30.03.2001
Steve Fisk
999 Levels of Undo
Sub Pop, distri. Música Alternativa
8/10
LINK (“448 Deathless Days” – 1987)
pwd: p-l-m.blogspot.com
Se a Alemanha teve nos anos 80 em Holger Hiller o seu demiurgo dos samples, na mesma época, nos EUA, um natural da costa noroeste, Steve Fisk, revolucionava o universo do “cut & paste” digital, num álbum que se transformou em obra de culto, “448 Deathless Days”, editado na SST em 1987. No mesmo ano, uma participação em “Escape from Noise”, dos Negativland, chamou de novo a atenção para o seu nome. Os anos 90 viram-no trabalhar ao lado dos Nirvana e dos Soundgarden ou na produção da estreia dos Screaming Trees. “999 Levels of Undo” é o prolongamento lógico de “448 Deathless Days” e outra obra que ficará para a história. Uma capa bizarra (melhor, várias capas alternativas…) envolve um sem-número de manipulações electrónicas operadas com brilhantismo em torno do drum ‘n’ bass, da colagem vocal e de elementos étnicos descontextualizados, num registo de excentricidade plenamente amadurecido. Amon Tobin, Residents e Messer Für Frau Müller, misturados num batedor desregulado.
05.01.2001
Reedições
Parque Jurássico Remasterizado
Em tempo de MP3, as editoras suam para “oferecer” objectos apelativos, com as remasterizações a ganharem espaço num fenómeno de reciclagem que não tem fim. Os “dinossauros” agradecem.
Com o advento do MP3 e a possibilidade de qualquer um poder adquirir música gratuitamente através da Internet, as editoras procuram a todo o custo rentabilizar os seus produtos, tentando tornar o mais possível apetecível o objecto CD. Ao nível das reedições, aposta-se na melhoria do som (nalguns casos mais aparente do que real…) através de gravações remasterizadas, enquanto no capítulo da apresentação, tendo em mira o coleccionador, se socorre de embalagens cartonadas que são réplicas em miniatura das capas dos discos em vinilo. O impacte, a nível psicológico, destas últimas, é indesmentível. Velhos álbuns dos King Crimson, Genesis ou Roxy Music ganharam nova vida, visual e sonora, e mesmo os velhos melómanos na posse das edições originais não terão ficado insensíveis aos “brinquedos”, voltando a investir nos mesmos títulos.
É o cada vez mais forte fenómeno da reciclagem a fazer-se sentir, impelindo o consumidor a comprar o que já tinha em casa, sob o pretexto da melhoria de um produto que é apresentado como a “versão definitiva”, possuidora do “melhor som possível”, sem dúvida um objecto estimável até à eternidade. Até o novo e “definitivo” “melhoramento” surgir para o desmentir. Depois das edições remasterizadas e re-remasterizadas, dos “digipaks” e das capas em miniatura, teremos a seguir, quem sabe, as edições desremasterizadas, com a garantia de que, afinal, os ruídos e estalidos do vinilo (devidamente digitalizados e contextualizados, como é evidente…) é que são o “it” na sua forma mais pura e genuína.
Pacotes para fetichistas. Em matéria de MP3, confesso que não uso. Enquanto coleccionador, fetichista, a quem, ainda por cima, os discos saem à borla, prefiro o objecto físico – passível de ser tocado, lido e mesmo estragado – ao virtual. Mas também acho que as editoras e a indústria em geral, que durante anos tem inflacionado os preços dos CDs, merecem sofrer e ter um bocadinho de prejuízo.
Passemos então em revista algumas das reedições remasterizadas (lojas há que exibem escaparates inteiros preenchidos por elas…) lançadas no últimos meses em Portugal.
Cat Stevens, o velho Gato Esteves, que há bastante tempo abandonou a música para pregar o islamismo, voltou remasterizado e remoçado, com as reedições de “Catch Bull at Four” (1972), “Foreigner” (1973) e “Buddha and the Chocolate Box” (1974). Os três posteriores aos bem melhores “mona Bone Jakon” (1970, o seu melhor de sempre), “Tea for the Tillerman” (1971) e “Teaser and the Firecat” (1971) que, estranhamente, ficaram de fora do pacote nacional.
Se “Catch Bull at Four” condensa os tiques vocais do cantor em canções bem pouco inspiradas, como a agoniativa “O Caritas”, também “Foreigner” não ganha com a inclusão de uma longa “Foreigner Suite” pseudo-progressiva que não é mais do que uma colagem, enfeitada por orquestrações inócuas e pretensamente exóticas, de canções mal amanhadas. Já “Buddha and the Chocolate Box” recupera uma parte da magia perdida.
Outro “remasterizado” ilustre é Mike Oldfield, este sim, digno de figurar no quadro de honra dos anos 70. A totalidade da sua obra compreendida entre a estreia “Tubular Bells”, de 1973 – e da qual já existia uma anterior versão remasterizada na edição especial do seu 25º aniversário – e a colectânea “Elements”, está de volta, agora em “High Definition Compatible Digital”. E se o som faz justiça à qualidade de obras como o já citado “Tubular Bells”, “Hergest Ridge”, “Ommadawn”, “Incatations”, “Five Miles Out” e “Amarok”, é pena a impressão das capas não estar ao mesmo nível (cores mais esbatidas, tonalidades deturpadas) e a informação não primar pela abundância. O destaque vai para “Amarok”, por ser um álbum dos anos 90 que constitui excepção ao período de maior criatividade – os anos 70 – deste multinstrumentista inglês que encheu os bolsos a Richard Branson e permitiu o nascimento do império Virgin.
Os The Who merecem todas as melhorias, eles que tiveram fama de ser do “piorio”, “enfants terribles” dos anos 60 e 70. Os álbuns andavam por aí perdidos em edições rascas. Depois de “Who’s Next” já circular remasterizado desde há dois anos, são as óperas-rock “Tommy” e “Quadrophenia”, correspondentes à fase conceptual e megalómana do seu líder, Pete Townshend, que ressurgem como objectos de luxo, aqui sim, com embalagens à altura e livretes informativos, profusamente ilustrados.
Mais dispensável, mas mesmo assim interessante, é a aglutinação no formato “dois em um” dos dois primeiros álbuns do supergrupo inglês Humble Pie, “As Safe As Yesterday Is” e “Town and Country”, ambos de 1969 e os únicos editados no selo Immediate por este grupo do qual faziam parte Peter Frampton, ex-The Herd e futuro herói da guitarra, Steve Marriott, ex-Small Faces, e Dave Clempson, ex-Colosseum. Excelentes desempenhos instrumentais para uma música que só esporadicamente foge aos lugares comuns do rock e rhythm ‘n’ blues, quando pega em “sitars” e brinca ao psicadelismo.
Óptimos músicos eram também os norte-americanos Blood, Sweat and Tears, uma das primeiras bandas a integrar uma secção de metais. “Child is Father to the Man”, ábum de estreia de 1968, não era ainda o rock-jazz festive que os viria a catapultar para os tops mas um híbrido de psicadelismo, pop e soul, tingido por referências clássicas e pelo talento do singer-songwriter Al Kooper.
Cat Stevens
Buddha and the Chocolate Box
Island, distri. Universal
7/10
Não tem o charme “hippie” dos primeiros discos e tresanda já ao misticismo que transformaria Cat Stevens de músico em profeta, mas estas eram ainda canções que falavam de amor como se fosse possível acreditar nele, num bouquet de sonoridades subtis dedicadas a Buda e a Jesus, onde a pop e a folk percorrem de mãos dadas uma cidade-fantasma.
Mike Oldfield
Amarok
Virgin, distri EMI-VC, import. FNAC
8/10
20º album de studio do compositor, “Amarok”, editado em 1990, é uma peça de 52 minutos pioneira da vaga “world” e fusionista que caracterizaria a década agora finda. Percussionistas zulu, as uillean pipes de Paddy Moloney, dos Chieftains, uma comediante a fazer as vezes de Nargaret Tatcher e o ruído do compositor a lavar os dentes, juntam-se numa obra complexa que nada deve ao aclamado “Tubular Bells”.
The Who
Quadrophenia
2XCD Polydor, distri. Universal
8/10
Como os Kinks, os The Who forma sinónimo da Londres dos anos 60, sufocada entre as pulsões da moda, a nostalgia vitoriana e o muro cinzento de uma classe operária sem horizontes. “Quadrophenia” é a alucinação hiper-realista e duplamente esquizofrénica de um mod de Brighton,. Aliás Pete Townshend, o punk anterior a todos os punks que almejava compor uma sinfonia.
Humble Pie
Natural Born Bugie
2XCD Immediate, distri. Universal
6/10
Intitulado a partir do “hit” de 1969, “Natural Born Bugie” (e não “boogie” como poderia parecer…) junta “As Safe as Yesterday is” e “Town and Country”. Apesar do rótulo de supergrupo e do virtuosismo dos seus elementos, os Humble Pie raramente conseguiram escapar à mediania de um rock mainstream em contradição com o brilhantismo pop da banda que acolhera antes Peter Frampton, The Herd.
Blood, Sweat & Tears
Child is Father to the Man
Columbia, import. Lojas Valentim de Carvalho
7/10
Das primeiras pequenas big-bands da música pop, os Blood, Sweat & Tears trouxeram para os finais dos anos 60 a fanfarra, com a inclusão de uma secção de sopros que procurava honrar os ensinamentos do trompetista canadiano Maynard Ferguson. Ainda hesitantes quanto ao caminho que os haveria de conduzir ao sucesso, “Child is Father to the Man” cruza, entre a exaltação e a devoção, a herança dos blues e da soul com o psicadelismo em voga, revelando Al Kooper como um notável escritor de canções.
Esqueletos no Armário
Esqueletos no armário. Howe Gelb olha-nos de frente na capa de “Hisser”, pintado de esqueleto “cowboy”, a sorrir no dia dos mortos mexicano. E “Hisser”, estreia a solo (o novo “Confluence” está prestes a sair) do mentor dos Giant Sand – dos quais foi agora editada a colectânea “Selections Circa, 1990-2000” -, bem poderia ter sido gravado num armário, quer pelo tom artesanal, quer pela quantidade de fantasias amarrotadas e suspensas em cabides que encerra. “Lo-fi” captado numa cidade-fantasma (na realidade, as gravações tiveram lugar numa velha casa em Tucson, Arizona, construída no princípio do século passado), sob os efeitos de mescalina estragada, “Hisser” é a sombra espectral desse outro grande viajante americano do escuro que é Neil Young, o reverso das cavalgadas do “cowboy” eléctrico, Stan Ridgway, e um intervalo de embriaguez nas “spoken words” de Lou Reed. Mas é nos interstícios das baladas descarnadas, em sequências e apontamentos instrumentais que remetem para os limites de arranjos “politicamente inaceitáveis”, que “Hisser” guarda os seus segredos mais fascinantes e, já agora, perturbantes.
Um velho piano vertical fabricado em 1888 afogado na cisterna, um órgão de foles dos anos 30 e uma guitarra de 1900, com a caixa em cartão e as cordas lassas (Howe recusou-se a trocá-las por umas novas), ruídos de fundo, e do fundo da noite, vozes descoladas como papel de parede, valsas de pé-quebrado, ecos, becos e subterfúgios agarram-se como lagartos ao verde dos cactos do deserto. Bobines partidas de um filme mudo repetem infinitamente as imagens de um “western” burlesco onde bonecos de corda dançam num salão de baile do princípio do século. Em “Hisser”, a voz, as histórias e os sons trocam de lugar e de tempo (“americana” em Viena?) com a Belle Époque de Pascal Comelade e o sentido de palavras que iludem – “Intro speck” são dez segundos de introspecção, “Thereminender” junta “there” com “mine”, para dar a ouvir um solo de theremin que desaparece num buraco de silêncio. Grandaddy e Lisa Germano são os convidados especiais deste “saloon” de alucinações.
Em simultâneo com “Hisser” surge no mercado português o novo “Confluence”, visão assente nos carris de uma linha férrea apontada para um horizonte que tanto pode conter quimeras, como desembocar na desolação. Os pianos foram de novo esfregados com naftalina, as cordas da guitarra mantêm-se lassas, o órgão de foles continua asmático, a fantasmagoria ganhou uma “phantom drums”, mas, no geral, a música está mais em conformidade com a linha clássica dos “singersonwriters” dos anos 60 (um dos temas foi mesmo gravado em Woodstock…), nomeadamente Neil Young. Howe Gelb segue só numa viagem sem retorno em direcção a uma América desesperadamente à procura de reencontrar os velhos mitos. “In a perfect world you can do what you want/You can say what you will, you can get what you feel/You won´t be misunderstood/If it stars out bad, it´ll end up good/In a perfect world”, canta no tema de abertura. “Poor lonesome cowboy” em luta contra o tempo.