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Dossier Alemanha – O Século Da Electrónica Kraut

Dossier Alemanha
O Século Da Electrónica Kraut

kraftwerk

Existe um elo a unir a música electrónica alemã dos anos 70, 80 e 90. O krautrock cede o lugar à “neue deutsch welle” e esta aos actuais magos do “powerbook”. Os sonhos da “kosmische muzik” transformaram-se me pesadelos industriais e estes deram lugar a brincadeiras de crianças. Mas há quem nunca tenha perdido a última carruagem deste comboio. O PÚBLICO traçou o mapa dos principais músicos, conceitos e movimentos que ao longo das últimas três décadas, na Alemanha, desenvolveram novas relações entre o Homem e a máquina.

Anos 70: O Sonho

Tínhamos ficado em meados dos anos 70, na Alemanha (ver “dossier” sobre Krautrock na edição do SONS de 7 de Maio de 1997). A electrónica (pela via dos mestres “eruditos”, como Karlheinz Stockhausen e Oskar Sala ou do space-rock-psicadélico excertado dos Pink Floyd de “Atom Heart Mother” e “Meddle”) mandava. Kraftwerk, Klaus Schulze, Tangerine Dream, Ashra, Faust, Can, Amon Düül II, Popol Vuh, Harmonia, Cluster, Yatha Sidhra, Mythos, Agitation Free, Eiliff, Wallenstein, Dzyan, Eroc, Achim Reichel, Embryo, Sand, Annexus Quam, Cornucopia, Brainticket, Cosmic Jokers viajavam pelos novos espaços abertos pelos osciladores e filtros LFO e VCF.
As palavras de ordem eram: Kosmische, freakout, psicadelismo, planante, cogumelos mágicos, jam, space rock, experimentalismo, zen, meditação, free rock, LSD, improvisação, alucinação, sintetizadores gigantescos usados também como elementos estético/decorativos, agit rock, romantismo, vida em comuna, underground, ficção científica…
Editoras principais: Ohr, Kosmische Muzik, Bacilus, Bellaphon, Brain, Kuckuck, Pilz, Sky.
Quando o punk rebenta em Inglaterra o krautrock agonizava já com o rock sinfónico e o hard rock FM de bandas como os Atlantis, Eloy, Birth Control, Message, Jane e Triumvirat. Os clássicos que resistiram e prosseguiram carreira traçavam o seu próprio caminho alheios aos movimentos e às correntes de estilo: Tangerine Dream vendem milhões e baptizam a new age; Klaus Schulze troca de equipamento e regula pela 346ª vez os seus sintetizadores para tocar o mesmo tema na sua viagem sem fim pelo cosmos; os Can hipnotizam-se a eles próprios e Holger Czukay é o único que se mantém acordado; os Popol Vuh meditam numa igreja; os Embryo descobrem o jazz e a world music; os Faust entram num período de hibernação de 20 anos; os Kraftwerk transformam-se em robôs e inventam o som da modernidade.
Mas era necessário fazer a transição do krautrock para os anos 80, acompanhando as novas revoluções da tecnologia, da sensibilidade e das ideias. Os principais transmissores do testemunho foram – depois da papinha ter sido toda feita pelos Neu!, punks “avant la lettre” – os La Dusseldorf, os Cluster e os D.A.F.. Os La Dusseldorf fizeram a adaptação germânica da “new wave”, a chamada “neue deutsche welle”, colando-lhe a batida electrorock conhecida por “motorika”. Os Cluster abriram caminho ao “dark ambient” e ao industrialismo; os D.A.F. forma militantes do “disco” na versão sadomaso / militarista, escancarando a porta da cultura das discotecas. Uma última palavra de novo para os Cluster, que teriam de esperar mais uma década para verem o sentido lúdico da sua obra-prima, “Zuckerzeit”, ser reconhecido como absolutamente fulcral para o desenvolvimento de grande parte da produção electrónica europeia dos nossos dias. Não estavam sós neste papel: Kurt Dahlke, enquanto Pyrolator ou com os Der Plan, fazia com dez anos de antecedência a electrónica brincalhona dos anos 90.

Anos 80: A Energia

Desbravando o território, o cinzento e o niilismo dos anos 80 abateram-se com violência sobre os novos “electrónicos” alemães. A música industrial (preconizada de forma exemplar na década anterior pelos Kluster/Cluster, em todos os álbuns até “Cluster II”, pelos Kraftwerk até rolarem na auto-estrada, e por Conrad Schnitzler na solidão da sua obra a vermelho, em “Rot”) foi rapidamente assimilada e posta em prática, como sempre acontece com a maior parte dos músicos alemães, na sua vertente mais radical e experimentalista. Com os Einsturzende Neubauten e a sua declaração de intenções de destruição não só do rock como de toda a música em geral, à frente de todos os outros. Ao lado deles, Dieter Moebius, em paralelo com o seu trabalho nos Cluster, punha igualmente em funcionamento a sua própria indústria de metalurgia, com o auxílio da eminência parda Conny Plank.
Mas outros nomes emergem como pilares da electrónica que vingou até aos nossos dias. Holger Hiller, vindo dos Palais Schaumburg, assina um trabalho, tão pioneiro como genial, de manipulação dos samplers. Holger Czukay investe com mais moderação na mesma área que corta a golpes de “dub”. Asmus Tietchens e Peter Frohmader perfilam-se ao lado de Conrad Schnitzler na elaboração de músicas sombrias que combinam as arquitecturas e o imaginário gótico com a maquinaria industrial e um ambientalismo do inferno que era o negativo da “cosmic music”. Michael Rother percorre a década a desenhar modelos românticos, adaptando a “motorika” a um “neo-easy listening” que mal se adivinhava nos dois principais grupos a que pertencera, os Neu! e os Harmonia. O segundo Cluster, Hans-Joachim Roedelius, hesita entre o piano impressionista, o ambientalismo de Eno e sonoridades mais experimentais.
Com menor projecção internacional, mas representativos de uma originalidade assumida a cem por cento, destacan-se ainda: Klaus Kruger (considerado por alguns o Brian Eno alemão), H.N.A.S. (Hirsche Nicht Aufs Sofa), Die Krupps, Die Todliche Doris (lançaram uma edição composta por sete minúsculos discos de brinquedo e um gira-discos também de brinquedo, onde esses discos podiam ser tocados…), Propeller Island, Hubert Bognermayer & Harald Zuchrader, Camera Obscura, cranioclast, Michael Obst, Peter Schaefer, Strafe Für Rebellion, Jörg Thomasius, Uludag, Harald Weiss, Die Vogel Europas.
Palavras de ordem: industrial, teatro, cabaré, maquilhagem, sintético, disciplina, uniforme, tecnologia, motor, bandeira, electricidade, metal, vida na cidade, heroína, bizarro, máscara, homem-máquina, sampler, apocalipse.
Principais editoras: Ata Tak, Badland, Erdenklang, Innovative Communications, Sky, Warning, Zick Zack.

Anos 90: O Prazer

Tudo se vai, literalmente, misturar, nos anos 90. Logo no início da década, em 1991, os Kraftwerk cumprem pela última vez o seu papel de profetas, com o lançamento de “The Mix”. Pela primeira vez na sua música, a electrónica, que durante duas décadas fora ensinada a emancipar-se no seio da música popular, nasce do reprocessamento e reciclagem de material antigo. Não é um acto de preguiça mas um acto de visão. Os Kraftwerk remisturavam os Kraftwerk. A música dos anos 90 remistura e remistura-se “ad infinitum”. Ralf Hutter e Florian Schneider tinham completado a sua obra. A partir daí o futuro deixaria de lhes pertencer.
O computador, utensílio musical por excelência da década de 90, mostrava nesse álbum o seu rosto de grande reciclador, produtor de clones infinitos, enumerador, arquivador, programador. A música abandonava o conceito de colagem (de que o sampler fora o derradeiro e absurdo instrumento musical humanista) para se abandonar à ideia de síntese.
Sínteses múltiplas de todas as músicas e de todas as tradições. É a era das “remixes”, das fusões outrora impossíveis, da aglutinação das experiências electrónicas acumuladas nas quatro décadas anteriores. Trautoniums e theremins juntam-se aos Macs e PCs. O pós-rock junta os Moogs e ARPs analógicos às aparelhagens digitais. No fim, o powerbook (computador portátil) tudo domina e concentra nas suas mãos. Os grupos são alter-egos de um-músico-só. A electrónica torna-se manipulação digital pura. Virtual. Mas haverá quem resista.
Aos grandes armazéns e fábricas dos anos 90 vem substituir-se o escritório. A electrónica alemã, uma vez mais, vai tão longe quanto pode. “Grupos” como os Oval e Microstoria tomam conta dos sistemas de ar condicionado, dos scanners e das fotocopiadoras para criarem a banda sonora, já não dos “novos edifícios em colapso” dos Einsturzende Neubauten, mas de edifícios doentes, infectados pela poluição digital. Os suíços The User tomam o conceito à letra e compõem uma sinfonia construída a partir dos sons processados das entranhas de fotocopiadoras de agulha em funcionamento.
Mas, à semelhança do que aconteceu nas décadas de 70 e 80, a electrónica alemã diverge em vários ramos.
Três editoras em particular representam outras tantas tendências em vigor: a-musik, Mille Plateaux e mais recentemente Storage Secret Sounds. No site da Mille Plateaux encontramos catalogações de estilo como “clickhouse”, “electronic listening”, “abstract hip hop”, “Elektroakustik”, “Noise” e “Musique concrete”. Pratica-se uma estética abstracta, conceptual, sistemática. Não sobram motivos de diversão nem para sorrir mas, ao invés para sofrer e ter medo. É a casa dos “powerbooks” de cenho fechado, dos estalidos de estática, das frequências puxadas até ao limite do inaudível, das programações sem piedade. No seu catálogo da net a música de um dos álbuns dos “operadores de escritório” Microstoria (de Markus Popp e Jan St. Werner) é definida simplesmente como “digital processing”, de resto um dos “géneros” preferenciais desta editora. A música já não como obra composta mas como o próprio processo “a priori”. A Mille Plateaux tirou a camada de tinta de cima da “Man Machine” dos Kraftwerk até deixar à vista apenas a estrutura de metal, como acontecia a Arnold Schwarzenegger em “O Exterminador Implacável”, título que poderia bem aplicar-se aos propósitos ideológicos e musicais da Mille Plateaux.
Principais nomes desta editora: Microstoria, Curd Duca, Gas, Terre Thaemlitz, SND, Porter Ricks, Christian Vogel, Pluramon.
A este reino do terror contrapõe a a-musik, uma tendência que ameaça tornar-se dominante. Aqui a electrónica redescobre o prazer do som, das brincadeiras infantis, das programações Lego, das “private jokes”, das carícias dos ritmos e das melodias de carrossel. E do prazer que deriva, não da manipulação, mas do “velho” acto de “tocar”. Alguém na a-musik tinha guardados em cas “Zuckerzeit” dos Cluster e “Wonderland” dos Pyrolator e com esses dois discos construiu um mundo.
A a-musik surgiu na sequência da fusão de dois projectos: o colectivo de música industrial Kontakta, do qual faziam parte Christiab Schulz e Frank Dommert, dos H.N.A.S., e a editora Erflog, fundada, entre outros, por Schulz, Dommert e Marcus Schmicker, dos Oval. Com a intenção de fazer “música industrial sem as imagens de atrocidade”, “techno sem o funk”, “new wave sem os penteados ridículos” e “electro-acústica sem a acústica”.
Principais nomes desta editora: F.X. Randomiz, Holosud, L@n, Sator Rotas, Schlammpeitziger, Felix Kubin.
Esta faceta lúdica é levada às últimas consequências na Storage Secret Sounds, no seio da qual artistas como Felix Kubin (fica aqui melhor instalado do que na a-musik…), Nova Huta e Mikron 64 se deliciam a brincar numa cerca para bebés com plasticina, ursos de peluche e carrinhos de corda, e a ler histórias aos quadradinhos. A única regra é a do passeio pela feira popular. Felix Kubin faz desenhos animados acústicos, histórias de BD para os ouvidos. Os Nova Huta (de Oleg Kostrow que não é alemão mas russo…) embrulham o easy-listening na banda sonora de um filme negro e acompanham com uma orquestra sinfónica. Os Mikron 64 apanham o automóvel da technopop e programam melodias infantis em microcomputadores de primeira geração.
Outros nomes importantes: Arovane, Atom Heart, Bernd Friedmann, Bluthsiphon, Fetisch Park, Funkstörung, Konrad Kraft, Pole, Rechenzentrum, Sack & Blumm, Scneider TM, Sciss, Soul Center, Tele:Funken, Thomas Köner, Tied + Ticked Trio, Workshop.
Na Áustria cabe um papel importante aos Orchestra 33 1/3, agora separado nas suas duas principais parcelas: Christian Fennesz e Christof Kurzmann, este último sob o pseudónimo B. Fleischmann. A editora que fundaram, a Plag Dich Nicht, transformou-se na Charizma, para onde também gravam os Shabotinski.
No meio da confusão, alguns dos “velhos” continuam imperturbáveis: os Faust, ressuscitados pela mão de Jim O’Rourke, tornaram-se ainda mais os maus da fita, destruindo e incendiando os palcos por onde passam. Moebius prossegue nos Ersatz o seu percurso inigualável. Roedelius compõe sinfonias de electrónica bizarra. Os Neu! E os La Dusseldorf fundiram-se na entidade colectiva dirigida por Klaus Dinger sob o genérico La! Neu?, Holger Czukay continua a esburacar. O espírito do “krautrock” revive nos Space Explosion, supergrupo formado por Moebius (Cluster), Mani Neumeier (Guru Guru), Jürgen Engler (Die Krupps), Chris Karrer (Amon Düül II) e Zappi Diermaier e Jean-Hervé Peron (ambos dos Faust). Quanto aos Einsturzende Neubauten, garantem que o silêncio é sexy e compõem canções de amor…

Rococós

torococorot

Começou por ser o nome de uma galeria de arte de Berlim, dirigida pelos irmãos Ronald e Robert Lippok, antes de se tornar o nome de um dos grupos mais interessantes e criativos da nova electrónica alemã: To Rococo Rot. Os dois decidiram começar a fazer música chamando um terceiro elemento, Stefan Schneider, de outra banda recém-formada, neste caso oriunda de Dusseldorf, os Kreidler. Da primeira sessão realizada pelos três resultou o álbum “CD”, de 1995, uma colecção de sons electrónicos plenos de força e originalidade, onde eram detectáveis as influências dos Can e de Dieter Moebius, dos Cluster. Ronald Lippok integrava ao mesmo tempo os Tarwater enquanto o seu irmão se dedicava a trabalhos de remistura e djing. Em “Veiculo”, segundo álbum dos To Rococo Rot, o som e as batidas tornam-se mais suaves, numa transição semelhante à dos Kraftwerk, de “Ralf and Florian” para “Autobahn”. Colaborações com Move D, da Source Records, e D, da Soul Static, culminam na participação do DJ I-Sound numa das faixas do terceiro álbum da banda, “The Amateur View”.

Marcianos

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Entre os inúmeros nomes da nova escola electrónica alemã destaca-se o dos Mouse on Mars, dupla composta por Andi Toma (natural de Colónia) e Jan St. Werner (Dusseldorf). Cedo abandonaram a cena techno para se concentrarem na produção de sonoridades electrónicas mais abstractas mas não menos desprovidas de “Groove” que alternam o paisagismo alucinado e programações ora raivosas ora subliminares, nas quais são perceptíveis as marcas deixadas pelos Cluster e pelos Kraftwerk. Eles gostam de citar igualmente os Can e os Neu!, com os quais dizem ter aprendido a “usar instrumentos ‘vivos’ como a guitarra, o baixo e a bateria”. Mas quem já os viu actuar ao vivo pode verificar que os instrumentos “vivos” que Andi e Jan utilizam estão mais de acordo com o espírito dos anos 90: um emaranhado de circuitos e dispositivos electrónicos dispostos sobre uma mesa de trabalho a partir dos quais os dois alemães constroem uma barreira sónica que vai da hipnose ao massacre, do minimalismo brutal a cadências “clusterianas” em suspensão. Para ouvir com urgência são os álbuns “Vulvaland”, as danças mentais do novo “Niun Niggung” e, sobretudo, o disco que entrará para os anais do novo electrokraut, “Iaora Tahiti”.

10 Álbuns dos anos 80
D.A.F. Gold und Liebe (1981)
EINTURZENDE NEUBAUTEN Halber Mensch (1985)
HOLGER CZUKAY On the Way to the Peak of Normal (1980)
HOLGER HILLER Oben im Eck (1986)
KRAFTWERK Computer World (1981)
MOEBIUS & PLANK En Route (1986)
DER PLAN Es Ist ein Fremde und Seltsame Welt (1987)
PROPELLER ISLAND The Secret Convention (1988)
PYROLATOR Wonderland (1984)
DIE VOGEL EUROPAS Best Before (1989)

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LINK (Kraftwerk – Computer World)
LINK (Kreidler – Appearance and the Park)
LINK (Mouse on Mars – Iaora Tahiti – parte 1)
LINK (Mouse on Mars – Iaora Tahiti – parte 2)

20 Álbuns dos anos 90
B. FLEISCHMANN Pop Loops for Breakfast (999)
ERSATZ Ersatz II (1992)
FUNKSTORUNG Appetite for Destruction (2000)
F.X. RANDOMIZ Goflex (1997)
HANS-JOACHIM ROEDELIUS Sinfonia Contempora No. 1 (1994)
HOLOSUD Fijnewas Afpompen (1998)
KONRAD KRAFT Alien Atmospheres (1996)
KREIDLER Appearance and the Park (1998)
L@N L@n (1996)
MICHAEL ROTHER – Esperanza (1996)
MOUSE ON MARS Iaora Tahiti (1995)
ORCHESTER 33 1/3 Orchester 33 1/3 (1997)
SCHLAMMPEITZIGER Spacerockmountainrutschquartier (1997)
SCHNEIDER TM Moist (1998)
SHABOTINSKI (B)ypass (K)ill (1999)
TELE:FUNKEN A Collection of Ice Cream Vans vol. 2 (2000)
THOMAS KONER Nunatak Gongamour (1990)
TIED & TICKED TRIO E!1 EA2 (1999)
TO ROCOCO ROT CD (1996)
WORKSHOP Meiguiweisheng Xiang (1997)

Moondog – A New Sound Of An Old Instrument

09.06.2000
Reedições
O Tambor Da Lua
Moondog
In Europe (9/10)
H’art Songs (9/10)
A New Sound Of An Old Instrument (7/10)
Elpmas (8/10)
Sax Pax For A Sax (8/10)
Kopf, distri. Ananana

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LINK

O que terá levado músicos como Peter Hammill, Andrew Dvis (dos Stackridge, pop progressivo dos anos 70) e Andi Thomas, dos Mouse on Mars, a colaborarem com este venerável ancião cego de longas barbas brancas e ar de profeta cuja música permaneceu, ao longo das últimas cinco décadas, apenas do conhecimento de um número restrito de admiradores, como Lamonte Young, Philip Glass, Steve Reich, Terry Riley, Frank Zappa e William Burroughs?
O ancião morreu no ano passado, aos 83 anos. Chamava-se Louis Thomas Hardin, mas ficou conhecido pelo nome artístico de Moondog, em honra de um cão que não parava de uivar à Lua.
Moondog nasceu no Wyoming em 1916 e ficou cego aos 16 anos, vítima de uma explosão de uma barra de dinamite mesmo em frente aos olhos. A infância, passou-a em Forte Bridger, onde o seu pai mantinha uma loja de trocas comerciais com os índios Arapaho. Foram estes que lhe ensinaram a tocar o mesmo tambor em pele de bisonte que os chefes índios usavam nos seus cerimoniais. Quando chegou a Nova Iorque, nos anos 40, passou a ser visto a tocar percussões em frente aos clubes da Rua 52. Lenny Bruce e Charlie Parker repararam nele, bem como Charlie Mingus, Benny Goodman e Miles Davis. Gravou os seus primeiros álbuns nos anos 50, para a editora Prestige e arranjou uma série de canções para Julie Andrews.
Nos anos 60 já a sua figura excêntrica (costumava envergar um capacete viking) impressionara o imaginário da comunidade “hippie” e de figuras como Tiny Tim e Janis Joplin, que cantaria mesmo um dos seus madrigais. Os minimalistas adoptaram-no como guru, mas a sua música, agora gravada para a Columbia, continuava sem conseguir furar a barreira do anonimato.
Chegado aos anos 70, um convite para tocar na Alemanha alteraria a direcção da sua carreira e da sua obra. A aceitação que a sua música levou-o a declarar que se sentia um “europeu de todo o seu coração”. E é neste ponto que a história das prsentes reedições tem início.
Os três primeiros álbuns agora reeditados pela Kopf, “In Europe”, “H’art Songs” e “New Sounds of na Old Instrument”, foram gravados na Alemanha respectivamente em 1978, 1979 e 1980. Álbuns marcados por um estilo pessoalíssimo de composição (alguns especialistas costumavam dizer, em tom de brincadeira, que a música de Moondog era o elo de ligação entre Bach e o século XX…), cada um ilustra uma pequena faceta do seu autor.
Em “In Europe”, alinham-se peças para quarteto de cordas, celesta, órgão de igreja e trompa. A música é minimalista e misteriosa e através dela Moondog exterioriza a sua obsessão pelos vikings, sobretudo numa série de variações executadas em órgão de igreja, por Fritz Storfinger, do tema “Lögründr”. Síntese inclassificável de popular, música minimal repetitiva, citações étnicas, um certo sabor aos musicais da Broadway, música de câmara e música barroca, “In Europe” inclui uma valsa de realejo, caixas de música e marchas de soldadinhos de chumbo, chamamentos longínquos para a guerra e liturgias de órgão que criam um clima de irrealidade sem limites.
Em “H’art Songs” o registo muda para a canção. Moondog canta aqui pela primeira e única vez na sua carreira. O resultado é um cruzamento bizarro de cabaret de Kurt Weill com a música de variedades do princípio do século, o cutelo de John Cale e o “nonsense” alucinatório de Robert Wyatt, com cuja voz as inflexões de Moondog coincidem em mais do que uma ocasião. Estas canções falam de um mundo pessoal e intransmissível e é preciso ouvi-las várias vezes se se quiser conhecer em plenitude o que se oculta sob o manto, aparentemente diáfano, dos seus segredos.
“A New Sound of na Old Instrument” altera de novo as coordenadas. Desta feita o órgão de igreja ocupa a totalidade do palco sonoro, estando a sua execução a cargo de novo de Fritz Storfinger e, nas peças em dueto, de Wolfgang Schwering. Impressões da juventude, a arquitectura fantasmagórica o gelo sobre uma flor da Antárctida, miragens do deserto, a reprodução do galope de um cavalo e, uma vez mais, a liturgia em duas novas versões de “Lögründr” demonstram o talento do seu autor na arte do contraponto, mas pecam, paradoxalmente, pela omnipresença dos tambores, cuja marcação rítmica cerrada acaba por se tornar redundante. Porém, a atmosfera de religiosidade e a originalidade da composição marcam pontos e fazem de “A New Sound of Na Old Instrument” a variante humanista de um álbum como “Four Organs / Phase Patterns” de Steve Reich.
Após este álbum, a carreira discográfica de Moondog sofreu um interregno de 11 anos e o artista apenas voltaria a gravar em 1991, o álbum “Elpmas”. Moondog socorre-se do sampler com parcimónia para simular o som de marimbas, coloridas por sons da natureza, numa série de peças dedicadas à defesa das culturas dos aborígenes australianos, dos povos da Amazónia e dos índios Arapaho e Sioux. Álbum de conotações étnicas, imbuído do espírito da new age (não falta um tema dedicado às baleias – interrompido por interlúdios clássicos de câmara ou por uma melodia de inacreditável pureza como a de “Fujiyama 2” -, termina com uma longa peça ambiental de quase meia hora destinada a meditação: uma sucessão de vagas harmónicas nevoentas que se vão sobrepondo infinitamente, algures entre a “Discreet Music” de Brian Eno, a banda sonora do naufrágio de “Titanic” segundo Gavin Bryars e a música meditacional de Laraaji. O álbum teve a participação, como produtor e guitarrista, de Andi Toma, dos Mouse on Mars.
Se dúvidas ainda existissem quanto à versatilidade de Moondog, “Sax Pax for a Sax”, de 1994, dissipa-as por completo. De todos os álbuns do compositor este será aquele que melhor integra a componente religiosa e celebratória da sua música. Escrita com o objectivo de retirar ao saxofone o estatuto de “instrumento militar”, “Sax Pax for a Sax” insere-se numa série de composições designadas por Moondog como “Zajaz” (“jazz em duas direcções…”), estando a execução a cargo do grupo de saxofones The London Saxophonic. Admirável junção do espírito gospel, do “vaudeville” (como no fantástico hino à alegria de viver que é “Paris”) e do jazz. Um jazz com passagem por Nova Orleães, pelo swing e – no tema “Bird’s Lament”, dedicado a Charlie Parker, pelo be-bop, que chega a tomar a forma das massas totalitárias dos Urban Sax. Colaboram neste álbum onde o tambor de Moondog se fez ouvir por uma das últimas vezes, o seu velho amigo Danny Thompson e, no papel quase anónimo de simples figurantes, nos apoios corais, Peter Hammill e Andrew Davis, “perdidos” nas vocalizações colectivas e de admiração pelo mestre.

Pole – Pole 3

30.06.2000
Pole
Pole 3 (6/10)
Kiff, distri. Megamúsica

pole3

Pole 1 – 2 – 3
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LINK (parte 2)
LINK (parte 3)
LINK (parte 4)

Sempre que ouço a música dos Pole, alter-ego de Stefan Betke, que recentemente actuou no Museu Serralves, no Porto, imagino os sons amplificados de uns intestinos em plena actividade digestiva, captados através de um microfone ligado a um estetoscópio. O “click-dub” dos Pole é esse aglomerado em constante mutação de estalidos, zumbidos, pancadas e raspagens electrónicas, música de dança para vísceras atiradas para uma centrifugadora. Depois de um primeiro volume azul carregado de estática e de um segundo volume vermelho que escorria sangue sintético, o terceiro volume dos Pole é todo em amarelo-bílis, como uma glândula desenvolvida em laboratório. Com uma dose reforçada de imaginação e o corpo já suficientemente massacrado por um número excessivo de exposições a esta música pouco recomendável para pessoas saudáveis, é mesmo possível descortinar em “Pole 3” algo parecido com “Groove”. Temas como “Karussell” (ter-se-ia Stefan Betke lembrado dos Cluster?), “Uberfahrt” ou “Rondell Zwei” (teria Stefan Betke estado a ouvir Bob Marley enquanto fumava um charro de quilo?) conseguiriam talvez fazer levantar um cadáver numa sessão techno na morgue. Há com certeza movimento nesta música criada nas entranhas do computador, se está viva ou não, essa já é outra questão. Algo mexerá ainda depois de extintas todas as funções vitais, provavelmente, como no banquete de carne morta enlouquecida de “Braindead”, as tais vísceras, réplicas horríveis do corpo principal. Gestos reflexos de órgãos mortos, postos em actividade por choques eléctricos.