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Essa Treta De Sermos Todos Amigos – artigo

Pop Rock

21 de Dezembro de 1994

ESSA TRETA DE SERMOS TODOS AMIGOS

Natal, tempo de tradição. De rituais que se repetem. Mas para Filipa Pais e Júlio Pereira, dois músicos que de perto convivem com a música tradicional e que o PÚBLICO juntou num almoço em Lisboa, esta época diz pouco, no que diz respeito aos seus aspectos mais convencionais. Concordam ambos que a reunião da família é o mais importante. A cantora de “L’ Amar” ainda sente prazer em dar e receber prendas. Quanto ao instrumentista e autor de “Acústico”, o dia de Natal limita-se a ser um período de férias forçadas, amizade ao cronómetro, demagogia e mais trânsito nas horas normais.


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Escolheu-se para local de repasto o restaurante O Fumeiro, especializado na cozinha tradicional das Beiras. Mãozinhas de vitela para Júlio Pereira, um cozido à Beirão portentoso para Filipa Pais, antecedidos pelo petiscar de morcelas, linguiça em vinha de alhos, farinheira, salpicão, queijo da serra e requeijão. Comida forte, amenizada por um Quinta do Cotto de 91, de veludo, óptimo para confortar o espírito mas também para dissolver resistências interiores e desatar a língua.
Satisfeito o paladar, o natal passou a tema de conversa. Relembraram-se festejos passados em família. O Natal de hoje, esse, parece já não dizer nada tanto a Filipa Pais como a Júlio Pereira. Afinal, um dia de Inverno como outro qualquer. Ou quase… “Nunca sei quando é que é sexta, ou sábado, ou… só sei quando é domingo porque é o dia em que não encontro ninguém para jantar. Dias de festa, não sei o que é isso!” – diz Júlio Pereira, o mais desencantado dos dois – “A minha relação com o Natal é uma coisa muito estranha. De repente começo a aperceber-me que há muito trânsito às horas normais. Ligo a televisão e é só anúncios. E depois há aquela coisa dos telefonemas dos amigos e da família e só aí é que tenho consciência que é natal. Aliás, o natal resume-se para mim simplesmente a ir almoçar a casa dos meus pais.” Júlio Pereira passou sempre o Natal na cidade. “Só as férias grandes, em miúdo, é que eram passadas na Beira baixa.” Nos últimos anos, porém, essa rotina foi quebrada, com o dia de Natal passado em Braga “na casa de uma família de amigos”. Júlio Pereira não vive de facto o espírito de Natal. “De facto não tenho prática”, diz, “o Natal para mim é uma espécie de férias inevitáveis”.
“Estou chocada!”, foi o comentário proferido em tom de brincadeira por Filipa Pais, embora reconhecendo que para si o Natal “já não tem nada a ver” com o que era “quando tinha sete anos”. Nessa altura, embora o pai da cantora não fosse religioso nem ela própria seja baptizada, “o que acontecia era sempre uma grande festa familiar”, normalmente na casa da mãe, no Campo Pequeno, em Lisboa. “Eu tinha já nessa altura a preocupação de oferecer prendas a outras pessoas, a mesma preocupação que me persegue agora. Nunca acreditei no Pai Natal mas o meu pai faia sempre aquela coisa de estarmos todos na sala e ele a fingir de Pai Natal, aquele número que já toda a gente sabia. Íamos todos à chaminé buscar as prendas todas.”
Júlio Pereira também nunca se deixou “enganar”: “Lembro-me de estar à espera no outro dia, acordar cedo e ir a correr para a chaminé. Mas tive azar porque faço anos a 22 de Dezembro. A prenda era sempre uma só.” “Horrível!”, exclama Filipa Pais. “Não gosto da demagogia em torno do Natal”, continua o homem do cavaquinho, da braguesa e do bandolim, “essa história de sermos todos irmãos nesta data sempre me meteu muita aflição. O pretexto de uma amizade pontual situada num dia tal do ano em que temos todos que ser amigos e darmos coisas uns aos outros é uma coisa ridícula”. Filipa Pais concorda. Para ela, todo esse lado do Natal “é uma treta!”. O que não a impede de viver um pouco o espírito natalício, já que vai participar no Natal dos Hospitais, que este ano se realiza no Hospital Júlio de Matos. “Antes no Júlio de Matos do que no Júlio Pereira!”, acrescentou de imediato o instrumentista. “Mas quando recebes postais de Natal dos teus amigos, não gostas?”, pergunta a cantora. “Não, de tal maneira que nem sequer os mando. Mas atenção tens que perceber que como faço anos a 22, até 25 é uma zona de festa mas muito ligada ao meu nascimento e não ao do Cristo.”
Filipa Pais dá e recebe prendas no Natal. Júlio Pereira, só ao filho e aos pais. “Gosto ainda mais de receber prendas quando não estou à espera”, diz a cantora, que as oferece apenas quando lhe “apetece”, não só no dia de Natal nem no dia de anos. Para ela, este Natal vai ser igual ao dos últimos anos, passados com a família em Lisboa. Júlio Pereira tenciona passar a véspera na casa da família de José Afonso e o almoço do dia de Natal com os pais. “Depois já sei que vai ser uma seca ao jantar, não sei se vou ter alguém com quem jantar. Está tudo fora.”
Seguiram-se os brindes de Natal. Júlio Pereira foi directo à questão: “Desejo que a minha própria editora se lembre, nesta data festiva, de informar as pessoas, o país, que saiu um disco meu.” Filipa Pais, mais evasiva, deseja que não haja “mal-entendidos” entre ela, as pessoas com quem trabalha e os seus amigos. E garante que, “egoisticamente”, a prenda que mais gostaria de receber era “uma casa boa, em Lisboa, mesmo no centro, com uma boa vista e jardim”. E a seguir outra casa “fora de Lisboa”. “Tinha que ser um pai Natal muito rico!” E, já agora, que o seu disco “venda bem”. Em tom menos materialista, Filipa Pais gostaria ainda que este Natal lhe trouxesse a possibilidade de “estar sempre muito bem e ter a capacidade para resolver todas as questões que poderão existir no próximo ano”. “Paz, paz, paz para o mundo inteiro” são ainda os votos da cantora, de imediato contrariados por Júlio Pereira. “Não acredito na paz nem um bocadinho! Se houvesse paz, a vida não tinha piada nenhuma. Claro que estou a falar da tal paz, sinónimo de pasmaceira, de sermos todos irmãozinhos a vivermos democraticamente as mesmas coisas.”
Prendas, Júlio Pereira contenta-se com uma: “Fui informado que o Naná Vasconcelos quer tocar comigo.” “A gente espera sempre o melhor”, continua, “sou músico, sempre fui e acho que vou ser, por isso o que espero é continuar a ter imaginação e saúde”. “Saúde! Saúde, sim!”, corrobora Filipa Pais, “saúde física e mental”. “Não acho que os discursos de Natal sejam eficazes”, acrescenta Júlio Pereira, “da mesma maneira que não faz sentido um fulano qualquer que nesse dia vai entregar umas roupas velhas a um mendigo na rua. Não acredito nesse gesto. Que esse gesto modifique a atitude do próprio mendigo. Além disso, os sistemas políticos reviraram toda a simbologia do Natal, que se transformou na época de maior consumo em qualquer país industrializado.” Para Júlio Pereira, o mais importante passa “pelo encontro de pessoas que gostam de estar umas com as outras, várias vezes ao longo do ano e não, como faz muita gente, resumir tudo num momentinho, no Natal”.
O almoço prosseguiu, e com ele o desfiar do rosário de algumas das misérias que minam a música portuguesa. Mas essas são histórias de todo o ano e não será o Pai Natal que as vai resolver. E Filipa Pais acabou a cantar o “Feliz Natal”…

EMENTA

Vinho tinto, Quinta do Cotto, colheita de 1991
Entradas: (farinheira, moira, morcela, linguiças em
vinha d’alhos, presunto, salpicão, queijo da serra,
requeijão).
Júlio Pereira: Mãozinhas de vitela
Filipa Pais: Cozido à beirão
Leite creme
Café
Whisky

Júlio Pereira – Acústico
Filipa Pais – a partir daqui…



O Regresso Dos Clássicos – artigo

Pop Rock

5 JANEIRO 1994
O ANO EM MÚSICA POPROCK PORTUGUESA

O REGRESSO DOS CLÁSSICOS


1111

Em 1992 o ano passado passou a sê-lo menos, na música popular portuguesa. Obras fundamentais de décadas anteriores perderam a poeira, os riscos e a “patine”, para se apresentarem de cara lavada no formato digital. Os novos têm desde agora ao seu dispor compêndios onde podem dar de beber à inspiração. Claro que muito ficou por reeditar, mas o caminho parece estar traçado, sem hipótese de retorno.

Durante os primeiros seis meses foram reeditados em Portugal e em CD algumas obras fundamentais da música de Cabo Verde. Primeiro a rainha da morna, Cesária Évora, com “Destino de Belita”, o menos conseguido, “Mar Azul”, um dos discos mais belos de sempre da música lusófona, e “Miss Perfumado” que, só em França, já vendeu para cima de 50 mil exemplares. No mesmo mês chegou aos escaparates outro nome mítico da música das ilhas, António Vicente Lopes, ou Antoninho Travadinha, com “Travadinha – Le Violin du Cap Vert”.
Junho foi o mês da chegada de mais mornas, desta feita assinadas por B. Leza, na voz de Titina. Vitorino foi o primeiro português a merecer honras de reedição. “Leitaria Garrett”, o já clássico retrato de Lisboa do princípio do século, aí está de novo, liberto de ruídos e preconceitos. Já perto do final do ano, o cantor alentejano viria a reincidir, lançando uma colectânea que inclui as canções por si consideradas “as mais bonitas” da sua carreira. Enquanto isso o seu irmão Janita Salomé soltava o “cante” alentejano e outros ventos ainda mais a sul com “Melro”. Em Setembro Pedro Caldeira Cabral mostrou na guitarra portuguesa as suas fusões com a tradição e a música de câmara em “Pedro Caldeira Cabral” e “Duas Faces”. Em minidisc saíram entretanto “Fados de Coimbra”, Traz Outro Amigo Também” e “Cantigas do Maio”, de José Afonso.
Já em Dezembro chegou a vez das homenagens. Vicente da Câmara, José da Câmara e Nuno da Câmara Pereira evocaram os fados e a música de Maria Teresa de Noronha, falecida este ano, em “Tradição”. Homenagem a Maria Teresa de Noronha”. Na calha estão o disco de homenagem a José Afonso, que levará a assinatura da maior parte dos nomes mais conhecidos da nossa cena musical, e outro em que o homenageado será António Variações, com edição prevista já para este mês.
Quem não esperou pelo novo ano foram os Castro e Barius que em “Tributo” “assassinam” a música de José Afonso, Fausto e Vitorino. José Afonso que, se fosse vivo, teria gostado de ver as reedições em compacto que se fizeram de “Galinhas do Mato” e “Zeca Afonso no Coliseu”.
Com a “Pedra Filosofal” voltou a obra de Manuel Freire. Por cumprir fica a promessa de reedição em caixa da obra completa de Adriano Correia de Oliveira. Outras duas caixas de triplos CD’s, entretanto já lançadas, são: uma de declamação de poesia pelo grande João Villaret, outra com “O Melhor” da fadista castiça Hermínia Silva.
“Cavaquinho”, de Júlio Pereira, encetou entretanto a reedição dos primeiros trabalhos deste artista, na mesma altura em que a Banda do Casaco começava pelo fim, lançando as edições em compacto de “No Jardim da Celeste”, “Também Eu” e “Banda do Casaco com Ti Chitas”, deixando para a próxima os quatro álbuns que faltam. A canção ligeira do final dos anos 60 foi recordada através de “Os Primeiros Êxitos” de Carlos Mendes e Fernando Tordo, os mesmos de Falas Tu ou Falo Eu.
Finalmente, num ano que assistiu ao renascimento do rei do twist Vítor Mendes, não causou surpresa o reaparecimento e recuperação de bandas ié-ié dos 60 como os Sheiks e o Conjunto João Paulo. E porque não começar o novo ano a ouvir “A lenda de el-rei D. Sebastião” e “Balada para D. Inês”, duas canções que puseram o comboio em andamento, incluídas na colectânea “A lenda do Quarteto 1111”?

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Fredo Mergner – Entrevista

Pop Rock

16 de Novembro de 1994
EM PÚBLICO

FREDO MERGNER *


fredo mergner

O seu primeiro disco a solo, “À Sombra da Figueira”, soa por vezes bastante nostálgico. É uma pessoa triste?
A tristeza é sem dúvida um elemento presente. Não sou propriamente uma pessoa triste mas sim sentimental. Mas essa tristeza, ou essa nostalgia, que diz sentir ao ouvir o disco, isso para mim já significa que consegui transmitir esses sentimentos.

Essa nostalgia tem a ver com o facto de ter nascido na Hungria, ou seja, de viver numa pátria que não é a sua?
Vim para Portugal em 1977, tinha 24 anos. Fiz a minha evolução em Portugal. As minhas influências, recebi-as de Portugal. Considero-me um cidadão português. Falo português… Mas é difícil ser-se português em Portugal… Se estivesse na América, passados dois anos, podia logo dizer “I’m american” e toda a gente acharia isso normal. Em Portugal é diferente, é um país antigo, cheio de tradições, com raízes culturais fortes. A adaptação é muito mais difícil do que num país muito novo como os Estados Unidos.

Que razões o levaram a deixar a Hungria?
Deixei primeiro a Hungria para ir viver para a Alemanha, só depois é que vim para cá. Tinha acabado o curso de Antropologia e não tinha nada planeado. Cheguei a Portugal e fui ficando por cá. Tive uns amigos portugueses que me perguntaram se não queria ficar a viver em Lisboa. Fiquei.

É verdade que antes da guitarra estudou harpa?
Sim. Aliás nasci numa família que tem raízes musicais fortes. Todas as pessoas que fazem parte dela têm jeito para a música. O meu primeiro instrumento, aos cinco anos, foi o acordeão de botões. Aos de comecei a tocar trompete numa banda filarmónica e aos dezasseis comecei a estudar harpa, que foi aliás o único instrumento em que tive aulas a sério. Claro que toquei sempre um bocado de guitarra, uns acordes. Fazia parte de uma banda de liceu, no fim dos anos 60. Mas só passei a dedicar-me á guitarra a partir dos 18 anos. Mas como já tinha um “background” musical foi fácil, ao fim de seis meses já tocava peças difíceis.

São perceptíveis neste disco certos fraseados na guitarra que lembram a harpa, Andreas Vollenweider por exemplo…
Certamente estão lá coisas da harpa, sobretudo nos harpejos e em certos acentos musicais.

“À Sombra da Figueira” pretende ser um disco de música portuguesa? É que por vezes é notória a distância, um certo desfasamento de sensibilidades…
É uma fusão. As influências vêm da música portuguesa e da música sul-americana, brasileira por exemplo, e da música espanhola. “Almas perfumadas”, por exemplo, é uma fusão entre um fadinho e o chorinho. Tive uma fase em que estudei mesmo o chorinho. Tenho uma grande colecção de partituras de chorinho. Por outro lado, a utilização da guitarra portuguesa é diferente. Uso a guitarra portuguesa de uma maneira diferente do fado, onde a viola é quase um escravo. De certo modo inverto os respectivos papéis. A música espanhola vem também daqui, do ambiente que se vive em Portugal.

Como definiria esse ambiente?
Um pergunta um bocado difícil. Como já disse, fiz a minha evolução aqui, como autodidacta. Nunca ninguém me mostrou nada. Nu fundo, tudo o que sei e faço em música foi conseguido por mim sozinho, sem auxílio, deixando actuar sobre mim os ambientes. Ambientes que os próprios portugueses, por dificuldades várias, económicas e outras, não sabem aproveitar.

Concorda que o disco se pode inscrever na categoria do “muzak”, música de fundo sem grandes pretensões?
Não é um disco de música instrumental vulgar. Normalmente, a função da música instrumental é servir de música de fundo. Penso que o meu álbum exige uma audição um bocado mais atenta. As pessoas costumam comentar e pôr algumas reticências por ser um disco sem voz. Costumo dizer que é a guitarra que canta. É um instrumento que, bem tocado, tem as possibilidades expressivas de uma voz. Pode-se bater nela ou ser suave e fazer-lhe festinhas. Consoante o caso, assim sai o som.

E uma forma de resistência aos Resistência?
É importante dizer que sou compositor, além de executante. Nos Resistência, o meu trabalho a minha contribuição é importante para o som do grupo. Mas isso não impede que, enquanto compositor, não sinta necessidade de pôr as minhas composições cá fora. Já tenho uma obra escrita bastante volumosa, os nove temas do disco foram escritos para agradar o mais possível às pessoas. Não quis que fosse um disco supervirtuoso, mas sim um disco instrumental que agrade a muita gente e venda minimamente, mantendo um mínimo de virtuosismo e bom gosto. Não pretendi fazer um disco para ficar na prateleira, em que só uma elite reconhece a qualidade.

De onde veio a ideia de tocar ao vivo nos locais onde tem dado entrevistas de promoção? (Por ocasião desta entrevista, Fredo Mergner interpretou em guitarra portuguesa três temas de “À Sombra da Figueira” na redacção do PÚBLICO, acompanhado por Pedro de Faro, na guitarra.)
Em certa medida, é “marketing”. Mas o importante é, tendo um disco instrumental cá fora, conseguir construir a minha imagem como solista, como guitarrista. Procuro que as pessoas me vejam com o instrumento na mão, que me associem ao instrumento. E ao mesmo tempo mostrar que consigo tocar em qualquer lado e em qualquer situação. Sou um tocador de guitarra. De resto, estou a preparar uma banda para tocar comigo ao vivo. Com o Pedro de Faro, dois percussionistas, um baixista e um teclista.

* guitarrista dos Resistência, acabou de lançar a sua estreia a solo, “À Sombra da Figueira”