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Future Sound Of London – “ISDN”

Pop Rock

11 de Janeiro de 1995
álbuns poprock

ILUSIONISTAS AO VIVO NA “INTERNET”

FUTURE SOUND OF LONDON
ISDN

Virgin. distri. EMI-VC


fsol

“Lifeforms”, álbum anterior dos FSOL, remetia para coordenadas que aproximavam a estética tecno dos anos 90 da “música cósmica” dos anos 70, nomeadamente dos Pink Floyd até “Atom Heart Mother” e de representantes da escola alemã como Klaus Schulze e os Tangerine Dream. Semelhante na forma – longas explanações planantes, utilização exaustiva de ritmos sintéticos –, o ponto de partida era, e continua a ser, porém, diametralmente oposto.
Os nomes atrás citados partiam de uma perspectiva humanista, romântica, da música. A sua música era uma extensão electrónica do psicadelismo. LSD vertido para os circuitos de um sintetizador analógico. Uma ideia transposta para os canais da tecnologia. Os FSOL, pelo contrário, partem da tecnologia – digital, de “bits” autónomos – para formatarem múltiplas ideias reflectoras de uma realidade fragmentada e desumanizada. Significativa é, de resto, a oposição entre analógico (“continuum” temporal) e digital (divisão matemática), enquanto símbolo de um contraste entre duas músicas e duas atitudes que são como dois espelhos colocados um frente do outro.
“ISDN”, seguindo as mesmas premissas de “Lifeforms”, é, em comparação, um álbum mais orgânico e imaginativo. Gravado “ao vivo” em estúdio e enviado por via informática, em tempo real, para vários canais radiofónicos da Europa, “ISDN” simula a excitação do concerto, enquanto simulacro assumido de uma realidade sem consistência, de acordo com o conceito de “consistência” que nos reconfortava. O mundo, sabemo-lo hoje, não é constituído por partículas materiais, mas sim por simetrias, um equilíbrio mantido por campos de força em tensão recíproca, jogos de polaridade em constante alternância (inversão) de sinal. Os FSOL tecem em som a mesma “ilusão”.
“ISDN” ilude, na medida em que os programas que introduz no sistema não passam de fantasmas electrónicos. O electrojazz, a etnotecno, as paisagens ambientais – elementos de um novo tribalismo – são “reais” apenas enquanto manifestações de um universo sem solidez nem contornos definidos, onde a relatividade impera. Informação despojada de mensagem. Leia-se “o meio é a mensagem”, como profetizava McLuhan. Do mesmo modo, as referências a músicas que podemos considerar pioneiras e, decerto, fontes de ensinamento para os FSOL, surgem aqui como linguagens e vozes à deriva, já não procurando arrancar um sentido do nada, mas fazendo desse nada o próprio sentido.
Os Kraftwerk, em “You’re creeping me out”, os Yellow Magic Orchestra, em “Eyes pop”, os Pink Floyd, nas primeiras notas de “Tired”, a música industrial, também em “Tired”, Jah Wobble, em “Slider” e “Hot knives”, os KLF, em “A study of six guitars”, ou os Delerium, em “An end of sorts”, são pontos de ligação óbvios a uma era tornada para os FSOL um fóssil. O “trompete”, as “guitarras” e os computadores de “ISDN” interagem em linha directa com os centros nervosos de um novo “homo sapiens” em pleno processo de mutação. Uma música sem alma, mas onde o cérebro funciona em velocidade acelerada, num fluxo criador de imagens que são ao mesmo tempo alimento e suporte para um tipo de homem que passou a ter um ordenador e fibras ópticas no lugar do coração. Emoção igual a tratamento de informação. “ISDN” é um espectáculo de ilusionismo no circo virtual da “internet”.
Está escrito que, quando a nova ordem estiver instalada no mundo, alguém há-de chegar, furtivo, como um ladrão, e destruir a grande máquina. (8)



Future Sound Of London – Entrevista

Pop Rock

14 de Junho de 1995

Future Sound of London explicam “Lifeforms”

“Não é a tecnologia em si que é importante”


fsol

“Lifeforms” e “ISDN” são dois mosaicos significativos da música electrónica actual por um dos seus criadores mais ambiciosos, os Future Sound of London. Entre as actividades do grupo, contam-se um programa de televisão de genérico Ensinamentos do Cérebro Electrónico, onde valorizam o poder da palavra escrita e falada. Na ligação da electrónica aos meios de informação vêem o expoente máximo do entretenimento para os anos 90. Enquanto chamam uns aos outros “gelatina invertebrada”.

Garry Cobain explicou ao PÚBLICO a biologia das “Lifeforms” que o grupo elabora em estúdio, os processos dessa mesma criação e as implicações, estéticas e morais, que dela resultam. Os Future Sound of London querem ser algo mais que um simples grupo de música e transformar-se num sistema global de informação.
PÚBLICO – As imagens desempenham um papel tão importante como o da música na estética global dos Future Sound of London?
GARRY COBAIN – Sim, vão até um pouco mais longe. Se ouviu o álbum “ISDN”, saberá que a música foi transmitida via rádio para vários pontos de globo. Neste momento estamos a fazer transmissões de televisão e a desenvolver um programa chamado Teachings from the Electronic Brain [Ensinamentos do Cérebro Electrónico].
P. – “Lifeforms” sugere processos biológicos, formas de vida criadas no computador…
R. – O que queríamos dizer com “Lifeforms” tem mais humor do que isso, embora tenha começado como uma coisa séria. Tínhamos deixado para trás o circuito dos clubes e passámos a prestar mais atenção a nós próprios e ao que nos rodeava. Numa perspectiva como que microscópica. Ao ponto de tudo o que observávamos, em nós ou no estúdio onde gravávamos, ganhar características próprias, como em “Spineless jelly”, nome que demos a uma determinada forma de vida. Passámos a chamar-nos uns aos outros “spineless jellies” [geleia ou gelatina sem espinha, invertebrada] sempre que algum de nós dava qualquer sinal de fraqueza. “Hey, you, spineless jelly!” O disco não trata exactamente de formas de vida do exterior, mas mais uma analogia sobre formas de vida sintéticas que criávamos no meio restrito em que nos movimentávamos.
P. – São lícitas as comparações entre a música do grupo e o som das bandas cósmicas alemãs dos anos 70, como os Tangerine Dream?
R. – Quando começámos a “samplar” sons, o que continuamos a fazer, ouvíamos bastante música além da electrónica. O nosso som relaciona-se com toda a história da música. Aproveitamos todos os “momentos de grande som”, seja na televisão ou sons naturais, de rock ou de jazz, ou do psicadelismo dos anos 70. Nesta perspectiva, somos bastante mais livres que um grupo como os Tangerine Dream.
P. – Por falar em psicadelismo, o uso de drogas facilita de alguma maneira a percepção da vossa música?
R. – Digamos que encorajaria qualquer pessoa a experimentar seja o que for desde que isso a ajudasse a diversificar o mais possível as suas opiniões e a sua própria consciência. Mesmo se isso significar algo tão horrivelmente “careta” como levar o pensamento analítico a um extremo. As drogas são apenas um meio para fazer estremecer o sistema de cada um. Acho isso bastante positivo.
P. – Não se dará o caso de estarmos a viver tempos perigosos para as viagens psicadélicas? É que a poluição em redor é muita, mesmo a nível mental…
R. – Sim, demasiado pensamento, demasiadas “head trips” podem ser perigoso. Por exemplo, resultarem em algo como “Lifeforms” [risos]. Mas é uma matéria complexa…
P. – Concorda que a música tecno ou “house” – com a utilização “científica” de determinadas pulsações rítmicas e mensagens subliminares – pode servir de ferramenta para a manipulação dos jovens que se deixam possuir pelo transe da dança nas discotecas?
R. – Nos Future Sound of London chegámos a uma fase em que nos interessamos bastante pela palavra falada, pela palavra com um ritmo. É uma forma determinada que faz parte de uma evolução constante. Agora que estamos a fazer televisão, estamos a aplicar a nossa criatividade em fazer passar mensagens através da palavra. E, na “net web”, através da palavra escrita. Também estamos a escrever um livro. Todas estas coisas tornaram-se muito, muito poderosas. Vivemos numa cultura que cada vez mais aceita e integra a música instrumental. De tal forma que tanto a palavra falada como a palavra escrita estão, de uma forma quase subliminar, a ganhar cada vez mais poder. É neste aspecto que estamos a investir actualmente, na programação de discursos.
P. – Acabou de se referir a uma “evolução”. Qual é o objectivo último dessa evolução?
R. – O objectivo, no nosso caso, é tornarmo-nos um sistema de transmissão global que esteja receptivo e, ao mesmo tempo, exponha as nossas ideias e os nossos modelos. Um sistema que projecte a “sopa electrónica” a uma audiência maciça. Acreditamos que a ligação da música electrónica a outros “media”, como a rádio, a televisão ou as superauto-estradas da informação, é verdadeiramente o meio de entretenimento mais forte dos anos 90. Acreditamos que podemos atingir algo que fique para a História, um momento crucial no campo do entretenimento. Não é a tecnologia em si que é importante. Quando a tecnologia se torna demasiado importante é porque algo correu mal.
P. – Qual é o lugar, nesse sistema, para a alma humana, se é que acredita na sua existência?
R. – Sim… Somos bastante crentes nesse aspecto. Damos a ver as nossas almas de muitas maneiras diferentes. É bastante interessante, como se revelássemos centenas de almas, em vez de uma só. Podemos jogar com centenas de opiniões, centenas de contradições, centenas de vozes e rostos diferentes. Na chamada idade da experiência, é o mais interessante que pode haver.



Loop Guru – “Duniya – The Intrinsic Passion of Mysterious Joy”

Pop Rock

25 de Maio de 1994
ÁLBUNS POPROCK

LOOP GURU
Duniya – The Intrinsic Passion of Mysterious Joy

Nation, distri. MVM


lg

Nada se perde, tudo se transforma. Os Loop Guru – Salman Gita e Jamuud – reciclam “ad infinitum” aquilo que eles próprios definem como “o planeta de som”. Ouvem-no e usam-no para criar uma música que junta o tribalismo, feito a expensas de múltiplas pilhagens à “world music”, o “techno” e a “trance music”. Ou seja, mais uma etiqueta: “ethno-techno”, género que engloba outros cultores como os Fun-da-Mental e Trans-Global Underground, com os Material de Bill Laswell e os Invaders of the Heart de Jah Wobble a agitarem-se nas proximidades. Brian Eno é o grande inspirador. Os Loop Guru citam-no – “A música é dez por cento de inspiração e noventa por cento de regeneração” – e samplam-no. Eno é o guru, até em idêntica utilização das tácticas do acaso de que o ex-Roxy Music se serviu para compor todos os seus discos até “Before and After Science”. Os Loop Guru recolhem material em fita magnética e entretêm-se depois a cortar tudo em bocados e a fazer colagens. “O que temos que fazer é levar a fita para casa, cortá-la em cem bocados e ver o que acontece”, diz Jamuud. Há influências óbvias no som da banda, como os African Head Charge na dianteira de todas elas. Mas na contracapa de “Duniya” os Loop Guru, além de Eno e dos African Head Charge, alinham mais umas dezenas de referências e fontes não só de inspiração como de material samplado: Arvo Part, Benjamin Britten, orquestras gamelão, orquestra andaluza de Tânger, Can, Erik Satie, Faust, Ligeti, Ivor Cutler, John Cage, Stockausen, Ravi Shankar, Robert Wyatt, Steve Reich, 23 Skidoo, Thomas Mapfumo, Trans-Global Underground, Ultramarine, Alice Coltrane, Captain Beefheart, Cecil Taylor, Don Cherry, George Harrison (do álbum experimental “Wonderwall”), Harry Partch, Jon Hassell, John Zorn, Lamont Young, Mothers of Invention, Richard Hell, Soft Machine, Sun Ra, Syd Barrett, Terry Riley, The Pop Group, This Heat e os… Transmitters, a banda anterior aos Guru na qual Jamuud e Salman procederam a experiências prévias com base em “loops” (ver artigo no Poprock da semana passada) e técnicas “dub” sobre um “thrash” minimalista. A música dos Loop Guru destina-se tanto à dança como à meditação. Para Jamuud, trata-se do equivalente contemporâneo das ancestrais músicas rituais de cura e transe, baseadas em ritmos primevos e energias xamanísticas. Cadências hipnóticas que, no caso dos Loop Guru, tanto podem ser feitas por um computador iluminado como por “samples” com toda a espécie de percussões étnicas. Sempre apoiadas num baixo musculado no ginásio de Bill Laswell, em infatigáveis flexões. As vozes e instrumentos exóticos são de proveniência incerta e indecifrável, sampladas algures de África, em particular das regiões árabes, da Índia ou da Bulgária. Em quatro temas, “Hymn”, “Sussan”, “Through cinemas” e “Under influence”, há a participação real da vocalista Sussan Deyhim, que, no tema que lhe é dedicado, “Sussan”, conta ainda com a colaboração de teclista e manipulador de “samples” Richard Horowitz, seu companheiro de resto no álbum “Azax Attra – Desert Equations”, obra que antecipava a dita corrente “ethno-techno”, gravada por estes dois músicos para a Made to Measure. Passada a sensação inicial de esmagamento provocada por esta conglomeração maciça de sonoridades e culturas, chega-se inevitavelmente à conclusão de que se, por um lado, a chamada “world music” se infiltra cada vez com mais força nas várias correntes da música popular actual – o que “a priori” tem a virtude de enriquecê-la com novos elementos –, por outro, a esta tendência de sínteses cada vez mais abrangentes e universalistas corresponde um empobrecimento resultante da anulação de diferenças e idiossincrasias. Milénios de música e de cultura, civilizações inteiras cabem agora no espaço imaginário de um disco, por vezes de uma faixa, como na longa “overdose” de “samples” do tema final “The third chamber (part 4)”. Aceleração progressiva. O universo igual a um “quark”. Se a compressão for levada ao absurdo, a sinfonia global transformar-se-á num zumbido. Eno tinha razão. (7)