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Negativland – Desipsip

07.11.1997
Pipse-Cola
A Escolha De Uma Geração Negativa
Negativland
Desipsip (9)
Seeland, import. Ananana

negativland_desipsip

LINK (Over The Edge Vol. 7: Times Zones Exchange Project (1994) – parte 1)
LINK (Over The Edge Vol. 7: Times Zones Exchange Project (1994) – parte 2)

“Desipsip”, “Ideppiss”, “diseipso”. O título, construído a partir de um anagrama com a palavra formada pelas letras “P”, “E”, “P”, “S” e “I”, do novo álbum dos Negativland, “o pesadelo das marcas registadas”, como já são conhecidos, é facultaivo. Quem estiver interessado em saber o nome verdadeiro e a sua pronúncia correcta, poderá fazê-lo através do telefone 510-466-5253, durante este ano e o próximo. Desta feita, o massacre tem como alvo a Pipse-Cola, como antes já tivera os U2 (“a pior banda do universo”, na óptica dos Negativland).
A este propósito, recorde-se que esta banda norte-americana editou também, por escrito, “The Story of the Letter ‘U’ and the Numeral ‘2’, na continuação do seu jogo do rato e do gato contra o sistema em geral e contra quela banda irlandesa em particular. Lembremos ainda o xeque-mate aos “media” levado a cabo no álbum “Helter Stupid”, onde conseguiram cobrir de ridículo os jornais e a televisão norte-americanos, pondo a nu as disfunções do processo de difusão de informação pela comunicação social.
“Psisiped” começa por ser um achado, logo pela capa, o síbolo tauista da totalidade, expressa na dualidade Yang/Yin, que os Negativland imprimiram com o vermelho e o azul da Pipse. Bingo! O jogo passou a ser jogado a uma escala planetária. Todas as faixas aludem a esta marca de refrigerantes, mas o discurso opta, de forma inteligente e cem por cento eficaz, pela ironia, na dissecação da sociedade de consumo nos seus vários aspectos – das técnicas de controlo à subjugação e alienação das massas. Em termos gráficos, outro triunfo. Quem abrir a caixa do CD terá ao seu dispor uma enorme garagalhada. Há ainda um livrete de conselhos à Pipse e à Caco-Cola, “A Proposal to Coke and Pepsi” (com os respectivos sinais de marca registada), para obtenção dos melhores resultados nas suas respectivas estratégias de dominação planetária, da autoria da “One World Advertising”, contendo informações confidenciais (!) relativas às “conclusions of the Corporate Cola Strategy Analysis Project, with non-problematic solution recommendations”.
Verifica-se assim que, em definitivo, a obra dos Negativland passou a ser indissociável de um conceito termático central, determinante de toda a componente musical, algo que já se pressentia, embora ainda numa perspectiva gçlobalizante, no genial “Escape From Noise”. Tal estratégia tem como risco principal tornar irrelevante a música propriamente dita e foi isso que, de facto, aconteceu, em álbuns como “U22, “Guns” e em partes de “Helter Stupid”, onde as palavras, e a sua manipulação, passavam o discurso musical para um plano secundário.
Posteriormente, porém, os Negativland emendaram a mão e, depois do magnífico “Free”, “Pedispis” volta a colocar o grupo na vanguarda dos grandes corruptores da pop. Não desapareceram, como seria de esperar, essas apropriações de discursos fragmentários arrancados, neste caso, de programas de rádio, anúncios da Pipse, cassetes privadas de empresas ou excertos do julgamento de O. J. Simpson, entre outras fontes, mas funcionando como separadores de canções que são já pura subversão, na medida em que esfrangalham o contexto original da “genuína” música norte-americana, atirando a “country music” e a “surf music” dos Beach Boys para o esgoto do risível. Neste sentido, os Negativland estão bastante próximos de um grupo como os Residents, com a diferença de que a sua estratégia e métodos de trabalho são mais claros e directos que os dos “eyeballs” de São Francisco.
As habituais elaborações electrónicas, de uma falsa pop electrónica, fazendo lembrar, por vezes, Steve Fisk (que participa no ´lbum) e Chris Burke (de “Idioglossia”), disfraçma-se numa ingenuidade “naif” que trai os seus “tenebrosos” (para a indústria…) propósitos. Temas como “Drink it up” (sobre a viciação), “Why is this commercial?”, “A Most Successful Formula”, “The Greatest Taste Around” ou “Voice Inside My Head” são alguns dos hinos e manifestos de uma lucidez quase cruel, ou anedotas assassinas, de “Siedpsip”, o álbum mais acessível e imediatista de toda a discografia dos Negativland mas, por este motivo, aquele onde a mensagem passa com maior intensidade. Os Negativland transforma em música a farsa consumista do final do século, arrastando consigo a devoção de muitos e a maldição de uns quantos. “This is the choice of a negative generation”, proclamam, numa oração invertida em honra da Pipse. Têm razão. Pertence-lhes a tarefa, escatológica, de fazer chafurdar o cidadão respeitável no líquido das suas iniquidades. Quer ele tenha o rótulo de “Caco-Cola” ou “Pipse-Cola”.

The Residents – Roadworms

22.09.2000
The Residents
Roadworms (7/10)
Euro Ralph, distri. Ananana

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LINK (The King And Eye)

Para quebrar desde logo a tensão decidimos ser os primeiros a revelar, ao fim de quase 30 anos de anonimato, o nome dos quatro Residents. São eles, por ordem de idades: John Curtis, David Pipkin, Samuel Meurice Norton e Clem Duvall. Estão contentes, estão? O novo álbum dos “Fabulous Four” de Shreveport, Louisiana, foi gravado em Berlim no intervalo de uma digressão pela Europa, com o intuito de experimentar em estúdio alguns dos arranjos utilizados nos concertos, sem a pressão do público e o incómodo das máscaras (que a partir de agora, dado que a sua identidade já é conhecida, são desnecessárias), sendo a maior parte dos temas gravados ao primeiro “take”. A música é em simultâneo complexa, infantil e sinistra. Reis do grotesco, empenhados na eliminação da música pop como a conhecemos, o vírus propaga-se aqui, como já se vinha propagando em anteriores trabalhos como “God in Three Persons” ou “Stranger than Supper”, por via de uma vertente pseudo-religiosa que recorrendo a temáticas bíblicas, pretende pôr de cabeça para baixo os dogmas do Cristianismo. São lenga-lengas doentias na voz dos convidados Mr. Skull e Molly Harvey 8por vezes evocativas do genial e já longínquo naufrágio, “Not Available”), misamas colados à humidade fria de globos oculares em permanente vigília, simulacros de “gospel” celebrando o inferno, hinos de condenação, infecções da alma, pautados de forma insistente pela sonoridade litúrgica de um órgão de igreja. “Judas saves” termina a função com um simulacro simiesco da ópera-rock “Jesus Christ Superstar”. Para rir ou ter medo, consoante as crenças e o estado de espírito de quem se dispuser a assistir a esta missa sem Deus.

Pascal Comelade – Swing Slang Song (self conj.)

15.09.2000
Pascal Comelade
Swing Slang Song (6/10)
September Song (8/10)

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LINK (Danses Et Chants De Syldavie – 1993)

Les Disques du Soleil et de l’Acier, distri. Megamúsica
Singles de 70 minutos, álbuns duplos de 10 minutos, nunca se sabe o que passa pela cabeça deste francês que não nasceu na França quando resolve editar discos. Acabaram de sair mais dois, deste maníaco dos instrumentos de brinquedo que gosta de fazer versões de canções recolhidas de todas as décadas para as despedaçar com o empenho de uma criança mimada. “Swing Slang Song” (oito canções, 16m27, o título tema é uma variante de uma canção dos Can, “Sing Swan Song”…) soa, porém, um bocado desconjuntado, de pouco servindo a consistência vocal de P. J. Harvey em “Love too soon” e as duas dedicatórias, a Ornette Coleman e a Kevin Ayers, num disco que não impressiona só por saber fazer beicinho. Do naipe de compositores de “September Song” (digipak, sete canções, 19m27) fazem parte Adriano Celentano (“24 mila baci”), Toto Cotugno (“L’Italiano”), Bob Dylan (“Knockin’ on heaven’s door”) e Robert Wyatt. Este último, além de cantar de forma superlativa e pungente no título-tema, assinado por Kurt Weill, viu ainda incluído um estranho instrumental da sua banda Matching Mole (“Signed curtain”, do álbum “Little Red Record”) aqui interpretado ao piano pelo “francês”. Comelade volta a fazer funcionar neste seu novo embrulho de nostalgia a sua táctica pessoal, através da qual consegue fazer-nos habitar os seus universos de pé-quebrado. Além dos habituais brinquedos, Comelade toca sintetizador Moog, o que não acontecia desde o magnífico “Détail Monochrome”, e uma “anti-techno orchestra”. Dylan devia ainda agradecer-lhe ter transformado uma canção sua em algo hilariante. Convidem o homem para “Os Reis da Música Nacional”!