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Quincy Jones / Vários – “Listen Up – The Lives Of Quincy Jones”

Pop Rock

3 ABRIL 1991
LP’S

REI MIDAS VAI NU

QUINCY JONES/VÁRIOS
Listen up – The Lives of Quincy Jones

LP / CD, Quest, distri. Warner port.

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Um “poster” com as dimensões aproximadas de 100 por 80 cm a anunciar em letras garrafais o título do filme e do disco. Cento e noventa e duas páginas no formato de livro, profusamente ilustradas, que incluem declarações de toda a gente e do próprio sobre essa figura monumental que dá pelo nome de Quincy Jones. Um CD com mais de uma hora de, não diremos música, mas um punhado de amostras da dita. Sentimo-nos atordoados com tanta informação, tanto luxo, tantas letras impressas em cores garridas, tantos nomes importantes. Pasmamos como foi possível enfiar (é o termo) tantas e tão belas canções em, mesmo assim, tão pouco tempo de… música… Calamo-nos, comovidos, perante o sublime das intenções: a obra é dedicada àqueles que “têm a coragem de concretizar as suas visões, ultrapassaram os obstáculos e iluminaram o caminho de outros”. Quincy Jones, músico e produtor, sobretudo produtor, é uma espécie de rei Midas da indústria discográfica norte-americana. Tudo em que toca vende. Não espanta pois que, passados anos e anos de bons e dedicados serviços, essa mesma indústria lhe esteja mais que reconhecida e tenha resolvido homenagear em vida um dos seus maiores beneméritos. Quincy não se poupa a esforços, se bem que solte alguns desabafos do tipo “às vezes penso que gostaria de ter um emprego mais estável”. Filme, livro e disco servem como objectos promocionais de uma figura que se pretende elevar a um estatuto mítico. Sabendo-se como na América os mitos vendem e se exportam melhor, torna-se fácil descortinar qual é de facto o maior objectivo da presente edição. Junta-se o útil ao agradável e fica toda a gente feliz, já que muita cor, muitas páginas e um CD e “poster” a condizer sempre operaram maravilhas nos corações palpitantes e mentes habilmente programadas do consumidor e mais ainda nos bolsos dos felizes autores da ideia. Em relação ao CD torna-se penoso falar de música. Na faixa número quinze (4’ 28’’), comprimem-se nove temas, amostras de pouco mais que alguns segundos cada, onde cabem a introdução instrumental de “We Are the World”, George Benson, os Brother Johnson, Lesley Gore (em mais alguns segundos de “It’s My Party”), Nick Ashford, Valerie Simpson e Chaka Kahn, numa (entre outras) molhadas aqui eufemisticamente designadas por “medleys”. All Star Choir, Ray Charles, Chaka Khan, Ella Fitzgerald, Siedah Garrett, Al Jarreau, Bobby Mcferrin, Take 6, Sarah Vaughan (estes seis últimos juntos durante breves instantes, em “Wee B. dooinit”), Tevin Campbell e os “rappers” Ice-T, Big Daddy Kane, Kool Moe Dee lutam por um pouco de espaço nas oito peças acopladas que constituem “Back on the Block Album”, “medley” de 5’ 36’’. Frequentemente os temas são introduzidos (e parasitados) pela voz de Quincy, em histórias de si próprio e da obra, deste modo obstando a que se possa ouvir a música pela música. Nos dois minutos e picos que dura “Fly Me to the Moon”, as palavras com que Frank Sinatra se anuncia – “Hello, my name is Frank Sinatra” – soam quase pornográficas. Tudo se reduz a uma gigantesca estratégia de “marketing” visando a obtenção de não menos gigantescos lucros. Fica-se a odiar o capitalismo e a livre iniciativa, ao mesmo tempo que se lamenta a morte precoce do comunismo. Apetece agitar bandeiras vermelhas, fazer ocupações selvagens e aderir a um partido de extrema-esquerda. O próprio leitor de CD aparece como um objecto suspeito ao serviço do imperialismo americano (mesmo se a marca for japonesa). Nomes que fizeram história na música, como as orquestras de Count Basie e Lionel Hampton ou os cantores Sarah Vaughan, Aretha Franklin e Ray Charles aparecem aqui reduzidos a meros enfeites, instrumentos promocionais, perdidos entre a normalização vigente. Como lutar então contra tal situação? Contra a falta de vergonha generalizada, numa operação concertada, destinada a acabar de vez com a música? Boicotando o filme, o livro, o “poster” e o disco! Tapar ou ouvidos e fechar os olhos. Bater com os pés no chão e cantar a plenos pulmões, um fado, o cochicho ou um cântico devocional tibetano, se alguém lá em casa insistir em não desligar a rádio. A alternativa é desistir, gostar do disco e agradecer ao “grande irmão”. *



M83 – Before The Dawn Heals Us

04.03.2005
M83
Before The Dawn Heals Us
Gloom, distri. EMI Music Portugal
7/10

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Guitarras, bateria, electrónica misturadas com uma batedeira inconfundivelmente francesa. Os M83 são um projecto de Anthony Gonzalez e “Before the Dawn Heals Us” é o seu terceiro trabalho, depois de “M83” e “Dead Cities, Red Seas & Lost Ghosts”. O som é épico, progressivo, evocando paisagens vastas. As referências com que vêm aureolados vão desde os Mogwai aos My Bloody Valentine, passando por Mussorgsky, Can e Tangerine Dream. A referência aos My Bloody Valentine tem a ver com o lado hipnótico das guitarras enquanto o paisagismo épico, vagamente pós-rock, convoca os Mogwai. Quanto aos Can não se percebe bem a chamada, muito menos a dos Tangerine Dream, por mais pioneiros de tudo que estes dois grupos tenham sido ainda que numa faixa como “Farewell/Godbye” os sintetizadores possam recordar a banda alemã, com os sintetizadores um bocadinho enferrujados pela humidade. Em relação a Mussorgsky, deixai o homem descansar em paz. O progressivo dos M83 tem a ver com o ambiente geral, com a construção dos temas e a constante mudança de registo. E “Fields, shorelines and hunters” até que podia ter sido gravada nos anos 70, mas “I guess I’m floating” passaria com facilidade por qualquer coisa dos Trans AM cruzados com os My Bloody Valentine. Pós-quê?

Széki Kurva – Music For Joyriders

10.10.1997
Széki Kurva
Music For Joyriders (7)
Fekete Galamb Zene, import. Symbiose

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Na contracapa de “Music For Joyriders” vêm indicadas, tema a tema, as respectivas batidas por minuto. É normal. Trata-se então de música de dança. Bem, talvez… Mas reparem: o disco, informa-se, contém “Phencyclidina” e foi gravado no sistema ACME, com o objectivo de potenciação dos graves, que foram “compressed to fuck”, para uma dose de 100 ml. A coisa complica-se ainda mais quando nas 11 remisturas, assinadas por gente como DJ Assassin e o convidado George Death, descobrimos um alucinante utilização de “samples”, dilacerados numa tecno-hardcore-industrial de pendor étnico-satânico-intervencionista, embora na ficha técnica os Széki Kurva agradeçam a Seus e à Virgem Maria, como também agradecem, ou pura e simplesmente lhes sacaram sons, aos Ukrainians, John Peel, Two Minute Hate, Birthday Party, Waste Youth, Bela Bartok, Phil Spector e o seu “wall of sound”, Chas & Dave, e aos grupos de música tradicional húngara Muzsikas, Vujicsics, Vasmalon, além das búlgaras Bisserov Sisters. Pois, os Széki Kurva são húngaros (o subtítulo do álbum é “A Weekend in the Life of the London Hungarian Massive”) e praticantes de uma música violenta que lembra os polacos Holy Toy, no lado mais politizado e militarista, os Popular Mechanics, do russo Sergei Kuriokhin, nas técnicas de colagem e apropriações étnicas, e os jugoslavos Laibach, no totalitarismo ideológico servido por uma não menos totalitarista sonoridade. “Music For Joyriders” funde furiosamente danças balcânicas, tecno demencial, a voz de uma feiticeira e toda a espécie de ruídos industriais e citadinos, numa viagem recomendável para melómanos com sensibilidade de comando.