como Angola, ou como Moçambique, nunca nos disse nada que quiséssemos ouvir. Encerrada a mina, voltámos as costas. Fomos portugueses como nos habituámos a ser. Deixem-nos mas é cá no nosso cantinho. Mas alto aí. Se os franceses gostaram e os jornais escreveram, é porque ela (ela quem?) deve ser boa. E, no fim de contas, até um pouco portuguesa. Um pouco nossa.
E assim, como num conto de fadas, chegada aos 51 anos de idade, abrimos-lhe as portas como quem recebe uma irmã. E deixámos entrar a galope, nas vagas, as mornas de B. Leza, o pai de todas as mornas, que Cesária traz na voz e no coração. Passámos a ter o nome “Cise”, como a cantora é conhecida entre os amigos, na ponta da língua. Obviamente aplaudimos. Por acaso foi no Teatro de São Luiz, em Lisboa, no mês de Maio, mês dos mil odores da Primavera, que os portugueses descobriram “Miss Perfumado”. É mentira, Chico, que haja “tanto mar a nos separar”.
Cesária Évora
SIC, às 22h30