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David Byrne – “A Câmara Sacralizadora” (integral no Cinema Monumental)

pop rock >> quarta-feira >> 14.06.1995


A Câmara Sacralizadora



David Byrne
Noite David Byrne – Exibição de “True Stories”, “Stop Making Sense”, “Between The Teeth”, “Ile Aye” e uma selecção de dez telediscos dos Talking Heads. Com a presença do autor.
Sexta, 16, 22h
Between The Teeth, vídeo de um concerto com uma orquestra de mambo de nove elementos – sábado, 17, 15h
Stop Making Sense – domingo, 18, 15h
True Stories – segunda, 19, 15h
Ile Aye e telediscos – terça, 20, 15h
Todos os espectáculos no cinema Monumental
Exposição de fotografias, “Sacred Objects”. Inauguração no sábado, 17, 22h, em local a anunciar.
Com a presença do autor.

A presença de David Byrne em Portugal, integrada na programação dos Mistérios de Lisboa, depois de duas anteriores visitas em que actuou ao vivo, reveste-se de um interesse especial, uma vez que desta feita será posta em destaque a sua faceta de realizador e fotógrafo, enquanto por outro lado, voltará a ser equacionada a sua relação com as músicas latinas.
Se “Stop Making Sense”, uma das longas-metragens a apresentar no Monumental, com imagens de um concerto dos Talking Heads, tem a assinatura de Jonathan Demme, já “True Stories”, que representa a estreia de Byrne como cineasta, revela uma visão singular da sociedade norte-americana actual, através de uma série de retratos em que as várias figuras se movem sob a luz de um surrealismo bem-humorado, ao longo de uma “Road to Nowhere”, imagem-ícone nos limites do filme e da humanidade.
“Ile Aye” é uma média-metragem realizada por Byrne sobre a música brasileira, que o autor tem vindo a registar na sua editora Lwaka Bop. Para os menos disponíveis para ensaios de maior profundidade, serão exibidos telediscos dos Talking Heads”, com os temas “Once in a lifetime”, “Wild wild life”, “Stay at late”, “Crossed-eyed and painless”, “Burnin’ down the house”, “The she was”, “This must be the place”, “The lady don’t mind”, “Road to nowhere” e “Love for sale”.
Numa espécie de complement à primeira actuação de David Byrne no nosso país, no Coliseu, em plena fase latina de “Rei Momo”, o vídeo programado para o dia 20 terá a participação de uma orquestra de mambo – presente, aliás, no teledisco “Make believe mambo” -, constituída por Boby Allende, Jonathan Best, Angel Fernandez, Ite Jerez, Lewis Khan, George Porter Jr., Hector Rosado, Steve Facks e Oscar Sallas.
Finalmente, poderá ser vista a colecção de fotografias de genérico “Sacred Objects, Sleepless Nights”, na qual David Byrne recolheu imagens de objectos variados, sacralizados, segundo as suas palavras pela objectiva da cãmara fotográfica: “Como actividade”, diz Byrne, “esta sacralização é algo que aprecio. É uma relação de amor. Uma relação com objectos inanimados. O amor mais elevado é o amor mais estúpido. O sublime está no ridículo. Quando alguma coisa nos faz sentir estranhos, faz-nos igualmente muitas vezes sentir bem. Estas duas sensações estão de algum modo ligadas. Estranho igual a bom. É uma sensação física que se sente no estômago e estabelece contacto com os centros de prazer no cérebro.”
Em termos mais concretos: A câmara ajuda isto a acontecer e torna-se também um prazer. Um instrumento para erguer as coisas até níveis mais elevados. O acto de enquadramento é essencial para isolar os objectos ou os lugares. A câmara torna-se uma máquina que investe de poder as coisas e os lugares. Uma ferramenta de elevação. Um artefacto para remover as coisas do seu contexto mundano, de maneira a transformá-las em algo de diferente do que eram anteriormente, mais especial, mais valioso, mais poderoso. As coisas passam a valer por algo que as transcende.”
Uma boa definição do sagrado, aplicável à totalidade da obra de David Byrne.

John Cale e Tod Browning – “John Cale E Tod Browning – Braço-De-Ferro No Tivoli”

cultura >> domingo, 04.06.1995


John Cale E Tod Browning
Braço-De-Ferro No Tivoli


“THE UNKNOWN”, “o Homem Sem Braços”, é uma obra-prima. A história de um homem que se faz amputar os braços por amor a uma mulher que não suporta nem vê-los, quanto mais ser tocada por eles, mas que afinal acaba por ir parar aos braços de outro, não perdeu um milionésimo do seu fascínio, 68 anos depois de Tod Browning a ter realizado. A diferença, decorridos estes anos todos, no cinema Tivoli, em Lisboa, e nos seus “Mistérios”, está em que desta vez teve John Cale a dar-lhe música ao vivo. De início foi irritante, com grandes vagas electrónicas a desviarem a atenção e a sobreporem-se às imagens. Depois, à medida que o filme ia destilando o seu veneno e o enredo se aproximava da tragédia, a música pôs-se no seu lugar, perdendo em ostentação o que ganhou em poder de sugestão. E é assim que deve ser. A função de uma banda sonora, seja ela qual for, não é sobrepor-se mas sim marcar presença a um nível subliminal.
Para acompanhar musicalmente “The Unknown”, num Tivoli muito perto da lotação esgotada, Cale tinha à sua disposição uma panóplia de teclados electrónicos. Abusou deles que se fartou. Logo de entrada carregou forte no lado neoclássico – que, na sua pessoa, atira regra geral para o pesado (uma vez alguém afirmou que Cale toca piano “como se usasse luvas de boxe”) – enquanto se ficava a saber que Nanon não suportava que braços masculinos a tocassem, que Malabar, o homem dos bíceps avantajados, estava preso pelo beicinho, e que Alonzo, – interpretado por um Lon Chaney fabuloso – fingia não ter braços só para impressionar a pequena. Estava mesmo a verse que a coisa ia dar para o torto.
Entretanto, a acção avança e a música vai perdendo embalagem. Ou éramos nós que nos íamos esquecendo dela. Quando Cale utiliza o computador para simular um piano, sente-se uma sintonia, um mistério partilhado. Aliás, o ex-Velvet Underground, também ele se terá deixado prender pela força do filme, o que teve a virtude de, até ao final, sons e imagens não entrarem num braço-de-ferro declarado.
Quando Alonzo (e não Malabar, como por lapso, escrevemos no texto de apresentação do espectáculo) decide cortar os braços e, noutra cena, vemos Nanon já liberta do seu complexo, feliz e apertada num amplexo pelo seu amado Malabar, adivinha-se o desenlace trágico. É nesta altura que a música adquire tonalidades surreais, disparando ruídos e vozes parasitárias, o que acentua o ambiente de loucura crescente. Lon Chaney desmultiplica-se em esgares, tornando o seu rosto num palco de mil emoções desencontradas, num desempenho de antologia, enquanto Cale, durante toda a projecção, não consegue uma única vez recuar até ao silêncio.
O final é de apoteose, embora se possa dizer também que seja de corte. Alonzo, amputado, decide vingar-se. Nanon saltita dos braços do amado para os cotos do outro que nessa altura se assume como vilão declarado (antes já estrangulara o pai da rapariga, mas fora por amor). Malabar não sabe o que o espera.
Mesmo, mesmo, no fim, quando o número de Malabar com os cavalos é sabotado, há uma cena que não se percebe. Vê-se um dos seus braços já praticamente arrancado por um dos equídeos, estilo asa de frango para chupar, com a carninha à mostra. Mas não, tudo acaba num “happy-end”, com o par enlaçado, que é como quem diz, com tudo no sítio, incluindo o tal braço (um homem não é de ferro mas só um braço pode ser?). Seja como for, “The Unknown” é, para todos os efeitos, um filme espantoso. Tomara a música de John Cale chegar-lhe, já não dizemos aos braços, mas aos calcanhares.

John Cale – “John Cale Em Lisboa Para Acompanhar Ao Vivo ‘The Unknown’ – A Europa Sem Braços”

cultura >> sexta-feira, 02.06.1995


John Cale Em Lisboa Para Acompanhar Ao Vivo “The Unknown”
A Europa Sem Braços


O cinismo é, para John Cale, a característica que mais o impressiona em “The Unknown” (“O Homem Sem Braços”), obra-prima do cinema mudo realizada por Tod Browning, para a qual compôs uma partitura. “Tirei partido desse cinismo”, disse o antigo elemento dos Velvet Underground em conferência de imprensa dada ontem logo após a sua chegada ao aeroporto de Lisboa.



A ideia para John Cale compor e tocar ao vivo durante a projecção de “The Unknown” surgiu a partir de uma encomenda que lhe foi feita pela organização das “Jornadas do Cinema Mudo” realizadas em Pordenone. Uma ilustração sonora, em simultâneo com as imagens, para os amores cruéis entre Nanon e Malabar, com um circo por cenário, um espectáculo para ser visto e ouvido hoje às 22h no Cinema Tivoli, nos “Mistérios de Lisboa”, iniciativa da Associação Cultural Saldanha com o patrocínio da Expo-98.
“The Unknown”, a “banda-sonora”, alterna a linguagem electrónica dos sintetizadores, “indicada para pôr em relevo o lado sobrenatural da música”, com o piano e gravações de arquivo de vozes como as de Ezra Pound, T. S. Elliott e Winston Churchill, ou um excerto, a que chama “The hypnotist”, um discurso, “numa voz muito calmante”, com “conselhos às pessoas que sofrem de asma”.
Cale enfrentou o desafio que é dar uma nova coloração sonora a um clássico do cinema, reconhecendo que, neste caso, pela sua antiguidade, “foi preciso ter muito cuidado”. “Não é a mesma coisa”, disse, que “fazer uma digressão rock ‘n’ rol”. “Uma vez começada, não se pode parar a música”, disse ainda John Cale, referindo-se ao modo como trabalhou na partitura para a obra de Tod Browning que, de resto, constituirá a próxima edição discográfica do autor que no ano passado assinou “Last Day on Earth”, de parceria com Bob Neuwirth.
“É a história de um circo, uma alegoria sobre a Europa entre as duas guerras, e das deslocações das suas populações. Na minha juventude, no País de Gales, sempre achei os filmes passados em circos muito deprimentes. Tive sempre a ideia que as pessoas do circo não tinham uma verdadeira casa, que andavam sempre à deriva. Num circo cada um desempenha um papel determinado, de padre ou de polícia. No filme é como se não houvesse nenhuma lei. O cinismo da história está na maneira como a credulidade é levada ao extremo. É difícil acreditar que alguém possa pensar como a personagem desempenhada por Lon Chaney [Malabar, o homem dos músculos que se faz voluntariamente amputar os dois braços por amor de Nanon – Gloria Swanson, por esta não suportar que algum homem a tocasse]. Há uma sensação de claustrofobia no desenrolar da acção à qual a música não consegue fugir”.
Sobre a sua antiga companheira nos Velvet Underground, Nico, a cantora alemã presente no seminal “The Velvet Underground & Nico” e com a qual colaborou em vários dos seus discos a solo (“The Marble Index”, “Desertshore”, “The End…”) Cale referiu a sua personalidade metódica, enquanto actriz”, a aprendizagem no Actor’s Studio e os ensinamentos que lhe foram ministrados por Elia Kazan. “Vivia de acordo com o seu próprio relógio, o que fez sempre até ao fim da sua vida. O seu sentido de ‘timing’ era imaculado. E perturbante!”.
Nico era a actriz emblemática dos filmes de Philippe Garrel, o qual costumava dizer que fazia filmes “para não se suicidar”: “A Cicatriz Interior”, “Athanor” e “O Berço de Cristal”. Os três serão exibidos no cinema Monumental, integrados na programação dos “Mistérios de Lisboa”. John Cale, por seu lado, fez a música de “La Naissance de l’Amour”, deste mesmo cineasta, e mais recentemente “Paris s’Éveille”, do Oliver Assayas, e “N’ Oublie pas que tu vas Mourir”, de Xavier Beuavois, vencedor do prémio do Júri no Festival de Cannes deste ano.
No Tivoli teremos um John Cale “desconhecido”. A sua música do cinismo e da crueldade.