Arquivo da Categoria: Industrial

SPK – “Leichenschrei” + “Information Overload Unit” + “Zamia Lehmanni – Songs Of Byzantine Flowers”

Pop Rock

27 JANEIRO 1993
REEDIÇÕES

CONTRA A NATUREZA

SPK
Leichenschrei (3)
Information Overload Unit (5)
Zamia Lehmanni – Songs of Byzantine Flowers (8)
CD Side Effects, distri. Edisom


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De enfermeiro num hospital psiquiátrico, Graeme Revell chegou a autor da banda sonora de “Até ao Fim do Mundo”, de Wim Wenders. Antes da chegada aos filmes, gravou uma mão cheia de álbuns que abarcam campos tão distintos como a música industrial tendência Throbbing Gristle, de “Second Annual Report”, o disco metálico (“Digitalis Ambígua – Gold and Poison”), as fusões electroétnicas (“Oceânia”) e sons de insectos trabalhados por computador (“The Insect Musicians”). Pelo caminho foi ficando o odor fétido da putrefacção. Os SPK são Graeme Revell – coadjuvado numa ou noutra ocasião por músicos convidados, nomeadamente a vocalista Sinan –, um australiano com tendência para dissecar o horror e a perversão em geral.
“Leischenschrei” e “Information Overload Unit” lidam com tabus. Sobretudo com a morte. Correspondentes à fase industrial, servem-se do ouvinte como cobaia, experimentando o efeito de frequências nocivas ou, a nível psicológico, e palavras e imagens tendentes a despoletar o lado subterrâneo e infernal da natureza humana. Os assuntos giram à volta de temas perturbantes: doença, sexo entre cadáveres, administração de drogas indutoras de loucura, maquinismos diabólicos, condimentados por fotografias e mutilações e dissecações várias extraídas dos arquivos do instituto de medicina legal.
Faca de dois gumes em que a ambiguidade funciona ao nível da atracção/repulsa. Um texto, incluído no folheto explicativo de “Leischenschrei” dá o mote: “… a laceração de tecidos, corpos e informação. Mutilações, mutações, deformações são como a memória inconsciente do holocausto que a ciência faz da vida. O nosso campo de concentração é o laboratório médico-científico, o hospital, a terapia, a morgue, a maquilhagem de cadáveres. Corpos dissecados com indiferença metódica”. Completam esta versão sonora dos “120 Dias de Sodoma” do Marquês de Sade, textos de Michel Foucault e informações sobre a utilização no psiquismo humano das tais frequências, visando o aumento da sugestão e do medo, segundo o manual básico do aprendiz de mago negro. Em termos auditivos é 90 porcento ruído mais 10 porcento vozes em agonia.
“Zamia Lehmanni” é o outro lado de um mesmo movimento que começa na dissolução e banalização do horror e se completa na inversão. Do “hiper-realismo” de um “zoom” aplicado num cadáver, a rotação inflecte aqui no romantismo e no lado “limpo” e “culto” de uma realidade voltada do avesso. A morte veste a caraça da vida. A caveira cobre-se com a pele sintética de um manequim. Fala-se em “sagrado” para se dizer “ímpio”. A besta disfarça-se de Cristo.
Partindo da influência oriental e da civilização bizantina, em particular n o estabelecimento do cristianismo no Ocidente, o jogo passa para o lado da electrónica ritual e de uma solenidade sobrevoada pelo espectro de fábricas laborando em surdina, cânticos gregorianos e invocações a divindades pagãs. A luz fria dos néons da morgue cede o lugar ao dourado e à iconografia religiosa. Com apoio em fragmentos de Yeats, Mallarmé, Lautréamont, Huysmanns, Rimbaud, Baudelaire e Beckett, profetas do niilismo e do desespero. O título da obra de Huysmans citada sintetiza todo um manifesto de intenções: “Contra a Natureza”. Portanto contra Deus e contra o homem. Considerações morais à parte, “Zamia Lehmanni” é um disco de inegável beleza. A beleza mortal de Lúcifer.

Leichenschrei
Information Overload Unit
Zamia Lehmanni – Songs Of Byzantine Flowers







Legendary Pink Dots (The) – “Shadow Weaver”

Pop Rock

7 OUTUBRO 1992

THE LEGENDARY PINK DOTS
Shadow Weaver

CD Play It Again Sam, distri. Contraverso

Edward Ka’Spel é o último dos “hippies”. Mas as suas flores são as flores do mal. Ele vê o que mais ninguém vê nem quer ver. E canta em forma de canções de amor – um amor doente e sem esperança – o “mal de vivre” do final do século. Os LPD, banda inglesa radicada na Holanda que em Agosto actuou no nosso país, levam uma década de existência e nenhum passo em falso. Assinaram mesmo um álbum genial, “Asylum”, no qual abordam temas como a loucura, a religião e toda a espécie de visões induzidas ou não por alucinogéneos. “Shadow Weaver”, como os anteriores “The Maria Dimensions” e “The Cursed Velvet Apocalypse”, é críptico na mensagem, psicadélico na forma e insinuante nas inflexões vocais pseudo-ingénuas de Kaspel, tão doce e meigo como uma cobra. O “tecelão de sombras” satura a atmosfera de resíduos electrónicos através de incursões de pesadelo por leprosarias e pela música industrial. Uma viagem com os Legendary Pink Dots é sempre uma má viagem. (8)

aqui



O Yuki Conjugate – “Undercurrents (Into Dark Water)”

Pop Rock

7 OUTUBRO 1992

O YUKI CONJUGATE
Undercurrents (Into Dark Water)

CD Staalplaat, import. Contraverso

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“Into Dark Water”, álbum original de 1986 desta banda britânica, mudeou e nome e ganhou cinco novos temas, gravados entre 1987 e Fevereiro de 1992. Os O Yuki Conjugate exploram o filão da música étnica ritual. São mais electrónicos que os Lights in a Fat City, bastante mais escuros que Jon Hassell, Steve Roach e Robert Rich e menos dramáticos que Jeff Greinke, nas suas sonorizações de colisões de icebergues e montanhas. À semelhança do disco seguinte – “Peyote” –, a música surge das profundezas, de estratos rochosos em deslocação, de fossas abissais que dão para reinos onde não chega a luz do sol, de correntes subterrâneas que o título sugere. Nos O Yuki, os sons escorrem com a lentidão e a força da lava. Pulsações nocturnas mantêm o ritmo de um corpo em movimento permanente. Percussões de água, pedra e madeira, flautas pagãs e um piano de gelo ecoando numa gruta sem luz – fragmentos de um mundo primordial, cujo sentido se diz nas vibrações dos elementos – perfilam a grande noite dos deuses antigos. (8)