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Milladoiro – “Iacobus Magnus (Suite Orquestral)”

pop rock >> quarta-feira >> 19.10.1994
world


Entre O Granito E As Estrelas

Milladoiro
Iacobus Magnus (Suite Orquestral)
Discmedi, distri. Megamúsica



Como escreve Xoan Manuel Estévez no título da sua nota sobre o grupo, os Milladoiro são “algo mais que um grupo folk”. Depois do anterior “Galicia no Tempo”, os Milladoiro tiraram mais um dos véus que ocultam a Galiza profunda, de Rosalia, Casto Sampedro, Conqueiro e Ricardo Portela. Neles, o termo “classicismo” adquire o mesmo significado que tem para os Chieftains, na Irlanda, ou para Alan Stivell, na Bretanha, nos anos 70. Existe uma identificação absoluta entre estes músicos e as terras onde nasceram. No caso dos Milladoiro pode falar-se numa verdadeira peregrinação ao santuário que une passado, presente e futuro. “Iacobus Magnus” – suite orquestral gravada nos míticos estúdios “Abbey Road” com a English Chamber Orchestra e, numa das faixas, a Orquestra Sinfónica de Galicia – como “O Berro Seco”, “Galicia de Maeloc” ou “Galicia no Tempo” é uma viagem pelo interior das lendas e mistérios celtas e em particular pelo interior do especial receptáculo de vibrações mágicas que tem a forma da Galiza. “Iacobus magnus” – inspirado num pentagrama mágico, labirinto de silêncio cujas linhas os Milladoiro preenchem com o sangue e as vozes da Galiza essencial, oculta – baliza um percurso que é exterior e interior, de granito, água, fogo e intuição. Um percurso ao qual os Milladoiro conseguiram arrancar o segredo dos sons. Entre um “Portico” orquestral e “No cabo da viaxe”, um caminho sinalizado pelos “Milladoiro”, montes de pedra dispostos de maneira a indicar a direcção certa a seguir, até à conclusão da “obra”. Um “longo camiño branco”, tema belo de estarrecer, onde a sanfona, primeiro, uma harpa, depois, e as “uillean pipes” levam por terra e pelo ar um desejo de eternidade, algo que nos chama e pelo qual muitos de nós suspiramos, aprisionados numa ilusão de cimento e noutra, mais difícil de romper, fabricada pelo cérebro. “Onde vai aquele romeiro?”, pergunta uma flauta embalada por um órgão com voz de realejo. “Per loca marítima”, respondem a harpa, as cordas, as percussões e um “tin Whistle”, num arranjo que lembra a fase boa de Mike Oldfield ou o “folk rock medieval” dos ingleses Gryphon. “No primeiro Milladoiro”, as “gaitas” rompem finalmente a cantar, secundadas pela delicadeza da harpa (Rodrigo Romani, o harpista do grupo, assume grande parte do protagonismo neste disco) sobre um fundo orquestral. Segue-se novo capítulo, “A noite estrelecida”, no qual a orquestra acende as estrelas que iluminam o céu e guiam os peregrinos, culminando em “No cabo da viaxe”, etapa derradeira, primeiro numa transformação subtil de uma dança irlandesa, com sabor aos Planxty, por último numa explosão de fulgor, na despedida das “gaitas”, símbolo vivo da terra galega, pátria de Maeloc. Pátria dos Milladoiro. Uma viagem sem fim. (8)

Sandra Baptista – “EM PÚBLICO”

pop rock >> quarta-feira >> 12.10.1994
EM PÚBLICO


Sandra Baptista *


Não é vulgar uma rapariga tocar acordeão, ainda por cima numa banda pop. Por que escolheu este instrumentos?
Desde miúda que toco órgão e piano até ao dia em que assisti a uma audição de acordeões numa escola, a única onde ensinam este instrumento, situada na Praça do Chile. Fiquei surpreendida com o instrumento, com a sonoridade. Disse para comigo: “OK, vou aprender acordeão.” Na altura andava a tocar um daqueles órgãos enormes, um Farfisa, com pedaleira… Entrei na escola e comecei a aprender tangos, corridinhos… Tinha nessa altura menos de 15 anos e todos os amigos me influenciavam pela negativa, fazendo-me notar que o acordeão era um instrumento “extremamente piroso, foleiro, ridículo, só para ranchos folclóricos”. Desmotivaram-me bastante. Aos 15 anos parei. Andei na escola, tirei um curso de vídeo. Na escola António Arroio conheci o Jorge Buco, o presente bandolinista dos Sitiados. Falou-me na banda, do Manuel Machado, também acordeonista, que saíra dos Sitiados para entrar nos Essa Entente, e convidou-me para o substituir. Ouvi as maquetas e gostei…
Quais são as suas referências neste instrumento?
Ouço corridinhos do Algarve – que é um grande exercício, obriga a mexer muito os dedos -, o Astor Piazolla, a Eugénia Lima, Edith Piaf, tudo o que tenha acordeão me interessa. O Quim Barreiros já não me interessa tanto. É uma pessoa festiva, só que vai para o lado do javardo. Não é subtil. Tem uma linguagem muito directa, grosseira, que as pessoas quando estão numa de curtir, de festejar, gostam de ouvir e ver. Comparo os Sitiados mais com o conjunto de António Mafra. Mais salão, um bocadinho mais sofisticados. Os Sitiados, se existissem há vinte anos, teriam sido o conjunto de António Mafra. E o conjunto de António Mafra, se tivesse nascido hoje, seria provavelmente os Sitiados… O Quim Barreiros equiparo-o mais aos Ena Pá 2000.
A energia que evidencia em palco é espontânea ou envolve algum grau de teatralização?
Um espectáculo mexe com a adrenalina, com os tiques nervosos. O meu é aquele de andar de um lado para o outro. Mas não sou nada exibicionista. Este meu tique nervoso em cima do palco é porque não consigo fazer as coisas de outra maneira. Não consigo tocar acordeão quieta, sentada, estou a tocar para uma massa de pessoas que estão a mexer comigo, gosto que haja uma cumplicidade. Mas nunca consegui olhar, em nenhum espectáculo – e já vamos com uns duzentos e tal em cima -, para alguém em particular. Agora, é verdade que tenho a noção da postura que fui desenvolvendo. Sei que, se houver um espectáculo em que esteja quieta, poderão eventualmente acontecer problemas. Em palco tenho que me meter com os outros músicos, com todos. Não consigo sentir-me sozinha. Tenho que sentir as energias dos outros. Por exemplo, a pulsação da bateria. Sinto as energias das pessoas. Há espectáculos em que, sem razão aparente, nos sentimos um bocado mais moles ou cansados, sem sabermos porquê. Olhamos uns para os outros e tentamos dar-nos forças. Por vezes há algo estranho.

O acordeão é um instrumento um bocado pesado. Com tanta movimentação, nunca se cansa?
Pesa deze quilos. Mas num espectáculo não sinto o peso do acordeão. Tenho uma técnica diferente dos outros acordeonistas e utilizo uma fita atrás, nas costas, para equilibrar melhor o peso. Isso já ajuda. Depois, quando subo as escadas para o palco, a adrenalina é tanta, o sangue que me corre no corpo vai a uma velocidade tão grande que não consigo sentir nada. Aliás, em palco não consigo pensar, não consigo estar consciente. É um impulso de uma hora, uma hora e meia, como um “flash”. Sinto-me completamente um animal de palco. Um animal irracional. Depois de um espectáculo, no camarim, não consigo falar com ninguém. As pessoas falam comigo e não as ouço. Até a adrenalina baixar, demora pelo menos uma, duas horas. Na Festa das Marés estive quase a noite toda sem ouvir nem falar com ninguém.

Consegue transpor essa energia para o estúdio?
No estúdio é diferente, não sinto nervoso. Não tenho tiques. É um trabalho consciente, enquanto no palco é inconsciente. No estúdio, normalmente quando estou a gravar uma música, gravo-a logo à segunda ou à terceira porque vou bem preparada de casa e dos ensaios. Quanto mais vezes repetir, mais nervosa e chateada com o meu trabalho fico. Nessas alturas paro e passo para outra. Por exemplo “O circo”, do último álbum, foi gravado à primeira. Quanto mais “takes” conseguimos apanhar todos à primeira, melhor. Fica mais aquele “feeling”. E lá fora somos como uma família. Quando vamos beber um copo, somos nós connosco próprios. Eu, por sinal, não gosto de “whisky”, nem vinho, nem cerveja… Estou sempre tramada [risos]. Tenho que inventar uma bebida.

Há outras situações, fora da música, que lhe provoquem as mesmas descargas de adrenalina?
Há. Neste momento, por exemplo [risos], estou a sentir uma certa adrenalina, uma certa excitação. Isto acontece-me quando estamos numa conversa… No próprio diálogo, sinto fases de adrenalina. Sou assim desde miúda. Mas sou muito consciente, atenção!

A imagem que projecta nos outros é importante para si?
Até me convencer que a Sandra que estava com o acordeão numa foto de um jornal era eu, demorou algum tempo. Não conseguia habituar-me à ideia de me ver num jornal. Custava-me ver a fotografia. Nunca me considerei vedeta. Faz parte do meu ser não fazer alarido. Aquilo que faço é estar em cima de um palco. Acho que o público podia estar também em cima de um palco. Posso ser eu e os Sitiados como poderiam ser outras pessoas quaisquer a fazer aquela festa. Não sinto que sou a maior, que toco muito bem, nada disso. Gosto que gostem de mim, mas não pelo facto de ser a Sandra Baptista dos Sitiados.

O que tem a ganhar e a perder na vida na estrada?
O primeiro ano que fizemos ao vivo foi um absurdo. Oitenta e cinco espectáculos. Cheguei ao final completamente estoirada, estive perto de um esgotamento. Não conseguia nem dar mais um passo. A partir daí, no segundo ano, decidimos não passar dos 50. É uma questão de calo. Neste segundo ano de concertos já conseguia controlar-me mais nas viagens, e num espírito de brincadeira. Mas o entusiasmo de actuar ao vivo, esse, nunca se esgota. Se isso acontecer alguma vez, os Sitiados acabam. Porque os Sitiados são uma banda para espectáculos, é esse o nosso cartão de visita. O disco é mais aquele postal com que as pessoas ficam em casa.

Como passa o tempo nos períodos em que está afastada da banda?
Nada. Rigorosamente nada. É estar em casa e nem sequer tirar o pijama. Meter-me dentro da porcaria da televisão. Meter-me dentro da dispensa. Meter-me dentro do frigorífico e comer, comer…

Isso é espantoso, atendendo à figura que tem…
Isso é agora, que me está a ver na fase dos espectáculos. Depois, na fase do Natal, passa à fase da engorda. Não tenho problemas nenhuns de dietas. De ser gorda ou de ser magra. Se engordasse, punha umas roupas mais largas, assim uns lençóis. Modificava um bocado a imagem. Desde que possa comer tudo o que me passa pela frente, não tenho problema nenhum.

Nunca pensou em ser outra coisa além de acordeonista dos Sitiados?
Nunca pensei que uma acordeonista pudesse ter um futuro destes. Normalmente, um acordeonista não pode sair do rancho folclórico ou de ter um projecto a solo como o Quim Barreiros. Mais delirante do que o que eu faço é impossível. Se por acaso um dia os Sitiados acabarem, deixo de tocar acordeão. Nesse dia acho que começava a cantar, com a péssima voz que tenho [risos]. A minha filosofia é viver e deixar viver.

* acordeonista dos Sitiados

Paulo Bragança – “Paulo Bragança Subverte as Convenções Em ‘Amai’ – ‘O Fado Deve Ser Batidos, Rasgado, Esquartejado'” (entrevista) + Paulo Bragança – “Amai” (crítica de discos)

pop rock >> quarta-feira >> 12.10.1994

Paulo Bragança Subverte as Convenções Em “Amai”
“O Fado Deve Ser Batidos, Rasgado, Esquartejado”



Fado é Portugal. Fado é para Paulo Bragança isto, mas também um pretexto para afirmar o gosto por muitas outras músicas. Portuguesas, mas com os olhos postos além. Em “Amai”, segundo álbum deste fadista “sui generis” que tem o condão de provocar as mentalidades mais conservadoras, as palavras e os sons são colocados ao serviço de uma portucalidade que o cantor afirma pelo lado mais trágico. Tão trágico que por vezes roça o “kitsch”. É também a conquista progressiva de uma liberdade de meios de expressão paralelos a um ideal estético e vivencial. Uma ideia que neste disco passa pelo fado, o folclore ibérico e uma modernidade transvertida em vermelhos de paixão fatal. Exagero? “O exagero é a devoção daqueles que amam por perdição”, diz Paulo Bragança.

PÚBLICO – “Amai”, em comparação com o anterior “Notas sobre a Alma”, aponta para múltiplas direcções. Há algum elemento aglutinador?
Paulo Bragança – Mais que o fado, o ponto de partida deste disco é a voz. E uma atitude fadista. Uma atitude que procuro misturar com outras formas musicais. No fundo, tentar transmitir o estado de espírito fadista liberto da guitarra, da viola e do baixo.
P. – Considera-se um verdadeiro fadista?
R. – Considero. Um fadista, quando nasce no século XIX é um anarca, quase um fora-da-lei. Dentro desse espírito, sou. Embora não possa ser radical a esse ponto. Sou fadista mais como porta-voz. Ser fadista é, sem cair no nacionalismo exacerbado, ter um sentimento, uma consciência colectiva. Procuro ser porta-voz dessa alma. A alma de uma nação da qual canto em “Fado herói”: “nação vaga, branca e brava, espectro azul, a fé não voa, astro sorte aziaga, olha o grito, sobe à proa”. Tudo isto para dizer que o português está com os olhos não sei onde… Não sei se para a Europa se para o mar… Ou se para o infinito que também nos contempla de alguma forma…
P. – Em “Interlúdio” diz que “português sou eu, o mar e uma grande rocha”…
R. – Não é a minha voz. É a tal voz colectiva. Portugal a falar. É o português todo, o mar que nos dimensiona no mundo inteiro, e uma “grande rocha” porque quando olho no mapa vejo neste cantinho da Península Ibérica sempre a ponta de Sagres. Vejo Portugal a partir do cabo de Sagres. De resto, essa frase não é minha mas de um amigo meu, o Paulo Pinho.
P. – Como reage às críticas de alguns sectores fadistas mais tradicionalistas?
R. – Aceito as críticas todas desde que sejam sólidas. Mas tenho um relacionamento bom com a escola tradicional. Sempre que entro numa sala de fado eles imediatamente pedem-me para cantar. Tratam-me bem e não acho que haja nisso algum cinismo. Agora, há pessoas que podem ter uma discussão mais ou menos acesa, mas isso é normal, porque de alguma forma eu provoco um bocadinho. Eu quero estimulá-los.

“A Ordem É Amar!”
P. – “Vox Populis” é um apanhado de temas tradicionais. Como chegou a esta música?
R. – Tomei contacto com as raízes étnicas, não me considero um desenraizado. Esse tema é cantado num português arcaico, não se trata de dialecto nenhum, mas um raiano, forma de falar própria da zona fronteiriça. Ritmicamente faz lembrar a monofonia dos cantos de Trás-os-Montes. E tentei jogar com a ambiência, com os guizinhos das cabras do pastor e as velhotas a cantar em casa. Debrucei-me sobre alguma música transmontana e a parte ibérica que nos diz respeito. O tema poderá ser uma viagem com começo em Trás-os-Montes – uma zona de fluxo migratório bastante forte, nomeadamente para Espanha – de gente que parte para a Andaluzia.
P. – Afinal, é um revolucionário ou um tradicionalista?
R. – Sou a favor da tradição verdadeira, não da que existe hoje em Portugal. O importante é voltar às nossas raízes e descobrir o verdadeiro posicionamento de Portugal no mundo, o estado da nação. Sou revolucionário na medida em que busco a tradição na sua fonte e a procuro redimensionar.
P. – Que razão o levou a incluir os três excertos instrumentais, funcionando quase como separadores?
R. – São muito clássicos. Foram escritos por Rui Vaz, um novo compositor. Quanto à sua função, prende-se com a intenção de este disco ter um princípio, um meio – uma pausa para se poder reflectir – e um fim. Com cabeça, tronco e membros definidos, embora não seja um “concept album”.
P. – “O espírito da carne” é descaradamente comercial, com piscadelas de olho a um certo som na moda, uma mistura dos Madredeus e dos Enigma, com um toque de vozes búlgaras. Uma coisa “modernaça” que contradiz um pouco o resto do álbum…
R. – Vai ser o “single”. É o tema que se calhar pode espantar mais. É uma salsada que poderá ser como que uma síntese dos outros temas todos.
P. – A versão de “Sorrow’s child”, de Nick Cave, parece-me bastante pouco conseguida. Não estará deslocada num álbum que, como diz, pretende reflectir uma certa portucalidade?
R. – Foi um compromisso que assumi para comigo próprio e para com algumas pessoas. Costumávamos ouvir o Nick Cave… Não acho que esteja deslocada. A letra tem uma relação, “O filho da tristeza, da amargura”. Poderá ser um epílogo que se relaciona bem com o tema seguinte, “Cansaço”, um fado “a capella”.
P. – É uma pessoa amargurada?
R. – Não sou pessimista. Nem triste. Gosto de acção.
P. – Mas o álbum é triste.
R. – É triste. Um reflexo do estado de espírito do que me rodeia. Do mundo à minha volta. É um estado real daquilo que se passa., que não está realmente para grandes festas. Não se pensa nas coisas como se deve pensar. Este disco vai ser um alerta. Por isso a ordem é: amar!
P. – Portanto a salvação está no amor. Não receia que dito desta maneira corre o risco de cair no lugar-comum?
R. – Amar na globalidade. Numa perspectiva universal. Em “Pecado I” falo de uma mulher, Claudine, francesa, mecenas da arte, que conheci em Paris. É uma mulher que luta por uma forma de amar universal. Neste tema digo “com certeza que é pecado, dizem eles, eu amar desta maneira singular”. Sem especificar mais nada. Eu amo as coisas no seu todo. Acho que uma cebola é importante, por exemplo. O meu CD, a cassete-master, dormia sempre com ela. É uma forma de amar estranha…

“Morro E Nasço Todos Os Dias”

P. – Em “Baloiço”, toda a construção rítmica e melódica e uma frase em particular, “estou farto, o que eu preciso não sei, eu sei lá, é do que há-de vir ao Deus dará”, lembra de imediato António Variações. Uma identificação consciente?
R. – A música é do Carlos Maria Trindade e a letra minha. Letra cuja relação com António Variações é de certa forma consciente. Escutei e acompanhei a sua obra. O Carlos Maria Trindade também produziu um disco do Variações. Penso que a cumplicidade será mais dele.
P. – “Pecado II” e “Cansaço” são os dois únicos temas que não se afastam em demasia do fado tradicional. Teve receio de uma ruptura definitiva?
R. – Gosto muito de cantar os fados antigos. À minha maneira. No caso de “Pecado II”, tem um certo espírito coimbrão, no arrastar das guitarras, nas pausas, na utilização do baixo. De certa forma é um fado de Coimbra estilizado. “Cansaço” é um fado tradicional cantado, entre outros, pela Amália. O fado deve ter rasgos, deve ser batido, saltado, rasgado, esquartejado. E ter uma ambiência polivalente.
P. – Cansaço de quê?
R. – As palavras de Luís Macedo, que eu gostaria de ter escrito, dizem: “daí que tudo quanto faço não é feito só por mim”. A pessoa está cansada se calhar porque tudo não é feito só por ela. Não sei.
P. – A generalidade dos arranjos não é inocente. “Amai” aposta no mercado internacional?
R. – Totalmente. Apresentei esta música em Paris, num “café théâtre” “underground” por onde já passou por exemplo a Nina Hagen, e a aceitação foi boa. Com este disco quis mostrar que podia conjugar o fado em diversas perspectiva. Mas não foi nenhum laboratório químico de experiências. No terceiro pode ser que vá a “Amai” e selecione alguns caminhos. Com menos diversidade e uma postura mais linear.
P. – Quer dizer, com menos exagero? Não vai prosseguir o enunciado feito no “Epílogo”: “o exagero é a devoção daqueles que amam por perdição”?
R. – Tinha algumas frases que podiam encerrar o disco, passíveis de várias interpretações. Quando escrevi isso não tive a pretensão de ser poeta, de transmitir algo de novo. A intenção é pôr as pessoas a pensar. A perdição é o destino. Já estou a aceitar de antemão que devo amar. Nasce-se para isso. Quanto ao disco é de facto exagerado. Não um exagero barroco mas da alma. Morro e nasço todos os dias e acordo sempre com esse espírito. Uma vez escrevi “ai se enquanto ao menos eu pudesse de mim sair”. Gosto de sair de mim. Não podemos ser livres de nós. Não quero estar preso a nada.
P. – Não pensou em cantar as palavras de poetas portugueses conhecidos?
R. – Escrevo desde sempre. Em “Pecado II” escrevi “o pecado reina em mim, fugaz me trespassa a alma, não tenham pena de mim, nela só reina a calma”, tinha 17 anos. Não foi posto no primeiro álbum porque acharam que eu não podia escrever coisas assim com aquela idade. Gosto de escrever para mim mesmo. Sou um homem de acção. Gostava de poder realizar um filme. Preciso é de estar a fazer coisas e escrever é uma delas. Mas o que eu gostaria mesmo de fazer, se pudesse, era ter um grande estúdio em casa e ficar lá sempre a escrever.


AMAR EM FRENTE AO ESPELHO

PAULO BRAGANÇA
Amai
Ed. Polygram


Inútil falar de fado, pelo menos se não deitarmos para trás das costas as ideias feitas, a propósito do segundo álbum do cantor descalço. “Amai” é um conjunto de experiências cujo eixo passa pela voz de Paulo Bragança e em redor da qual se aglutinam ideias e sons, alguns deles originais, outros a roçarem o lugar-comum.
Goste-se ou não da sua atitude “provocatória”, o que não se pode negar é a apetência do cantor pelo risco, pelo teste constante das suas possibilidades, tacteando os limites da voz e o significado que tem, ou não tem, estender uma atitude, por ele ainda definida como “de fadista”, a áreas aparentemente incompatíveis com o fado. Há em “Amai” pretensões que poderão ser tomadas por pretensiosismo.
É um álbum barroco, florido, que vive dos sentidos que se lhe quiser emprestar. Clássico a rondar o “kitsch”, como nos três excertos instrumentais “Prelúdio”, “Interlúdio” e “Epílogo”, ou investigando a capacidade de resistência da música tradicional, como em “Vox Populis” – tema digno de um Marc Almond, que vai da inocência do pastor À sanguinolência do matador -, “Amai”, a cada momento, se por um lado desafia o convencionalismo, por outro não consegue evitar recorrer a certas fórmulas de produção que não escondem o desejo de um som politicamente correcto e exportável.
Temas como “O espírito da carne” ou as duas variantes de “Fado herói” vão por onde é mais fácil, por caminhos abertos por outros, de Rodrigo Leão aos Madredeus, isto para fazermos de conta que ninguém andou a ouvir Michael Nyman. Tomemos por brincadeira a versão de “Sorrow’s Child” de Nick Cave, cantada em inglês. Ou como mais uma provocação, neste caso não muito bem sucedida. Tais pecados são porém compensados pelo modo como Paulo Bragança dá um rosto novo a canções como “Adeus”, dos Heróis do Mar, ou ilumina o espaço deixado vago por António Variações em “O baloiço”.
“O farol”, outro dos momentos altos de “Amai”, confirma a importância de Carlos Maria Trindade como produtor e compositor, enquanto em “Pecado I” é o próprio Paulo Bragança a revelar as suas capacidades de composição. É preciso esperar até “Pecado II” e pela interpretação “a capella” de “Cansaço” – escurecido pela sombra de Amália – para o fado se libertar do luxo de roupagens que por vezes lhe ficam demasiado pesadas e transformam a riqueza em ostentação.
Talvez seja esta, de resto, a perdição maior de “Amai”: um gosto pelo excesso que se torna numa faca de dois gumes. Evidentemente, Paulo Bragança, na assunção desse exagero, tem consciência do perigo que corre. Nem todos conseguirão engolir a espampanância nem levar a sério a portugalidade afirmada de forma ambígua, por vezes perversa, ao longo desta conjugação muito pessoal do verbo amar. A Paulo Bragança falta derrotar o mais temível Adamastor – o narcisismo – para conquistar o mar. (7)