Arquivo da Categoria: Críticas 2001

Monolake – Gravity

16.03.2001
Monolake
Gravity
Monolake, distri. Ananana

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Operando num estúdio de Berlim, a máquina Monolake (Gerhard Behles e Robert Henke) equaciona a fórmula segundo a qual a música electrónica prescindirá em definitivo das emoções humanas, para se assumir como prótese canalizadora de electricidade para os circuitos neuronais. Mais ainda do que o anterior “Interstate”, “Gravity2 avança o passo definitivo em direcção à despersonalização. Já não se trata de “Groove”, mas do funcionamento matemático de um sistema operativo programável nas suas mais ínfimas componentes – não sendo por acaso que a dupla é responsável pela feitura de programas rítmicos de base para computadores MacIntosh. Para lá das danças andróides de Thomas Brinkmann e dos Rechenzentrum (cujo último álbum teve a produção dos… Monolake), “Gravity” pulsa implacável entre os dois únicos momentos em que algo parecido com vida se agita ainda: os samples chapinhados de água do tema de abertura e o ruído burilado de frequências sombient do último.

Love – Forever Changes

23.03.2001
Love
Forever Changes
Elektra, distri. Warner Music

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Gravado no ano mágico de 1967, “Forever Changes” é uma “trip” de colorações sinistras que agora surge remasterizada em toda a sua perigosa glória. Se, nesse mesmo ano, os Doors, com “Strange Days”, e os Mothers of Invention, com “We’re only in it for the Money”, respectivamente flipavam e gargalhavam à custa do “flower power”, Arthur Lee, compositor, guitarrista e cantor dos Love, preocupava-se, aos 22 anos, com a sua morte (estava convencido de que morreria aos 26… o ácido provoca destas coisas). Extraordinário guitarrista, Lee sabia que não podia competir com o seu amigo eléctrico, Jimi Hendrix, optando neste álbum por sonoridades acústicas e arranjos sofisticados, com pinceladas orquestrais, lançados do centro da sua solidão. “The daily planet”, “Old man” e “The red telephone” são alguns dos cristais resplandecentes de uma música que tem mais a ver com o caleidoscópio quebrado de Tim Buckley do que com as psico-viagens épicas dos Gratedul Dead ou dos Jefferson Airplane. Versos como “Sitting on a hillside watching all the people die” não combinavam com o optimism do Verão do amor.

Stephan Micus – Desert Poems

09.03.2001
Stephan Micus
Desert Poems
ECM, distri. Dargil
8/10

stephanmicus_desertsongs

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Imperturbável, afastado das modas e tendências, Stephan Micus vem construindo na ECM uma obra ímpar que o coloca num lugar à parte da produção contemporânea. Recolhendo elementos étnicos e religiosos das tradições do Ocidente e do Oriente, a música de Micus é uma viagem de contemplação mais do que pelas geografias do globo, pelos mapas do espírito. O modalismo de múltiplas tradições orais, o transe e os rituais do Oriente árabe e asiático cruzam-se com liturgias gregas e canto gregoriano num jardim zen. Música de silêncio, júbilo e devoção, “Desert Poems” tem a serenidade do despojamento, mas também uma complexidade quase sinfónica na harmonização das dilrubas, em “Adela” e “Shen khar venakhi”. Como de costume, Micus socorre-se de uma extensa paleta de instrumentos tradicionais, multiplicados ou a solo – além da dilruba, o sarangi, dondon, doussn’gouni, kalimba, sinding, steel drums, shakuhachi, sattar e os já habituais vasos de barro.