Arquivo da Categoria: Industrial

Alog – Red Shift Swing

15.12.2000
Alog
Red Shift Swing
Rune Grammofon, distri. Dargil
8/10

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LINK

Com data de edição já do ano passado, este segundo álbum dos noruegueses Alog, Espen Sommer Eide e Dag-Are Haugan, surge como um corte de corrente na electrónica de dança ao mesmo tempo que constitui um balão de oxigénio para o depauperado pós-rock. Armado de sopros, percussões, cordas, sintetizadores e gravações de campo, “Red Shift Swing” é um pouco a versão rock da estética jazzy dos Supersilent e, como esta, assente na improvisação. Loops de nevoeiro, sequências de terror à maneira dos Severed Heads que desembocam em simulacros de “chill out”. Câmaras de tortura, relojoaria avariada, descargas de falso easy-listening (dos Köhn), lampejos dos Cluster industriais através de um néon fantasmagórico (o fantástico título-tema) e títulos como “Popol Vuh” (homenagem aos berlinenses dos anos 70?) e “A Regular Hexagon is found traced in the sand of some beach” tornam “Red Shift Swing” um sério concorrente ao último dos Gybe.

Jeff Greinke – Over Ruins + Moving Climates (conj.)

12.05.2000
Reedições
Fábulas Góticas
Praticamente desconhecido, mesmo dos mais conhecedores da música progressiva dos anos 70, o nome dos Fuchsia conquistou, volvidas três décadas, o estatuto de culto, sendo a edição original em vinil do seu único álbum uma raridade. “Fuchsia”, editado em 1971, surge agora com uma capa cartonada e sem menção da editora. A gravação leva a fidelidade ao som original ao ponto de reproduzir os ruídos de um vinil já com algum uso… não, não se trata de qualquer figura de estilo de mais um disco chique de hip hop mas tão só de uma transcrição de má qualidade. Passemos então adiante, ficando apenas o registo da existência deste estranho objecto desenterrado de um passado esquecido?
Seria assim se “Fuchsia” não fosse, como é, um daqueles álbuns possuidores de um estranho fascínio, como se transportasse consigo o perfume de algo realmente valioso. Os Fuchsia eram um sexteto acústico onde pontificavam as vozes dos seus três elementos femininos, Janet Rogers, Vanessa Hall Smith (ambas também violinistas) e Madeleine Bland (que também tocava violoncelo, piano e órgão de pedais). Três rapazes encarregavam-se do formato normal guitarra-baixo-bateria, com Tony Durant, o guitarrista, também encarregado das partes vocais. Tocavam um folk-rock gótico de tonalidades sombrias, e contavam histórias de assustar, com castelos perdidos na bruma, paixões bizarras e seres sobrenaturais. Por vezes a música lembra os Comus, de “First Utterance”, noutras os Spirogyra, noutras ainda vem à memória o registo mais doce dos Tudor Lodge, dos Trader Horne e dos Storyteller, com o mesmo gosto pela fábula surreal que Peter Gabriel encetou com os Genesis em “From Genesis to Revelation”. Pode ver-se nesta música (ouça-se com atenção um tema como “A tiny book”, um cruzamento dos Kinks com folk e psicadelismo) uma antecipação ingénua de grupos como os Kula Shaker ou Gorky’s Zygotic Mynci. Ou simplesmente um livro de histórias coberto de poeira para abrir e folhear com cuidado capaz de excitar a curiosidade do melómano-arqueólogo. (Sem editora, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10).

Sem estranheza de qualquer espécie, além do facto de ser albino, o guitarrista Johnny Winter dedicava-se em 1969, como se dedicou (ele e os eu irmão Edgar Winter) durante toda a sua vida de músico, aos “blues”. Mas como a época era de progressivismos, era de bom tom acrescentar-lhe qualquer designação mais rebuscada do que a “simples” raiz da música negra e do rock ‘n’ roll. Johnny Winter chamou então a um dos seus trabalhos, “The Progressive Blues Experiment”, uma série de blues eléctricos da sua autoria (mas também versões, como “It’s my own fault”, de Muddy Waters), que acima de tudo deixavam bem vincadas as suas extraordinárias qualidades de guitarrista. Por vezes excitante, sempre carregado de energia (1969 foi, de resto, um ano em que a música parecia querer explodir a cada instante…), “the Progressive Blues Experience” ficou como um bom exemplo de um movimento, o blues progressivo, que vingou sobretudo em Inglaterra (Graham Bond, Alexis Koner…), onde atingiu o zénite em dois álbuns seminais de John Mayall: “Bare Wires” e “Blues from Laurel Canyon”. (BGO, distri. Megamúsica, 7/10).

Já em plena decadência do progressivo e com o punk a martelar em pleno, ainda havia gente, como os alemães Frumpy, que acreditava que a salvação do rock estava em perder 10 minutos em cada faixa com solos de órgão ou de guitarra e na adaptação de técnicas de execução sacadas à música sinfónica. “Frumpy 2”, de 1976, é considerado o álbum clássico do grupo e há mesmo quem o inclua numa lista dos melhores de sempre do “krautrock” (como os autores da enciclopédia “A Crack in the Cosmic Egg”). Digamos que o “krautrock” não sai propriamente dignificado com esta nomeação, nem os quatro longos temas que aqui correm numa cavalgada de solos conseguiram fazer com que os fãs dos Deep Purple ou dos Uriah Heep trocassem a adoração por estas bandas pelos Frumpy. Há no entanto momentos de rock sinfónico (ugh!) bem conseguidos e a voz rouca da vocalista Inga Rumpf (que ganhou alguma notoriedade na banda de que fez parte a seguir, os Atalntis) até conseguirá eriçar alguns pêlos aos entusiastas do hard rock… (Repertoire, distri. Megamúsica, 6/10).

E já que se falou em punk, concentremo-nos em “Hypnotised”, segundo álbum (1980) dos irlandeses The Undertones que, por acaso, nem eram punks mas uma banda do que então se designava “power pop”. A voz de Feargal Sharkey soava aqui tão grande como o seu nariz e “Hypnotised” está repleto de hinos aos rapazes e às raparigas que contam as pequenas alegrias e dramas da vida nos subúrbios em canções directas com melodias, por vezes, viciantes. Como “My Perfect Cousin”, editado em single e que se tornou um sucesso de vendas, a tal que fala de Kevin, o primo “perfeito” da “upper class”, a quem a mãe ofereceu um sintetizador e, como brinde, os Human League para o ensinarem a tocar. (Dojo, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10).

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LINK (Winter Light – 2007)

Fechemos este artigo com uma descida à cave. Para ouvir o rugido que sai das profundezas da música de Jeff Greinke, compositor norte-americano intérprete da vertente mais telúrica da música electrónica. Greinke aprendeu com os ensinamentos de Brian Eno, em “On Land”, só que, em vez da superfície, escolheu como local de meditação, os abismos do interior da terra. “Over Ruins” e “Moving Climates” (agora juntos no mesmo CD) pertencem à sua discografia dos anos 80, tendo sido editados antes, respectivamente em 1985 e 1986, apenas em cassete. O que significa que estão mais próximos das texturas densas de “Trimbal Planes” do que da clonagem das paisagens do quarto mundo de Jon Hassell de “Big Weather”. Aqui os sintetizadores de Jeff Greinke eram ainda feitos de pedra, electricidade e lava, fazendo estremecer o solo como os passos de um gigantesco dinossauro. O lado nocturno da música de Steve Roach. (Raum 312, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10).

Vidya Ensemble – Stress/Relax

11.12.1996
Vidya Ensemble
Stress/Relax
ED. FAROL

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O minimalismo é factor de “stress”? A repetição provoca o acidente? A ruptura pode transformar-se em lei? Para Vítor Rua, a prática musical funciona mais como manual de interrogações do que como acta de trabalho. O guitarrista dos Telectu, como já acontecera no seu disco com os “ressoadores”, volta a defrontar-se com os limites da “perfomance” e da memória musical. Mas se, com os seus alunos, era o conceito de aleatoriedade e improvisação que funcionava como regra do jogo, em “Stress/Relax” é a exploração da noção de “ensemble” e a composição escrita que se questionam na forma de uma “música de intrenção” ou “daquilo que é a propósito de qualquer coisa”. O conceito é familiar, sugerindo as estratégias dde clonagem e o mimetismo propostos em fase recente dos Telectu. Significa isto que “Stress/Relax” deva ser ouvido com a municiação de um “a priori” musical impeditivo de toda e qualquer “inocência” do acto criativo? O conceito também não é novo e está no cerne de toda a atitude do pós-modernismo, assim se compreendendo, de resto, que Rua defina “Stress/Relax” como “propedêutica estética e caleidoscópica sobre o situacionismo musical pós-moderno, proposição de um novo msubjectivismo musical”. Ouvir um trecho musical será então, hoje, ouvir sempre um outro, essa tal “outra coisa” entretanto levado ao esgotamento pelo excesso das escolas e dos géneros musicais deste século. O “novo” passou a existir, deste modo, na forma subjectiva de reorganização de memórias e acumulações culturais da parte do ouvinte. Assim se compreende, ainda, a profusão e inutilidade das palavras que embalam este compacto. Do esgotamento de significados surgirá uma nova disponibilidade de audição? As faixas de “Stress/Relax” podem arrumar-se confortavelmente em géneros, do minimalismo reichiano do tema inicial, “Stress”, ao ambientalismo “enoiano” de “Tracet”. São o mesmo e o outro, da mesma maneira que, no conto de Borges, o “Quixote” de Pierre Ménard era igual e diferente do “Quixote” de Cervantes. Aprende-se, então, a reescutar o gesto primordial proposto por “Stress/Relax”, afinal contido no próprio título – um jogo de tensões onde a criatividade se joga na estruturação, pura e simples, do tempo e da multiplicidade dos seus tempos interiores. Era esse o sentido primordial do minimalismo. Uma faixa emblemática? Experimente-se ouvir “Cream Dream” para se perceber que o infinito dos sons nasce dentro da nossa cabeça. (8)