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Camané – “Uma Noite De Fados”

POP ROCK

3 de Maio de 1995
álbuns portugueses

Camané
Uma Noite de Fados

EMI-VC


cam

De tão simples, a ideia chega a espantar. Mas era preciso que alguém a pusesse em prática, e esse alguém tinha de ser José Mário Branco, mestre entre os mestres da produção. Gravar em estúdio como se fosse ao vivo ou vice-versa, eis a questão que se punha. A solução foi a criação de um cenário realista de uma casa de fados onde, ao mesmo tempo, fosse possível acontecer toda a emoção inerente ao fado cantado “in loco” nos sítios tradicionais e reunir as melhores condições técnicas da captação possíveis. Montado tal cenário, faltava saber se o fadista conseguiria tirar o máximo partido da situação. Ao desafio assim colocado pelo produtor respondeu Camané da melhor maneira. A garra do fadista veio ao de cima, com uma pureza despojada, afastadas as distracções, os fumos, os aplausos extemporâneos, as falhas que espreitam sempre que a emoção toma o freio nos dentes e a disciplina não lhe acompanha o passo. Excelentes o peso e a medida da voz e do sentimento de Camané em “Esquina da rua” (com algumas oscilações de volume pelo meio), “O espaço e o tempo”, “A saudade aconteceu”, “Fado da sina” e “Esta contínua saudade”. “Fado da tristeza” toca no fado-canção e em cantos antigos de um Carlos do Carmo, um toque em que é visível o dedo de José Mário Branco como compositor, enquanto “Saudades trago comigo” deixa adivinhar as condições de ambiente em que foi gravado. Em síntese, um projecto conseguido e inovador que volta a colocar o fado no lugar que lhe compete, na estreia em disco de um dos “veteranos” mais jovens do circuito. (7)



Camané – Artigo de Opinião

POP ROCK

19 de Abril de 1995

Camané grava em condições inovadoras

NUMA CASA DE FADO VIRTUAL


camané

Camané não poder ser considerado uma esperança do fado pela simples razão de que, aos 28 anos de idade, já leva 15 a cantar aquele género musical nas casas da especialidade. Vencedor, aos 12 anos, do Grande Noite do Fado, em 1979, filmado por uma cadeia japonesa para a série Crianças do Mundo, interrompeu a sua carreira entre os 14 e os 18 anos, para regressar mais tarde ao fado e às suas capelas, do Fado menor, Senhor Vinho e Faia. Projectos para discos, esse foram ficando na gaveta, entre as noites fadistas e participações na “Grande Noite”, “Maldita Cocaína” e “Cabaret”, de Filipe La Féria. Até que a oportunidade surgiu através do convite que lhe foi feito por José Mário Branco, para produzir o álbum de estreia. Uma ideia germinada a partir do quartel-general no Teatro da Comuna e que levou à edição de “Uma Noite de Fados”, com o selo EMI-Valentim de Carvalho.
“Uma Noite de Fados” pode ser considerado um disco revolucionário no modo como foi produzido. Para o efeito, foi criado o ambiente de uma casa de fados, com convidados, comida e bebida à discrição. Posteriormente foram apagados da fita todos os ruídos (palmas, incitamento, etc.) do público, preservando-se apenas a música, recortada do ambiente ao vivo. “O que se procurou foi obter um suplemento de riqueza de interpretação”, diz José Mário Branco, o produtor, para quem o “fado é uma arte extremamente presencial, dependente da vivência directa do ambiente e da qualidade do público”.
Por outro lado, justificando a posterior eliminação dos ruídos exteriores, José Mário Branco defende que “a envolvência – a luz, os cheiros, as reacções do público – não é mediatizável”. “Agi como um encenador”, diz, “como uma pessoa que vê e sente o espectáculo antes dos outros. Peguei no som, levei-o para casa numa caixinha de plástico, como se fosse uma bolacha, meti-o na minha aparelhagem doméstica e comecei a ouvir, nas mais diversas circunstâncias. Achei que pôr os aplausos seria um factor dispersivo, desviando do essencial que é a interpretação.” José Mário Branco conta, inclusive, que pediu previamente ao público para “ao contrário do que acontece nas casas de fado”, não aplaudir no fim”. “Fazia um sinal. No fim dos fados tinha um braço levantado, deixava a ressonância dos últimos acordes. Só quando baixava o braço é que podiam aplaudir. Foi uma ‘violência’ para o público, houve até pessoas que reagiram desagradadas, achando uma chatice não poder ser como é costume. Curiosamente, isto provocou um aumento dos aplausos, motivado pela tensão criada pelo intervalo de espera.”
Camané, por seu lado, não sentiu qualquer dificuldade em se integrar nesta situação, paredes-meias entre o natural e o artifício. “Foram quatro noites em que se foi criando um ambiente. Às tantas, já quase me esquecera que estava a gravar.” Quatro noites, ao longo das quais foram sendo efectuados vários “takes” do mesmo fado, seleccionando-se aqueles considerados melhores. Uma selecção que inclui, entre as diversas autorias, dos textos e da música, os nomes de Frederico de Brito, Luís de Camões, Carlos Mendes, João Fezas Vital, Joaquim Campos, Ruy Belo, Miguel Ramos, Vasco de Lima Couto, Aldina Duarte (mulher de Camané), Gabriel de Oliveira, Fernando Farinha, Paulo de Carvalho, Manuela de Freitas e o próprio José Mário Branco.
Para Camané, esta “noite de fados” poderá significar fazer chegar mais longe o seu fado. Como ele canta, nas palavras de Manuela de Freitas: “O fado que vou vivendo/no canto e no gesto mudo/é tudo o que não entendo/que me faz entender tudo.”
“Uma Noite de Fados” tem prevista uma forma original de promoção. Durante duas noites, ainda sem data marcada, Camané circulará por alguns dos lugares típicos – outros nem tanto – do fado, como a Tertúlia, Senhor Vinho, Frágil, Os Ferreiras, Taverna do Embuçado e o clube de fado S. João da Praça, havendo ainda a hipótese de uma escapada até ao Teatro da Comuna, para cantar durante o intervalo da sessão.



Brindes Ao Passado – artigo de opinião

Pop Rock

28 de Dezembro de 1994

Balanço Português 94

BRINDES AO PASSADO


fm

lagrimas


Com algum tempo de atraso, como é vulgar e de bom tom acontecer neste cantinho lusitano, a moda das homenagens chegou a Portugal. É verdade que por cá não abundam nomes de peso, vivos ou não, que justifiquem tais iniciativas, nem o necessário conhecimento de causa da parte de muitos dos celebrantes. Era preciso procurar mitos, artistas que povoassem o imaginário musical português, capazes de reunir o consenso e atrair tanto os jovens leões como os veteranos. Mas não foi preciso procurar muito. Assim, a jeito e com a estatura mínima pretendida, dois nomes se destacavam à partida, um deles já falecido, o outro ainda vivo e alvo de adoração do povo português: José Afonso e Amália Rodrigues.
O primeiro teve honras de grande acontecimento, através da edição do duplo contendo versões de canções suas, pelos Filhos da Madrugada, designação genérica que englobou praticamente todos os grupos mais conhecidos da pop nacional, mas deixou de fora pessoas que conviveram de perto e tocaram com o autor de “Coro dos Tribunais”. Amália foi, para já, objecto de homenagem mais modesta, por parte de Dulce Pontes, que lhe repescou uma série de fados e adoptou o título de um deles para o seu próprio álbum, “Lágrimas”. Por sinal, também José Afonso foi arrastado na corrente, aproveitando Dulce Pontes para homenagear de uma penada dois artistas cuja obra, ideologia e personalidade não poderiam ser mais opostos.
Enquanto isso, no Seixal, por ocasião das festas de Corroios, alguém se lembrou de editar um “Especial José Afonso”, disco que, curiosamente, não teve o mesmo sucesso de vendas que o dos Filhos da Madrugada. É que não se percebe muito bem o que têm grupos como os Oboé, Nível de Vida, Dixit, Últimos Suspeitos, Quatro+1, Tropa de Choque, Irmãos de Sangue e O Incesto a menos que os GNR, UHF, Sétima Legião, Resistência, Delfins, Madredeus, Peste & Sida, Mão Morta ou Sitiados!
O terceiro homenageado do ano foi outro falecido, António Variações, personagem controversa, ao contrário das outras duas, e, em vida, incómoda para muitos. Foi logo nos primeiros meses de 1994 que os nomes do costume decidiram juntar-se para umas “Variações” em torna deste artista, que adorava Amália, afirmava estar “entre o Minho e Nova Iorque” e misturava nas suas canções preocupações existenciais com uma vertente sonora electropop que, até hoje, permanece como uma das propostas m ais originais da música popular feita em Portugal. Assim, aos especialistas nas homenagens, Delfins (Miguel Ângelo foi dos primeiros a compreender e a “apropriar-se” da música do cantor-barbeiro), Ritual Tejo, Madredeus, Resistência, Sitiados e Mão Morta, juntaram-se Sérgio Godinho, Isabel Silvestre, Santos e Pecadores (bela designação para uma hipotética banda do homenageado…) e Três Tristes Tigres, num álbum que recupera temas dos álbuns “Anjo da Guarda” (1983) e “Dar e Receber” (1984), os únicos que Variações editou em vida.
Foi pois no fundo do baú que muita gente andou a remexer nas raízes perdidas. Num tempo de vacas gordas em termos de vendas (para o qual contribuiu em grande parte a aposta – ganha – na exportação, por algumas multinacionais) para a música portuguesa, a que correspondeu um tempo de crise, em termos de aparecimento de novos valores (exceptuando a saudável investida nas editoras independentes que apresentaram propostas de grande valor como as dos Bizarra Locomotiva, U-Nu ou Tina & The Top Tem, entre outras), investiu-se na bolsa dos valores seguros e na celebração de um classicismo que, inspirado nos tempos áureos da MPP ao longo das décadas de 60 e 70, ganhou novo eco na facção pop. Nesta corrida ao passado encontrou muita gente o fôlego providencial para o relançamento de carreiras em risco de estagnação. Para outros, terá sido verdadeiramente uma sentida homenagem. Para outros ainda, o mero oportunismo e o embarque à última da hora no comboio da jogada comercial. Fossem quais fossem as intenções de cada um, ninguém pode negar, porém, a este fenómeno, das homenagens, uma virtude: a de trazer a música dos mestres para o convívio das gerações mais novas, provocando nelas, como já aconteceu nalguns casos (Paulo Bragança ou a própria Dulce Pontes, por exemplo) o desejo de retomar e actualizar a tradição.

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