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Loop Guru – “Duniya – The Intrinsic Passion of Mysterious Joy”

Pop Rock

25 de Maio de 1994
ÁLBUNS POPROCK

LOOP GURU
Duniya – The Intrinsic Passion of Mysterious Joy

Nation, distri. MVM


lg

Nada se perde, tudo se transforma. Os Loop Guru – Salman Gita e Jamuud – reciclam “ad infinitum” aquilo que eles próprios definem como “o planeta de som”. Ouvem-no e usam-no para criar uma música que junta o tribalismo, feito a expensas de múltiplas pilhagens à “world music”, o “techno” e a “trance music”. Ou seja, mais uma etiqueta: “ethno-techno”, género que engloba outros cultores como os Fun-da-Mental e Trans-Global Underground, com os Material de Bill Laswell e os Invaders of the Heart de Jah Wobble a agitarem-se nas proximidades. Brian Eno é o grande inspirador. Os Loop Guru citam-no – “A música é dez por cento de inspiração e noventa por cento de regeneração” – e samplam-no. Eno é o guru, até em idêntica utilização das tácticas do acaso de que o ex-Roxy Music se serviu para compor todos os seus discos até “Before and After Science”. Os Loop Guru recolhem material em fita magnética e entretêm-se depois a cortar tudo em bocados e a fazer colagens. “O que temos que fazer é levar a fita para casa, cortá-la em cem bocados e ver o que acontece”, diz Jamuud. Há influências óbvias no som da banda, como os African Head Charge na dianteira de todas elas. Mas na contracapa de “Duniya” os Loop Guru, além de Eno e dos African Head Charge, alinham mais umas dezenas de referências e fontes não só de inspiração como de material samplado: Arvo Part, Benjamin Britten, orquestras gamelão, orquestra andaluza de Tânger, Can, Erik Satie, Faust, Ligeti, Ivor Cutler, John Cage, Stockausen, Ravi Shankar, Robert Wyatt, Steve Reich, 23 Skidoo, Thomas Mapfumo, Trans-Global Underground, Ultramarine, Alice Coltrane, Captain Beefheart, Cecil Taylor, Don Cherry, George Harrison (do álbum experimental “Wonderwall”), Harry Partch, Jon Hassell, John Zorn, Lamont Young, Mothers of Invention, Richard Hell, Soft Machine, Sun Ra, Syd Barrett, Terry Riley, The Pop Group, This Heat e os… Transmitters, a banda anterior aos Guru na qual Jamuud e Salman procederam a experiências prévias com base em “loops” (ver artigo no Poprock da semana passada) e técnicas “dub” sobre um “thrash” minimalista. A música dos Loop Guru destina-se tanto à dança como à meditação. Para Jamuud, trata-se do equivalente contemporâneo das ancestrais músicas rituais de cura e transe, baseadas em ritmos primevos e energias xamanísticas. Cadências hipnóticas que, no caso dos Loop Guru, tanto podem ser feitas por um computador iluminado como por “samples” com toda a espécie de percussões étnicas. Sempre apoiadas num baixo musculado no ginásio de Bill Laswell, em infatigáveis flexões. As vozes e instrumentos exóticos são de proveniência incerta e indecifrável, sampladas algures de África, em particular das regiões árabes, da Índia ou da Bulgária. Em quatro temas, “Hymn”, “Sussan”, “Through cinemas” e “Under influence”, há a participação real da vocalista Sussan Deyhim, que, no tema que lhe é dedicado, “Sussan”, conta ainda com a colaboração de teclista e manipulador de “samples” Richard Horowitz, seu companheiro de resto no álbum “Azax Attra – Desert Equations”, obra que antecipava a dita corrente “ethno-techno”, gravada por estes dois músicos para a Made to Measure. Passada a sensação inicial de esmagamento provocada por esta conglomeração maciça de sonoridades e culturas, chega-se inevitavelmente à conclusão de que se, por um lado, a chamada “world music” se infiltra cada vez com mais força nas várias correntes da música popular actual – o que “a priori” tem a virtude de enriquecê-la com novos elementos –, por outro, a esta tendência de sínteses cada vez mais abrangentes e universalistas corresponde um empobrecimento resultante da anulação de diferenças e idiossincrasias. Milénios de música e de cultura, civilizações inteiras cabem agora no espaço imaginário de um disco, por vezes de uma faixa, como na longa “overdose” de “samples” do tema final “The third chamber (part 4)”. Aceleração progressiva. O universo igual a um “quark”. Se a compressão for levada ao absurdo, a sinfonia global transformar-se-á num zumbido. Eno tinha razão. (7)



Quincy Jones / Vários – “Listen Up – The Lives Of Quincy Jones”

Pop Rock

3 ABRIL 1991
LP’S

REI MIDAS VAI NU

QUINCY JONES/VÁRIOS
Listen up – The Lives of Quincy Jones

LP / CD, Quest, distri. Warner port.

qj

Um “poster” com as dimensões aproximadas de 100 por 80 cm a anunciar em letras garrafais o título do filme e do disco. Cento e noventa e duas páginas no formato de livro, profusamente ilustradas, que incluem declarações de toda a gente e do próprio sobre essa figura monumental que dá pelo nome de Quincy Jones. Um CD com mais de uma hora de, não diremos música, mas um punhado de amostras da dita. Sentimo-nos atordoados com tanta informação, tanto luxo, tantas letras impressas em cores garridas, tantos nomes importantes. Pasmamos como foi possível enfiar (é o termo) tantas e tão belas canções em, mesmo assim, tão pouco tempo de… música… Calamo-nos, comovidos, perante o sublime das intenções: a obra é dedicada àqueles que “têm a coragem de concretizar as suas visões, ultrapassaram os obstáculos e iluminaram o caminho de outros”. Quincy Jones, músico e produtor, sobretudo produtor, é uma espécie de rei Midas da indústria discográfica norte-americana. Tudo em que toca vende. Não espanta pois que, passados anos e anos de bons e dedicados serviços, essa mesma indústria lhe esteja mais que reconhecida e tenha resolvido homenagear em vida um dos seus maiores beneméritos. Quincy não se poupa a esforços, se bem que solte alguns desabafos do tipo “às vezes penso que gostaria de ter um emprego mais estável”. Filme, livro e disco servem como objectos promocionais de uma figura que se pretende elevar a um estatuto mítico. Sabendo-se como na América os mitos vendem e se exportam melhor, torna-se fácil descortinar qual é de facto o maior objectivo da presente edição. Junta-se o útil ao agradável e fica toda a gente feliz, já que muita cor, muitas páginas e um CD e “poster” a condizer sempre operaram maravilhas nos corações palpitantes e mentes habilmente programadas do consumidor e mais ainda nos bolsos dos felizes autores da ideia. Em relação ao CD torna-se penoso falar de música. Na faixa número quinze (4’ 28’’), comprimem-se nove temas, amostras de pouco mais que alguns segundos cada, onde cabem a introdução instrumental de “We Are the World”, George Benson, os Brother Johnson, Lesley Gore (em mais alguns segundos de “It’s My Party”), Nick Ashford, Valerie Simpson e Chaka Kahn, numa (entre outras) molhadas aqui eufemisticamente designadas por “medleys”. All Star Choir, Ray Charles, Chaka Khan, Ella Fitzgerald, Siedah Garrett, Al Jarreau, Bobby Mcferrin, Take 6, Sarah Vaughan (estes seis últimos juntos durante breves instantes, em “Wee B. dooinit”), Tevin Campbell e os “rappers” Ice-T, Big Daddy Kane, Kool Moe Dee lutam por um pouco de espaço nas oito peças acopladas que constituem “Back on the Block Album”, “medley” de 5’ 36’’. Frequentemente os temas são introduzidos (e parasitados) pela voz de Quincy, em histórias de si próprio e da obra, deste modo obstando a que se possa ouvir a música pela música. Nos dois minutos e picos que dura “Fly Me to the Moon”, as palavras com que Frank Sinatra se anuncia – “Hello, my name is Frank Sinatra” – soam quase pornográficas. Tudo se reduz a uma gigantesca estratégia de “marketing” visando a obtenção de não menos gigantescos lucros. Fica-se a odiar o capitalismo e a livre iniciativa, ao mesmo tempo que se lamenta a morte precoce do comunismo. Apetece agitar bandeiras vermelhas, fazer ocupações selvagens e aderir a um partido de extrema-esquerda. O próprio leitor de CD aparece como um objecto suspeito ao serviço do imperialismo americano (mesmo se a marca for japonesa). Nomes que fizeram história na música, como as orquestras de Count Basie e Lionel Hampton ou os cantores Sarah Vaughan, Aretha Franklin e Ray Charles aparecem aqui reduzidos a meros enfeites, instrumentos promocionais, perdidos entre a normalização vigente. Como lutar então contra tal situação? Contra a falta de vergonha generalizada, numa operação concertada, destinada a acabar de vez com a música? Boicotando o filme, o livro, o “poster” e o disco! Tapar ou ouvidos e fechar os olhos. Bater com os pés no chão e cantar a plenos pulmões, um fado, o cochicho ou um cântico devocional tibetano, se alguém lá em casa insistir em não desligar a rádio. A alternativa é desistir, gostar do disco e agradecer ao “grande irmão”. *



M83 – Before The Dawn Heals Us

04.03.2005
M83
Before The Dawn Heals Us
Gloom, distri. EMI Music Portugal
7/10

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Guitarras, bateria, electrónica misturadas com uma batedeira inconfundivelmente francesa. Os M83 são um projecto de Anthony Gonzalez e “Before the Dawn Heals Us” é o seu terceiro trabalho, depois de “M83” e “Dead Cities, Red Seas & Lost Ghosts”. O som é épico, progressivo, evocando paisagens vastas. As referências com que vêm aureolados vão desde os Mogwai aos My Bloody Valentine, passando por Mussorgsky, Can e Tangerine Dream. A referência aos My Bloody Valentine tem a ver com o lado hipnótico das guitarras enquanto o paisagismo épico, vagamente pós-rock, convoca os Mogwai. Quanto aos Can não se percebe bem a chamada, muito menos a dos Tangerine Dream, por mais pioneiros de tudo que estes dois grupos tenham sido ainda que numa faixa como “Farewell/Godbye” os sintetizadores possam recordar a banda alemã, com os sintetizadores um bocadinho enferrujados pela humidade. Em relação a Mussorgsky, deixai o homem descansar em paz. O progressivo dos M83 tem a ver com o ambiente geral, com a construção dos temas e a constante mudança de registo. E “Fields, shorelines and hunters” até que podia ter sido gravada nos anos 70, mas “I guess I’m floating” passaria com facilidade por qualquer coisa dos Trans AM cruzados com os My Bloody Valentine. Pós-quê?