Em 1974 os Kraftwerk conduziam um Mercedes metalizado por uma auto-estrada de Düsseldorf, rumo a um futuro radioso. Um quarto de século mais tarde os finlandeses Pan Sonic fazem avançar um tanque de guerra por entre a paisagem desolada de uma metrópole em ruínas. O paralelo entre as duas bandas pode ser traçado não só através da referência óbvia do “riff” electrónico do segundo tema, a “Trans Europe Express”, da dupla Ralf & Florian, como pela organicidade da música de ambos os grupos. Com a diferença de que o corpo de “Aaltopiiri”, ao invés da anatomia ariana dos magos de Düsseldorf, é um corpo em sangue. O homem-máquina dos Pan Sonic é um mutante perdido num labirinto de tubagens e engenhos em funcionamento automático. Ambiental, implosivo, fixo na repetição rítmica, vazio de emoções, “Aaltopiiri” age como um gigantesco veículo que tudo trucida à sua passagem. Assustador.
Como Julian Cope tão bem fez notar na sua pequena bíblia apologética do “krautrock”, o livro “Krautrocksampler”, uma das virtudes dos Faust foi a percepção exacta que tiveram do momento. Praticantes de uma estética de provocação com raízes no rock repetitivo dos Velvet Underground e no humor explosivo dos Mothers of Invention, ou ainda na corrente da música concreta, os Faust abriram uma cratera no som dos progressivos ingleses dos anos 70, introduzindo-lhe no ventre uma granada. Fizeram história. Uma história curta, intensa e recheada de mistério. Nos anos 90 os Faust regressaram das cinzas para desfazerem o mito. Primeiro através de uma montagem genialmente conduzida por Jim O’Rourke (“Rien”), depois com uma inspirada operação de mímica operada pelos próprios a rasgar a memória (“You Know FaUSt”), os Faust apostaram em deitar abaixo o castelo construído nos anos 70. “Ravvivando” é um bom álbum, mas um álbum em que os Faust se meostram demasiado empenhados em soar da maneira que deles esperam os velhos apreciadores do grupo. O som tem a sua marca inconfundível, com a diferença de que entretanto já passaram 25 anos. Em 1999 a banda germânica é uma banda tardia de música industrial que destrói os palcos por onde passa (como fizeram os Einstürzende Neubauten na década anterior) e à qual faz falta a subtileza melódica de Jean-Hervé Péron, que já abandonou o grupo. Werner Diermaier e Joachim Irmler sabem, melhor do que ninguém, como transformar o ruído em música. Mas não há nada de novo na floresta queimada dos Faust. O que é um pouco triste num grupo que há um quarto de século atrás fez da novidade a sua bandeira.
Matt Howden e Aranos. Dois violinistas loucos. Demónios. Pagãos. Artífices de uma música que brota das profundezas, com o rosto corado pelas maldições lançadas pelos antigos gigantes. Matt Howden é um dos astros negros dos Dieben e, com Tony Wakeford, dos Sol Invictus (além de fazer parte dos Raindogs, banda com base em Portugal). Aranos, enigmática personagem de ascendência cigana, natural da Boémia, é uma das entidades em acção nos Nurse With Wound, de Seteven Stapleton, e nos Current 93, de David Tibet. Os dois tocam juntos, hoje e amanhã, em Lisboa, no Teatro Ibérico de Xabregas, duas noites que se prevêem fora do comum.
Em cada uma destas apresentações os músicos reservaram os dez, quinze minutos finais para interpretarem temas compostos para os concertos de Lisboa. Na 6ª feira, após o concerto, terá lugar uma aula de tango pelo grupo Milonga das Estrelas, para o qual Aranos escreveu propositadamente um tango (convém esclarecer que o tango é uma das suas paixões, bem como a guitarra de Carlos Paredes). A Matt Howden e Aranos juntar-se-ão em palco Paulo Romão, dos Raindogs, e, em três ou quatro temas, B’Eirgh, vocalista da banda britânica In Gowan Ring, pertencente à editora World Serpent.
É extensa a obra de Howden, a solo ou nos projectos Sol Invictus, Sieben e Stiki. De comum, a proximidade do Mal, as cores soturnas, as luzes fátuas, os rituais ocultos de louvor a deuses cruéis e antigos. “Intimate & Obstinate”, “Hellfires” e “Redroom” são os três trabalhos com a ssinatura de Matt Howden. Na forja está uma longa peça conceptual intitulada “Voyager”, inspirada na expedição espacial que leva a sonda para fora do Sistema Solar, ao encontro do desconhecido.
Em “Hellfires”, os “Fogos do Inferno”, Hoden fez incidir a sua atenção nas concepções filosóficas e religiosas do Inferno em algumas das civilizações do passado, como o Hades etrusco ou o Amenti egípcio. Temas como a transmigração das lamas ou a condenação eterna são abordados segundo uma perspectiva que o levou, por exemplo, a questionar-se sobre as “regras” e os “motivos” que poderiam levar Shu, deus da luz, a determinar a “aniquilação completa” de uma alma pecadora. Charun, “meio humano, meio besta, com o seu olhar flamejante e o seu aspecto selvagem”, considerado uma “concorrente do próprio Satanás”, é outra das simpáticas personagens que Howden convocou para “Hellfires”.
“Redroom” é a obra em vermelho, a cor que cobre as paredes do seu estúdio. A cor do Inferno, do sangue e do sexo. “Voyager” não deverá ter esta cor, mas é de prever que seja escuro. A escuridão do espaço sideral. Matt Howden faz questão de explicar que este seu trabalho não significa qualquer conversão ao espírito “new age”, deixando, aliás, o aviso para esperarmos dele “toda a espécie de coisas estranhas e assustadoras”.
Mas nem só de trevas vive a música de Matt Howden. As formas com que reveste as suas visões de pesadelo têm amiúde a solenidade da música clássica, reportando-as ao mesmo tipo de sinfonias infernais de projectos como SPK (de “Zamia Lehmani”), Lustmord ou Zone. No folclore pop colou-se-lhes o rótulo de “gótico”.
Feiticeiras, a decadência da Europa, a intrusão do mundo astral no mundo físico, o cosmo em ruínas, a oposição luz/trevas e um lote bem fornecido de criaturas mitológicas e títulos em latim integram o léxico fundamental da sua obra, que pode ser apreciada num sem número de realizações das quais as mais recentes são “The Line and the Hook”, dos Sieben, e “Thrones”, dos Sol Invictus, este editado já em Fevereiro.
Fica assim entendido que tem apetência pelo lado escuro da mente e pelos rituais que a fazem sintonizar-se com o buraco negro do Inconsciente. A normalidade repugna-lhe. A tempestade vai bem com a sua personalidade. Recorda com nostalgia um concerto dos Sieben no “Wave Ghotic Festival” em Leipzig, quando, durante o “encore”, a noite explodiu em trovões e relâmpagos: “Great stuff!”
Será assim em Lisboa? A meteorologia não prevê uma melhoria do tempo, estando reunidas as condições para que o cerimonial decorra da melhor forma. Com fantasmas à solta. Quem tem medo do escuro?
Matt Howden & Aranos
Lisboa | Teatro Ibérico de Xabregas
6ª e sáb., às 21h30. Bilhetes a 12,50 euros