Arquivo da Categoria: Progressivo

Can – “Can ibalismo 1ª Parte” (valores selados | dossier | artigo de opinião)

BLITZ 26 SETEMBRO 1989 >> Valores Selados

Os Can foram, sem dúvida, um dos grupos mais marcantes de toda a década de setenta. Surgidos do caldeirão da cena underground berlinense do final dos «sixties», cedo se demarcaram da orientação estética predominante neste movimento.


CAN
IBALISMO
1ª PARTE


A Kosmische Musik, por muitos erradamente apelidada de rock alemão, entrava então em cena, logrando implantar-se, anos mais tarde pelo resto da Europa. Um nunca mais acabar de grupos ensopados no psicadelismo da época, projetava todo um misticismo para o cosmos infinito. Era a resposta germânica ao Flower-Power dos jovens hippies americanos. A filtragem eletrónica das experiências alucinatórias ou de auto-iluminação, num contexto inovador. Quilómetros e quilómetros de cabos de ligação entre os sintetizadores e os neurónios. A maioria não resistiu à passagem do tempo e das modas e ficou pelo caminho. Para a História ficaram, no entanto, alguns nomes importantes como Popol Vuh, Ash Ra Tempel, Cluster, Guru Guru, Wallenstein ou Neu, para não falar dos hoje superfamosos Tangerine Dream ou do papa da música planante, Klaus Schulze.


FILMES DE MONSTROS

Os Can não foram em cantigas. Sintetizadores, nem vê-los. A única concessão à eletrónica era um estranho aparelho utilizado pelo teclista Irmin Schmidt, com o nome ainda mais estranho de Alpha 77. Procuravam o transe mas por outras vias.
Ao contrário dos seus companheiros de armas, alucinados pelos canos e botões dos seus Moogs, A.R.P. e VCS3, era nas percussões hipnóticas e no desregramento da voz que procuravam a libertação. Onde todos os outros se voltavam para o Oriente em busca do novo Katmandou cósmico, os Can mergulhavam nas raízes negras africanas. Onde todos os outros pronunciavam devotamente o OM universal, o vocalista japonês Kenjo «Damo» Suzuki berrava histericamente onomatopeias sem sentido aparente, quando não apenas sons guturais ou gritos lancinantes, nem espécie de regressão às origens da voz humana.
A formação que deu melhor conta de si foi o clássico quinteto constituído pelo já citado «Damo» Suzuki, até então cantor de rua, o teclista Irmin Schmidt e o genial baixista Holger Czukay, ambos ex-discípulos de Stockhausen, o baterista e percussionista Jaki Liebezeit e o guitarrista Michael Karoli.
«Monster Movie» de 1969 foi a primeira grande obra, evidenciando uma sonoridade ainda não totalmente liberta das influências da West-Coast americana, com longas improvisações à boa maneira das jam-sessions de grupos como os Grateful Dead ou Jefferson Airplane. Mas já lá estava a batida hipnótica e metronómica característica de toda a sua obra.


GRITOS E SUSPIROS

«Tago Mago» é a primeira obra-prima, um duplo álbum literalmente avassalador. Os ritmos tornam-se mais complexos. A guitarra de Karoli cortando a direito como uma lâmina de aço.
Schmidt produzindo com o seu Alpha 77 sons de insetos mutantes e, claro, a voz e o canto crescentemente alucinados de Suzuki. A par de longas sequências de instrumentais de quase 20 minutos, canções como o clássico «Mushroom» ou a resposta ao misticismo então vigente: «Aumgn», paródia ameaçadora e distorcida à sílaba sagrada OM ou AUM, invertendo a polaridade às sonoridades eletrónico-planantes. Imensa e terrífica catedral demoníaca, povoada de ecos cavernosos e repetições angustiantes, num jogo infinito de espelhos. Mas também o humor e o encantamento de Alice no País das Maravilhas de «Bring me Coffee or Tea». «Tago Mago» marca decisivamente o início da década, confirmando os Can como um dos seus grupos mais vanguardistas.
Segue-se «Ege Bamyasi», de 72, levando todas as premissas musicais do grupo aos limites do absurdo e do delírio. «Damo» Suzuki ora gritando até ao paroxismo, revirando-nos as tripas, ora sussurrando ladainhas incongruentes ou de oculto sentido. É o disco da paranoia mais ou menos controlada. Depois dele tiveram mesmo de descansar, gravando «Soundtracks», como o nome indica, uma recolha de temas utilizados em diversas bandas sonoras.

DIAS FUTUROS

1973 vê aparecer «Future Days», para muitos o melhor álbum do grupo, opinião que partilho. É a obra da maturidade. A força e o telurismo até então dificilmente contidos são aqui magistralmente manipulados. A sucessão de clímaxes é substituída por um processo de sublimação, tornando a música infinitamente mais serena. «Bel Air», que ocupa a totalidade do segundo lado, é o apogeu, o ponto culminante de uma música que aqui atinge a perfeição. Afinal os Can também alcançaram o seu Nirvana.
«Limited Edition» é um apanhado de temas originais gravados entre 68 e 74. Esboços de um humor surrealizante («Blue Bag», «Mother Upduff») e a introdução das séries E.F.S. (Ethnological Forgery Series), pequenas peças de aproximação à música étnica (a mais antiga datada de 68!). Entretanto o vocalista japonês abandonava o grupo para se juntar às Testemunhas de Jeová (!). Era de prever a sua loucura definitiva… As vocalizações passaram a estar a cargo de Michael Karoli que tem a parte de leão no álbum seguinte, «Soon Over Babaluma». Álbum essencialmente instrumental em que Karoli dá lições na arte de bem tocar guitarra e se desembaraça razoavelmente no violino. O álbum inclui «Como Sta La Luna», uma inspirada maluquice cantada em espanhol, lembrando um dos descarrilamentos típicos de Kevin Ayers.
«Landed» de 75 e «Flow Motion» do ano seguinte, são os derradeiros trabalhos à altura dos anteriores pergaminhos e os últimos gravados com o então quarteto constituído por Karoli, Schmidt, Czukay e Liebezeit. Ostentam o som habitual do grupo, por esta altura já consagrado em toda a Europa.
«Saw Delight» assinala o início da decadência. Mas esta e outras histórias ficarão por contar até à próxima semana. Assim, no próximo número, não perca: «O célebre concerto no Pavilhão dos Desportos», «Aventuras e desventuras a solo de cada um dos Canibais». Tudo isto e muito mais.

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #89 – “SUPERSISTER (FM)”

#89 – “SUPERSISTER (FM)”

Fernando Magalhães
15.03.2002 190742
Não quero entrar no fim-de-semana sem deixar de falar de uma audição (ontem) que me deixou absolutamente extasiado.

Encontrei o CD em questão, em saldo (8,95 euros na Roma Megastore). pertence a uma banda de que apenas tinha ouvido falar (de facto, há muitos anos), sem que verdadeiramente me tivesse interessado em saber a que é que soaria. Entretanto alguém já me alertara para a excelência da sua música.

A banda é holandesa e chama-se SUPERSISTER. Os dois álbuns que ouvi, estão compactados (e remasterizados) numa versão “dois em um” da Polydor, com uma capa desgraçada, mas a música…meu Deus!….

São eles: “Letter from Nancy”, de 1970, e “To the Highest Bidder”, de 1971.

Pelas datas já adivinharam: trata-se de uma banda do período áureo do… Progressivo. Mas atenção: é um daqueles discos (na verdade, dois discos) de exceção. Magnificamente tocado, junta experimentação, eletrónica, jazz, humor e acima de tudo uma imaginação e um equilíbrio notáveis.
Coloco os dois discos entre os clássicos dos anos 70.

Imaginem um cruzamento de “Third”, dos SOFT MACHINE, com (outra obra-prima) “The Polite Force”, dos EGG e uma atitude e imaginação aparentadas às dos GENTLE GIANT, com vocalizações tão suaves e viciantes como as de uns CARAVAN…

Ao pé dos SUPERSISTER, outras bandas holandesas da época, como os FOCUS, SOLUTION ou FINCH, parecem-me quase vulgares.

Esta mensagem, estou ciente disso, não chegará provavelmente para convencer alguém a desatar à procura deste CD mas, garanto-vos, quem se dispuser a tal e ouvir esta música, sentir-se-á recompensado!

FM
Prog

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #82 – “mahavishnu orchestra p_FM (rat-tat-tat)”

#82 – “mahavishnu orchestra p_FM (rat-tat-tat)”

Fernando Magalhães
28.02.2002 150305
Da MAHAVISHNU ORCHESTRA, os dois melhores álbuns são sem dúvida o “The Inner Mounting Flame” e “Birds of Fire”.
Sobre a banda, já houve quem desse as dicas necessárias.

Acrescento que, muito antes do “Miami Vice” (blargh), o JAN HAMMER se estreou a solo, ainda nos anos 70, com um álbum muito bom, “The First Seven Days”, sobre os sete dias da criação.

Ainda da Mahavishnu: Foi editado recentemente aquele que seria o disco seguinte a “Birds of Fire” e que na altura acabou por não sair, devido a desinteligências entre o grupo. Refiro-me a “The Lost Trident Sessions” (título, obviamente, diferente do original…). Muito boa música, num álbum, para todos os efeitos, acabado e pronto a ser lançado no mercado.

Todos estes CDs, mais “Apocalypse” (c/ orquestra) e “Visions of the Emerald Beyond” estão disponíveis em edições remasterizadas a “nice price”, na FNAC, VC, etc…

“O vendedor” tem lá o “The Inner Mounting Flame”, mas na versão mais antiga, não remasterizada.

Finalmente, aconselho um extraordinário álbum de fusão, assinado pelo então baterista da Mahavishnu Orchestra: “Crosswinds”, de BILLY COBHAM. Existe em versão digipak na série Atlantic Masters.
O anterior, “Spectrum”, também vale a pena.

Qualquer dia envio para aqui uma lista : ) de álbuns de fusão recomendáveis…

FM