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Felix Kubin, Amanhã Em Braga, Domingo Em Lisboa: Marechal “Performer”

17.11.2000
Felix Kubin, Amanhã Em Braga, Domingo Em Lisboa
Marechal “Performer”

felixkubin

LINK (Und Das Mineralorchester)

Felix Kubin, marechal “performer” e dj “psycho-sci-fi-pop”, como a si próprio se define, e Aavikko, finlandeses auto-intitulados “Kings of Casio-Core”, suportados pelas manipulações no gira-discos de George Odijk, elemento da editora a-musik, preenchem o último dos três sábados “electrónicos” do festival BRG2000 que tem estado a decorrer em Braga.
Kubin actuou no ano passado em Portugal no festival Reset! A bordo de um cacilheiro, rubricando um “show” inesquecível que aliou a vertente vanguardista semeada nos anos 80 pelo seu compatriota Holger Hiller, o lounge e a manipulação de velhos sintetizadores analógicos avariados com uma apresentação “camp” e um humor insuperável. Depois disso, actuou como dj em Lisboa e no Porto, fazendo prova real de que é possível pôr o público a dançar recorrendo à inteligência e a discos arrumados nas prateleiras mais recônditas da estante.
Felix Kubin é uma personagem de desenhos animados igual às que ele próprio concebeu musicalmente no álbum “Filmmusik”, para “cartoons” da cineasta Mariola Brillowska. A criação de um pacote de “locked grooves” para utilização nas suas actuações como dj ou a desconstrução da música de Jane Birkin, em “Jane B.” (que Lisboa pôde presenciar no cacilheiro) fazem parte da bagagem deste artista, que os Aavikko definiram como “um demónio disfarçado de Deus”. “Se tivéssemos que escolher um ser humano para representar a Terra junto dos extraterrestres, esse seria Felix Kubin”, garantem ainda os Aavikko, banda finlandesa cuja música – dois sintetizadores e uma bateria – reúne todos os clichés do punk, surf, disco, música de feira, filme negro e folclore balcânico, com influências que vão de Booker T & The MG’s aos Laika e aos Kraftwerk.
Para animar a noite de todas as bizarrias, o dj Georg Odijk, da a-musik, de Colónia, traz a Portugal um “showcase” da sua editora, onde por certo ao lado dos “grooves” de projectos como Mouse on Mars e FX Randomiz (presente na primeira noite do BRG2000) se arrumam divagações lounge, jazz e outras electrónicas que compõem a longa-metragem psicadélica da nova electrónica alemã.

Schlammpeitziger – Augenwischwaldmoppgeflöte (conj.)

29.09.2000
Brincamos!
Schlammpeitziger
Augenwischwaldmoppgeflöte (7/10)
a- Musik, distri. Ananana
Fumble
Fumble (6/10)
Karaoke Kalk, distri. Ananana

schlammpeitziger_augenwischwaldmoppeflote

LINK (Spacerockmountainrutschquartier – parte 1)
LINK (Spacerockmountainrutschquartier – parte 2)

“Jo Zimmerman é um músico bem disposto e disposto a pôr-nos bem dispostos”, afirma, bem disposta, a distribuidora. Jo Zimmerman, aliás Schlammpeitziger, depois do singelamente intitulado “Spacerockmountainrutschquartier”, tornou-se em definitivo o rei da Clusterlândia. Volatando a apostar num título curto e incisivo, como “Augenwischwaldmoppgeflöte”, Jo prova uma vez mais o seu gigantesco talento para a construção de máquinas de Flipper do fabricante “Moebius & Roedelius” que, uma vez ligadas, são impossíveis de desligar. Nunca a electrónica provocou tamanho rornronar, poucas vezes deu tanta vontade de saltar para o carrossel, raramente os sintetizadores se enfeitaram com as cores do Carnaval como neste “Augenwischwaldmoppgeflöte”. Tudo neste álbum afasta a depressão e os ceís mais carregados de projectos – apesar de tudo não tão distantes como isso dos Schlammpeitziger – como FX Randomiz, Schnitstelle ou Schneider TM. Não é música boa para fazer ginástica mas serve na perfeição para fazer massagens. Mas apetece perguntar ao senhor Zimmerman até que ponto as suas citações aos mestres se aproximam, nalguns casos, da cópia. “Restwasserstveigebettel” e “Beingodick” são postais “DeLuxe” dos Harmonia, o que significa que Jo se afastou aqui um bocadinho dos Cluster. Só um bocadinho, se ouvirmos “Klapperhofohkester” e compararmos com “Sowiesoso”. Na maior parte do tempo, porém, é “Zuckerzeit” a funcionar. Os Kraftwerk, como não podia deixar de ser, aparecem citados de “Ralf and Florian” em “Wimmweltbestaubung” (estes títulos, não garanto que estejam bem escritos, e também já me irritam um bocadinho). A brincar, a brincar, com os Mouse on Mars, Kreidler, B. Fleishmann, Isan, Pluxus ou Nova Huta, os Schlammpeitziger encontraram a estrada dos tijolos amarelos (ou, já agora, o submarino amarelo) da lectrónica para o grande “smile”. Mas, já agora, não podiam brincar a outra coisa senão aos Cluster?
Comparados com isto, os Fumble, alter-ego de Jens Massel, são um tratado de estruturalismo. Coisa para franzir o sobrolho. Envolvido em outros projectos como Senking, Kandis e Genf, Massel prova com “Fumble” as suas aptidões de designer que sabe cozinha o “dub” e a electrónica fria dos Oval (digamos Mouse on Mars congelados) como ementa de salão de baile para disléxicos, ou de programador competente de ruídos digitais a fingir de tribais, muito Mille-Plateaux, mas os compartimentos onde o seu cérebro habita visitam-se durante alguns minutos, aprecia-se o rigor do volume e da cor, para se chegar à conclusão de que lá fora se está melhor. Provavelmente a ouvir “Augenetcvejamláseparaapróximaencurtamestamerda”. É Schlammpeitziger, ninguém leva a mal.

Negativland – Escape From Noise (conj.)

22.09.2000
Reedições
E agora, algo completamente igual…

negativland_escapefromnoise

LINK

Chegou finalmente a reedição por que todos ansiavam, a começar pelas donas de casa. Sim! O álbum de 1987 dos Negativland, “Escape from noise”, é uma peça fundamental do lar. Mas agora há motivos de sobra para nos regozijarmos com esta nova reedição, já que se trata, nem mais nem menos do que uma “exactomasterização”, como vem anunciado na embalagem de forma exuberante. A única e inconfundível masterização que deixa tudo exactamente como estava. Ou seja, não há temas extra, o som não sofreu qualquer melhoramento ou modificação e apenas a gravura da capa é agora uma ampliação da que vinha na anterior reedição pela Cuneiform. A outra mudança, como o grupo faz questão de notar, é o desaparecimento, entretanto, da União Soviética, que servia de mote ao tema “Time Zones”.
É mais um dos múltiplos truques que os Negativland costumam usar para fintar a indústria, mas não é por isso que “Escape from Noise” vê diminuída a sua condição de obra fundamental dos anos 80, com continuação à altura nos anos seguintes em trabalhos como “Free” ou “Disepsip”.
Álbum de colagens, de sons caídos em desgraça e melodias em estado de graça, “Escape From Noise” é um manifesto contra a paranóia americana, contra a paranóia internacional, contra a paranóia individual. O álbum é todo ele, de resto, uma paranóia. A crítica é feroz, o ataque ao “mainstream” – no tema “Michael Jackson”, simples enunciação de nomes presentes regularmente nas “charts” norte-americanas completada com a frase que dá tótilo ao álbum, “Há alguma forma de escapar ao ruído?” – mortífero. “The Playboy Channel”, “Stress in marriage”, “Methods of torture”, “Car Bomb”, dissecam a loucura, cospem na sopa e fazem literalmente explodir bombas na sala de estar do conformismo. E “Christianity is Stupid”, claro, que serviu de base a um dos mais geniais embustes da história da pop através do qual os Negativland cobriram de ridículo toda a rede dos “media” dos Estados Unidos, história que o grupo daria a conhecer em pormenor no álbum seguinte, “Helter Stupid”. Experimentalismo e humor unem-se a uma excentricidade iluminada neste álbum quenos anos 80 deu um novo sentido à palavra síntese, servindo de manual de guerrilha a toda uma geração de músicos mais novos para os quais a música pop é um fato demasiado apertado. Colaboram em “Escape from Noise”, outros mutantes como os Residents, Jello Biafra (dos Dead Kennedys), Steve Fisk, Fred Frith, Jerry Garcia (o guru, já falecido, dos Grateful Dead), Henry Kaiser, Mark Mothersborough (dos Devo), Tom Herman (dos Pere Ubu) e Alexander Hacke (dos Einsturzende Neubauten). Hoje, como ontem, é difícil escapar ao ruído. Mas enquanto não é descoberta a fórmula definitiva para eliminar a poluição, auscultadores nos ouvidos e volume no máximo, até rebentarem os tímpanos com “Escape from Noise”! A surdez é a solução final. Se ainda não tem, compre já! (Seeland, distri. Ananana, 10/10).

“Pioneers who got Scalped” é uma antologia bastante completa dos Devo, os andróides de Akron que se metamorfosearam em batatas, usavam abat-jours na cabeça, defendiam a teoria de de-evolução e, a brincar, iravolta na pop electrónica. Dos 50 temas retirados de toda a sua discografia fazem ainda parte, além de remisturas, ver~soes alternativas, incluindo as gravadas pelo projecto Booji Boy, que viria a dar origem aos Devo, como “Jocko Homo” e “mongoloid”. Excelente, divertido e uma boa aposta para surpreender nas festas mutantes deste Outouno. (ed. e distri. Warner Music, 8/10).

Haverá quem ainda se lembra de “Déjà Vu”, o álbum resultante da junção do trio David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash – que já gravara antes “Crosby, Stills & Nash” – com Neil Young, vindo dos Buffalo Springfield. As harmonias vocais que ficaram como imagem de marca tornaram-se mais ricas mas a excessiva preocupação em dividir a composição em partes iguais pelos quatro não resultou numa melhoria sensível em relação ao álbum anterior, apesar da crítica o considerar um dos clássicos da “country pop” dos anos 70. Mas canções como “Helpless”, “Déjá Vu” e “Our House” ilustram de forma mágica a época dourada do pós-psicadelismo americano: “cool”, melódica e mais interessada nas emoções veiculadas numa canção do que nos golpes de experimentalismo ácida dos sons e da mente… (Atlantic, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10).

Que foi que fez, e de que maneira, Eric Burdon, um dos profetas do psicadelismo na sua versão “bad trip”, que explorou de forma quase demencial, antes de se lançar nos barcos do “funk” com o grupo “War”. Mas os The Animals eram, nos anos 60, animais selvagens e o ácido corria-lhes nas veias. “Winds of Change”, do ano de graça de 1967, é um clássico do psicadelismo de tonalidades carregadas. Burdon pulverizava-se em máscaras vocais. “Sitars”, vibrafones, guitarras tripantes e toda a espécie de distorsões de estúdio criam um mundo de sombras onde até as letras são “viagens” com as quais é preciso saber lidar. A versão de “Paint it black”, dos Stones, faz assim sentido num ábum que em pleno “Verão do Amor” atirava à cara dos “hippies” temas como “The black plague”, “Hotel hell” e “It´s all meat”, este último uma apologia do sexo enquanto tráfico de carne capaz de fazer estremecer as doutrinas do “flower power”. E “San Francisco nights” é um voo planante e uma extraordinária canção pop que voa tão alto como “8 miles high” dos Byrds… (Polydor, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10).

Entre as bandas do progressivo que se gabavan de lidar com o diabo, os Black Widow rivalizavam com os Black Sabbath, tendo em Jim Gannon o seu antipapa do oculto. “Come to the sabbat”, incluído no primeiro e melhor álbum da banda, chegou a ser um hit mas ao terceiro álbum, “Black Widow III” (1971), já sem Gannon e com uma formação descaracterizada, o grupo afadigava-se em alinhar riffs onde o saxofone, a flaita e os teclados não necessitavam já de qualquer exorcismo para poderem ser ouvidos por qualquer bom cristão (Repertoire, import. Fnac, 6/10).